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Nesta subcategoria procuramos analisar, através dos relatos produzidos nos memoriais e nas entrevistas autobiográficas, o significado de ser professor de Ensino Religioso para nossos colaboradores:

Iniciei as aulas de Ensino Religioso como complemento de carga horária numa escola municipal de João Pessoa e permaneço até hoje. Embora eu tenha mais aulas de História, me vejo mais realizado como professor de ER, que me faz sentir realizado, feliz. (P1)

O relato de P1 demonstra uma satisfação em atuar no Ensino Religioso. Para ele a sua realização não está na sua disciplina titular, a saber, História. É o Ensino Religioso responsável pela sua realização como profissional. A complementação de carga horária com o Ensino Religioso é um dado relevante que observamos nos relatos dos nossos interlocutores, como podemos conferir nas falas de P4 e P6:

Comecei como professor de História. Infelizmente não tinha turmas para completar a carga horária, então o diretor me ofereceu as turmas de Ensino Religioso. No começo fiquei um pouco inseguro, mas eu precisava de 20 horas aula, aceitei. Confesso que no início tive dificuldades, mas com o tempo fui gostando. Hoje se você me perguntar se gosto mais de uma ou outra vou dizer com certeza que me sinto mais realizado como professor de Ensino Religioso. Não estou dizendo que é fácil, que é tudo maravilhoso, pelo contrário, o professor de ER enfrenta muitos descasos, mas eu vou em frente, pois gosto do que faço. (P4)

Gosto do que faço. Ser professor de Ensino Religioso é ter a coragem de enfrentar a falta de valorização e mesmo assim seguir em frente. No início eu aceitei pelo fato de na escola onde eu trabalhava não tinha todas as turmas de História para completar minha carga horária o que acontece até hoje, e como eu não achava viável ter que procurar uma escola longe da minha casa, aceitei dar aulas de ER. Achei meio complicado no começo, mas depois fui me acostumando. Ainda hoje complemento a carga horária com ER, mas digo a você que gosto e me sinto realizado com essa disciplina. (P6)

Percebe-se pelas falas dos nossos interlocutores que o Ensino Religioso, por ter uma carga horária reduzida, se faz complementar com outra área de conhecimento. Essa situação acaba tendo desdobramentos no trabalho do professor de ER, contribuindo de alguma forma para que ele, em alguns momentos, se sinta desvalorizado em relação às outras áreas de conhecimento, como podemos observar na fala a seguir:

Posso dizer que me sinto bem, mas não satisfeito. Estou procurando mais valorização. O ER embora seja, de fato, envolvente, é uma área de

conhecimento mais complicada, já que não possui um valor igual às demais áreas. Temos que estar em mais de uma escola para ter 20 horas/aula e isso dificulta nosso trabalho. As pessoas não valorizam o profissional de ER, que é visto muitas vezes como tapa buraco, como um professor que só vai passar tempo com os alunos, e isso me deixa muito triste. (P8)

O relato de P8 apela pelo reconhecimento social do professor no contexto da escola. A carga horária e o próprio desprestígio do Ensino Religioso, em relação às outras áreas, dificultam a prática docente, que poderia ser mais interpessoal, efetiva e integradora. O professor apresenta ainda alguns fatores que denigrem a imagem do ER, afetando-o como área de conhecimento que se consubstancia na postura, muitas vezes equivocada, do professor frente à condução da área e na falta de vocação, uma vez que pode lhe ser atribuída como complementação de carga horária e de embasamento, tendo em vista que o docente não se encontra qualificado para ministrá-la.

Embora haja os problemas enfrentados, os relatos a seguir demonstram que embora tenha havido dificuldades nossos interlocutores construíram uma relação de afeto com esta área de conhecimento. Pelos seus relatos, observamos certa paixão pelo ser professor de Ensino Religioso. Nossos interlocutores atribuem um valor significativo ao ER em suas trajetórias profissionais:

Gosto muito do que faço e como já disse, faço por e com amor, porém, às vezes tenho a impressão de que precisamos valorizar mais a disciplina. Acredito que ainda vamos galgar mais degraus, onde construiremos credibilidade e apoio acerca da disciplina de Ensino Religioso. Sou também professor de História e complemento com ER, mas meu foco mesmo é essa disciplina que amo muito. Sinto-me realizada embora tenha que conviver com muitos desafios. (P2)

Não saberia responder se gosto mais de Artes ou de Ensino Religioso, são duas áreas que me fascinam porque instigam a pensar e refletir sobre os limites que podemos ultrapassar, sobre algo além de nós. Amo Artes e Ensino Religioso. (P3)

