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Vimos, portanto, que se no sentido do esforço pela ampliação de vagas, há semelhantes empenhos, na forma como esta ampliação é oferecida parece haver, no caso de São Paulo, a preferência por opções que representem menores custos. Uma alternativa que, de fato resulta em economia, na medida em que não se gasta “um único centavo com tijolos” e não precisa gastar com limpeza e segurança, que seriam de responsabilidade das escolas, da

172 prefeitura (os Centros Educacionais Unificados) ou do próprio Estado. Esta alternativa mais barata, porém, restringe como é informado na notícia, a oferta de novas vagas apenas aos cursos do setor de serviços que exigem poucos recursos. Desta forma, menos do que atender as necessidades e interesses dos alunos há a preocupação em oferecer os cursos que representem menos gastos. Mas se a preocupação maior talvez não seja a de atender exatamente os interesses dos alunos a quem deveria atender então este tipo de opção? Alckmin, neste ano de 2010, no comando da Secretaria de Desenvolvimento, responde:

“Além da economia com a expansão das vagas, Alckmin relaciona as escolas técnicas com o dinamismo do mercado de trabalho. "Em uma cidade falta emprego, na outra, sobra. A lógica é fazer um casamento, ver o que o mercado de trabalho precisa. Podemos abrir uma escola técnica de administração hoje, mas não é um curso eterno, amanhã a microrregião pode não precisar mais de formar profissionais com esse perfil."”. (JORNAL DA CIÊNCIA, 13/07/2010)

A resposta parece estar aí: O importante é atender o “dinamismo do mercado de trabalho”. Faltaria acrescentar ao dinamismo o interesse também, uma vez que mesmo o excesso de profissionais formados na área da Administração, por exemplo, não chega a ser efetivamente um problema “para o mercado”. Será sim um problema para os formados na área da Administração que estiverem desempregados ou submetidos a salários rebaixados em decorrência do excesso de mão-de-obra de uma área com elevado número de formados originados da escolha dos cursos mais baratos. Nesta perspectiva, o “mercado” pela sua natureza dinâmica, efetivamente, não perde. Pelo contrário, dispensa e paga menos com mais facilidade. Mas, em se tratando de raciocínios instigantes, não há privilégio do governo estadual de São Paulo. Também no Governo Federal, os argumentos de Eliezer Pacheco, secretário de educação profissional e tecnológica do Ministério da Educação também merecem, no mínimo, atenção:

“"Foram raros os momentos em que o Brasil teve projetos de nação. Tivemos com Getúlio, JK, Geisel e agora com Lula. Por mais que discordemos do regime, o Brasil na época do Geisel tinha plano de crescimento, autonomia energética, fortalecimento das estatais. Naquela época o ensino profissional era forte, estava relacionado com a necessidade de geração de mão de obra qualificada, assim como hoje."”. (JORNAL DA CIÊNCIA, 13/07/2010)

Não havendo a pretensão de analisar todas as implicações políticas e filosóficas potencialmente contidas neste último parágrafo citado, há que se reconhecer o quanto estas poucas palavras do secretário Eliezer Pacheco são ricas no que proporcionam de elementos para estudo e discussão. Mas destes possíveis elementos, dois queremos destacar como pontos

173 que justificavam uma discussão: o primeiro ponto está relacionado à menção feita aos projetos de nação que teriam existido nos períodos de Getúlio, JK, Geisel e agora com Lula. Excluindo as duas personalidades nas pontas desta lista, os outros dois, Juscelino Kubitschek, de um jeito e Ernesto Geisel, de outro, implementaram projetos que longe de expressarem os interesses unificados e homogêneos de uma “nação”, eram expressões de projetos bem fundamentados, formulados e executados por uma estrutura política de poder ligada e subordinada ao Capital Multinacional e seus interesses associados (DREIFUSS, 1981). Então, como demonstra Dreifuss em sua análise sobre os grupos empresariais, internacionais e nacionais, com seus respectivos representantes políticos, agentes e intelectuais orgânicos, que atuaram antes, durante e depois do golpe de 1964, conduzindo o País com seus projetos que eram das classes das quais faziam parte ou eram representantes, remunerados, e não de uma “nação” hipotética. Uma “nação” que pudesse abranger “num projeto” desde o general Ernesto Geisel até o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho. E por falar em Manoel Fiel Filho (operário assassinado nas dependências do DOI-CODI/SP, no dia 17 de janeiro de 1976, um dia após ser detido sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro) morto quando o Brasil era presidido pelo General Ernesto Geisel, vale questionar sobre o segundo ponto levantado das palavras do secretário do MEC que também justifica uma atenção especial: aquele que menciona o ensino profissional “forte”. A qual ensino “forte” será que faz referência? O ensino profissional imposto pela Lei 5.692/71, feito na época do presidente anterior, General Emílio Garrastazu Médici, mas que foi mantida em vigência durante o governo de Ernesto Geisel? Não tendo conhecimento suficiente para identificar qual seria este ensino profissional forte da época do General Geisel e não sendo objetivo desta pesquisa desvendar enigmas desta natureza, vale, contudo, o registro do que pensam as principais autoridades educacionais do País.

Expostos estes pensamentos, do Secretário Estadual de Desenvolvimento, na época Geraldo Alckmin (atualmente governador de São Paulo), sobre os cursos de “custos reduzidos”, do Secretário de Educação Profissional e Tecnológica do MEC, Eliezer Pacheco, sobre o “ensino profissional forte”, do General Ernesto Geisel, neste encerramento da parte da pesquisa dedicada à Educação Técnica oferecida, em especial, pelo Centro Paula Souza, talvez valesse parafrasear as palavras que o coordenador deste Centro utilizou para encerrar sua palestra lamentando “não poder trazer informações melhores sobre a questão da educação e da formação profissional”.

174 Mas também vale lembrar que esta frase foi dita por Almério Melquíades de Araújo, no final de 2005, quando coordenava o Centro Paula Souza (e ainda coordena o Ensino Médio e Técnico deste Centro), sendo que de lá para cá, suas principais críticas, que eram relacionadas à baixa oferta de vagas, começou a receber atenção com o Plano de Expansão. Conforme vimos, este Plano, porém, esbarra na política de contenção de custos que leva à opção pelos cursos mais baratos.

Vimos, também, que a normalização democrática do País trouxe ao Centro Paula Souza, que tinha sido criado no regime da ditadura militar, uma condição a que está sujeito todo órgão do Poder Público, a pressão política influenciada pelo calendário eleitoral. Sem dúvida, havia pressão política na época da ditadura, mas era uma pressão menos complexa do que monolítica.

2.7.9. A Relação entre as Disputas Eleitorais e os Projetos de Expansão do Ensino

Benzer Belgeler