Broncas almas de sertanejos, inseparavelmente ligadas à natureza ambiente, fechadas ao raciocínio, mas acessíveis a toda espécie de impulsos vagos, sonhos, premonições, crendices, vivendo a séculos de distância da nossa civilização urbana e niveladora. São almas ainda não estereotipadas pela rotina, com receptividade para o extraordinário e o milagre. O escritor enfrenta-as em geral num momento de crise, quando, acuadas pelo amor, pela doença ou pela morte, procuram desesperadamente tomar consciência de si mesmas e buscam o sentido de sua vida. Paulo Rónai (2001)
Somente quando Miguilim vai trabalhar com o pai é que sua miopia se escancara: “E no mais ralhava sempre, porque Miguilim não enxergava onde pisasse”. Nesse momento, o significante vermelho reaparece, já que Miguilim carrega um besourinho “pingadinho de vermelho” no bolso, que, metonimicamente, retoma o jardim alegre de suas memórias; evocando “as frutinhas vermelhas de cheiro respingado – aquilo! – ah, então nunca ia poder ter um lugar assim, permanecia só aquele fulgorzinho na memória (…)”. Em seguida, surge a imagem do trabalho com a enxada e a questão da dor, que prepara o momento em que o corpo de Miguilim aparece com uma “barriguinha toda sarapintada de vermelhos”; é o retorno do vermelho, novamente remetendo à doença e à morte. O jogo entre a vida e a morte presente
nas memórias do passado se reatualiza: a doença pode sugerir a morte da infância; a chegada do médico, com seu “claro da roupa”, a luz e a alegria de outro olhar.
Especialmente quanto ao olhar e aos processos identificatórios, fundamentais para a configuração do sujeito, sabemos das dificuldades de Miguilim. Na constituição da Lei, ou seja, de onde emana o supereu, temos: o irmão, que tudo vê e tudo sabe; o pai, com quem rivaliza, que o vê como um incapaz e frágil, manda-o para o trabalho e impõe a Lei; a mãe, que o percebe como um menino sensível demais; e Mãitina, que o põe em contato com forças misteriosas, ao lado das forças mais inconscientes. Graças a essas figuras, Miguilim cria para si um eu imaginário: aquele que desconhece e que tem medo.
Lá ia Miguilim, retardoso; tinha medo de cobra. Medo de morrer, tinha; mesmo a vida sendo triste. Só que não recebia mais medo das pessoas. Tudo era bobagem, o que acontecia e o que não acontecia, assim como o Dito tinha morrido, tudo de repente se acabava em nada. Remancheava. E ele mesmo achava que não gostava mais de ninguém, estirava uma raiva quieta de todos. Do Pai, principal. Mas não era o Pai quem mais primeiro tinha ódio dele Miguilim? Era só avistar Miguilim, e ele já bramava: – “Mão te tenha, cachorrinho! Enxerido… Carapuçudo...” (p. 87).
Atordoado e repleto de dor, ele tenta situar-se. Não terá a relativa ausência de uma figura masculina importante – as figuras masculinas são frágeis diante das femininas – contribuído para determinar a forma como ele vê aumentada a sua sensação de fragilidade frente aos poderes “divinos”? Não terá essa carência contribuído para ter autoestima tão baixa frente à imagem do irmão menor?
Alguma identificação parece ocorrer quando o menino conhece o Dr. José Lourenço. Míope como ele, é o único homem a quem pede benção. E é com os olhos desse “outro pai” que se despede da família. Os óculos do doutor da cidade, que corrigem interinamente o erro de visão de Miguilim, corrigem também a visão “distorcida” em relação ao lugar e a sua família e concedem-lhe um apaziguamento da angústia.
Mas, então, de repente, Miguilim parou em frente do doutor. Todo tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse. Pediu. O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim.
E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou, mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutúm era bonito! Agora ele sabia (p. 108).
Ao decidir se sairia ou não do Mutúm, Miguilim apóia-se uma vez mais no conselho da mãe: “– Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar”. E pergunta: “– Mãe, mas por que é, então, para que é, que acontece tudo?!”. A resposta que obtém é misto de palavra e gesto: “– Miguilim, me abraça, meu filhinho, que eu te tenho tanto amor…”. Vemos, aqui, nos significantes “Mãe, mas…, então…?”, como bem apontou Wisnik (1996, p. 209), “o apelo, o desamparo, a cobrança da promessa de uma continuidade do sentido, já perdida, a despedida acusando o golpe de um mundo que finda, e um puro não- verbalizável que se pode chamar de amor (a mãe chamará explicitamente amor, sabendo que um não verbalizável – “me abraça, meu filhinho” – tenta cobrir a enorme falta)”.
Nesse momento, o papagaio Papaco-o-Paco sobrecantava – “Mestre Domingos, que vem fazer aqui? Vim buscar meia-pataca, p’ra beber meu parati…” –, iluminando a cena como se fosse um início de uma nova fase. A mesma cantiga reaparece como prefácio em
Cara-de-bronze,35 com pequena variação, e seu sentido é explicado por Rosa a seu tradutor italiano36.
