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4.3. Süsleme

4.3.2. Bitkisel Süsleme

Outro modelo teórico que também estava presente na primeira fase do Governo Vargas correspondia ao campo ideológico representado pelo projeto corporativo. A matriz do Estado Corporativo era a sua concepção orgânica de sociedade, privilegiando os corpos sociais. Por ser orgânico, esse modelo de Estado se afastava do liberalismo, por não ter como chave explicativa o indivíduo.

A perspectiva orgânica

[...] representava um conjunto de formulações surgidas nas primeiras décadas do século XX que recusava a representatividade partidário-eleitoral e a valorização dos interesses individuais do liberalismo como base da organização política nacional. Mais que simplesmente corporativo (próximo da conotação européia) ou autoritarismo, o pensamento organicista postulava uma interpretação social particular (classes produtoras), grupos sociais, bases municipais) e, por consequência, um outro princípio para a representação e a outra função para a ação do Estado (CEPÊDA, 2010, p. 2).

Não havia respaldo para se construir a melhor decisão política a partir da disputa de vários projetos que se ancoravam na percepção dos indivíduos sobre seu interesse. Pelo contrário, no Estado corporativo quem era o detentor do interesse seriam os grupos sociais e não os cidadãos individualmente.

A mesma observação realizada por Lamounier (1985) sobre a situação de ligação dos intelectuais críticos da Primeira República com o funcionalismo de Estado também valeriam para Vianna, articulador do corporativismo. Este autor dedicou grande parte de sua vida ao funcionalismo público e sua produção intelectual, por outro lado, desde as décadas de 1920 até 1950, integrou-se ao grande núcleo de pensadores da realidade social brasileira43.

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Dentre suas principais obras destacaram-se Populações Meridionais do Brasil (1920); Pequenos Estudos de Psicologia Social (1921); O idealismo na Evolução Política do Império e da República (1922); Evolução do Povo brasileiro (1923); O idealismo da Constituição (1927 – esta obra foi revisada e ampliada, surgindo nova edição em 1939); Problemas de Política Objetiva (1930); Problemas de Direito Corporativo (1938); As novas

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Autor das categorias de idealismo orgânico e idealismo constitucional, Oliveira Vianna acabaria por recuperar e ao mesmo tempo projetar um debate relevante para o conhecimento das relações entre Estado, sociedade e nação.

De fato, pensar idealismo orgânico e idealismo constitucional já pressupunha o reconhecimento da centralidade dada ao Estado durante toda a história institucional brasileira, principalmente, em sua formação social. Essas concepções de idealismos fortificaram as interpretações de Vianna frente à realidade nacional.

Esta dicotomia apresentada pelos idealismos remeteria sua análise à compreensão prévia de que o idealismo orgânico se referiria à ―própria evolução orgânica da sociedade e não [seriam] outra coisa senão visões antecipadas de uma evolução futura. [...] idealismo orgânico é o que só se forma de realidade, que só se apóia na experiência, que só se orienta pela observação do povo e do meio‖. (VIANNA, 1939, p. 11).

Por outro lado, o idealismo constitucional ou utópico seria tributário de uma falsa percepção orgânica da sociedade, consistindo-se para Vianna,

[...] todo e qualquer systema doutrinário, todo e qualquer conjuncto de aspirações políticas em intimo desacordo com as condições reaes e orgânicas da sociedade que pretende reger e dirigir. O que realmente caracterisa e denuncia a presença do idealismo utópico num systema constitucional é a disparidade que há entre a grandeza e a impressionante eurythmia da sua estructura e a insignificância do seu rendimento effectivo – e isto quando não se verifica a sua esterilidade completa (VIANNA, 1939, p. 10).

A partir desta constatação, Oliveira Vianna verticalizava suas críticas à Carta Constitucional de 1891, com a formulação de um modelo político alternativo que pudesse promover a aproximação entre o país legal do país real44, ou seja, de um modelo cuja expressão seria a realidade nacional45.

