2.3. Yaratıcılık ve Hayal Gücü
2.3.3. Bilimsel Hayal Gücü
Os clubes Quem Ri de Nós têm Paixão, fundado em 1921 e o Está Tudo Certo, de 1931, foram os clubes com menor duração, mas não menos importantes. Existiram cerca de duas décadas. O Está Tudo Certo teve como principal mantenedor um dos donos do jornal A Alvorada, Juvenal Penny, ficou presente na memória local a sugestão de que ele tivesse criado esse cordão para os jovens aproveitarem o carnaval e que tivesse grande vinculação com o cordão do Fica Ahí.
Nesse sentido, é importante destacar que o Está Tudo Certo teve sua existência melhor documentada através das páginas do jornal A Alvorada, provavelmente em decorrência de seu mantenedor ser um dos proprietários do referido jornal. O mesmo se destacou ainda pela grande interlocução com os demais clubes co-irmãos, como podemos perceber em notícia de 4 de fevereiro de 1934, em que o clube através de sua diretoria feminina, noticiavam uma série de chás dançantes, a serem realizados aos finais de semana, os quais seriam dedicados aos co-irmãos. Assim, é possível perceber que durante o mês de fevereiro de 1934 o clube dedicou um chá dançante a cada final de
semana homenageando os clubes na seguinte ordem: Fica Ahí P’ra Ir Dizendo, Chove
Não Molha, Depois da Chuva e Quem Ri de Nós Tem Paixão149, iniciativa semelhante
havia sido promovida em dezembro de 1931. Embora tenhamos encontrado trânsito com os demais clubes negros, a passagem a seguir foi significativa do mesmo, assim como da organização objetivada e alcançada pelo Está Tudo Certo:
Este novo cordão desfilou domingo pelas principais ruas da cidade entoando canções ao som de sua orquestra e sendo acompanhado pelos seus bonecos gigantes. Este clube foi ao encontro do Fica Ai que retornava de Rio Grande encontrando-o na sua passagem na rua Dr. Cassiano esquina Andrade Neves onde se encontraram tendo seus estandartes entrelaçados em confraternização e foram juntos até a sede (A Alvorada, 14/02/1932, p. 3).
A organização do mesmo é captada ainda através da observação dos cargos que compõem uma das primeiras diretorias, no ano de 1933, nas qual constavam os seguintes cargos: presidente, vice-presidentes, secretários, tesoureiros, oradores, porta- estandarte e porta-bandeira, procuradores, diretores da orquestra, arquivistas, diretores,
diretores ativos, diretores artísticos, ensaiadores, zeladores e fiscais150, estes cargos
foram mantidos no ano de 1935151. Este clube, o qual possuía as cores verde e branco
em seu estandarte, caracterizou-se pelo grande número de atividades proporcionadas a seus sócios e simpatizantes, entre estes destacamos os bailes, chás dançantes e festivais. Os festivais eram realizados nos teatros da cidade e divulgados na imprensa, como por exemplo, o que ocorreu em junho de 1932 no Coliseu Pelotense, o qual foi dedicado aos co-irmãos e clubes esportivos e, o que ocorreu em dezembro do mesmo ano oferecido
aos co-irmãos, sendo que neste teve-se a exibição de um filme152. Os festivais podiam
ser oferecidos ainda em homenagem a coroação das rainhas do clube, como aconteceu
no ano de 1937 no Teatro Avenida153. Nos bailes e reuniões dançantes eram executadas
musicas pela orquestra do referido clube ou pelas jazz bands, nas quais destacavam-se, entre outros ritmos, a polca de roda, caracterizada pela dança em que as mulheres tiram
seus pares para dançar154.
