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Boğaziçi’ndeki doğal zenginliklerin, bugün şuursuz bir yapılaşmaya terkedildiğini hep birlikte izliyoruz.

Se, de modo geral, as revistas são veículos que não privilegiam necessariamente a informação e a notícia, mas sim a formação de comunidades e grupos de indivíduos que

pensam, agem e se identificam de determinada maneira, na imprensa feminina isso se torna ainda mais forte. Segundo Buitoni (2009, p. 208):

A imprensa feminina informa pouco, mas forma demais. Antes de tudo, é uma imprensa de convencimento. Se a informação é eminentemente narrativa, a imprensa feminina prefere a dissertação e a descrição [...]. Então, o texto feminino, mesmo contando casos, ou dando exemplos, tem o sentido básico de dissertar. Em geral, ele nos diz como deve ser a mulher.

Pensando especificamente nas revistas femininas menos segmentadas – isto é,

naquelas que se dirigem ao grupo de mulheres de um grupo social como um todo, e não necessariamente para mulheres com algum interesse particular (como as revistas voltadas

exclusivamente ao cuidado com o corpo, à culinária ou à televisão) –, vê-se a função de

ensinar as mulheres a serem mulheres, a formar um grupo coeso e, na medida do possível, uniforme, a se identificar como pertencente ao sexo (e gênero) feminino e, por conta disso, a ter determinados interesses, agir, parecer-se e comportar-se de acordo com determinado padrão. Esse caráter formativo e didático revela um viés ideológico que interfere de modo intenso nos papéis social e político da mulher. Buitoni (2009, p. 21) faz a seguinte observação no tocante ao interesse de sua pesquisa:

O motivo primeiro deste estudo foi o peso da imprensa feminina no contexto cultural. [...]. A relação entre a imprensa feminina e a mulher implica questões mais abrangentes, como o papel social da mulher ou sua participação política. E aí entra a ideologia.

À primeira vista, receitas de culinária, conselhos de beleza, contos de amor e outros assuntos – comuns às revistas, seções e suplementos femininos do mundo inteiro – são neutros. Porém, se sairmos da superfície, veremos que a imprensa feminina é mais “ideologizada” que a imprensa dedicada ao público em geral. Sob a aparência de neutralidade, a imprensa feminina veicula conteúdos muito fortes.

Verifica-se, dessa forma, que a imprensa feminina – principalmente a ocidental –

não se apoia num jornalismo informativo, mas antes num jornalismo interpretativo. A periodicidade das revistas femininas, mensais em sua maioria, permite que não se apresentem fatos necessariamente novos ou recentes.

O cientista político francês Roland Cayrol (1973 apud BUITONI, 2009) enumera as principais funções da imprensa:

 Pesquisa e difusão da informação.

 Expressão de opiniões.

 Função econômica e de organização social.

 Divertimento e distração.

 Função psicoterápica – diminuir a tensão e dar vazão aos sentimentos.

 Função ideológica – instrumento de coesão social e legitimação política.

Segundo Buitoni (2009), as revistas femininas cobrem mais ou menos todas essas funções. No entanto, a primeira, que caracterizaria mais prototipicamente os veículos de jornalismo, é regularmente deixada de lado, quase não figurando em periódicos ou em suplementos de jornais dedicados às mulheres. Dado esse fato, é mais coerente falar em imprensa feminina do que em jornalismo feminino. O caso da revista Tpm não é diferente, já que o periódico privilegia as funções de expressão de opiniões, instrumento de identificação e função ideológica, não priorizando a difusão de pesquisa e informação.

A expressão de opiniões esteve muito presente em algumas revistas femininas do século XIX, principalmente as vindas de mulheres com personalidades criadoras, mulheres que defendiam causas como o direito à educação e mulheres que seguiam uma linha vanguardista. Já no século XX não se vê mais um caráter opinativo forte nessas publicações, o que, todavia, não significa que não haja um fator ideológico que é opinativo no sentido de reforçar certas tendências e rejeitar outras. Todas as demais

funções citadas, presentes em abundância nas revistas femininas, colaboram – mesmo que

veladamente – com essa função discursiva de formação da mulher, que a coloca no lugar

destinado a ela dentro da lógica capitalista, patriarcal e machista, ou seja, de acordo com a estrutura política, econômica e social dominante.

Tendo isso em vista, é preciso atentar para o discurso implícito presente nas escolhas linguísticas e estéticas feitas pela imprensa feminina. É necessário também fazer uso de ferramentas que permitam tirar a opacidade desse discurso e, assim, desnaturalizar os padrões de beleza, comportamento e gostos a que as mulheres leitoras estão sujeitas. É pela análise detida desses periódicos que se revelará a verdadeira função das revistas femininas e se acabará com a ilusão de que o conteúdo delas é ingênuo, supérfluo e irrelevante, incapaz de trazer consequências reais para a sociedade. Esta pesquisa visa contribuir para esse objetivo. De acordo com Buitoni (2009, p. 204):

As inocentes aparências de uma simples receita culinária, os conselhos de beleza, escondem uma imprensa fortemente ideológica. Há toda uma valoração que determina a foto, o tamanho, o título, a legenda, a posição na página, a posição da página dentro da revista e assim por diante. Esses critérios de valor estão subordinados a imperativos comerciais, que por sua vez auxiliam na manutenção do sistema.

Se pararmos para pensar no fato de as revistas femininas terem, há séculos, esse caráter eminentemente formativo e serem um dos ramos editoriais mais lucrativos e mais disseminados nos diferentes países, veremos que há, por trás disso, uma demanda social e cultural quase generalizada do público feminino por instrumentos de formação, ou seja,

métodos que realmente ensinem a mulher a ser mulher. Essa constatação corrobora a concepção de gênero enquanto uma construção social, um modo de ser e de agir que é construído socialmente e de nenhuma maneira natural ao ser humano, seja do sexo feminino, seja do sexo masculino, ao contrário do que diz o discurso das próprias revistas. Esse entendimento de gênero vem ganhando força nos últimos anos, através de novas teorias sociais, mas já era um pressuposto feminista conhecido desde o século XX, quando Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher, torna-se mulher. Nas palavras da filósofa:

Todo mundo concorda que há fêmeas na espécie humana; constituem hoje, como outrora, mais ou menos a metade da humanidade; e contudo dizem-nos que a feminilidade “corre perigo”; e exortam-nos: “Sejam mulheres, permaneçam mulheres, tornem-se mulheres.” Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade. (BEAUVOIR, 2009 [1949], p. 13-14).

O ser humano do sexo feminino, sempre visto, descrito e entendido como “o outro”, a partir do olhar masculino (na filosofia, na religião, na literatura, na política etc.), foi ensinado a ser feminino e a acreditar que é assim que deve ser. Nesse contexto, que não mudou tanto assim através dos séculos, as revistas femininas surgem como um grande facilitador desse aprendizado, que é se enquadrar em um padrão de gênero. Inseridas

nessa mesma lógica, as revistas, apesar de ditas “femininas”, mostram-se, na verdade, um

instrumento de legitimação social e político da desigualdade entre gêneros – portanto, vista dessa maneira, a demanda por revistas que ensinem as mulheres a serem mulheres não é exclusiva do público feminino, apesar de assim parecer, na superfície, pois quem compra as revistas femininas são as mulheres. O interesse em manter e conformar a mulher a determinado padrão de gênero é primordialmente dos homens. Ainda segundo Beauvoir (2009 [1949], p. 16-17):

A humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. [...]. Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o “sexo” para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se em relação ao homem, e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.