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O desenvolvimento da “ciência” urbana convencional foi realizado pela

perspectiva ecológica e pelo funcionalismo como paradigma. Por esta perspectiva, o desenvolvimento da cidade era compreendido como um processo natural.

Na década de 1960, entretanto, surgiram novas ideias confrontantes ao modelo anterior, principalmente com o advento do maio de 1968, que contou com cerca de 20 milhões de trabalhadores às ruas em greve geral na França. As mobilizações se intensificaram para outros países e ganhou ares de uma visível contestação a diversos campos da sociedade. Tal manifestação, cuja existência esteve identificada, em parte, como produto do urbano, foi, posteriormente, designada de “revolução urbana”. O pós-68 foi rico em termos de produção

77

GOTTDIENER, Mark. Op. Cit.. pp 40-43

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COULON, Alain. A escola de Chicago. São Paulo: Papirus. 1 ed., pp. 18-24

79“Como o nome indica, o interacionismo simbólico sublinhou a natureza simbólica da vida social: as significações sociais dever ser consideradas como ‘produzidas pelas atividades interativas dos agentes’ (...). O que implica, para o observador que

se proponha compreender e analisar essas significações, a adoção de uma postura metodológica que autorize essa análise. O pesquisador só pode ter acesso a esses fenômenos particulares que são as produções sociais significantes dos agentes quando

participa, também como agente, do mundo que se propõe estudar”. (...). O internacionalismo simbólico “afirma que é a

concepção que os agentes têm do mundo social que constitui, em última instância, o objeto essencial da investigação

47 sobre a temática urbana e neste contexto surgiram as principais abordagens marxistas sobre o espaço80.

A crítica marxista se preocupava não somente com a questão da pobreza, mas pela construção do design arquitetônico e do planejamento urbano irrefletido. Em suma: pela construção social do espaço urbano sob orientação do capitalismo. Neste sentido, a leitura marxista da realidade era em um só passo um debate social, econômico e político sobre o urbano e a desenho da cidade.

Embora o próprio Marx tenha se detido pouco à análise da cidade, pode-se perceber que a partir de certas premissas os marxistas desenvolveram a teorização do espaço da cidade. Marx sustenta que a forma espacial está imbricada ao modo de produção de cada sociedade:

A história antiga clássica é a história das cidades, porém de cidades baseadas na propriedade da terra e na agricultura; a história asiática é uma espécie de unidade indiferenciada de cidade e campo (a grande cidade, propriamente dita, deve ser considerada como um acampamento dos príncipes, superposto à verdadeira estrutura econômica); a Idade Média (período germânico) começa com o campo como cenário da história, cujo ulterior desenvolvimento ocorre, então, através da oposição entre cidade e campo; a (história) moderna consiste na urbanização do campo e não, como entre os antigos, na ruralização da cidade81.

Se a cidade antiga era baseada na cidade, o campo era a o espaço em que a produção se desenvolvia, assim a cidade apresentava-se como ilhas urbanizadas em meio ao oceano rural. Na Idade Média, começa a aparecer a primeira oposição entre cidade e campo com o desenvolvimento das atividades artesanais na cidade. E, por fim, na era moderna a cidade mostra-se como o espaço de urbanização do que antes era zona rural. A partir do momento em que o modo de produção deixa de ser eminentemente rural e passa a ser cada vez mais urbano, a cidade explode como o locus hegemônico detentor das diversas atividades humanas (política, economia, cultura). Esta especialização e divisão entre campo e cidade é orientada pelo trabalho, que é a capacidade de intervenção na natureza, sobre a modo de produção.

A maior divisão entre trabalho material e espiritual é a separação entre cidade e campo. (...). Com a cidade surge, ao mesmo tempo, a necessidade da administração, da polícia, dos impostos etc., em uma palavra, a necessidade de organização comunitária e, deste modo, da política em geral. Aqui se mostra, pela primeira vez a divisão da população em duas grandes classes, que se baseiam diretamente na divisão do trabalho e nos instrumentos da produção. A cidade é, de pronto, o fato de

80 GOTTDIENER, Mark.

Op. Cit.. pp. 78, 79

81

48 concentração da população, dos instrumentos de produção, do capital, das fruições das necessidades (...).82

A cidade deixa de apresentar-se como coadjuvante para ser o lugar precípuo onde se estabelece o poder político, a administração, passando a captar grandes somas populacionais em busca de trabalho e a garantia de fruição de suas necessidades materiais.

A partir de algumas premissas como estas espalhadas na obra do filósofo, o pensamento marxista sobre a cidade se desenvolveu ao longo da década de 1970, quando os analistas enfocaram dois aspectos da dinâmica do capitalismo sobre a cidade: o conflito de classes, suas consequências processuais e a lógica de acumulação do capital sobre a reformulação do tecido urbano. Assim, cada estágio responderia por uma forma particular de cidade.

Boa parte dos teóricos deste período (Harvey, Castells, Lefebvre dentre outros), fizeram críticas ao modelo convencional83 sobre o espaço urbano, uma vez que tal paradigma estava fundado no determinismo que considerava as mudanças na forma da cidade como consequência de alterações no âmbito da tecnologia, dos transportes e das comunicações.

Marcelo Lopes de Souza sintetiza a crítica e a importância da abordagem dos teóricos marxistas:

(...) os autores marxistas inauguravam um novo capítulo na história dos estudos urbanos. Ao mesmo tempo em que valorizavam a cidade como objeto de estudo, historicizaram os seus problemas, contrapondo-se ao darwinismo social dos sociólogos urbanos da Escola de Chicago – que reduziu os conflitos a uma competição interindividual nos marcos de uma sociedade sem luta de classes e em analogia a ‘luta pela vida’ no mundo natural – e ao idealismo da Sociologia culturalista. (...). Por fim, mas não com menor ênfase, os analistas marxistas do urbano politizaram o estudo da cidade, ao focalizar os novos movimentos sociais, suas reivindicações e sua interação com o Estado e os partidos84.

A posição ideológica convencional, na qual insurgiram-se os marxistas ou os que partiram do marxismo para elaborar suas teorias, pode ser sintetizada por Robert Park: “A

cidade é uma unidade urbanizada externamente no espaço produzido por leis próprias”85

. A seguir analisarei mais detidamente as principais contribuições de Manuel Castells, Henri Lefebvre e David Harvey sobre a cidade.

82

MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo. 2009, 1 ed. p. 52

83

Essa abordagem convencional da ecologia, da geografia e da economia urbanas era defendida por Park, Burgess, McKenzie, Hawley, Schnore, Borchert, Von Thunen, Berry, dentre outros. GOTTDIENER, Mark. Op. Cit.. pp. 45-76 e 81.

84

SOUZA, Marcelo Lopes. O desafio metropolitano. Um estudo sobre a problemática sócio-espacial nas metrópoles

brasileiras. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2 ed., p. 43-44

85 GOTTDIENER.

Op. Cit. p. 66, apud. PARK, R.; Burgess, E; McKenzie, R. The city. Chicago, University of Chicago Press. 1925. P.4.

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Benzer Belgeler