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BLOKLARIN KURULUŞU

RUS EMPERYALİZMİNİN CANLANMASI

A. BLOKLARIN KURULUŞU

Colaborador 1 C1: 42 anos (2012) Sexo: masculino

Idade quando o suicídio aconteceu: 17 anos (8/12/1986) Pessoa que cometeu o suicídio: pai

Método do suicídio: choque elétrico Local da entrevista: casa do colaborador

Tempo total de entrevista: 1 hora 25 minutos 20 segundos Análise enviada em: 13 de julho de 2012

Feedback do colaborador: 14 de julho de 2012

TEMAS E DESCRIÇÕES INDIVIDUAIS DO DEPOIMENTO

O primeiro colaborador tem 42 anos de idade, é francês, psicólogo, professor de língua estrangeira, divorciado e sem filhos. O pai cometeu suicídio por choque elétrico, quando tinha 17 anos de idade. Seus pais já estavam divorciados na época em que o suicídio aconteceu. Tem um irmão que é filho de seu pai e um meio irmão que é filho de sua mãe com o segundo marido. O local da entrevista foi em sua casa, onde recebeu a pesquisadora com uma mesa farta de sucos, chás, salgadinhos e doces.

1. Culpa

A palavra culpa surgiu repetidamente no depoimento. Considera que a culpa não é um processo racional e percebe que se encarregou das autoacusações. Menciona que os assuntos levados a sessões de psicoterapia circundam o suicídio de seu pai, destacando que a responsabilidade pelos filhos é dos pais. Imagina que o modus operandi do suicídio por choque elétrico pode ter sido uma mensagem, pois, como cursava eletrotécnica e foi a última pessoa a ver o pai antes de morrer, acredita que, talvez, seu pai quisesse dizer que se lembrou dele na hora da morte. Seguem os recortes do depoimento que sustentam o tema.

Ø Embora eu tenha trabalhado muito essa questão da culpa durante esses anos todos, eu nunca parei para pensar muito se o meu pai podia ter me culpado no gesto. Eu me encarreguei de me culpar, mas nunca, nunca pensei se ele pudesse ter pensado isso ou não. Ah, eu não sei [olhos marejados].

Ø É claro que racionalmente eu vejo que eu não tenho culpa nenhuma, no entanto, eu me culpo, mas se alguém ousar me culpar por isso, reajo até com violência.

Ø E afinal de contas eu não era maior de idade e se há algum responsável pelos filhos são os pais [sorriso].

Ø O gesto em si já é suficientemente doloroso. Mas, enfim, é um tanto quanto original, pelo menos como maneira de fazer; e de uma maneira que realmente dizia respeito ao que eu estava fazendo. Eu posso interpretar que simplesmente eu fui a última [pigarreou] pessoa

a ter ficado com ele. Portanto, a conexão comigo era forte e eu, na realidade, meu outro irmão, não era filho dele, legítimo [...]

Ø Apesar de ter feito 15 anos, estou há 15 anos em terapia. Eu toco frequentemente no assunto do meu pai, quando falo no assunto, falo do suicídio, falo da minha relação com ele, falo da culpa.

Ø É, pelo menos que eu assumi eu sei, mas se ele [sorriso] me culpou, eu realmente, eu não, nunca parei para pensar nisso eu acho [riso].

Ø O meu pai não me culpa. Não me culpou. Acredito. Toda minha família tentou me poupar. Ø Não sei se foi mais uma coisa de uma sensação de escuta: lembrei de você quando eu fiz

isso. Eu acho que a questão do abandono, eu ter abandonado, entre aspas, claro que ele sentiu, claro que ele deve ter sentido algo. Algum tipo de decepção, tristeza, alguma coisa, pelo fato de eu ter saído de casa.

2. O cuidador: necessidade de salvar pessoas e o interesse por histórias de sobreviventes Revela interesse por história de sobreviventes, considera-se cuidador e como alguém que se relaciona para salvar. Salienta que mantém relações amorosas com mulheres salváveis e associa sua escolha de salvar as pessoas com o fato de querer salvar seu pai.

Ø Mas para dizer realmente o tamanho da minha não resolução desse luto, eu falaria do como me relaciono, ou tenho me relacionado afetivamente.

