Em nossa proposta almejamos compreender nuances que circundam processos de ensino em sala de aula. Assim, colocamos frente a nossa pesquisa a seguinte questão: Quais ações tomadas pelo professor promovem o
surgimento e desenvolvimento da argumentação pelos estudantes no contexto do ensino por investigação?
Para responder a tal questão, além de um esforço para e organização e compreender teorias relacionadas ao problema, é necessário adotar uma metodologia de pesquisa adequada que nos permita obter conclusões pertinentes sobre as ações tomadas pelo professor que possibilitaram o surgimento e desenvolvimento da argumentação dos estudantes, como descrito pela própria questão de pesquisa.
Dado esse delineamento inicial, nosso trabalho se enquadra no contexto das pesquisas qualitativas, uma vez que almejamos interpretar principalmente o discurso verbal do professor e, consequentemente, dos alunos, bem como suas ações realizadas em sala de aula (CARVALHO, 2011b).
A pesquisa qualitativa, amplamente utilizada em pesquisas na área de ciências humanas, é implementada para permitir o entendimento de fenômenos sociais complexos que dificilmente podem ser acessados por meio da quantificação de dados e procedimentos estatísticos sofisticados. Seguindo essa metodologia, o pesquisador procura minimizar a lacuna entre elementos teóricos e os dados empíricos utilizando de análises que se baseiam, principalmente, na percepção e compreensão de fenômenos por meio de descrições e interpretações ancoradas em distintas teorias. De acordo com Stake (2011), qualquer tipo de pesquisas exige que se façam interpretações, mas a pesquisa qualitativa “(...) depende muito da definição e da redefinição dos observadores sobre os significados daquilo que veem e ouvem” (p. 46).
A justificação da escolha pela pesquisa qualitativa pode ser distinta, mas, conforme colocado por Strauss e Corbin (2008), a principal razão para se optar por esse método é a natureza do problema de investigação. Em nosso trabalho, os dados a serem analisados foram selecionados para nos mostrar comportamentos dos membros que compõem a sala de aula, em especial as ações tomadas pelo professor. Considerando a essência desse problema e as particularidades que circundam o contexto dos dados, a quantificação das interações discursivas não nos permitirá a obtenção de conclusões significativas no que tange a nosso intuito de responder nossa questão de pesquisa, pois pelo fato de nos atentarmos a apenas um caso dentre inúmeros possíveis, não esperamos generalizar comportamentos, mas construir um panorama que possibilite elucidar ações que possam desencadear atitudes e comportamentos específicos, no caso, a argumentação dos estudantes.
Outro ponto que justifica a nossa escolha pela pesquisa qualitativa está apoiado nas ideias de Erickson (1998) que afirma que a pesquisa qualitativa é apropriada para estudos em educação, principalmente quando se almeja “identificar as nuances do entendimento subjetivo que motiva os vários participantes; e identificar e compreender mudanças ao longo do tempo” (p. 1155, tradução nossa).
A natureza do problema é um dos primeiros motivos pela escolha da pesquisa qualitativa, mas é necessário deixar claro nossa visão do que vem a ser essa metodologia, pois, apesar de ser bastante recorrente em pesquisas da área de ciências humanas e sociais, principalmente nos estudos em educação, há divergências entre suas concepções.
Lüdke e André (1986 apud CARVALHO, 2011b) apresentam dentro da visão etnográfica seis características da pesquisa qualitativa:
– A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento. – Os dados coletados são predominantemente descritivos. – A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto. – A análise dos dados tende a seguir um processo indutivo. – os pesquisadores não se preocupam em buscar evidências que comprovem hipóteses definidas antes do início dos estudos. – As abstrações forma-se ou se consolidam basicamente a partir de inspeção dos dados num processo de baixo para cima. (LÜDKE e ANDRÉ, 1986, p.11-13 apud CARVALHO, 2011b, p. 24)
Conforme a discussão feita por Carvalho (2011b), referência principal adotada neste trabalho, sobre cada um dos pontos mencionados acima, nosso processo de pesquisa seguirá algumas particularidades. Primeiramente, assim como discriminado por Lüdke e André, teremos um ambiente natural como fonte de dados, em nosso caso, a sala de aula, mas o pesquisador não é o nosso principal instrumento de coleta e sim uma câmera de vídeo e gravadores de áudio, que nos permitirão fazer a coleta de imagens e falas que, posteriormente, serão transformados em dados para serem analisados de forma a nos permitir construir conclusões e respostas a nossa questão de pesquisa.
No que tange a relação entre processo e produto, em nossa análise ambos são importantes, pois direcionar a atenção apenas ao processo não nos permitiria inferir nenhum tipo de garantia às conclusões obtidas, ou seja, retomando o nosso problema de pesquisa, apesar de termos interesse central nas ações desencadeadoras de argumentação realizadas por um professor, é imprescindível que saibamos quais são constructos elaborados pelos alunos.
O processo de análise dos dados, de fato, tende a carregar um caráter indutivo, mas não é possível afirmar que para todos os casos não há preocupação com a busca de evidências para comprovação de hipóteses. Antes mesmo do início do processo de investigação desta pesquisa, acreditamos que há ações típicas realizadas por um professor que desencadeiam a argumentação de seus alunos. Sendo assim, essas hipóteses são essenciais em nosso trabalho, pois elas orientam expressivamente o nosso olhar sobre o objeto investigado, definindo, eventualmente, o que queremos ou poderemos observar. Com isso não queremos dizer que as análises realizadas buscam apenas corroborar ou refutar hipóteses elaboradas previamente, mas que estas auxiliam no direcionamento de
esforços a aspectos cruciais ao processo de investigação e obtenção de conclusões.
Finalmente, com relação à construção de abstrações ocorrer “de baixo para cima”, essa característica possui particularidades e não pode ser aplicada em todos os casos, como, por exemplo, no desta pesquisa. Concordamos que a análise de dados é o que permite a formação e consolidação de abstrações, mas os resultados desse processo são gerados por meio da interação entre referenciais teóricos e os diferentes dados a serem analisados.
Diferentemente da explanação de Lüdke e André e da interveniência feita por Carvalho (2011b) nas características da pesquisa qualitativa apresentadas, Strauss e Corbin (2008), sugerem que a pesquisa qualitativa é composta por três componentes principais, conforme explicitado na citação a seguir:
Primeiro, há os dados, que podem vir de várias fontes, tais como entrevistas, observações, documentos, registros e filmes. Segundo, há os procedimentos, que os pesquisadores podem usar para interpretar e organizar os dados. Eles geralmente consistem de
conceitualizar e reduzir os dados, elaborar categorias em termos
de suas propriedades e dimensões, e relacioná-los por meio de uma série de declarações preposicionais. Conceitualizar, reduzir, elaborar e racionar sempre são referidos como codificação. (...)
Relatórios escritos e verbais são o terceiro componente. Eles
podem ser apresentados como artigos em jornais científicos, em palestras (ex.: conferências) ou livros. (p. 24, ênfase no original)
Nos passos propostos por esses autores, vemos que a pesquisa qualitativa perpassa pela tríade dados, interpretação dos dados e divulgação. Retomando o que já foi apresentado até esse ponto e apresentando parte o que será exposto nos capítulos seguintes, os dados dessa pesquisa serão oriundos de uma situação empírica de sala de aula, gravados na forma de vídeo; os procedimentos para interpretação desse material perpassou pela revisão teórica da literatura, no momento em que apresentamos diferentes trabalhos que versam sobre as variáveis relacionadas à questão de pesquisa, pela elaboração de categorias baseada na organização desse referencial teórico e que posteriormente serão utilizados na análise dos dados, já codificados, para a obtenção de conclusões. E, sendo redundante, a divulgação desse material é expressa pela própria dissertação, trabalhos de congressos e eventuais artigos científicos e que puderam ser elaborados com base nos resultados alcançados.
Finalmente, é relevante destacar que mesmo que a pesquisa de caráter qualitativo, em essência, não dê grandes enfoques na quantificação e análise
estatística de dados, alguns dados quantitativos podem ser encarados e tratados como qualitativos, desde que estes permitam uma melhor compreensão de aspectos relacionados ao objeto de investigação.