Atividades semelhantes às desenvolvidas pelos demais clubes foram encontradas no Quem Ri de Nós Tem Paixão, o qual na primeira década de sua existência desenvolveu algumas atividades, como bailes e reuniões nas sedes da Liga Operária e
149 A Alvorada, 8/12/1932, p.3, 11/12/1932, p. 3 e 25/12/1932, p.3. 150 A Opinião Pública, 17/01/1933, p.1. 151 A Alvorada, 26/05/1935, p.6. 152 A Alvorada, 18/12/1932, p.4. 153 Diário Popular, 2/02/1937, p. 3. 154 A Alvorada, 6/11/1932, p.3; 18/12/1932, p.2.
do Grupo 24 de Junho155. Entre 1921 e 1930 o clube participou do carnaval de rua da
cidade e recebeu elogio de jornais locais156, com exceção do ano de 1927, quando não
se fez presente. Porém, nos primeiros anos da década de 1930, o clube passou por um
processo de reorganização, sendo que em 1932 foi referido como um pequeno cordão157
e começou a se reerguer no ano de 1934, com o apoio dado pelo co-irmão Depois da
Chuva, no salão do qual realizou suas festas158. Ao final da mesma década encontrava-
se reerguido e participou de atividades do carnaval de rua da cidade, como a próxima passagem deixou transparecer:
Também dará nota invulgar no carnaval deste ano o simpático cordão "Quem ri de nós tem Paixão" que tão dignas vitórias têm conquistado em anos anteriores. A sua saída dar-se-á, às 17 horas, de sua sede social [...]. Compõe- se de 10 pessoas o cordão "áureo-rubro" tendo ainda 30 figuras na responsabilidade de sua orquestra. A disposição a ser tomada para a passeata de amanhã, é a seguinte: 4 balizas, primeiro Pierrot, pontas Arlequins de Veneza; centro arauto; Porta-estandarte, Nadyr Alves, que apresentará indumentária de guerreiro e os guarda de honra pastores da Hungria; 2º porta- estandarte, Sadi Espírito Santo, fantasia de príncipe oriental e pajens; porta- bandeira, Aracy Pinto Nogueira, que ostentará fantasia de Pierrot futurista e as guarda de honra Tirolesas. Em destaque apresentar-se-á ainda, "dama de 1830", "Pastoras da Hungria", e outras. Diretor de canto, "Fiscal", coro misto, "Espanhóis do carnaval do Atlântico" e as senhorinhas "Pastoras". Marchas a serem cantadas durante os dias consagrados ao Deus da Folia: "Rema, rema", "Não sei por que", Eu chorei, você chorou", "Diná Carmem", "Pegando Fogo", "Nada de Novo".., e o samba "Alma de um povo". O diretor do Cordão Dorval S. Belchior e regente o Sr. Carlos V. Figueira. A comissão do Carnaval está assim constituída: José Conceição Leite, Lidio Barcelos, José Maria Falcão, Homero Xavier, Enjolbas Xavier, Osvaldo Montes e Osvaldo Linhares (Folha do Povo, 18/02/1939, p. 3).
...
Em Pelotas o trânsito dos membros entre o jornal A Alvorada, cordões e associações operárias foi muito intenso, como buscamos demonstrar ao longo do capítulo. Muitos membros dos cordões estavam presentes na redação da Alvorada e também no movimento operário da região, definindo-se assim um paralelo desses cordões, também exercendo e demonstrando necessidades e ideias vigorantes em ambos. Esse trânsito entre entidades classistas, congregadoras da raça e de sociabilidade em geral, foi proposto por Loner (2001) da seguinte forma:
155 O Rebate, 17/10/1921, p. 3; Diário Popular, 6/02/1930, p.3 e 8/02/1930, p.3. 156 Diário Popular, 3/03/1925, p.3; 04/02/1930, p.3.
157 A Alvorada, 17/04/1932, p. 2-3. 158 A Alvorada, 27/05/1934, p.3.
Essa dupla representação era uma necessidade para os elementos mais conscientes da comunidade negra, pois sua luta era também dupla. Assim, ao mesmo tempo, eles tinham que participar de sindicatos ou associações de classe e de associações representativas da raça, recreativas ou esportivas. [...] Essa ligação entre a militância operária e a militância negra estará presente em várias ocasiões e em numerosas associações, contribuindo para manter um tom mais proletário mesmo nesses clubes recreativos e, provavelmente, pode estar na base de várias tentativas de reorganização de entidades sindicais, nos duros anos da República Velha (LONER, 2001, p. 241-242).