Ø Todas as minhas relações afetivas foram com meninas, mulheres, moças, enfim, dependendo da idade, que eu precisava salvar. Namorei viciada em drogas, namorei prostituta, namorei simplesmente perdidas na vida. E casei com uma psicótica.

Ø Eu não posso ver uma pessoa perdida que eu quero ajudá-la. No ônibus, alguém pedindo o caminho, eu quero informar o caminho para ela.

Ø Eu acho que está muito ligado a isso, assim, essa procura de salvar. É interessante, todas as minhas grandes paixões foram com mulheres totalmente salváveis.

Ø Mas sabe, às vezes, não é ajudar, é salvar, é bem diferente. E eu acho isso tudo bem representativo do como é ter um pai que se mata. É você querer, não querer isso, é você querer a todo custo impedir isso. E você tentar sem saber como, porque não há como impedir.

Ø Quando você me ligou para me perguntar se eu topava dar essa entrevista, uma das questões fundamentais é, para mim, quer dizer, além da ligação com você, com esse tema, de querer te ajudar, não te salvar.

Ø Eu adoro assistir [a] documentários de sobrevivente do Shoah, do holocausto, ou de outros genocídios ou acidentes ou tragédias.

Ø Tenho pouca vontade de me relacionar com as pessoas a não ser para salvá-las. 3. Situações (Gestalten) inacabadas

3.1 Não é o fato que traumatiza, mas o processo como um todo: perguntas sem respostas Verbaliza permanente falta de respostas, falta de sentido emocional, quando tenta compreender o suicídio. Acrescenta que a morte do pai por suicídio é um assunto que não foi resolvido e

comenta não perceber o suicídio como ato de covardia ou de coragem, entendendo que a pessoa que comete o suicídio não tem opção.

Afirma que, apesar de 15 anos de terapia, toca frequentemente no assunto sobre sua relação com o pai e sente não tê-lo conhecido sem ser pela doença (transtorno bipolar) e que, por esse motivo, sente dificuldades para apontar onde começa seu processo de luto, pois considera que não somente o suicídio tenha sido um fator precipitante, mas, sim, o processo como um todo. Levanta dúvidas se ele cometeria o suicídio como o pai. Seguem as afirmações que sustentam o tema.

Ø Nunca superei isso. Apesar de ter feito 15 anos, estou há 15 anos em terapia. Eu toco frequentemente no assunto do meu pai, quando falo no assunto, falo do suicídio, falo da minha relação com ele, falo da culpa, falo de todas as coisas que a gente sente. Que eu sinto. Isso com frequência, mas é uma [pigarreou] dor muito, muito profunda.

Ø Fora a doença, não sei quem era o meu pai.

Ø Esse é um ponto que não está resolvido para mim. [suspiro]

Ø Eu falo disso até porque eu acho que além do próprio suicídio é difícil para eu distinguir onde [pigarreou] começa. Quer dizer, onde tudo o que eu posso sentir a respeito do acontecido, diz respeito ao suicídio unicamente ou a todo o processo. Eu acho que não é só o suicídio, porque deve [ser] tudo: as tentativas, a doença em si, proporcionaram muitas coisas e tudo isso se mistura...

Ø [...] ao suicido do meu pai, mas [pigarreou] talvez se ele não tivesse [se] suicidado, talvez eu fosse igual, talvez eu fosse triste, talvez, não sei.

Ø E sem contar quanto sempre à questão do você acabar duvidando sobre a capacidade do ser humano de poder controlar a própria vida. É, eu escuto [pigarreou] quando acontece algum comentário sobre algum suicídio. As pessoas não sabem se é corajoso ou covarde. Ø É; para mim o suicídio me remete muito a isso, eu acho que é a mais profunda coisa, é esse

medo de que: Será que eu posso chegar a fazer isso? Porque eu não aguento mais.

Ø Para mim, passar por uma experiência dessa, de ter um pai que se mata, é, reforçando, repetindo, não tem só o ato de se matar, tem anos de doença e de compartilhar uma doença, com todas as consequências que isso possa ter.

Ø Perder alguém dessa maneira me parece que é muito mais pesado, é muito mais dolorido, é muito mais difícil de dar um sentido.

Ø Por mais que eu possa entender que ele tinha uma doença. Chegou ao nível de dor, que ele não aguentou permanecer vivo; ele preferiu fazer isso. Ah! Faz sentido, racionalmente faz. Emocionalmente não faz. Como eu falei, eu procuro um jeito de ainda salvá-lo. De achar solução para isso.

3.2 Conexões com o pai: alguma mensagem pai?

C1 parece estabelecer algumas conexões, por meio das coincidências de datas, entre vivências atuais e antigas. Enfatiza que as datas são muito fortes, e que o dia em que passou seu pai em termos de longevidade, quando fez 40 anos, viu conscientemente o dia chegar, ficando sozinho. Acrescenta que no mesmo dia, sua ex-mulher foi diagnosticada com transtorno bipolar.

Outro ponto importante na entrevista é observar a mudança de assunto, quando estava falando sobre cuidados e interrompe retomando a entrevista com outro assunto: culpa. Seguem os trechos que oferecem suporte para este resumo.

Ø Na época eu estudava eletrotécnica...

Ø ... sei lá, se havia um recado a dar para alguém, era para mim.

Ø É, mas era uma pessoa que mesmo na doença, ou antes, eu tenho sinais de que era o filho dele, eu era o filho dele, ele queria me ver bem. Enfim, ele fazia tudo por mim.

Ø Mas sempre havia um cuidado comigo. Vamos dar uma paradinha. [...]. Bom, eu estava falando do meu pai me culpar [...]

Ø Eu posso interpretar que simplesmente eu fui a última [pigarreou] pessoa a ter ficado com ele. Portanto, a conexão comigo era forte e eu, na realidade, meu outro irmão, não era filho dele, legítimo, então.

Ø Isso aí é, o que eu vou te falar agora, é muito bom – sobre as datas, você sabe que o meu pai se matou e ele tinha 39 anos. Ia fazer 40. Alguns dias depois. [...] A ponto de ter calculado exatamente qual seria o dia que eu ultrapassaria meu pai em termos de longevidade. Isso ocorreu em fevereiro do ano passado. Eu, logo antes de fazer 40, eu fiz em março. No dia que eu ultrapassei meu pai, foi bem consciente, vi o dia chegar. Foi o dia em que minha mulher teve o primeiro surto dela. Foi diagnosticada como bipolar. [...] É eu nem lembro todas as coincidências de datas que eu já pude observar. Mas foram tantas, e quer dizer, a partir do dia que eu completei a idade que o meu pai tinha quando se matou, basicamente fiquei sozinho. Ø As datas são coisas muito fortes. [pigarreou] Às vezes no dia 8 de dezembro, às vezes nem

lembro que é oito de dezembro. Mas eu fico muito mal, muito mal. Aí eu lembro, acabo lembrando. Às vezes eu lembro no dia seguinte. Ah, eu sei por que eu estava mal. Mas, em geral, eu lembro, porque como o John Lennon foi assassinado em 8 de dezembro, na televisão passa, de alguma maneira me relembram que é 8 de dezembro.

3.3 O último momento

Viu seu pai pela última vez quando foi, com um amigo, visitá-lo no hospital logo após sair do coma. Como a mãe e o namorado dela estavam morando em outra cidade. No final de semana seguinte, a mãe, que monitorava o estado de saúde de seu pai de longe, soube da morte de seu pai e, ao notificar para C1, a primeira reação dele foi dizer: “Ah! Ele conseguiu finalmente” e, em seguida, sentar no bar e tomar cerveja. Após 15 minutos, subiu para o quarto e chorou. Na entrevista enfatiza a possível mensagem para ele, descrevendo a maneira como seu pai cometera suicídio e estabelecendo relações entre o curso que estudava: eletricidade.

Ø Isso era no final de semana; eu voltei para o internato; foi quando soube que ele estava lá no hospital, que estava em coma. Falei, “bom, eu não tenho o que fazer aqui, eu vou voltar para a escola”. Voltei para a escola e quando voltei no final de semana, acho que foi no seguinte. A minha mãe ficava monitorando o estado do meu pai. Assim, ele saiu do coma em poucos dias no final de semana seguinte. Eu fui com amigo meu até o hospital e levei umas coisas para ele. [pigarreou] Foi a última vez que eu vi o meu pai.

