A- Mali Bilgiler
3- Sayıştayın Mali Denetimi Sonuçları
Uma análise criminológica, sobretudo crítica, possibilita a compreensão dos processos que incidem sobre a definição dos delitos e dos mecanismos instituídos para o seu trato, notadamente esta abordagem abarca macro-fatores que detém relevante influência como causas estruturais do problema, mas não é capaz de verificar os micro-fatores, especificamente a relação de poder existente no âmbito interpessoal ao qual as teorias feministas chamam de patriarcado.
Compreendido como uma relação de poder e dominação, o patriarcado tem raízes históricas e se apresenta como uma matriz cultural, responsável por definir a assimetria dos sexos nos campos social, econômico e jurídico. Conforme pode ser verificado no capítulo 1 deste trabalho dissertativo, o Direito detém um papel muito importante para a manutenção desta relação, pois inicialmente chegou a “legitimar” essa forma de subordinação feminina, assegurando e até reforçando a secularização deste poder, que de modo recursivo se incrustou no modo de vida social como esquema inconsciente de percepção e compreensão convergentemente segundo padrões androcêntricos, definindo papéis dispares entre os sexos.
Por conseguinte, demonstra ser relevante para entender sobre os fatores que interagem para a eclosão dos atos de violência doméstica e familiar contra a mulher a análise destas forças patriarcais e sua forma de incorporação na vida social, o que apenas é possível a partir de uma abordagem sociológica, logo optou-se por adotar como marco teórico as ponderações de Pierre Bourdieu que perpassam pelas definições de “poder simbólico” e “violência simbólica”78 como categorias-raízes das formas de dominação masculina.
Ao abordar o tema, essencialmente no livro “A dominação masculina”, Pierre Bourdieu (2000, p. 17) descreve que sua análise parte de uma pesquisa etnográfica das estruturas objetivas e das formas cognitivas que operam sob um viés androcêntrico sobre o inconsciente.
78 Apesar de ser melhor tratada nos momentos seguintes deste texto, incialmente deve ser compreendida como
“(...) violência que se exerce com a cumplicidade tácita dos que a sobrem e também, com frequência, dos que a exercem, na medida em que uns e outros são inconscientes de exercê-la ou de sofrê-la” (BOURDIEU, 1997, p. 22).
Inicialmente, é importante destacar que, segundo uma lógica focada na sexualidade, de fulcro essencialmente biológico, vislumbra-se a constituição da divisão “masculino” versus “feminino”, como oposição que se sustenta mutuamente, formando esquemas de pensamento de aplicação universal, que recorrem a esta distinção como categorização “natural”. A partir de tais circunstâncias, Bourdieu destaca que a polarização social segundo os preceitos masculinos de dominação ocorre mediante duas operações específicas que se acumulam e determinam, especificamente quando: “legitima una relación de dominación inscribiéndola en una naturaleza biológica que es en si misma una construcción social naturalizada” (BOURDIEU, 2000, p. 37, grifo do autor).
A construção social naturalizada é desenvolvida a partir do momento que essa concepção distintiva de cunho biológico acaba sendo inscrita na ordem das coisas, pois determinados objetos ou atividades acabam sendo apontados como adequados ao homem ou a mulher, como por exemplo, cores, veículos, brinquedos etc., mas também uma divisão inscrita nas ações e comportamentos como a divisão do trabalho e os ambientes de convivência majoritária. Neste contexto, as ordens física e social impõem as mulheres tarefas essencialmente domésticas, lhes exigem delicadeza e, sobretudo, um recato na esfera sexual que não é correspondido em igual medida pelos homens, o que, entre outras questões, é acatado e reproduzido como padrão de comportamento feminino.
Los princípios opuestos de la identidad masculina y de la identidad femenina se codifican de ese modo bajo la forma de maneras permanentes de mantener el cuerpo y de comportarse, que son como la realización o, mejor dicho, la naturalización de una ética (BOURDIEU, 2000, p. 42).
Estes esquemas de distinção, essencialmente binários, ao se relacionarem com outros atributos (por exemplo, forte versus fraco) e homologamente se atrelarem a partir dos esquemas cognitivos à diferenciação “biológica”, acabam por estipular a assimetria entre os sexos, cujo aspecto de dominação ganha escopo quando tanto os dominantes quanto os dominados seguem os mesmos esquemas, alinhavando-se ideologicamente, mas em posições também binárias. Desta maneira, este processo representa a inserção da objetividade em tal aspecto de diferenciação, acarretando na sua reprodução ainda que atrelada ao corpo ou em outros âmbitos (símbolos) como atributos do sexo, repercutindo, por conseguinte, na vida social, o que é tratado como “topología sexual del cuerpo socializado” (BOURDIEU, 2000, p. 20).
