II. BÖLÜM
4.6. Deneysel Uygulama
5.1.1. Birinci Denekle Yapılan Uygulama
“Tudo o que é preciso
é um espaço de tempo vazio e deixar que ele aja a sua maneira magnética.” 45
A centralidade que John Cage possui nos debates sobre a música, os sons, o silêncio e as artes em geral, é fruto de um complexo e instigante pensamento que o compositor propôs ao longo de sua vida. Cage é referência de um grande número de artistas, pensadores e pesquisadores, uma vez que sua atuação no meio artístico e filosófico desencadeou uma profunda cisão dos modelos que regiam o fazer e o pensar a arte, evidentemente refletidas segundo a desorientação e o desconforto advindos da Segunda Guerra Mundial.
Sobre sua formação destaca-se o seu vínculo com o Black Mountain College, faculdade norte-americana situada no estado da Carolina do Norte, inaugurada em 1933 e fechada em 1957. Embora tenha tido um período curto de funcionamento, apenas 24 anos, a faculdade alinhava-se a um método mais liberal de educação, cuja abordagem interdisciplinar incentivava a produção artística além de parâmetros convencionais 46. 43 (WISNIK. 2011, p. 50) – Grifo nosso.
44 OBICI, Giuliano. A condição da escuta. São Paulo: Editora 7 letras e Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo, 2008.
45 (SONTAG, p. 96) 46 (SORKIN, 2012)
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Sobre o pensamento de Cage, alguns autores, como também o próprio compositor, indicam a influência das filosofias orientais conforme ocorreu a aproximação de Cage com o budismo e a prática zen quando ainda no Black Mountain College.
O compositor reflete, em suas palestras e cursos, como também em publicações e depoimentos o debate sobre a arte inserido no contexto prático da filosofia oriental, na qual é a consciência que estrutura a experiência, ao contrário do modelo ocidental da experiência estruturando a consciência. Em oposição à rigidez da música tonal, propõe uma radical ruptura com os parâmetros musicais convencionais em busca de ouvir a música composta pela profusão sonora que irrompe do mundo, marcando um intenso deslocamento da experiência da arte.
O interesse de Cage por espaços vazios, formatos verticais, pelo nada, pelo acaso, pela não intencionalidade, a ausência do eu, pelo uso dos sons ambientes, e pela atenção e estados da consciência, apontam para uma afinidade com as filosofias budistas e sua ampla aplicação nas práticas avant- garde 47.
Resultante deste amálgama em que o pensamento do compositor se constrói, é evidente a qualidade nitidamente “não representacional” que seu projeto artístico- conceitual apresenta dedicado “a modelos alternativos de música e de consciência” 48.
Houve ainda a famosa experiência do compositor em sua visita à câmara anecóica49 no irromper da década de 1950 que lhe trouxe a compreensão de que um
verdadeiro silêncio, tal qual a inexistência de sons, não é possível. Estando no interior da câmara, Cage verificou que o silêncio enquanto ausência plena de sons não ocorre; constatou que mesmo num ambiente tão silencioso quanto aquele ainda havia os sons de seu corpo (interpretados por ele como a sua circulação sanguínea e o seu sistema nervoso
47 “Cage’s interest in empty spaces, vertical formats, nothingness, chance, unintentionally, the absence of
the self, the uses of ambient noises, mindfulness, and states of awereness all point to an affinity with Buddhist philosophies, and their greater application in avant-garde artistic practice.” (KAMPS. p. 85) – Grifo nosso.
48 (KAMPS, 2012, p. 63)
49 Câmara anecóica – uma sala especial totalmente revestida de material com alto coeficiente de absorção,
com isolamento sonoro de quase 100% e no interior da qual verifica-se o maior silêncio possível. (ANTUNES. 1999) A experiência de John Cage na câmara anecóica e seu relato são amplamente discutidos nas discussões sobre o silêncio, pois depois de tê-la visitado o compositor abriu o debate sobre a possibilidade da inexistência de um silêncio absoluto.
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em funcionamento). Em consequência de sua experiência e consciente de que sons são produzidos ininterruptamente, revê seu trabalho e declara: “Eu pensei, honesta e ingenuamente, que existia de fato algum silêncio.”50
Desta maneira, a concepção do compositor em relação ao silêncio dá-se enquanto um exercício capaz de romper e significar em diferentes contextos, incentivando sua compreensão além de sua matéria sonora, como chega a revelar: “Silêncio não é acústico. É uma mudança de espírito” 51.
Em sua trajetória, questionou a “renúncia ao silêncio” 52 (conforme a vê na
cultura ocidental) e criticou as qualidades negativas, como negação e temor, que eram fornecidas ao silêncio, incentivando os interessados no tema a experimentá-lo enquanto matéria prima não só na composição musical, mas para o pensamento e a vida em geral. Para o compositor, o silêncio não mais é concebido somente enquanto experiência acústica, passando a interpretá-lo além dos fatores materiais — “silêncio que não é da ordem da substância, nem do ente, nem do empírico, mas transcendental”.53 Nesta
perspectiva, Cage auxilia a nossa compreensão da maneira como o silêncio é estigmatizado no pensamento do Ocidente para assim refletir sobre o modo em que ele pode participar da produção cultural contemporânea enquanto elemento estrutural devido sua intervenção e sua potencialidade na produção de sentidos.
