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4.5. Zemin Sınıflarının Belirlenmesi

4.5.1. Birleştirilmiş zemin sınıflaması (USCS)

Para Habermas (1976), a ação instrumental conduz as relações travadas entre homem e natureza. Nem mesmo o conhecimento, que resulta das ciências naturais, seria dotado de imparcialidade e objetividade. Haveria, portanto, um certo grau de interesse social por detrás da construção dos fatos científicos. Assim como Alves (2000) também o colocou em seu trabalho, a elaboração dos fatos científicos, mesmo nas ciências naturais, seria diretamente influenciada pela sociedade.

A relação entre sujeito e objeto, portanto, será fundamental para que possamos compreender minimamente a dinâmica da ação instrumental. Como colocado por Latour (1999 e 2001), na modernidade o sujeito está completamente separado do objeto. O sujeito seria dinâmico e o objeto, estático. Por serem estáticos e imutáveis, os objetos podem ser apreendidos através de “leis universais” que, guardadas certas condições iniciais, determinariam a previsibilidade dos fenômenos naturais.

A mediação da técnica e da tecnologia, com o auxílio da ciência, conduzidas pela ação instrumental, geraria o uso utilitário dos objetos. Neste universo, os objetos surgem como insumos passíveis de manipulação, controle e domínio. Ao debater o processo de transformação dos objetos naturais em tecnologias, na engenharia genética, Albagli (1998) observa que a vida em si parece ter perdido o sentido. O que conta no interior de uma atividade movida pela ação instrumental seria a capacidade que um objeto possui para a transformação, ou seja, a prática de manipulação dos objetos teria se tornado mais importante do que o próprio conhecimento sobre os objetos em si. Para Shiva (2001b), a instrumentalização do mundo, a simplificação da vida e a fragmentação do objeto em suas partes “constituintes”, deveriam ser entendidas como formas de “reducionismo tecnocientífico”.

Embora o debate sobre o reducionismo tecnocientífico geralmente seja pautado na dinâmica entre pesquisador e objeto existente nas ciências naturais e, particularmente, sobre as formas assumidas pela dinâmica de pesquisa dos cientistas desta área, a ação instrumental também parece ser o termômetro da interação entre cientistas e populações

tradicionais, quando do desenvolvimento de uma P&D. A descoberta de um fármaco ou de uma nova espécie biológica pode ser viabilizada pelo emprego dos saberes “vulgares” de comunidades locais e/ou indígenas. Etnofarmacólogos e etnobiológos realizam o levantamento dos saberes e práticas medicinais destas populações com o objetivo de conseguir novas descobertas científicas. De um conhecimento a outro, a ciência poderá ser construída. Para Albagli (2001), a utilização de conhecimentos tradicionais funciona como uma espécie de “atalho” para a atividade de pesquisa científica. Este atalho proporcionaria a redução do tempo e do custo da atividade de P&D, seja nas áreas científicas, tecnológicas e industriais. O conhecimento de povos tradicionais, valorizado por cientistas da área de ciência natural, seria aquele ligado às práticas médicas, agrícolas e de estratégias ecológicas de manejo ambiental, que apresentem um reduzido impacto sobe o meio ambiente (FAILING et al, 2007).

Se, na relação sujeito e objeto subjacente às ciências naturais, a natureza surge enquanto um insumo manipulável, o conhecimento de povos tradicionais e tribais seria, igualmente, reduzido a sua capacidade de gerar informações úteis à manipulação. Da mesma forma que a natureza surgiria enquanto caos, o conhecimento tradicional também deverá ser manipulado e ordenado através da ciência moderna, com o objetivo de alcançar a ordem em detrimento do caos. Ao conceituar o conhecimento de povos tradicionais e tribais como uma forma virtual de informação, um vir-a-ser conhecimento, a ciência moderna e a tecnociência possibilitariam a sua redefinição, apropriando-se dela posteriormente, através da aplicação de mecanismos de propriedade intelectual. A legitimidade do conhecimento, portanto, deverá ser instituída de forma unidirecional e unidimensional.