Vislumbra-se desta forma que o reconhecimento deste processo de diferenciação em outros aspectos da vida social é formulado segundo a lógica de que “(...) só se torna signo
e signo de distinção (ou de vulgaridade) se lhe aplicarmos um princípio de visão e de divisão que, sendo o produto da incorporação da estrutura de diferenças objetivas (...), está presente em todos os agentes” (BOURDIEU, 1996, p. 23), logo é segundo esse mesmo mecanismo que se desenvolve o processo de distinção sexual, especificamente a partir da concordância entre as estruturas objetivas (reconhecimento de “distinções” naturais) e as estruturas cognitivas relacionadas a estas últimas, as quais são alinhavadas como esquemas de percepção, que, sem grandes reflexões e críticas a seu respeito, são facilmente atreladas aos corpus sob a forma de atributos, que não apenas constituem possibilidades de diferenciações como também carregam consigo esquemas de pensamento e ação, desta forma a medida em que há a correspondência das expectativas também haverá a objetivação desta relação como “atitude normal”. Desta forma, “El mundo social construye el cuerpo como realidad sexuada y como depositario de principios de visión y de división sexuantes” (BOURDIEU, 2000, p. 22)79.
Essas distinções ganham o aspecto de normalidade quando “(...) los principios de visión y de división que proponen están objetivamente ajustados a las divisiones preexistentes, consagra el orden establecido, llevándolo a la existência conocida y reconocida, oficial” (BOURDIEU, 2000, p. 21). Desse modo, constata-se que há um processo de somatização, entre as ordens biológicas e sociais, desenvolvido com o auxílio de estruturas como religião e direito, que não apenas consagram a dominação estabelecida, como também tornam esta realidade como oficial.
O poder masculino emerge deste contexto a partir da sua imposição como discurso “neutro”, como força que insurge sem necessitar de justificação, ratificado apenas pela distribuição dos papeis e dos espaços sociais, os quais reservam o ambiente público para o homem, enquanto que o privado às mulheres, dentre outras distinções fruto de aspectos objetivos de compreensão e sua ligação a atributos desta divisão com raiz biológica e, ao mesmo tempo, social.
Gracias a que el principio de visión social construye la diferencia anatómica y que esta diferencia social construida se convierte en el fundamento y en el garante de la apariencia natural de la visión social que la apoya, se establece una relación de causalidad circular que encierra el pensamiento en la evidencia de las relaciones de dominación, inscritas tanto en la objetividad, bajo la forma de divisiones objetivas, como en la subjetividad, bajo la forma de esquemas cognitivos que, organizados de acuerdo con sus divisiones, organizan la percepción de sus divisiones objetivas. (BOURDIEU, 2000, p. 24).
79 Para Bourdieu (1996, p. 27), o espaço social parte de um ponto de vista como “princípio de visão assumida a
partir de um ponto situado no espaço, de uma perspectiva definida em sua forma e em seu conteúdo pela posição objetiva a partir da qual é assumida. O espaço social é realidade primeira e última já que comanda até as representações que os agentes sociais podem ter dele”.
A partir deste contexto, é importante anotar que quando há a conformidade dos dominados segundo este esquema de percepção determinado pelo rito da dominação, os atos de conhecimento acabam tornando-se também atos de “reconhecimento”, de submissão (BOURDIEU, 2000, p. 26). Por conseguinte, perante as disposições sociais atreladas ao sexo, o princípio masculino, incialmente ligado ao discurso do “neutro” mas simbolicamente ligado ao positivo, é tomado como parâmetro central, ponto cardeal80, consequentemente a
representação feminina é situada no polo oposto, angariando as opções restantes, axiologicamente subsidiária dos preceitos elegidos pelo homem. Por conseguinte, observa-se que os fundamentos da divisão dos estatutos sociais de ambos os sexos são eleitos pela razão androcêntrica.
Essa forma de representação repercute, inclusive, sobre o ato sexual, circunstância em que o homem é posto como sujeito ativo e seu exercício possui um valor positivo agregado, simbolicamente caracterizado como exemplo da força e virilidade81 masculina, enquanto isso a
mulher é tratada numa condição de passividade, simbolicamente ligada ao estigma da “fragilidade” ou como “objeto” para atendimento da lascívia do homem, imagem esta que a mídia muitas vezes tenta explorar. Deste modo, compreende-se que até mesmo no ato sexual constata-se a demonstração da existência de relações assimétricas dirigidas segundo o desejo masculino.