A cena final é significativa. Agora que Miguilim parte, Terêz assume o posto de pai na família. Na despedida, ao ver tio Terêz ao lado da mãe, Miguilim diz: “o senhor parece com Pai…”. Novamente aqui, o significante aparece em letras maiúsculas e remete a um possível reconhecimento: o tio agora ocupa o lugar do pai, o tio tem parecença com o pai e toma-lhe a função.
Com o suicídio de Bernardo e a partida de Miguilim, os contornos da família se desfazem. Há aqui a desestabilização do discurso instituído (a “Lei”, que regia as relações entre os membros da família, tem sua legitimidade questionada), permitindo emergir uma visão “deslocada”, uma nova voz à margem da tradição, que dinamiza o espaço e o discurso:
35
Em Cara-de-Bronze: “– Mestre Domingos / Que vem fazer aqui? (bis) / – Vim buscar meia-pataca / Pra tomar meu parati…” (cantiga. Alvíssaras de alforria).
36
“‘Alvíssaras de alforria’ (o que é, exatamente?). Literalmente: Alvíssaras = (prêmio que se dá a quem anuncia) boa nova, notícia boa. Alforria = libertação (de escravo). (NOTA: – Como V. já notou decerto: a sextilha se refere à POESIA)” (Rosa, 1981, p. 64).
além da morte de Dito e Bernardo, vó Izidra sai do Mutúm desgostosa com os rumos da família. Tomé, Drelina e Chica também saem, como veremos em A estória de Lélio e Lina. Semelhante ao início, a narrativa termina como em um conto de fadas: depois de superados os obstáculos, o herói é premiado com uma viagem37.
A adolescência de Miguilim termina quando ele é capaz de escolher a viagem, atitude reveladora de autonomia. Miguilim agora tem a possibilidade de viver o mito do herói, o desafio. O momento tem correspondência com um processo interno de elaboração e resolução do conflito edípico. Os óculos, ao mesmo tempo que remetem ao “ver mais nítido”, também concretizam a perda do olhar infantil. Sua visão nunca mais será a mesma, ainda que agora já possa dizer por conta própria que “o Mutúm era bonito”. Nas palavras de Passos (2002):
Miguilim partirá com um doutor de fora que diagnostica sua ‘vista curta’, empresta-lhe óculos, esclarecendo-lhe a dificuldade de percepção dos contornos espaciais. A mediação especular do estrangeiro lhe permite, enfim, descobrir a beleza da região. Logo, as viagens maiores marcam o destino do personagem; a primeira (conduzida por Tio Terêz e ligada ao sagrado, pois determinada pela crisma) gera lembranças e reforça o enigma que o persegue: o conhecimento do belo como contraposição aos castigos paternos e enfrentamento da morte do irmão predileto; a segunda aponta a ruptura da névoa visual, reiterando-se a metáfora do olhar; a apreensão do outro (seres e lugar) constitui como que um rito necessário à passagem do meio rural para o urbano onde novo ciclo principia: o contato com as letras, em outro universo cultural” (p. 81).
Entre a viagem do início da narrativa, com tio Terêz, e a última, com o doutor, acompanhamos o processo do olhar do espelho descrito por Lacan no caminho das identificações imaginárias do menino. Num primeiro momento, o desejo de ser objeto de amor da mãe, a desarmonia e a percepção dos cacos no espelho; noutro, a percepção da falta, desenhada pelas perdas e redesenhada pelas lembranças e estórias; por fim, a perspectiva de uma nova imagem, marcada pelos óculos e pela viagem e a busca de um olhar próprio.
37
Benedito Nunes reforça a importância dessa viagem: “Os espaços que se entreabrem, na obra de Guimarães Rosa, são modalidades de travessia humana. Sertão e existência fundem-se na figura da viagem, sempre recomeçada – viagem que forma, deforma e transforma e que, submetendo as coisas à lei do tempo e da casualidade, tudo repõe afinal nos seus justos lugares (…) (Nunes, 1976, p. 158).
Miguilim, ao contrário da mãe, poderá ver para além do morro. A busca de uma imagem que lhe devolva a completude de si é narrada pela travessia das perdas e pela busca de uma palavra que seja sua. O Mutúm era, para Miguilim, bonito. O que antes parecia impenetrável, como os morros do Mutúm, cede.
O sentido geral da narrativa é interpretado de diversas maneiras. Para alguns críticos, a chegada do doutor, por exemplo, sugere a chegada da modernidade, em contraponto com o mundo rudimentar e patriarcal do Mutúm. Para outros, como Novis (1989, p. 26), trata-se de um processo de aprendizagem que se dá por meio da transformação das personagens de “um estado de carência para um estado de plenitude, ou de ‘completamento’, depois da vivência de provações”. Para Heloísa Vilhena de Araújo (1992), Campo geral pode ser lido como um conto sobre o aprendizado da alegria. Para esta pesquisa, Campo geral é também o movimento de tentativa de superação dos conflitos psíquicos de um menino que quer ter um olhar “próprio” e saber-se sujeito.