A proposta organizativa de um Estado Corporativo no Brasil, por exemplo, seria um expediente necessário para contrabalançar os descompassos da realidade institucional brasileira. Contudo, torna-se relevante pensar que as tendências expressas na lógica do Estado Corporativo, tal qual apresentado por Vianna, não foi produto da realidade nacional, isto é, o

44Para Vianna o maior fator de desnacionalização do Brasil foi esse ―estar fora da realidade que compromete a participação da elite na organização e na direção do país. Sua inépcia decorre antes de tudo da adoção do liberalismo‖, apontou Vieira (1981, p. 113).

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Outra diferenciação entre idealismo orgânico para idealismo constitucional pode ser encontrado em Botelho (2009, p. 247) cuja diferença seria que, para os ―idealistas orgânicos‖ um Estado forte far-se-ia necessário em decorrência do caráter inorgânico da sociedade e de sua fragilidade associativa, enquanto para os ―idealistas constitucionais‖ um Estado todo poderoso sufocaria a sociedade e a fragmentaria.

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Estado corporativo era resultado das experiências estrangeiras. Nesse mesmo sentido, Vieira também reconhecia a utilização deste mecanismo como uma das marcas de todas as manifestações nacionalistas:

[...] cantando as glórias da nacionalidade, são transferidas para cá concepções estranhas, e até mesmo certos traços do nacionalismo europeu da época. Repete- se assim o que mais se condena no liberalismo trazido para o Brasil: opera-se a mesma transferência, com a diferença de que desempenha agora o papel de crítica conservadora. Parte-se da abstração para atingir a realidade. (VIEIRA, 1981, p. 96).

Porém, se o próprio Vianna (1939, p. 59) já destacava que ―o que espanta na história do nosso idealismo utópico, não é propriamente esta cegueira obstinada à evidência das nossas realidades; o que nos espanta é a sua duração: cem annos! [sic]‖, não seria razoável assimilar que introduzir um modelo corporativo poderia ser um equívoco dado a eventual incompatibilidade com a realidade profissional brasileira?

A resposta para Vianna era simples: não haveria equívocos. Isto porque, Vianna (1939, p. 59), ao considerar que ―há cem annos vivemos a procurar a causa dos nossos males políticos e dos nossos fracassos constitucionaes – e até hoje estamos estonteados sem saber onde encontra-la‖, introduziria o modelo corporativo com inúmeras adaptações indispensáveis para a montagem de sua concepção de Estado Corporativo.

Esta também foi a observação de Vieira (1981), principalmente, ao identificar que as fontes teóricas utilizadas por Vianna, para a modelagem do Estado Corporativo, entre elas: Manoilesco (O século do Corporativismo), Perroux (Capitalismo e comunidade de trabalho) e Panunzio (O sentimento do Estado), foram atualizadas para o contexto brasileiro. Isto é, havia uma exclusão, por Vianna, das proposições iniciais que não se compatibilizariam com o sistema brasileiro46.

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Essas observações constam do estudo de Vieira (1981) quando o autor analisou as fontes do corporativismo em Oliveira Vianna. O Estado Corporativo de Manoilesco, segundo a leitura de Vieira (1981, p. 42, 43 e 44), assumia as funções gerais, relacionadas com a defesa nacional, a política exterior e a ordem interior, ficando as funções particulares a cargo das corporações. No entanto, para Manoilesco, a concepção de Estado seria totalitário em sua essência (inclusive, com uma representação política de Partido Único). Nestes termos, Vieira esclarecia que Vianna, pretendendo acompanhar ou integrar criticamente Manoilesco, quanto à sua doutrina do corporativismo puro e integral, inverteria os termos da questão, modificando o pensamento daquele e tendendo a extrair o corolário para desprezar o essencial. Assim, assumiria o corporativismo em todas as suas manifestações, mas renunciaria à essência do Estado que o sustentaria. Já em relação a influência exercida por Perroux em Vianna, Vieira (1981, p. 46, 48 e 49) observou que da teoria Perroux - criador da concepção de corporativismo stricto sensu (que ocorreria em todo regime que no interior do sistema capitalista, organiza, na intenção de corrigir os efeitos e os abusos ocasionados por tal sistema, a colaboração patronal e do elemento operário), onde o Estado colaboraria com os particulares, sem fechar estabelecimentos, sem deslocar trabalhadores e sem repartir os capitais, com uma planificação corporativa diversa do capitalismo liberal e da

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Da mesma forma que o modelo de democracia-liberal inserido no Brasil, pela Primeira República, guardou suas peculiaridades, a ponto de não ser possível alegar que se tratava de uma cópia ipsis litteris do modelo americano, as formulações teóricas do Estado corporativo (inspiradas nas experiências estrangeiras), bem como as do autoritarismo, também possuíram diferenças; assim, há uma relativa autonomia quando se pretende comparar a institucionalização deste modelo no Brasil em relação aos países europeus, em especial, na Itália (Mussolini) e em Portugal (Salazar).

