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Depois que saí da aldeia Apiwtxa, em outubro de 2009, correu mais seis meses até poder acompanhar uma edição na sede em Olinda 116. Embora esperasse pela possibilidade de ver a edição do vídeo resultante das oficinas que presenciei, combinei com o VNA de acompanhar a próxima edição que acontecesse na sede, independente de qual grupo fosse, pois precisava cumprir o roteiro do meu projeto de acompanhar a produtora durante a formação de realizadores, composta pela captação (capítulo 2) e edição de imagens. Era também a oportunidade de acompanhar “uma aldeia” em viagem à Olinda para a edição, ou mais especificamente falando, um representante seu. A aldeia mais provável era a Huni Kuin, por intermédio de José de Lima Kaxinawá, o Zezinho Yube (ou Zé Yube – Lê-se Yubã) 117.

Em fevereiro de 2010 eu ainda não havia recebido a confirmação, nem do Zezinho e nem do VNA, sobre a oficina. Porém, o preço razoavelmente baixo da passagem aérea (Campinas – Recife) e a expectativa positiva do VNA na edição Huni Kuin me motivaram a comprar passagens de ida e volta (02 de março e 03 de abril), limitando minha estadia em um mês (tempo provável de duração da edição). O VNA aguardava a confirmação do cineasta, que se sabia havia retornado de suas viagens ao Purus, que fez pesquisando para o filme. Provavelmente a internet na aldeia não estava funcionando devido ao período de chuvas. O VNA já tinha outra oficina confirmada para Maio (Kisêdjê), portanto acreditava na presença de Zé Yube em março. Em conversa via email, Vincent justificou: “as nossas produções são sempre assim, ao sabor das águas”.

No dia em que cheguei a Recife era de madrugada e o taxista me convenceu a ir direto para Olinda. Fiquei hospedada na casa de amigos, revezando entre a Rua da Palha e a Rua

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A pré-edição do vídeo Ashaninka, como já foi citada, acontecera na aldeia em janeiro de 2010 e, após o trabalho dos editores durante os meses seguintes na sede, sem a presença do coletivo Ashaninka e sem nenhum de seus representantes, Carelli e mais um editor retornam a aldeia em julho de 2010, sendo inviável o meu retorno nas duas oportunidades de edição.

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Os Huni Kuin ficaram popularmente conhecidos por Kaxinawa e uma das explicações para a origem deste etnônimo (Kaxinawa) está contida neste mito “A primeira vez que o branco viu um índio ele não tinha roupas e estava brincando com morcego. (...) O branco perguntou para o índio quem ele era e ele, não entendendo português, respondeu na língua: estou matando [brincando com] morcego. A gente chama morcego kaxi. Assim o branco deu o nome: você e sua tribo são Kaxinawa (kaxi-nawa)” (LINDENBERG MONTE In O jacaré serviu de ponte, 1984: 29 apud LAGROU, 2009: 182).

90 Rio de Janeiro. Fiz a primeira visita à sede do projeto, ansiosa por conhecer o local. Fui bem recebida por Vincent e apresentada por ele a todos os funcionários; depois de conhecer o espaço físico e os editores que trabalham para o VNA, ficou combinado que eu acompanharia a edição Huni Kuin e teria livre acesso aos filmes que desejasse assistir, desde que na sala fria, o Pólo Sul 118. Vincent, que cadastrava as escolas que receberiam os Kits Cineastas Indígenas: Um outro olhar, me ensinou a usar os equipamentos e a ligar a mini TV colorida,

liberando a minha entrada sem restrições.

Zé Yube, cineasta Huni Kuin, vindo da Praia do Carapanã no Acre, chegou ao final da semana, acompanhado de sua esposa Jarlene Kaxinawa. Os trabalhos de edição começaram na segunda feira e duraram cerca de 40 dias. Eram dias de trabalho que tinham seu ritmo próprio, com duração de até 12h diárias e paradas para almoço e café da tarde. O trabalho geralmente finalizava quando a equipe e o cineasta saíam para jantar (não necessariamente todos juntos). Eu os acompanhei em uma dessas saídas, na chegada de Milene Migliano (contratada por certo período para acompanhar a equipe VNA). Aos finais de semana, oficialmente, não havia edições e em poucas oportunidades pude aproveitar o descanso do Zezinho para entrevistar-lhe.

No começo do mês de março as águas do mar de Olinda possuem uma cor incrível, provavelmente devido à falta de chuva nessa época, em contrapartida ao calor intenso. Eu ficava acomodada em cadeiras de plástico, acompanhando o processo de edição na “fila de trás”, nas costas do cineasta e da editora (Amandine Goisbault). Uma janela na frente deles, quando aberta, promovia um vento suave e a visão do mar de Olinda.

Eu chegava por volta de 10 da manhã, alguém abria os portões após o soar da campainha. Passava pelos funcionários, subia para as salas de edição no piso superior, onde geralmente já encontrava o cineasta e a editora no início dos trabalhos. Dependendo da atividade do dia eu ficava acompanhando em tempo integral; quando não, descia para o “Pólo Sul” para assistir algum filme do acervo. Na primeira conversa que tive com o cineasta Zezinho Yube, ele me contou da tristeza que era ver seu povo sendo enganado pelos evangélicos peruanos. Contou-me que tinha que produzir um filme sobre a influência da religião e que sua missão era registrar o material para seu povo ter acesso à sua própria cultura. Voltara havia poucos dias da viagem na captura das imagens, com a vontade política

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A sede do Projeto Vídeo nas aldeias, assim como o Pólo Sul (trocadilho ao ambiente gelado do arquivo de vídeo), está descrito no capítulo 1, quando apresento o projeto.

91 de mostrar a desunião de seu povo e, indignado com as situações que vivenciou na busca pelo resgate de sua cultura. Acompanhei grande parte de seu “retorno às imagens” ao assistir junto dele cada cena que ele sabia ter registrado.

A esposa de Zezinho, Jarlene, teve um papel muito importante na edição. Em várias oportunidades Zezinho perguntava a ela qual o nome do Kene ou qual o seu significado, para que lhe ajudasse na tradução (durante as conversas nas rodas de mulheres, citada mais adiante). Estava sempre ao lado dele e preparava seu café da manhã com o mingau de bananas e amendoim, do qual provamos (a equipe e eu) algumas vezes. Indiquei-lhes onde comprar a goma (para tapioca) e um bom queijo coalho que vendia na Rua da Palha. Almoçamos juntos muitas vezes, com e sem a equipe VNA.

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Benzer Belgeler