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TÜRK BİRA SEKTÖRÜ

2.1 Cumhuriyet Dönemi Öncesi Ve Cumhuriyetin İlk Yıllarında Türk Bira Sektörü

2.1.1 Tanzimat Sonrası Biracılık

2.1.1.1 Birahanelerin Açılması

Embora durante a atuação de Alberto Pasqualini no legislativo municipal o mesmo tenha se posicionado, via de regra, de forma contrária que se fizesse a utilização da tribuna para render homenagens a lideranças políticas ou nomes de políticos e também de seus partidos e que se colocassem em ata e, portanto, constantes no conteúdo dos registros dos anais a fixação dessas mesmas falas, pode- se afirmar, contudo, que, em pelo menos uma ocasião, o próprio vereador representante da oposição na Câmara viu-se como foco central e objeto dessas mesmas falas de conteúdo elogioso e personalizante.

Nos meses finais do ano de 1936, Alberto Pasqualini envolveu-se em uma polêmica acerca do conteúdo de um parecer por ele emitido. O problema teve início durante a discussão de um projeto de lei que alterava alguns dispositivos que

regulavam a cobrança da dívida ativa. Ao emitir seu parecer sobre o projeto, o referido vereador da FUG propôs a redução do percentual que era atribuído na cobrança da dívida ativa do município com o Estado que deveria passar de 8% para 5%. Na verdade, os procuradores do município entenderam que o vereador estaria advogando contra o Estado, prática que não era permitida aos membros do legislativo municipal. Assim, depois de pouco mais de 2 meses de discussões em torno do pedido de cassação, a questão foi resolvida por uma votação entre os vereadores daquela legislatura que alterou a Lei Orgânica do município e passou a não permitir aos vereadores apenas o patrocínio de causas contra o município.

Em função desse episódio, Alberto Pasqualini manifestaria-se, através de uma fala de agradecimento aos demais vereadores, durante uma das sessões legislativas do mês de novembro de 193645. Na ocasião, notam-se aspectos significativos da fala

do referido vereador sobretudo em relação à maneira como enxergava as funções por ele exercidas no legislativo municipal. Além disso, pode-se colocar ainda que, Alberto Pasqualini manifestava-se, novamente, em forma de aparte, interrompendo a fala de conteúdo elogioso que a ele mesmo foi dirigida pelo vereador Ludolfo Boehl:

O Sr. Ludolfo Boehl – Peço a palavra, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente – Tem a palavra o nobre vereador.

O Sr. Ludolfo Boehl – Sr. Presidente, meus nobres colegas. O motivo que me traz, novamente, á tribuna desta nobre Camara é um assumpto que diz respeito a nós todos, no desempenho despreendido de nosso árduo mandato, outorgado pela população da Capital.

Em nossos trabalhos, Sr. Presidente, até a presente data, jamais houve discordância, quanto aos interesses da collectividade.

O ponto de vista em que cada um de nós se coloca, quanto examina aos interesses da população, não é o sentimento partidário que se apresenta perante á Camara de Porto Alegre, e sim, o sentido do bem publico, respeitados, no entanto, os ideaes de nossas correntes partidárias.

O conteúdo da fala do vereador do PRL salientava que não teria havido, até aquele momento, alguma “discordância” no que diz respeito aos “interesses da collectividade”, argumentando, a partir disso, a oposição que existiria entre o “sentimento partidário” e o “sentido do bem publico”. Na verdade, a oposição salientada pelo vereador do PRL aparecia ao longo da sua fala como ensejo para justamente referir-se à atuação parlamentar de Alberto Pasqualini durante os debates travados nas sessões legislativas. Na sequência da sua fala na tribuna, outros

45 Annaes da Camara Municipal de Porto Alegre. Oficinas Gráficas da Livraria do Globo. 1936, p.

vereadores se manifestaram, reconhecendo, inclusive, que a atuação do vereador Alberto Pasqualini configurava-se como oposição:

A Camara de Porto Alegre, em que a maioria deveria ser, incontestavelmente, constituída de juristas, possue, no entretanto, em seu seio, a representação de todas as classes sociaes; o commerciante, o medico, o advogado, notando-se, entre estes, duas figuras distinctas e proeminentes dentro da sciencia juridica de nossa terra, o nosso illustre Presidente e o nosso distincto e prezado collega da opposição, Dr. Alberto Pasqualini.

Nota-se, ainda, a remissão da fala do vereador ao percurso profissional de Alberto Pasqualini em relação à “sciencia juridica” vinculando-o ao “illustre Presidente”, neste caso, o vereador Jayme da Costa Pereira, presidente da mesa da Câmara e membro do PRL. Além disso, no trecho inicial, Ludolfo Boehl chegava a afirmar que a Câmara “deveria ser, incontestavelmente, constituída de juristas” embora possuísse “a representação de todas as classes sociaes; o commerciante, o medico, o advogado”. Assim, o conteúdo da fala, então, embora estivesse dirigido a Alberto Pasqualini, passava, ao mesmo tempo, a aproximá-lo dos demais membros daquela legislatura, sobretudo em relação aos próprios vereadores do PRL. Quando o vereador Pereira Filho introduz uma expressão de apoio à argumentação exposta na fala de Ludolfo Boehl, o mesmo tende a, no detalhe, valorizar, igualmente, o percurso profissional do médico:

O Sr. Pereira Filho – Muito bem.

O Sr. Ludolfo Boehl – Temos, também, a figura nobre e distincta de verdadeiro patriota, ddo illustre Professor Pereira Filho, que além dos trabalhos prestados á collectividade como scientista e como verdadeiro apostolo da caridade, no desenmpenho de sua funnção, vem, ainda, com a sua assistência, trazer a sua cooperação efficiente e esclarecedora para a resolução de todos os problemas que dizem respeito ao bem estar de nossa metrópole.

Assim sendo, Sr. Presidente, sou insuspeito, como adversário intransigente do nobre e distincto Vereador Dr. Alberto Pasqualini, e por isso sinto-me bem me trazer á Camara um appello para que esta num movimento de solidariedade, proteste contra a pretendida cassassão do mandato deste nobre e desprendido collega.

Ao expor, no conteúdo de sua fala, na ordem, o comerciante, o médico e o advogado, referia-se, especificamente, ao vereador Curt Mentz, também do PRL, na sequência, ao vereador Pereira Filho, que exercia a função de médico, ou seja, tratava-se de um percurso profissional extremamente valorizado, assim como demonstrado anteriormente neste mesmo capítulo. Por fim à função de advogado,

esta relacionado ao percurso profissional tanto de Alberto Pasqualini quanto de Jayme da Costa Pereira.

O Sr. Curt Mentz – Peço a palavra, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente – Tem a palavra o nobre Vereador.

O Sr. Curt Mentz – Peço, Sr. Presidente, se lance, na acta de nossos trabalho de hoje, um voto de protesto contra a attitude dos srs. Procuradores municipaes que promovem a cassassão do mandato do nobre Vereador Sr. Alberto Pasqualini.

De fato, pode-se afirmar que Ludolfo Boehl pretendia, com a sua fala, aproximar o nome de Alberto Pasqualini dos membros de seu próprio partido, o PRL, através dos seus respectivos percursos profissionais e da valorização dos mesmos pelo conjunto dos vereadores ouvintes. Desta forma, o vereador Curt Mentz, chamado ao debate pela fala de Ludolfo Boehl, tratava de solicitar ao presidente da mesa que se lançasse “na acta dos trabalhos de hoje” um “voto de protesto contra a attitude dos srs. Procuradores municipaes que promovem a cassassão do mandato do nobre Vereador Sr. Alberto Pasqualini”. Na prática, pode-se afirmar que o pedido de Curt Mentz era de que as falas dos vereadores até aquele momento fosse transcrita para o registro, em linguagem verbal, no conteúdo dos anais da Câmara Municipal, elemento que novamente demonstra a preocupação dos vereadores com a transcrição de seus pronunciamentos. Vale notar que não somente o apoio a Alberto Pasqualini seria transcrito, mas também as subsequentes falas de conteúdo elogioso aos membros do PRL, realizadas, como demonstrado, pelo vereador Ludolfo Boehl. Na sequência da dinâmica das falas daquela sessão:

O Sr. Presidente – Está em discussão a proposta do Sr. Vereador Curt Mentz, precedida das considerações do Vereador Sr. Ludolfo Boehl, no sentido de se lançar, na acta dos nossos trabalhos um voto de protesto contra a attitude assumida por alguém que pretende requerer ao Tribunal da Justiça Eleitoral, para a cassassão do mandato do nosso nobre collega Sr. Vereador Alberto Pasqualini.

O Sr. Presidente – Si nenhum dos Srs. Vereadores deseja mais fazer uso da palavra, vou encerrar a discussão.

Está encerrada. Votação.

Os Srs. Vereadores que approvam a proposta do Sr. Vereador Curt Mentz, queiram ficar sentados.

