1.6. Yapay Sinir Ağları
1.6.5. Biyolojik Nöronlardan Yapay Sinir Ağlarına
Como visto nas partes anteriores deste trabalho, as propostas de combate às secas no Nordeste brasileiro não surgiram espontaneamente, nem foram fruto de súbitas epifanias de um ou outro engenheiro genial. A doutrina de ataque ao problema – em sua raiz um fenômeno climático, mas, como percebido, com influência exacerbada por circunstâncias sociais e econômicas – através de intervenções espaciais de estruturação do território surgiu paulatinamente ao longo de décadas de discussões, articuladas por dezenas de profissionais, e foi fortemente influenciada por experiências estrangeiras na solução de problemas similares. Ao procurar situá-la dentro de um quadro geral das doutrinas de “planejamento” desenvolvidas no mesmo período, é possível notar que outras soluções espaciais estavam sendo construídas para lidar com situações diversas, a partir das quais se podem traçar linhas de continuidade que conduzem até o moderno Planejamento Territorial.
Na Europa ocidental de meados do século XIX, a principal questão a ser resolvida estava na situação das cidades. As grandes cidades européias, transformadas pelo modo de produção capitalista-industrial, tiveram que lidar com novos problemas e com a exacerbação de outros já existentes, entre os quais estavam a superpopulação, doenças epidêmicas e endêmicas e inquietações sociais alimentadas por novas vertentes de pensamento econômico e político. Essas cidades, assim como sua relação com o espaço ao seu redor e com outras cidades, tornaram-se alvo privilegiado de teorizações de pensadores que pretendiam entender com racionalidade científica a sociedade e fundamentar propostas de alterações ou revoluções que, esperavam, pudessem corrigir o curso da humanidade e amenizar os conflitos, as injustiças e as angústias da existência moderna. Não é intenção desse item esgotar as discussões promovidas pelos considerados clássicos no estudo do desenvolvimento do planejamento regional e territorial, nem mesmo daqueles que mais tarde os interpretaram e sobre eles contribuíram com novos aportes à questão. O desenvolvimento do planejamento será, assim, discutido resumidamente, tocando-se
nos pontos chaves que levaram de suas concepções iniciais, através de consolidação teórica e transformações, até sua aplicação no Brasil e no Nordeste brasileiro.
Paulo Linhares (1992) sintetiza a discussão acerca das cidades entre meados e fins do século XIX a partir da obra de quatro alemães, que podem ser considerados “precursores” do planejamento urbano e regional. Georg Simmel foi um dos primeiros a professar uma filosofia da vida na metrópole. Simmel via a sociedade moderna, criada pela liberação de laços históricos e costumes em processo desde o século XVIII, como um mundo de movimento incessante; movimento físico, conceitual, e econômico. Sua visão da metrópole, considerada por alguns excessivamente negativa, exprimia uma angústia individual frente a essa perda de referências mentais. Karl Marx e Friedrich Engels, por sua vez, percebiam a cidade industrial como campo de batalha no conflito de classes, e em seu projeto social para o comunismo, previam o fim da dicotomia campo/cidade como resultado da solução desses conflitos. Max Weber tentou também desvendar, estudando o processo de individualização advindo do espírito burguês, os elementos que originavam a angústia do cidadão na metrópole descrita por Simmel (LINHARES, 1992).
O pensamento de precursores como esses viria a ser a base para a discussão e proposição de soluções para uma questão que era de acordo virtualmente unânime: a grande cidade não era um bom lugar para se morar, seja para os operários, sujeitos às mazelas da dominação capitalista e da moradia precária, seja para as classes dominantes, temerosas de insurreições populares provocadas por tais condições, seja para qualquer ser humano despreparado para lidar com a dinâmica de uma sociedade que fora completamente transformada em poucas décadas.
A saída para essa situação, defendiam os grupos de filosofia socialista, anarquista ou comunista, era a completa reformulação social e econômica, destinada a criar uma utopia sem conflitos ou males. Os grupos dominantes, naturalmente avessos a tais idéias, propunham maneiras de aliviar as tensões sociais sem acarretar mudanças nas estruturas de poder, em propostas que frequentemente passavam pela reformulação urbana. Melhorando-se assim as condições de vida das massas proletárias, controlar-se-iam os ânimos e arrefecer-se-ia a chama revolucionária, ao
mesmo tempo em que seriam contidos os riscos sanitários causados pela aglomeração desordenada. Esse pensamento esteve na raiz da maior parte das intervenções no espaço urbano a partir de meados do século XIX, tendo seu expoente maior na reforma de Haussman em Paris, e deixando como legado o urbanismo modernista.