Sinto-me satisfeito porque trabalho com um aspecto peculiar do ser humano, que é a necessidade de transcender o presente nas diferentes culturas. (P5) Como professor de Ensino Religioso me sinto um ser melhor e mais capacitado em melhorar meus alunos na medida em que levo para eles a construção de um mundo em que o respeito às diferenças é fundamenta. (P7) Gosto do que faço, mas sinto que tenho muito que aprender. O ER vem me dando a oportunidade de crescer mais como profissional, pois é uma disciplina que tem formação desde o início do ano e isso ajuda muito o meu fazer em sala de aula. (P9)

Pelos relatos acima nossos interlocutores demonstram uma satisfação em serem docentes de Ensino Religioso. Suas falas deixam transparecer que ciaram uma relação de afeto com esta área de conhecimento, já que em vários momentos relatam que o ER transformou em alguns aspectos suas vidas profissional e pessoal.

O relato a seguir compartilha a gratificação de ser professor de Ensino Religioso. Ao mesmo tempo apresenta as dificuldades que este profissional enfrenta no cotidiano de sua prática.

Ser professor de Ensino Religioso é muito gratificante. Não quero com isto dizer que é fácil, não é. Sempre temos que estar mostrando serviço nas escolas. As pessoas não acreditam muito no professor de ER como profissional capacitado, isto pelo fato de não termos uma graduação específica e também por acharem que o ER é aula de religião como antigamente. Mesmo assim sou muito apaixonada pelo que faço e percebo que meus alunos gostam das aulas, são instigados a participarem e isso é gratificante. Tenho prazer em dialogar com meus alunos, sei que nem todos os colegas de outras áreas se preocupam em parar suas aulas para ouvirem seus alunos e isso eu faço porque sei que é através do diálogo que posso conquistar e construir uma relação de respeito com meus educandos. (P10)

P10 é enfática ao dizer: ―[...] as pessoas não acreditam muito no professor de ER como profissional capacitado, isto pelo fato de não termos uma graduação específica e também por acharem que o ER é aula de religião como antigamente‖. Essas palavras nos remetem ao fato de que o Ensino Religioso ainda causa muitas polêmicas pelo estigma que carrega da confessionalidade. Ainda percebemos que falta esclarecimento sobre essa área de conhecimento que se encontra em processo de construção. A falta de uma Licenciatura específica também é motivo para a falta de credibilidade desse profissional segundo seu relato.

Um dado interessante que o relato de P10 nos revelou está relacionado com a capacidade de dialogar, que o professor de Ensino Religioso tem, com o aluno. O diálogo é para Freire (1987, p. 93) o encontro entre os homens mediatizados pelo mundo para pronunciá-lo. O autor desenvolve uma pedagogia baseada no processo de conscientização critica da realidade. Para Freire, a essência de uma educação problematizadora, humanística e critica pode ser construída pelo compromisso entre as pessoas, que se efetiva pelo amor, pela humildade, pela fé nos homens, pela esperança, pelo pensar critico, pela conscientização crítica da realidade.

Nesse sentido, Paulo Freire refere-se ao amor: ao próximo, à vida, ao mundo, como elemento fundamental para que haja o diálogo, essencialmente realizado na tarefa entre sujeitos, pautado por uma relação harmoniosa, livre de qualquer tipo de dominação, opressão, injustiça e de manipulação.

Ainda na concepção de Freire (1987, p. 93): a relação educador e educando, acontece quando o ―dialogo é uma exigência existencial. [...], ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado [...]‖.

Nesse contexto, para haver diálogo se faz necessário que o educador tenha conhecimento da realidade do aluno, e seja comprometido político e profissionalmente, assim como que suas emoções floresçam e se manifestem de forma afetiva e efetiva na busca de passar para estes alunos a alegria de construir um ambiente favorável para uma aprendizagem significativa.

O gráfico 6 apresenta o nível de satisfação dos nossos colaboradores em serem professores de ensino religioso.

Gráfico 6 - Nível de satisfação dos nossos colaboradores em serem professores de ER

A maioria dos nossos colaboradores mostrou-se realizada como docente na área de conhecimento do Ensino Religioso, utilizando-se de expressões tais como: ―feliz e apaixonada pelo que faço‖, ―gosto muito do ER‖, ―estou realizada com o que faço‖, ―acredito no ER e gosto de dar essas aulas‖, ―amo o ER e isso também fortalece minha prática‖. Outros professores pesquisados, embora relatarem o gostar de ser professor de Ensino Religioso deixaram evidente em suas falas uma insatisfação pela falta de valorização do profissional da área em estudo.