O debate sobre a apropriação da ciência moderna sobre os conhecimentos de povos tradicionais é intenso e rico em controvérsias. Temos o debate no interior da filosofia, da sociologia e da antropologia. Para além destas três áreas, a biologia e a farmacologia que, por lidarem com este tipo de conhecimento no dia-a-dia da pesquisa de campo, também se interessam pelo assunto. No direito, o debate gira em torno das possibilidades de criação de mecanismos sui generis de propriedade intelectual, que poderiam possibilitar a proteção jurídica destes saberes, assim como das práticas e das tecnologias detidas por povos tradicionais (ANTUNES, 2002; WANDSCHEER, 2004).

Atualmente, temos uma agenda de discussões voltada para a análise dos impactos da aplicação de mecanismos de propriedade intelectual sobre o conhecimento tecnocientífico e sobre o conhecimento de povos tradicionais e tribais (FORERO-PINEDA, 2006). Em geral, quando o foco é a temática “inovação tecnológica”, os estudos se encontram

centrados na observação do papel exercido pelos mecanismos de propriedade intelectual para a disseminação sócio-espacial das produções tecnocientíficas, como produtos, processos e, especialmente, sobre a troca de conhecimentos no interior da comunidade científica (GREASLEY e OXLEY, 2006; RUNGE e DEFRANCESCO, 2006). Por outro lado, existem pesquisadores que focalizam o exame dos problemas e tensões originados pela criação de possíveis mecanismos voltados para o estabelecimento da chamada “divisão justa e eqüitativa de benefícios”, nos casos em que ocorra o emprego de conhecimentos de povos tradicionais (BRUSH, 2007; SOERJATO et al, 2005; ARMOUR e HARRISON, 2007). Os critérios adotados para a divisão de benefícios figuram como tópico de suma importância, especialmente quando estes poderão ser desenvolvidos juntamente com a conservação ambiental (SIEBENHÜNER, DEDEURWAERDERE e BROSSEAU, 2005). Em um contexto de tensões entre o norte e o sul pela disputa do acesso e uso dos insumos da biodiversidade, busca-se o estudo de possíveis modelos de propriedade intelectual que contemplem as necessidades sócio-culturais de cada país, orientados para um modelo de propriedade intelectual flexível (PARELLO, 2006).

Neste universo, uma nova ordem sócio-política parece emergir da valorização da biodiversidade e do conhecimento de povos tradicionais, assim como do emprego utilitário desses insumos nos mais distintos processos de P&D. Um dos maiores conflitos verificados refere-se à questão do acesso e do uso da biodiversidade e do conhecimento de populações tradicionais, já que países líderes na inovação tecnológica pleiteiam o livre acesso e o livre uso da biodiversidade e do conhecimento de povos locais, predominantemente existentes nos países em desenvolvimento (SANTOS, 2003). Neste sentido, esta nova ordem dividiria o globo entre países “usuários” e “detentores” de biodiversidade e de conhecimentos de povos locais, aspecto que influenciaria diretamente a criação de discursos favoráveis ou contrários à defesa dos direitos destes povos, assim como da crítica ou do apoio à padronização dos mecanismos de propriedade intelectual (OVERWALLE, 2005).

A idéia de que seria necessária a criação de mecanismos jurídicos aplicados à proteção de conhecimento tradicional vem ganhando adeptos (ZERDA-SARMIENTO e FORERO-PINEDA, 2002). No entanto, algumas das características atribuídas ao conhecimento de povos tradicionais, como a indiferenciação social e a noção de conhecimento coletivo, impedem que estes saberes possam ser devidamente protegidos pelas mesmas leis de propriedade intelectual atualmente aplicadas para a proteção das inovações elaboradas a partir da ciência moderna (ALMEIDA e VARGAS, 2007). Para que uma proteção jurídica eficaz possa ser aplicada, seria necessária a construção de um sistema sui-

generis adaptado à cultura de povos detentores de saberes coletivos (SHIVA, 2001a;

SANTOS, 2003).