Destacamos a grande interlocução existente entre a associação de trabalhadores Liga Operária e quatro dos clubes negros locais, sendo importante enfatizar que somente no clube Fica Ahí P’ra Ir Dizendo não se encontrou essa vinculação. Isto ficou evidente ao atentarmos para o inicio da organização dessas associações, visto que os quatro clubes referidos utilizaram-se dos salões da referida Liga para desenvolver suas atividades, algo que pode sinalizar no sentido de que muitos negros estavam atuando em ambas as frentes, recreativa, étnica e operária, o que justificaria a busca pelo apoio dessa associação classista.
Buscamos ao longo do capítulo contextualizar a cidade de Pelotas no pós- Abolição e o conseqüente surgimento de uma série de novas associações negras as quais buscaram de diferentes formas oferecer espaços de sociabilidade aos seus membros tendo algumas destas se envolvido diretamente na busca por uma inclusão social. Entre estas destacamos os clubes negros, os quais buscaram a nosso ver, consolidar uma rede de sociabilidade que incorporou os co-irmãos, clubes e times de futebol assim como grupos recreativos menores. Nesse sentido, empenharam-se na busca pela consolidação de um espaço de lazer em que pudessem se encontrar e confraternizar com seus irmãos de cor. Além disso, destacamos a consolidação destes locais enquanto espaços de unidade que foram se fortalecendo e mantendo atividades as mais diversas possíveis, o que evidencia o objetivo que extrapolava os limites dos momentos de recreação carnavalesca e estava dando base para que se pudesse instituir uma identidade positiva aos membros desses clubes através de sua organização interna a ser exteriorizada através de suas diversas atividades as quais foram devidamente registradas não apenas pela imprensa negra, mas também pela imprensa em geral da cidade de Pelotas.
Acreditamos que o espaço estava então consolidado e a partir deste eles se propuseram a servir como reduto da etnia, fruto da discriminação vigente na cidade que impedia a participação de negros nos demais clubes sociais, tidos como clubes de brancos. Assim, eles passaram a agir como importantes idealizadores da união da raça
negra, traçando metas de ação que ora assemelhavam-se à busca de consolidação de uma identidade negra, ora a uma assimilação dos valores vigentes na sociedade dominante, composta predominantemente por brancos, e ora mesclavam esses elementos em busca de via alternativa de sobrevivência e inserção na sociedade brasileira. Assunto, o qual abordaremos no próximo capítulo.
A seguir trataremos especificamente do jornal que dá sustentação a esta pesquisa e sua interlocução com as demais associações negras do período de efervescência cultural em torno do carnaval, o qual percebeu o surgimento de uma gama de associações negras, o que ao mesmo tempo em que demonstrou uma diversificação nos interesses dos diferentes segmentos do grupo negro da cidade evocava ainda o preconceito racial que continuava a se manter na cidade. Estas questões serão abordadas a partir de então, visto que em conjunto com essas associações de cunho recreativo existia um projeto que identificamos enquanto de diferenciação social somado a busca constante pelo distanciamento da carga pejorativa que ainda permanecia sobre o elemento negro. Esta carga foi em grande medida combatida durante a existência da organização negra que mais abertamente, de acordo com o que as fontes nos permitiram interpretar, buscou englobar a comunidade negra em busca de um denominador comum, a instrução, tão pretendida e buscada pela Frente Negra Pelotense. A mesma foi criada em 1933, por militantes negros com circularidade em diferentes associações negras pelotenses inclusive dentro dos clubes sociais negros, tinha como porta-voz de suas ideias o jornal A Alvorada. O que evidencia a consolidação de uma rede social negra em movimento a ser abordada no próximo capítulo desta pesquisa.
3. IDENTIDADE(S) NEGRA(S) NOS CLUBES SOCIAIS NEGROS DE PELOTAS: