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BilirkiĢi Ġncelemesinin Gerekli Olup Olmadığı TartıĢması

2. MARKA DAVALARINDA BĠLĠRKĠġĠLĠK

2.1 BilirkiĢi Ġncelemesinin Gerekli Olup Olmadığı TartıĢması

De forma geral, os eventos de branqueamento registrados neste trabalho ocorreram em resposta às variações dos parâmetros ambientais. Oscilações positivas de temperatura e transparência horizontal e oscilações negativas de salinidade em conjunto, foram respondidas pelas quatro espécies monitoradas com aumento da média de branqueamento.

A despeito das variações ambientais, sabe-se que a densidade de simbiontes exibe flutuações sazonais diminuindo durante o verão e aumentando nas estações seguintes (Fitt et al. 2000) e que, em circunstâncias comuns, o coral saudável não perde zooxantelas ao ponto de ficar totalmente branco (Fenner & Heron, 2008). Desta forma, a dinâmica de branqueamento e recuperação exibida pelas quatro espécies neste estudo esteve dentro de uma faixa de variação que não resultou em desdobramentos deletérios e irreversíveis neste complexo recifal, mesmo que o pico de temperatura tenha sido superior ao valor máximo apontado para a APARC

(segundo dados do INPE). Essas variações devem ser interpretadas como

evidências consistentes de que vários fatores agem em sinergia promovendo o branqueamento (Rowan et al. 1997; Fitt el al. 2001), ou seja, mesmo que a densidade de zooxantelas seja variável no tempo, a troca significativa de células parece ocorrer em resposta a pelo menos um parâmetro abiótico (Dunne & Brown, 2001).

Os resultados deste trabalho apontaram a temperatura como o parâmetro mais influente na dinâmica do fenômeno, mas de acordo com Jones et al. (1998) e Fitt et al. (2001) os eventos de branqueamento natural são o resultado da combinação entre a elevação da temperatura da água e a radiação solar. Essa interação deve ser considerada, pois o efeito do aumento da temperatura na água sobre o processo de branqueamento é frequentemente mais lento, enquanto a radiação solar subaquática pode variar rapidamente, por exemplo, de acordo com as condições da cobertura de nuvens, da qualidade da água e do eixo de incidência dos raios solares (Dunne & Brown 2001). Além disso, a exibição repetitiva a altas doses de radiação fotossintética anterior a um pico de temperatura pode conferir tolerância aos corais frente a estresses térmicos definindo assim os padrões do

branqueamento natural (Fitt et al. 2001; Brown et al. 2000; Jones et al. 1998), além de adaptá-los às adversidades posteriores (Fautin & Buddeimeir, 2004).

O presente trabalho verificou que as maiores variações das médias de branqueamento ocorreram nos períodos mais quentes e de maiores valores da transparência horizontal da água. Neste caso, a visibilidade pode ser interpretada como uma medida indireta da influência da radiação solar, uma vez que a transparência da água é uma das condições que potencializa o efeito deste parâmetro (Dunne & Brown, 2001). Adicionalmente, a diminuição da salinidade pode reduzir a tolerância do coral a estresse térmico (Berkelmans & Oliver, 1999). Durante este estudo, oscilações da média de branqueamento foram atribuídas também aos baixos valores da salinidade durante boa parte do período como consequência do regime de chuvas prolongado que, segundo notificações do NOAA, decorreu do fenômeno La Niña. Embora não existam registros pretéritos da variação dos parâmetros abióticos e branqueamento para a área, observou-se, de maneira geral, que os padrões de branqueamento exibidos foram resultantes da associação entre as variáveis mencionadas.

A variação das médias de branqueamento entre espécies foi significativamente diferente, mas o padrão da dinâmica foi notavelmente semelhante. S. stellata exibiu média máxima de branqueamento concomitante ao pico de temperatura, enquanto M. alcicornis, F. gravida e P.astreoides exibiram atraso entre o pico de temperatura e suas respectivas médias máximas. De fato, táxons distintos exibem tolerâncias distintas e reconhecida variação de susceptibilidade aos fatores dirigentes de branqueamento (Marshall & Bair, 2000).

O aumento da temperatura em 1°C durante um mês (entre Dezembro de 2010 e Janeiro de 2011) promoveu discreta elevação na taxa de branqueamento de

S. stellata, M. alcicornis e F. gravida respectivamente. Destas, M. alcicornis foi a

espécie que exibiu a resposta de branqueamento mais rápida enquanto S. stellata e

F. gravida exibiram elevação gradativa na média de branqueamento. Por outro lado,

a recuperação de M. alcicornis e F. gravida foi consideravelmente rápida na primeira quinzena após o pico de branqueamento.

Estudos indicam que espécies do gênero Millepora exibem susceptibilidade severa a branqueamento, diferente do que ocorre com muitos corais massivos (Marshal & Bair, 2000), havendo registros de grande mortalidade desses organismos após eventos de El-Niños (Stafford - Smith, 1993). No entanto, em casos de anomalias climáticas não severas pode ocorrer branqueamento reversível sem danos acumulativos, entre outras razões, pela aclimatação dos simbiontes em períodos pré-pico de temperatura, como sugerido anteriormente (Banaszak et al,

2003), ou seja, a diferença quanto ao período e intensidade de resposta pode ser um

reflexo da diversidade de interações entre o hospedeiro e as zooxantelas, com consequente variedade de reações diante do fator estressante (Fautin & Buddeimeir, 2004).