Ø Em 8 de dezembro eu estava, portanto, nesta outra cidade, a minha mãe com o namorado [dela] tinham aberto um bar lá, uma cidadezinha muito pequena. Eu estava no bar; não, eu

estava voltando da escola e entrando no bar quando minha mãe anunciou a morte dele. Eu lembro que a minha reação na hora foi: “Ah! Ele conseguiu finalmente”. E eu fui sentar com uns amigos que eu tinha feito lá no bar e comecei a tomar cerveja. [pigarreou] Depois de 15 minutos eu não aguentei, eu subi para o meu quarto e chorei. Foi a polícia que encontrou meu pai [pigarreou] depois de uma [hora]; ele estava muito sozinho, totalmente isolado, não tinha falado mais com ele. Ele pegou uma extensão elétrica, separou os dois fios, fez braceletes que colocou nos pulsos, colocou uma ponta de cada fio em cada bracelete, ligou na tomada de 220; eu estava estudando eletricidade na época.

4. Intensidade dos sentimentos

4.1 Dor, vergonha, raiva, culpa, dúvidas e as marcas

Aponta sentimentos fortes relacionados ao fato de seu pai ter cometido suicídio: dor, raiva, culpa, vergonha, vergonha de ter raiva, além da dúvida sobre a capacidade do ser humano poder controlar a própria vida.

Considera que o fato de querer a todo custo impedir que a situação seja concretizada provoca uma marca como se fosse um traço de personalidade. Em relação às marcas salienta: a morte de seu irmão por AIDS e a situação de seu pai ser ao mesmo tempo vítima de um assassinato e cometer um assassinato. Menciona que se tornou uma pessoa mais consciente, humana e sensível. Expressa o medo de seguir os passos de seu pai, dizendo perceber semelhanças no que se refere à solidão e ao isolamento que ficaram mais evidenciados desde 2010.

Ø Que eu sinto isso com frequência, mas é uma [pigarreou] dor muito, muito profunda. Muito...

Ø É você querer, não querer isso, é você querer a todo custo impedir isso. É você tentar sem saber como, porque não há como impedir. Se a pessoa realmente, eu não vou dizer que quer se matar. Porque para mim não é um querer; é não ter outra opção. Então, não dá para fazer nada, não dá para salvar.

Ø Meu irmão é homossexual, digo isso porque foi a causa do grande desentendimento do meu pai e o meu irmão. Quer dizer, não sei se foi o ovo ou a galinha isso, mas enfim. Mas ele faleceu também, de AIDS; ele faleceu no dia 8 de junho. O dia mais distante de 8 de dezembro.

Ø Eu atribuo esses sentimentos, esses traços de personalidade, diria até muito, ao suicídio do meu pai. Portanto, é uma coisa que é difícil de se desfazer mesmo. Quero dizer, não são só as coisas negativas, digo, é uma coisa tão marcante, eu acho que muitas coisas positivas inclusive. É da minha vida. É, aconteceram devido ao suicídio do meu pai. Digo [que] provavelmente me tornei uma pessoa muito mais consciente, muito mais humana, muito mais sensível; é, e outras coisas, devido ao suicídio do meu pai. O que quero dizer é que é um traço.

Ø É muito forte, é muito forte.

Ø E sem contar quanto sempre à questão do você acabar duvidando sobre a capacidade do ser humano de poder controlar a própria vida.

Ø Ah, cria sei lá... a raiva, da minha parte a raiva contra ele. É; a culpa, a vergonha. A vergonha de ter raiva. É. Sabe. É como se fosse uma ferida num lugar tão difícil de curar.

É como se fosse, como se tivesse que fazer uma cirurgia do cerebelo, sei lá, num lugar bem inalcançável. É algo muito profundo.

Ø Dolorido, muito dolorido. É claro que eu não posso esquecer que aqui eu estou falando do meu pai, que isso já em si é peculiar, perder o pai talvez [...] perder alguém dessa maneira me parece que é muito mais pesado, é muito mais dolorido, é muito mais difícil de dar um sentido.

Ø Agora, o meu pai se matou. É. Não dá para dar [sentido]. A gente por mais... Eu acho que não foi à toa que estudei psicologia, está estreitamente ligado, claro, a essa compreensão. É [pigarreou] por mais que eu possa entender que ele tinha uma doença. Chegou ao nível de dor, que ele não aguentou permanecer vivo; ele preferiu fazer isso. Ah! Faz sentido, racionalmente faz. Emocionalmente não faz.

Ø É uma coisa que marca tão profundamente, porque o suicídio é uma coisa tão ambígua, a meu ver, porque o meu pai foi vítima de um assassinato; o meu pai cometeu um assassinato. É, não é simplesmente [que] perdi um ente querido. É muito violento.

4.2 Medo de seguir os passos

Ø O que me vem é que eu sempre tive medo de seguir os passos do meu pai. Eu associo muito o suicídio dele à solidão. E eu tenho me isolado muito ultimamente, de um ano para cá. E, aliás, não de um ano para cá. De 25 anos para cá. De 24 anos para cá. Mas muito particularmente de um ano para cá.

Ø Se o raio já caiu uma vez, vai cair de novo, sim. E no mesmo lugar, ou no lugar onde eu estiver. Eu só estou te falando de crenças, das mais profundas, como se tivesse sido gravado, como se tivesse sido marcado com ferro vermelho. Por mais que você passe por experiências que poderiam te comprovar totalmente o contrário, que a vida não é feita só de catástrofes, e que coisas boas podem acontecer. Por mais que você tenha fé nisso. Essas crenças, elas são muito difíceis de retirar.

ANÁLISE INTENCIONAL E COMPREENSÃO DA ENTREVISTA

C1 é uma das pessoas que mais influenciaram a realização da presente pesquisa e, por esse motivo, o convite foi efetivado para que fosse o primeiro entrevistado. Conhecemo-nos desde fevereiro de 2004, quando fui sua professora, e a relação construída entre nós, ao longo desses anos, parece ter contribuído para um depoimento sensível, minucioso e cuidadoso. Sendo assim, a entrevista pôde ser uma escuta de um grito: Olha o que eu passei! Olha a que eu sobrevivi! Olha de onde eu vim!

Compartilhar seu processo de luto com abertura e disponibilidade parece ter promovido a oportunidade para realizar revisão, resumir, revisitar e redescobrir sua história, salientando a crença de cura ao expressar o que sente. Parece perceber a entrevista como momento de acolhimento pelo fato de alguém se interessar pelo que aconteceu com ele. Interesse que não percebe em outras pesquisas, principalmente ao relembrar o momento em que foi entrevistado pela televisão quando seu vizinho matou a mulher e se matou, afirmando que nunca se entrevista filho de um “suicidado”.

Quatro temas foram desvelados no processo de luto, em decorrência de seu pai ter cometido o suicídio. Foram eles: (1) Culpa; (2) O cuidador: a necessidade de salvar pessoas e o interesse

por histórias de sobreviventes; (3) Situações (Gestalten) inacabadas, (4) Intensidade de sentimentos.

Parece ter várias perguntas sem respostas e situações sem compreensões – percepções que serviram como alicerces para a presente análise. Segundo a Gestalt-terapia, aquilo que acontece ao humano torna-se parte dele, pela assimilação, ou se torna uma situação inacabada (Gestalt incompleta) e, embora não compreenda o motivo real da morte de seu pai, associa o suicídio ao transtorno bipolar. Sendo assim, as percepções sobre doença e suicídio se misturam, percebendo o suicídio como falta de opção e como se fosse uma ferida num lugar difícil de curar. O suicídio é sempre uma história e, sendo assim, aponta que o suicídio não foi um fator precipitante, mas, sim, o processo como um todo.

Apesar de o suicídio do pai ser transformador, pois tornou-se uma pessoa consciente, humana e sensível, destaca a marca psíquica, dizendo que sente como se tivesse sido marcado com ferro vermelho. Um dado importante sobre a elaboração do luto é o fato de mencionar que, durante 15 anos, os assuntos ainda trabalhados em terapia estão diretamente relacionados ao pai. Aponta diferenças entre lutos por acidente e por suicídio e indica que o luto por suicídio é mais doloroso: Perder alguém dessa maneira me parece muito mais pesado, é muito mais dolorido, é muito mais difícil de dar um sentido. Há de se refletir sobre o fato de o suicídio ser um evento trágico que provoca uma ferida profunda e que, por esse motivo, ocupa um lugar preciso na existência do enlutado. Quem mata quem quando acontece o suicídio? O fato de se ter um pai que se mata provoca uma ferida difícil de cicatrizar ou que, talvez, nunca

Benzer Belgeler