Embora a necessidade de proteção aos conhecimentos tradicionais seja geralmente aceita, a principal controvérsia fica a cabo da noção de conhecimento coletivo e de conhecimento difuso, as quais contrastariam com a noção de heterogeneidade intra e inter comunidades tradicionais (GHIMERE et al, 2004). Esta polêmica seria responsável por grande parte das tensões e dos conflitos sobre a real necessidade da criação de mecanismos exclusivamente voltados para a proteção do conhecimento de povos tradicionais. Distante de tal controvérsia, o debate sobre os mecanismos de proteção concentra-se nas discussões sobre as chamadas “proteção positiva”, aplicada à divisão de benefícios, e a “proteção negativa”, aplicada à exploração predatória do conhecimento (OVERWALLE, 2005;). A necessidade de proteger os diretos de sociedades locais ainda poderá ser entendida enquanto uma barreira à modernização, resultado da inexistência de uma tradição propriamente científica em determinados países (WAYLAND, 2004).

A passagem da tradição à modernidade, tomando-se como objeto de pesquisa as distintas formas de conhecimento, originou concepções de progresso e desenvolvimento social. Comunidades tradicionais possuiriam um sistema arcaico de conhecimento, enquanto que sociedades modernas, por outro lado, seriam detentoras de sistemas avançados de conhecimento. A legitimidade social de um saber e de uma ciência, no interior das sociedades modernas, estaria diretamente ligada ao domínio de uma expertise profissional. Essa expertise geralmente deverá ser comprovada através de títulos que atestem institucionalmente o domínio sobre determinado conhecimento. Tradição e modernidade, neste universo, diferenciam-se sob os critérios de objetividade e de subjetividade. Exteriorizar o conhecimento do indivíduo deverá ser uma tarefa metodologicamente traçada. Trata-se de libertar o saber e sua construção dos limites da subjetividade. O cientista moderno seria, portanto, uma espécie de porta voz, pelo qual a natureza “falaria” através das práticas desenvolvidas pelos cientistas (ALVES, 2000).

Para Giddens (1991), a vida na sociedade de alta modernidade pode ser caracterizada pela “destradicionalização” da dinâmica social. A “repetição”, subjacente à tradição, seria transformada em neurose na sociedade moderna. Novamente o par “tradição modernidade” é debatido através da conceituação do conhecimento, particularmente quanto à dinâmica de construção da argumentação cognoscente nos grupos sociais tradicionais e modernos. Para o autor, o conhecimento de povos tradicionais deve ser entendido como uma espécie de “verdade formular”.

A legitimidade de um conhecimento somente poderá ser atingida através da ciência moderna (GIDDENS, 1991). O sistema de conhecimento científico seria despersonalizado, enquanto que o sistema tradicional seria altamente personalizado, sendo legitimado pela figura do agente social que faz as afirmações, ou seja, através do poder social pessoal de quem realiza as inferências. Giddens (1991) denomina esses agentes pelo conceito “guardiões do conhecimento”, espécie de repositórios de saber que possuem a capacidade de instituir um discurso legítimo sobre a realidade. Como o saber tradicional seria oral, não haveria registros objetivos de sua existência. A objetividade de tais sistemas dependeria da aplicação da metodologia da ciência moderna. A inexistência de registros escritos, por exemplo, impossibilitaria qualquer afirmação de maior representatividade, neste sentido, como seria possível afirmar que tal conhecimento sempre existiu? - lembra Giddens.

De acordo com o autor, a legitimidade do conhecimento tradicional somente será reconhecida quando este independer da figura social do guardião, isto é, quando passar por um processo de despersonalização. A segurança do conhecimento científico, neste sentido, encontrar-se-ia assentada sobre o pilar da impessoalidade. Para Giddens, tal impessoalidade não seria verificada nos sistemas de saber “não-científicos”, o que os tornaria um em tipo de conhecimento a ser validado, isto é, uma verdade formular. Para Giddens (1991), os demais tipos de saber poderão ser entendidos enquanto conhecimentos em processo de validação científica.

O progresso social pela via do conhecimento transformaria o conhecimento tradicional em moderno através de uma ação instrumental, voltada para a manipulação e, posteriormente, para a sua apropriação. O conhecimento de comunidades tradicionais seria posto como apenas mais um objeto a ser manipulado por cientistas. Esta ação utilitária, que somente reconhece o esquema de conhecimento moderno, acarretaria sérias dificuldades para as comunidades tradicionais. Um dos principais resultados seria a exploração predatória, voltada para o uso de saberes de comunidades tradicionais sem a repartição justa e eqüitativa de benefícios (VARGAS e ALMEIDA, 2006).