Por outro lado, Goreau & Hayes (1994) indicaram que o branqueamento típico perceptível visualmente surge algumas semanas após início da anomalia térmica. Nesse sentido, era esperado que S. stellata exibisse aumento adicional da média de branqueamento após o pico de temperatura, mas não foi o que aconteceu, o que sugere uma possível aclimatação no período pré-pico (32°C) de temperatura

concordando com Jones et al. (1998) e Fitt et al. (2001). Além disso, estudos

experimentais conferem ao gênero Siderastrea um importante papel como indicador ambiental por este apresentar considerável sensibilidade (não no sentido de fragilidade) às oscilações de fatores abióticos tais como temperatura (Wenner et al.1996). Ou seja, o presente estudo mostra que possivelmente a radiação solar exerceu um papel importante no processo de branqueamento, adaptando o coral a uma condição de maior resistência para suportar o maior pico de temperatura sem que as taxas de branqueamento aumentassem ainda mais.

S. stellata tem se mostrado resistente às condições adversas, sobrevivendo

em ambientes com variações diárias de temperatura que atingem até 5°C de amplitude (Poggio, 2007). Uma das condições que possivelmente proporcionam essa adaptabilidade ao hospedeiro diante de perturbações ambientais é a menor densidade de zooxantelas quando comparada a outras espécies brasileiras (Costa et al. 2001). Do ponto de vista do branqueamento, Costa et al. (2001) mencionam que o fenômeno pode ser menos impactante para as colônias uma vez que a baixa densidade de simbiontes parece conferir resistência a branqueamento.

Um padrão notável foi exibido por P. astreoides que apresentou o pico de branqueamento decorrente dos efeitos do aumento da temperatura e da transparência horizontal da água e diminuição da salinidade 30 dias após o pico de temperatura, com um atraso de resposta concordante com o previsto em literatura para corais em geral (Goreau & Hayes, 1994). Marshall & Bair (2001) e D’Croz et al. (2001) mencionam as espécies do gênero Porites com baixa susceptibilidade ao branqueamento, havendo variações regionais que refletem a variabilidade genética do hospedeiro ou dos clados de simbiontes. D’ Croz et al. (2001) também sugerem para uma espécie de Porites do Panamá que o parâmetro indutor de branqueamento desse animal é a temperatura, pois sua estrutura esquelética confere condições para que os pólipos retraiam profundamente, mantendo-se protegidos contra radiação nociva. Desta forma, a média máxima de branqueamento exibida por P. astreoides neste estudo, provavelmente foi induzida pelo pico de temperatura (32°C), uma vez que a primeira oscilação que correspondeu a um aumento da média de 10% para cerca de 45%, ocorreu 15 dias após este pico.

F. gravida é reconhecida por exibir susceptibilidade moderada ao

branqueamento (Marchall & Baird, 2001). De fato, nesse estudo observou-se que essa espécie foi a mais lenta quanto à elevação da taxa máxima de branqueamento e quase tão rápida quanto M. alcicornis para recuperar.

A recuperação gradativa exibida por todas as espécies à medida que os valores de temperatura diminuíram num período de três a quatro meses, contrasta com Dutra (2000) que apontou um período necessário de cerca de oito meses para a recuperação de corais nos recifes da Bahia após os El Niños de 1997/1998. Entretanto, o evento de 1997/1998 foi reportando como um dos mais severos das últimas décadas o que reforça a ideia de que branqueamentos severos exigem mais tempo para a recuperação.

A dinâmica de branqueamento e recuperação exibida ao longo do ano incluiu discretas oscilações. Neste estudo, houve aumentos das taxas de branqueamento para as diferentes espécies após Julho de 2011, e tais discretas oscilações, segundo Baghdasarian & Muscatine (2000), podem ser relacionadas a variações da densidade de zooxantelas. Os nossos resultados indicam o aumento da média de

branqueamento esteve positivamente relacionado com a transparência horizontal da água. Entretanto, eventos discretos podem ter sido ocasionados pela diminuição nos valores deste parâmetro decorrente do aumento da intensidade dos ventos (Agosto e Setembro), uma vez que o aumento de chuvas e a diminuição da visibilidade da água parecem ser fatores que definem padrões de branqueamento em recifes do Brasil (Leão et al. 2010). De fato, a turbidez da água pode promover condições adversas à fotossíntese e, considerando que o sinal que mantem a simbiose seja o fluxo contínuo de nutrientes das zooxantelas para o coral (Lesser, 2011), essas condições podem ter levado à expulsão de células de simbiontes em pequena proporção, com possível troca de clados.