(Pausa). Approvado.

Nota-se, na fala do então presidente da mesa, vereador Jayme da Costa Pereira, a referência à “Justiça Eleitoral”. Cabe salientar que o instituto foi criado no contexto imediatamente posterior à Revolução de 1930, sobretudo de modo a conciliar os interesses dos principais grupos políticos então em confronto e reorganizar o jogo político nacional. Tratava-se de um órgão que passou a existir por meio do decreto n.º 21.076 de 24 de fevereiro de 1932 e que resultou da proposição das diversas subcomissões legislativas criadas após 1930 para a reforma das leis, subordinadas a uma Comissão Revisora Geral, presidida pelo próprio Ministro da Justiça. Desta maneira, a referida subcomissão era integrada, dentre outros, por políticos como Assis Brasil –um dos principais expoentes das lideranças do PL no estado do Rio Grande do Sul desde 1928 – além de João Cabral e Mário Pinto Serva. O decreto indicado, além da criação do novo ramo do Poder Judiciário, tratava do alistamento e do processo das eleições46. Sendo assim, a própria Justiça Eleitoral, vinculada

intensificadamente ao contexto de reorganização das forças políticas da época, era, igualmente, mobilizada nas falas dos vereadores na Câmara Municipal entre os anos de 1936 e 1937. Além disso, vale salientar que os então procuradores municipais, embora tivessem intencionado a cassação do mandato, o processo, na verdade, não chegou a ocorrer efetivamente. Seja como for, na continuação do já referido debate em relação à cassação, o próprio Alberto Pasqualini pronunciou-se:

O Sr. Alberto Pasqualini – Peço a palavra Sr. Presidente.

O Sr. Presidente – Tem a palavra o nobre Vereador.

O Sr. Alberto Pasqualini – Sr. Presidente, meus nobres collegas. Sou profundamente reconhecido ás palavras que acabam de ser proferidas pelo meu nobre collega, Sr. Ludolfo Boehl, e pelo illustre collega Sr. Curt Mentz, e profundamente grato ao gesto desta Casa, solidarizando-se commigo no incidente surgido com os srs. Procuradores Municipaes, fazendo consignar na acta dos nossos trabalhos de hoje, um protesto á attitude por elles assumida.

Tomo, Sr. Presidente, o gesto de V.V. Excias. Com uma manifestação de amizade e do elevado espírito de colleguismo que reina nesta Casa.

Realmente, como accentuou o nobre collega, Sr. Ludolfo Boehl, no exame e nas discussões de todos os assumptos que tem sido trazidos ao plenário, não

46 A significação do “novo instituto” foi apreciada por Edgar Costa: “A revolução política de 1930,

invocando como sua principal justificativa a fraude e corrupção eleitorais, que minavam a própria subsistência do regime democrático, deixou, inegavelmente, como a sua melhor conquista, a reforma do sistema eleitoral, iniciada com o Código de 1932. O ponto culminante dessa reforma foi a instituição da Justiça Eleitoral que, acima dos interesses partidários, se erigiu como a mais lídima garantia da verdade e da legitimidade do voto, isto é, da realidade do sufrágio popular, e, consequentemente, da consolidação daquele regime. A essa Justiça especial, com a atribuição de proceder à apuração dos pleitos, foi conferida a de proclamar os eleitos, abolindo-se assim a fase de reconhecimento de poderes até então exercido pelos próprios órgãos legislativos, prática que vinha deturpando a seriedade e a verdade das eleições”. Sobre isso ver especificamente: A legislação eleitoral brasileira. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1964. p. 133.

houve nunca da parte de ninguém quaesquer preocupações de natureza partidária.

O Sr. Presidente – Muito bem.

Deve-se fazer notar que a fala de Alberto Pasqualini, influenciada pelas demais anteriores que procuravam aproximá-lo dos membros do PRL, embora fosse, ao mesmo tempo, considerado enquanto oposição, seguia pela mesmo alinhamento argumentativo quando afirmava: “não houve nunca da parte de ninguém quaesquer preocupações de natureza partidária”. Pode-se afirmar que, na verdade e conforme o que foi anteriormente demonstrado, o conteúdo dessa sua fala parece, inicialmente, contrariar os aspectos significativos da oposição que frequentemente exerceu no conteúdo e nos modos de inserção de seus pronunciamentos, com relação aos membros do PRL, ou seja, sobretudo no que diz respeito às suas principais manifestações em forma de apartes. Neste caso, em especial, portanto, o vereador Alberto Pasqualini não somente aceitava, embora sua abstenção, a inclusão da sequência dessas falas nos registros dos anais da Câmara, como contrariava o aspecto, possivelmente, mais significativo da sua atuação política e parlamentar naqueles ano de 1936. No entanto, na continuidade da sua fala, voltava a afirmar a separação entre a “colectividade” e a “corporação política”, reiterando que a Câmara deveria se ater mais ao primeiro do que ao segundo ponto:

O Sr. Alberto Pasqualini – Devo confessar, e dizer a todos os nobres collegas que si algum dia me fosse imposta a obrigação de tomar essa ou aquella política, dentra desta Casa, a isso preferiria renunciar ao meu mandato, porquanto a Camara Municipal não é Camara política e sim uma corporação onde todos nós devemos trabalhar pelo bem da colectividade.

O Sr. Pereira Filho – Muito bem.

O Sr. Alberto Pasqualini – Quando o eleitorado de Porto Alegre e, no meu caso, o eleitorado da Frente Única, me conferiu o mandato de Vereador, impoz-me, ao mesmo tempo, a obrigação de desempenhal-o. Não fosse o compromisso que me vincula ao nobre eleitorado da Capital, não se tratasse ainda de mandato gratuito, eu já teria, há muito tempo, a elle renunciado, porquanto devo confessar que as minhas obrigações e affazeres, não me permitem exercel-o como desejaria.

Devo, também, declarar que si os Srs. Procuradores Municipaes forem bem succedidos no seu intento e o Tribunal Eleitoral resolver cassar o meu mandato, ficarei agradecido, quer aos Procuradores como ao Tribunal, de me aliviarem desse pezado encargo, tanto mais que possuo a certeza de que serei substituído por companheiro que desempenhará melhor esta funcção. (Não apoiados).

Reitero o meu commovido agradecimento a todos os collegas pelo nobre e elevado gesto de amizade que tiveram para commigo.

Na manifestação de caráter pessoal que finalizava sua participação na dinâmica dessas falas, Alberto Pasqualini mostra-se sensivelmente ambivalente: por

um lado, reiterava a sua mais significativa forma de inserção nos debates, sublinhando, neste aspecto, a sua principal crítica em relação aos membros do PRL, embora rechaçada no trecho anterior da mesma sequência; por outro lado, referia-se a um possível terceiro destinatário: “o nobre eleitorado da Capital”, que o se configurava, no seu caso, o “eleitorado da Frente Única”, o qual teria imposto ao vereador a obrigação de desempenhá-lo. Na sequência do mesmo excerto ainda colocaria que: “obrigações e affazeres” não o permitiriam “exercel-o como desejaria”. Assim, pode-se dizer que, possivelmente, neste específico trecho de sua fala, o vereador da FUG soubesse que, uma vez que a transcrição nos anais fosse realizada, outros, além dos vereadores diretamente envolvidos, teriam acesso ao seu conteúdo. Utiliza-se, na verdade, do expediente da “falsa modéstia” para garantir que agradeceria a homenagem e a aceitaria inclusa nos registros, porém, demonstraria o reforço do argumento daquilo que denominou como “obrigação” que, sobretudo o seu “eleitorado”, o haveria imposto.

Na verdade, a crítica que Alberto Pasqualini frequentemente exercia aos seus interlocutores do PRL vinculava-se enquanto uma prática no conteúdo das falas dos vereadores daquela legislatura, lógica da qual nem mesmo o próprio vereador da oposição, então coligado à sigla da FUG, igualmente não conseguiu escapar. Tratava- se, neste sentido, de uma específica estratégia discursiva das falas de Alberto Pasqualini e que caracterizaram, de modo bastante significativo, a atuação política e parlamentar do referido vereador na dinâmica do debate político da sua época. Pode- se, assim, afirmar que a sua estratégia, embora vinculada ao especial modo de oposição que fazia ao PRL, continuaria evidente também no trabalho que realizava junto a Comissão de Petições, Reclamações e Redação da Câmara Municipal de Porto Alegre também entre os anos de 1936 e 1937. Da mesma forma que Alberto Pasqualini não pode ser visto como um político que discursava longamente ou que utilizava-se da tribuna para realizar a leitura de longos pronunciamentos, também ele não foi o principal autor dos pareceres emitidos pela referida comissão da qual fazia parte. Isso não quer dizer que não entraria em desacordo com seu grupo formado na comissão e não continuaria se utilizando de seu especial modo de inserção por meio de apartes.