Ao chegar nessa etapa, a de conclusão do estudo, penso que não se trata de chegar agora as considerações finais, de dizer algo definitivo sobre o tema que escolhi investigar. Com um olhar de quem olha “de perto e de dentro”, procurando perceber as vivências de sujeitos que ingressaram no ambiente universitário, chego a alguns achados de pesquisa. Esses não têm a pretensão de serem definitivos, mas de criarem novas perguntas, de seguir questionando, aprofundando a discussão, de seguir conversando.
Ao buscar conhecer e analisar as trajetórias escolares de estudantes no sertão cearense que, apesar de condições socioeconômicas desfavoráveis e ausência de projetos de longevidade escolar, ingressaram no ensino superior, busquei organizar a pesquisa em dois eixos: 1) compreender as estratégias que os estudantes utilizam para permanecer e ter êxito no ensino superior; 2) discutir as políticas de expansão e interiorização da educação superior que se colocaram sob uma perspectiva de democratização desse nível de ensino. Esses dois pontos nos permitiram construir uma narrativa das trajetórias escolares a partir de uma análise macro e microssociológica, focando tanto nas experiências vivenciadas pelos interlocutores da pesquisa quanto na compreensão do contexto histórico no qual estão inseridos.
Nossa premissa inicial foi a de que as políticas de expansão e interiorização do ensino superior implementadas com mais intensidade nos anos de 2003 – 2016 possibilitaram que segmentos populacionais historicamente excluídos desse nível de ensino tivessem a oportunidade de ingressar em cursos universitários. No entanto, nossos achados apontam que para falar de democratização da educação é preciso considerar também as condições de acesso, permanência e êxito que circundam os itinerários estudantis.
No que se refere às trajetórias pesquisadas encontramos alguns pontos em comum que merecem destaque: 1) nenhum dos estudantes teria ingressado no ensino superior se não fosse as ações de expansão e principalmente de interiorização que permitiram esse acesso ao ensino superior se desse mais próximo de seus locais de moradia e da referência familiar. 2) as dificuldades de permanência e êxito são agravadas pelas necessidades econômicas que já existiam antes de cursarem o ensino superior, mas que também foram intensificadas tendo em vista a assunção de novas necessidades. As estratégias de superação dos limites que essas condições impõem acontece, em sua maioria, através da busca por trabalho, apoio institucional como auxílios estudantis, bolsas de monitoria e pesquisa, ou de apoio de colegas e familiares; 3) um dos principais problemas enfrentados para ter um bom rendimento acadêmico reside na qualidade do ensino básico público e nas condições de aprendizagem que
tiveram. Encontramos nesse fator uma das razões que dificultaram o processo de afiliação e integração ao ensino superior, além da origem social. Embora tenham concluído a educação básica, o acesso ao conhecimento e a efetiva aprendizagem se mostrou insuficiente para o desenvolvimento de um habitus estudantil; 4)
Bourdieu e Passeron (2014) ao analisarem o percurso escolar de estudantes universitários franceses reafirmam que a origem social, mais que outros marcadores sociais de distinção como gênero, idade, religião, referências familiares, é condição para o sucesso escolar, sobretudo, no ensino superior. Essa origem social também demarca a relação com o saber, principalmente com a reprodução de capital cultural, tendo em vista que a tradição pedagógica de seleção e transmissão de conhecimentos, da educação básica ao ensino superior, está ligada à reprodução da cultura das classes dominantes, desconsiderando, muitas vezes, as demandas e saberes construídos na e pelas classes populares.
Segundo esses autores, para os grupos que não são portadores de uma herança cultural e de condições sociais e econômicas favoráveis, a relação com o saber e com o ensino superior, de forma geral, se caracteriza pela atividade laboriosa, de esforço, de negações e privações, além da grande perspectiva de mobilidade social depositada no diploma do ensino superior. Nessa perspectiva, amparados nas referências desses autores e nas análises mostradas ao longo dessa dissertação, sugerimos como forma de melhorar o trabalho da instituição escolar no atendimento aos estudantes oriundos de camadas populares, uma mudança no modelo de organização pedagógica do ensino superior. A necessidade de se conhecer o perfil social dos estudantes que ingressam no ensino superior como primeiro momento de um planejamento escolar, assumindo assim a perspectiva da equidade social durante todo o percurso do ensino e o desenvolvimento de metodologias de aprendizagem voltadas para as demandas e necessidades apresentadas pela maioria dos estudantes, nos parece ser o inicio do desenvolvimento de estratégias que dialoguem com as desigualdades sociais e educacionais e rompa com a lógica da manutenção de privilégios sociais ensejados pela transmissão de uma herança cultural.
Nessa mesma perspectiva, Coulon (2008) propõe a pedagogia da afiliação que consiste em buscar desenvolver atividades que compensem o déficit de capital cultural e aprendizagem trazidos dos percursos escolares anteriores. Seria um modelo de ensino em que se busque criar disposições nos estudantes para o desenvolvimento de técnicas para escrever, realizar pesquisas bibliográficas, visita a equipamentos de arte e práticas que possibilitem o desenvolvimento de uma autonomia intelectual.
significa considerar a implementação de uma nova pedagogia, uma nova relação e transmissão do saber
Assim, mesmo com o intenso processo de expansão que permitiu que mais estudantes tivessem acesso ao ensino superior, não podemos falar em democratização da educação superior, quando as oportunidades de acesso, permanência e êxito ainda permanecem desiguais, mesmo que em menor grau se comparado a vintes anos atrás. Os estudos desenvolvidos por Souza (2009) mostraram que ainda existe uma estratificação social do acesso ao ensino superior público, sendo as vagas ocupadas em cursos de maior prestigio e concorrência por uma maioria de jovens provenientes de grupos privilegiados social e economicamente.
Embora não possamos afirmar que a restrição econômica é condição suficiente para compreensão das facilidades e dificuldades para os processos de integração e afiliação ao ensino superior dos estudantes interlocutores deste trabalho, não podemos desconsiderar o peso que essa condição impõe para o desenvolvimento de trajetórias escolares de sucesso. Ter as condições básicas de sobrevivência satisfeitas representa para os estudantes uma condição necessária para se dedicaram mais e com maior qualidade aos estudos. Sob esse aspecto, politicas de permanência como a assistência estudantil é vital para esses estudantes, desde que não seja desenvolvida e compreendida como a única política capaz de garantir o direito a educação.
E por fim, parece oportuno dizer que nesse estudo nosso recorte de análise foi a origem social como marcador de distinção no ensino superior, no entanto, existem outros marcadores sociais que também merecem ter os estudos aprofundados, como as necessidades educacionais especificas. Como se dá o acesso, permanência e êxito de pessoas com necessidades educacionais específicas como transtornos mentais, transtorno global do desenvolvimento, altas habilidades e pessoas com deficiência? Eis, uma das questões a serem desenvolvidas em estudos posteriores, sob a metodologia de retratos sociológicos.
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