Uma das grandes ameaças decorrentes de episódios severos se branqueamento é a ocorrência de doenças que já culminaram com altos índices de mortalidade (Raymundo et al. 2005; Kaczmarsky, 2006), sendo a causa do declínio de diversos recifes ao redor mundo. Os registros de doença mencionados neste trabalho devem ser confirmados através de análise microbiológica. No entanto, pode-se afirmar que o aumento da incidência dos registros mencionados foi relacionado à diminuição de temperatura e salinidade. Sabe-se que o aumento da incidência de doenças tem ampla associação com eventos de anomalias térmicas

(Selig et al. 2012). Entretanto, a diminuição da salinidade é um indicativo indireto

de aporte de água doce no ambiente marinho e possível entrada de matéria orgânica poluente oriunda da costa, promovendo condições para o desenvolvimento de patógenos causadores de doenças, inclusive branqueamento (Aeby et al. 2011). Por outro lado, pode ter ocorrido como um efeito tardio do branqueamento (Bruno et al. 2007), embora nenhuma relação tenha sido observada pelas análises em time lags. De maneira geral os resultados apresentados e discutidos no presente trabalho indicam que os corais dessa área exibem padrões bem determinados de adaptação ao regime local de variação dos parâmetros ambientais, com elevação das taxas de branqueamento e recuperação ao longo do ano, respondendo a fatores de estresse de forma resistente exibindo uma adaptação eficiente. Leão et al. (2010) citam que, mesmo estando submetidos a condições ambientais extremas, os recifes brasileiros não tem apresentado mortalidade em massa de corais decorrente de

eventos de branqueamento, sugerindo que os esses ecossistemas são bastante resilientes.

No Parracho de Maracajau, mesmo após o forte evento de branqueamento registrado em 2010 (ONG Oceânica, 2010), a mortalidade de corais não foi registrada como um fenômeno alarmante. Comparando as médias de branqueamento iniciais (de 50% a 100%) com as médias finais (de 10 a 15%), aliado aos dados de cobertura de corais dos últimos dez anos (Ferreira & Maida, 2006; e resultados deste trabalho), observa-se que os corais mostram boa recuperação. Outro registro de branqueamento em 2010, relatou o branqueamento de 70% a 80% dos corais em recifes da Índia submetidos a 34°C durante cerca de dois meses, sem registro de grande mortalidade (Vinoth et al. 2012), semelhante ao ocorrido em Maracajaú. Isso indica que a aclimatação dos recifes de corais e a adaptação dos mesmos frente às mudanças climáticas talvez sejas maiores do que supunham as hipóteses mais impactantes.

É importante considerar que a mortalidade de corais é associada à intensidade e duração do fator de estresse, no caso mais frequente, a temperatura das águas superficiais do mar (Spillman, 2012). De acordo com as notificações da NOAA, o El-Niño 2009-2012 responsável pelo branqueamento de 80% dos corais em Maracajaú (ONG Oceânica, 2010) foi de intensidade moderada, seguido por forte La Niña.

Estudos realizados em recifes do Caribe mostraram que as consequências dos eventos de branqueamento, especialmente os mais severos, dependem não só das anomalias térmicas, mas dos impactos que comprometem a resiliência do ecossistema, e que quanto mais fragilizado o ecossistema estiver maior será a intensidade e a escala das consequências (Eakin at al. 2010). A fragilidade desses ambientes tem sido atribuída à sobre-exploração de recursos pesqueiros que comprometeu a funcionalidade do ecossistema que foi então induzido para a mudança de fase de dominância de coral para dominância de algas a cada distúrbio ambiental, culminando no colapso de muitas áreas (Jackson et al. 2001; Bellwood et al. 2004). Esses relatos soam o alerta para a necessidade de monitoramento e manejo adequados a longo prazo na área de estudo do presente trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo diante de cenários catastróficos previstos e uma vasta literatura tradicional pessimista é importante ressaltar que a resiliência da interação entre corais e simbiontes é o fator chave na determinação da tolerância do organismo frente a estresses ambientais mais fortes (Wicks et al. 2012).

Apesar da ausência de pesquisas específicas no Parracho de Maracajaú, os resultados do presente estudo podem ser um indicativo de que a resiliência da comunidade de corais neste ecossistema tem se mantido a despeito dos impactos antropogênicos oriundos do desenvolvimento das comunidades costeiras adjacentes.

De fato, as áreas marinhas protegidas têm o propósito de assegurar a manutenção da biodiversidade que, por sua vez, mantêm as funções do ecossistema potencializando sua habilidade de recuperação após eventos de distúrbios (Hughes et al. 2003). Nesse sentido, este trabalho pode trazer uma visão otimista para as práticas de manejo na área.

Os resultados de cobertura, padrões de dinâmica de branqueamento e baixa incidência de doenças e mortalidade aqui apresentados e discutidos apontaram claramente que nos recifes de Maracajaú as espécies de corais têm desenvolvido tolerância ao regime local de variações dos parâmetros abióticos, permitindo a expectativa de que, após situações de estresses ambientais severos, esses recifes tenham possibilidades de se recuperarem caso os impactos antropogênicos locais não promovam mudanças significativas sobre os atributos de resiliência do ecossistema. E é sobre a manutenção dessas condições que as pesquisas científicas e estratégias de manejo devem atuar (Selig et al. 2012).

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