A formulação da proposta ideológica do Estado corporativo foi produto do século XX. Desde então, intelectuais e pesquisadores procuraram encontrar o amálgama principal da questão corporativismo, de sorte a apresentar uma definição, um conceito, para ser operacionalizado nas análises. O que se constatou foi que a concepção de Estado corporativo, tal qual a concepção de autoritarismo, fora utilizado por diversas posições políticas que decorreram, em maior ou menor grau, de suas condições histórico-sociais, ou seja, foram utilizadas como eixo explicativo para episódios políticos múltiplos.

Dadas as circunstâncias problemáticas que envolvem a atividade de definição, foi possível levantar uma hipótese preliminar de definição de Estado corporativo: seria aquele Estado ―que nasce de grupos sociais organizados, as corporações, de modo a tornar-se a expressão dos interesses econômicos dos mesmos e das forças culturais que as orientam‖ (VIEIRA, 1981, p. 21). Neste caso, o sistema político, em especial, o Legislativo, seria constituído pelas corporações profissionais. O Estado Corporativo nega o indivíduo enquanto portador de interesse, em função dos grupos sociais que tem identidade – daí, a preponderância do organicismo.

Com esta nova dimensão política que, necessariamente, envolveria alterações no sistema político como um todo, foi perceptível constatar a consagração das teses nacionalistas presentes no período. O Estado, na concepção forte de nacionalismo, deveria ser o

planificação coletivista - Oliveira Vianna somente utilizaria à afirmação dos direitos do grupo, ou melhor, dos direitos da corporação, ignorando assim, a idealização de um Estado colaborador. Por fim, há a influência de

Panunzio. Vieira (1981, p. 57, 58 e 59) destacou que para Panunzio, o Estado deveria ser Sindical-Corporativo.

É o Estado Fascista, saído do após-guerra italiano com força espiritual derivada da fusão da vontade com o pensamento. O fascismo concretizaria tal força num sentimento, o ―sentimento do Estado‖, substância da unidade moral e social do povo, viva e personificada no Estado. Este modelo de Estado Sindical-Corporativo, para Panunzio, seria: sindical pela composição dele; corporativo pela função que exercita; sindical porque composto de sindicatos; corporativo porque a nova função do Estado, além da legislação, da administração e da jurisdição seria a corporação, isto é, nexo entre as várias partes sociais. O conceito de ―sentimento de Estado‖ seria utilizado como instrumento destinado a fortalecer no povo brasileiro o sentido da autoridade pública, que, aliás, apregoa Vieira (1981), justificaria o centralismo político de Oliveira Vianna. Nestes termos, seria fácil observar que a opção de Vianna não seria pela manutenção de um Estado Corporativista de moldagem fascista.

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instrumento que se direcionava aos interesses do ideal nacional. Não havia espaço para que grupos de interesses segmentados, muitos deles em total desarticulação com o bem comum (categoria esta que já traz em si um certo desconforto, ante a dificuldade de se definir o sentido de bem comum e também por se identificar com a lógica liberal), pudessem exercer o controle do país, em detrimento dos demais.

Essas desarticulações, segundo esses autores conservadores47, seriam correlações imediatas das práticas bairristas das elites oligárquicas que teriam desvirtuado os ideais da República, divorciando, radicalmente, a realidade do país como as instituições políticas vigentes.