Uma outra doutrina, cujo símbolo maior foi o professor escocês Patrick Geddes (1854-1932) – formalmente biólogo e botânico, mas na prática um teórico dos mais diversos temas –, propunha uma melhoria das condições nas cidades também através de intervenções espaciais, não restritas ao espaço intra-urbano, mas criando uma mescla entre campo e cidade, ao mesmo tempo operando sutis subversões na ordem social. O pensamento de Geddes daria origem a uma disciplina, que veio a ser conhecida como Planejamento Regional. Peter Hall acompanha essa trajetória em seu trabalho “Cidades do Amanhã” (2002).
Derivando suas idéias do trabalho de anarquistas como os franceses Pierre- Joseph Proudhon e Élisée Reclus e os russos Mikhail Bakunin e Pyotr Kropotkin, Geddes também partiu de uma visão socioeconômica sistemática para avaliar as “regiões naturais” – um dos conceitos que Geddes assumira através do contato com geógrafos franceses (HALL, 2002, p. 162). Segundo Geddes, o planejamento deveria iniciar-se pelo levantamento (ou, em suas palavras: “O Levantamento precede o Plano”) das características de uma região natural, definida por características geográficas físicas – especialmente as bacias hidrográficas. Uma peça fundamental desse trabalho seria a confecção de uma “seção de vale”, diagrama que representa um corte transversal da região apresentando o relevo, vegetação e vida animal, conjunção de fatores através da qual poderiam ser localizadas “todas as ocupações ligadas à natureza” que se organizavam naquela região: mineiros, lenhadores, caçadores, pastores, camponeses, pescadores, e – no chamado “vale da cidade” – jardineiros. Era, na análise de Peter Hall (2002, p. 166) um esquema de distribuição de trabalho na região que assumia qualidades propositadamente “arcaicas”, privilegiando as ocupações tradicionais em uma sociedade dominada pela atividade industrial e urbana, reflexo de uma intenção de resgatar a vida urbana do passado. Mais do que objeto de levantamento, a região era para Geddes a base para a transformação social
e política. Geddes tratava também da “evolução” das cidades e da expansão, agregação e conglomeração das grandes metrópoles (GEDDES, 1994).
As orientações mais claramente transformadoras aventadas por Geddes foram fruto de seu entendimento do que chamava, em 1900, de era “neotécnica” (possibilitada por avanços técnicos na cadeia de produção, em contraste com o início da era industrial, que denominava era “paleotécnica”). Condizente com o espírito da “Belle Époque” e o otimismo generalizado pela Europa na virada entre os séculos XIX e XX, Geddes via a possibilidade de utilizar o novo patamar de conhecimento humano “na evolução, e não na dissipação de vidas alheias” (GEDDES apud HALL, 2002, p169). Acreditava – demonstrando influência de anarquistas como Kropotkin – que através de um esforço conjunto que partiria de todas as comunidades, cidades e regiões, seria possível reconstruir uma sociedade melhorada, uma “Eutopia”.
Em termos práticos, Geddes percebia que as então recentes inovações na geração de energia permitiriam a descentralização da indústria, tornando desnecessárias as grandes aglomerações urbanas “paleotécnicas”. Defendia a aproximação entre cidade e campo, e uma regulação para que houvesse um crescimento “botânico” – alternando urbano e campo – das cidades dentro da região, ao contrário da expansão “como manchas de gordura” que ocorria a partir da ordem paleotécnica. Dando um passo além do que haviam feito os supracitados precursores alemães, Geddes procurava espacializar suas idéias, utilizando com freqüência diagramas e gráficos explicativos de suas propostas. Não obstante isso, e apesar de ser bastante extensa, sua obra carece de um nível de coerência que a tornasse mais diretamente aplicável. Suas idéias foram, no entanto, a base para a ação de planejamento regional que surgiria nos Estados Unidos, sob a orientação de Lewis Mumford e a Regional Planning Association of America (HALL, 2002).