1.4.3 “4’33””: a dobra do silêncio
Aproximadamente duas décadas após as incursões de Russolo e Satie com suas tentativas de renovar a produção musical, Cage expandiu ainda mais a discussão sobre as formas que definiam a música ao apresentar a peça musical “4’33” 54 em 1952 55, com a
50 (REVILL, 1992, p. 163) 51 (IDEM, p. 164)
52 (FOUCAULT, 1982, p. 2) 53 (HELLER, 2008, p. 14)
54 Em português, a leitura do título da obra é a sua própria duração: “Quatro minutos e trinta e três
segundos”.
55 A peça foi apresentada ao público pela primeira vez em 29 de Agosto de 1952, no Maverick Concert Hall
em Nova York ao comando do pianista David Tudor.
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qual afirmou ainda mais a ruptura com o pensamento tradicional, promovendo um deslocamento de seu formato, bem como do papel do músico e da plateia.
A obra exemplifica a estética radical, e constantemente envolvente de Cage, demonstrando com eficiência que, em primeiro lugar, o artista tem somente que produzir as condições para a ocorrência da produção artística; em segundo lugar, que todos os sons têm o potencial para serem música; e finalmente, que
não existe silêncio real, em nenhum lugar, em nenhum momento, visto que os
sons que emanam do público tornam-se a própria performance. 56
A reação de muitos dos presentes foi a interpretação da peça como uma piada arrogante, uma vez que a partitura da peça é vazia, ou seja, sem notações musicais, seguida pela inação dos músicos, que dispensados da execução musical, rompem com a expectativa do público como este espera de um concerto. Posicionados e acompanhados de seus instrumentos, os músicos permanecem imóveis e em silêncio durante a execução de “4’33””, instaurando a falta dos sons teoricamente musicais e ocasionando uma distensão da representação convencional.
A mediação da arte pelo artista é rejeitada em favor de uma experiência direta. Na peça silenciosa, Cage liberta o público da sala de concerto tradicional de seu próprio silêncio cativo, essencialmente encorajando os ruídos a fim de rejeitar firmemente a ideia de que qualquer forma de arte prescinda de total reverência ao artista.57
O que a peça de Cage promove, portanto, é uma intensiva experiência de escuta, que rompe com a expectativa do público ao negar a música de concerto em favor dos ruídos que emergem involuntariamente, transformando o ambiente e o público como os verdadeiros performers da música a ser ouvida durante quatro minutos e trinta e três segundos: o tráfego da rua ao lado, buzinas, um objeto que cai, vozes, tosses, espirros,
56 “The work exemplifies Cage’s radical, and constantly envolving, aesthetic, effectively demonstrating
that first, the artist has only to produce the conditions for artistic production to occur; second, all sound has the potential to be music; and finally, there is no actual silence, anywhere, at any time, since the sounds emanating from the concert audience become the performance itself.” (SORKIN. 2012, p. 83)
57 “In the silent piece, Cage frees the traditional concertgoing audience from its own captive silence,
essentially encouraging noise in order to firmly reject the Idea that any art form requires total reverence for the artist.” (IDEM. P. 85) – Grifo nosso.
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cochichos etc.: “O homem, ao tentar verificar a existência do silêncio, constata que este não existe por que ele, o próprio homem, interfere no fenômeno introduzindo ruídos: o homem tem ruídos, o homem é ruído”.58
Neste sentido, notamos que o silêncio chega a instaurar uma situação de confronto, uma vez que, localizados em meio ao “silêncio” promovido pelos músicos, os indivíduos que compõem a plateia se tornam os executores da peça. Os ruídos produzidos pelo público, como tosses, passos, conversas, o mínimo atrito de tecidos, destoam e tomam o primeiro plano sonoro do ambiente, ocupando o lugar da música e relativizando o “silêncio” da sala de concerto. Desta situação, poderá irromper um sentimento de exposição, pois o público, circundado pelo silêncio, poderá compreendê-lo como um mal estar, reiterando a noção negativa do silêncio.
O ato contemplativo que organizava a experiência dentro da sala de concerto é, desta maneira, posto em xeque frente à experiência atual da execução, que promove o acaso como o verdadeiro compositor da “música” projetada através dos sons aleatórios que compõem a peça: “A música, suspensa pelo intérprete, vira silêncio. O silêncio da platéia vira ruído. O ruído é som: a música de um mundo em que a categoria da representação deixa de ser operante, para dar lugar a infinita repetição.”59
Ainda, sobre a peça de Cage, Wisnik comenta o funcionamento da obra ao dizer que sua execução se desenvolve como uma “dobra sintomática e irrepetível” instituída por meio do “silêncio” que, paradoxalmente, rompe com a música de concerto por se distanciar da noção convencional de peça sinfônica, evidenciando novos engendramentos tanto para a subjetividade do artista quanto do espectador.
A partir de Cage, o silêncio reaparece em outro nível, tensionado e apresentado numa lógica artística alternativa, em que a representatividade convencional é desafiada em detrimento das novas reflexões que o fenômeno passa a estimular através da produção artística, como a frase de Marcel Duchamp parece sintetizar: “O silêncio é a melhor arte que se pode produzir: é inefável e para o benefício de todos”.60
58 (ANTUNES, 1999, p 2) 59 (WISNIK. 2011, p. 52)
60 (Marcel Duchamp apud. KAMPS, 2012, p. 71)
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