A proposição do Estado Corporativo surgia pela oposição direta com o Estado Liberal (modelo este em que a fonte do poder não era o Estado, mas sim os indivíduos). Segundo Vieira (1981, p. 35) a lógica desta oposição se apresentaria da seguinte maneira: ―o Estado Liberal possui somente uma fonte de poder público, ele mesmo, enquanto o Estado Corporativo se abre na pluralidade de fontes do poder público, representadas pelas corporações‖. Em que pese essa observação, não seria crível afirmar que no Estado liberal a fonte de poder público se encontra no próprio Estado, posto que se o próprio Estado fosse fonte de seu poder a configuração seria um Estado totalitário, por exemplo, e não liberal, como alegado por Vieira. A reação de Oliveira Vianna com o Estado Corporativo, de fato, foi uma resposta à liberal-democracia praticada no Brasil na Primeira República.

Vianna considerava ainda a desfragmentação da formação social do povo brasileiro, que, impossibilitados de sustentar sua autonomia própria para expressar sua vontade, sem elite e sem partido, caberia ao Estado representar a vontade geral – coletiva (que não deve ser confundida com a vontade geral de Rousseau), traduzindo os interesses, os desejos e as aspirações nacionais com a submissão de todos à autoridade do Estado.

Estas considerações apresentam a separação de Vianna com os principais teóricos do corporativismo. Havia um claro abandono de que o Estado Corporativo no Brasil carregaria as características totalitárias, ou fascistas ou fiscalizador ou até mesmo, colaborador. A formulação da proposta corporativa estaria direcionada na questão finalidade, talvez, no mesmo sentido dado a corrente que gerou o autoritarismo, posto que na realização última o

47 A concepção do termo ―conservador‖ poderia se subdividir em dois contextos: um ligado a tradição, no sentido de um apelo a dominação tradicional – Weber e outro, em oposição ao primeiro, no sentido da modernidade, do sistema racional legal, individual e competitivo. No entanto, a palavra ―conservador‖ pode assumir tão-somente seu sentido político e não significar, necessariamente, um apelo pela tradição, retornando ao

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Estado Corporativo também poderia ser um Estado autoritário; porém, também seria nacional, moderno e até democrático.

Dirigindo a atenção para o pensamento político de autores que contribuíram para o posicionamento ideológico presente na década de 1930 (autoritarismo e corporativismo), torna-se necessário ressaltar que o objetivo deste tópico não era realizar uma leitura vertical sobre as inúmeras especulações nas transformações de linhagens ideológicas para a reformulação do Estado, mas tão-somente a de expor as tendências marcantes da época sobre a necessidade de se ter um Estado forte.

Essa advertência ajudava a compreender as posições expressas neste tópico: a de que os conceitos operados pelos ideólogos nacionalistas, tal como observou Vieira (1981, p. 89), sempre foram os de ―excluir tanto o fascismo e a liberal-democracia como o comunismo‖.

Impendia salientar que as proposições corporativistas também foram objeto de muitas críticas, principalmente por aqueles que não reconheciam, no Brasil da década de 1930, uma verdadeira organização corporativa que pudesse levar adiante as transformações de um Estado Corporativo.

Consciente desta dificuldade, Oliveira Vianna não pretendia a instalação de um processo corporativo imediato – compreendia que estágios deveriam ser alcançados, até que o sistema se incorporasse na realidade nacional, tanto foi que, como membro do anteprojeto da Constituição pelo Itamarati, Vianna votou contra a representação classista e se retirou dos trabalhos da Subcomissão. Assim, a saída seria a tentativa de institucionalização deste expediente nos municípios, para depois alcançar as instituições dos Estados e por fim, a União (VIANNA, 1939; VIEIRA, 1981).

Da manifestação de um pensamento com vistas à ação, a institucionalização de algumas facetas do Estado Corporativo foi observada desde a primeira fase do Governo Vargas. Seu legado caberia a Oliveira Vianna, observáveis, no mínimo, em dois momentos específicos: primeiro, como consultor do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, desde 1932, com a regulamentação dos sindicatos e representação na formulação da Justiça do Trabalho (que a princípio, era uma Justiça administrativa, ligada ao Poder Executivo) e segundo, como membro da Subcomissão especial do Itamarati, para a elaboração do Anteprojeto de Constituição.

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A seguir, apresentar-se-á as tendências da social-democracia como um fenômeno histórico e que oportunizou, no Brasil, uma das escolhas de instrumentalização do constitucionalismo social.

Benzer Belgeler