A polêmica existente a respeito do art. 16 da LACP diz respeito a inserção, em sua redação, de limitação territorial aos efeitos da coisa julgada, levada a efeito pela Medida Provisória nº 1.570/97, posteriormente convertida na Lei nº 9.494/97. A doutrina, desde logo, passou a defender que a alteração possuía vários vícios; o primeiro deles seria o de que este artigo estaria revogado, em razão de o Código de Defesa do Consumidor ter disciplinado a matéria relativa à coisa julgada em seu art. 103. Assim, a alteração introduzida seria ineficaz, pois o art. 16 da LACP já não existia mais no ordenamento pátrio336. Nelson Nery Junior e Rosa Nery337, ao analisarem o dispositivo, concluem tanto pela sua inconstitucionalidade quanto pela sua ineficácia:
A norma, na redação dada pela L 9494/97, é inconstitucional e ineficaz. Inconstitucional por ferir os princípios do direito de ação (CF 5.º XXXV), da razoabilidade e da proporcionalidade e porque o Presidente da República a editou, por meio de medida provisória, sem que houvesse autorização constitucional para tanto, pois não havia urgência (o texto anterior vigorava há doze anos, sem oposição ou impugnação), nem relevância, requisitos exigidos pela CF 62 caput para que o Presidente da República possa, em caráter absolutamente excepcional, legislar por MedProv. Ineficaz porque a alteração ficou capenga, já que incide o CDC 103 nas ações coletivas ajuizadas com fundamento na LACP, por força do LACP 21 e CDC 90.
E, caso se considere que este dispositivo ainda vige, Ada Pellegrini Grinover338 defende que sua leitura deve ser feita em conjunto com os arts. 93 e 103 do CDC, resultando que:
a) o art. 16 da LACP não se aplica à coisa julgada nas ações coletivas em defesa de interesses individuais homogêneos; b) aplica-se à coisa julgada nas ações de defesa de interesses difusos e coletivos, mas o acréscimo introduzido pela medida provisória é inoperante, porquanto é a própria lei especial que amplia os limites da competência territorial, nos processos coletivos, no âmbito nacional ou regional; c) de qualquer modo, o que determina o âmbito de abrangência da coisa julgada é o pedido, e não a competência. Sendo o pedido amplo (erga omnes), o juiz competente o será para julgar a respeito de todo o objeto do processo; d) em consequência, a nova redação do dispositivo é totalmente ineficaz.
http://www.pucsp.br/tutelacoletiva/download/artigo_patricia.pdf. Acesso em: 2 set. 2012. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários ao Código de Processo Civil. Tomo V. São Paulo: Forense, 1974. p. 144.
336 MENDES,Aluisio Gonçalves de Castro.Ações Coletivas no Direito Comparado e Nacional. 2.ed. Ed. RT.
São Paulo: 2010. p. 280. NERY JUNIOR., Nelson. NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil Comentado e legislação extravagante. 11.ed. São Paulo: RT, 2010. p. 1473.
337 NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa. Código de Processo Civil Comentado e legislação extravagante.
11.ed. São Paulo: RT, 2010. p. 1474, item 13 do comentário ao art. 16 da LACP.
338 GRINOVER, Ada Pellegrini. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado pelos autores do
A jurisprudência do STJ, por sua vez, parece decidir ora pela aplicação, ora pelo afastamento do art. 16, conforme fica demonstrado nos seguintes acórdãos:
PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO COLETIVA AJUIZADA POR SINDICATO. SOJA TRANSGÊNICA. COBRANÇA DE ROYALTIES. LIMINAR REVOGADA NO JULGAMENTO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO. CABIMENTO DA AÇÃO COLETIVA. LEGITIMIDADE DO SINDICATO. PERTINÊNCIA TEMÁTICA. EFICÁCIA DA DECISÃO. LIMITAÇÃO À CIRCUNSCRIÇÃO DO ÓRGÃO PROLATOR. [...] 5. A distinção, defendida inicialmente por Liebman, entre os conceitos de eficácia e de autoridade da sentença, torna inóqua a limitação territorial dos efeitos da coisa julgada estabelecida pelo art. 16 da LAP. A coisa julgada é meramente a imutabilidade dos efeitos da sentença. Mesmo limitada aquela, os efeitos da sentença produzem-se erga omnes, para além dos limites da competência territorial do órgão julgador. [...] (REsp 1243386/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julga EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. EFICÁCIA. LIMITES.
JURISDIÇÃO DO ÓRGÃO PROLATOR. 1 - Consoante entendimento consignado nesta Corte, a sentença proferida em ação civil pública fará coisa julgada erga omnes nos limites da competência do órgão prolator da decisão, nos termos do art. 16 da Lei nº 7.347/85, alterado pela Lei nº 9.494/97. Precedentes. 2 - Embargos de divergência acolhidos. (EREsp 411529/SP, Rel. Ministro FERNANDO GONÇALVES, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 10/03/2010, DJe 24/03/2010) do em 12/06/2012, DJe 26/06/2012)
Patricia Miranda Pizzol339, analisando o artigo, sintetiza os argumentos contrários a ele:
(a) Fez-se verdadeira confusão entre coisa julgada e competência, o que resultou na inutilidade de tal alteração; (b) as ações coletivas se submetem à jurisdição civil coletiva e, com o advento do Código de Defesa do Consumidor, vários dispositivos da Lei 7.347/1985 foram revogados tacitamente, inclusive o art. 16 da LACP; assim, sua alteração pela Lei 9.9494/1997 foi completamente inócua, ineficaz; (c) a alteração do art. 16 promovida pela Lei 9.494/1997 viola vários princípios constitucionais (devido processo legal, da inafastabilidade do controle jurisdicional, da igualdade, da proporcionalidade, da razoabilidade das leis), além de ir na contra- mão da história, praticamente destruindo a ação coletiva, ou, ao menos, maculando-a gravemente; em vez de evitar a multiplicação das demandas e permitir a harmonização dos julgados sobrecarrega o Judiciário, gerando insegurança nas relações jurídicas, permitindo decisões conflitantes; (d) ainda que se entenda que o art. 16 continuava em vigor, depois do surgimento do Código de Defesa do Consumidor, é inócua sua alteração, uma vez que o art. 103 do CDC não foi alterado e o regime jurídico das ações coletivas é um só, em função do princípio da interação, instituído pelos arts. 21 da LACP; 90 e 110 a 117 do CDC.
De fato, o posicionamento que se demonstra mais adequado ao processo coletivo e sua efetividade é o que afasta a aplicação do art. 16 da LACP. Há, nele, verdadeira confusão entre competência e jurisdição, pois, mesmo nos processos individuais, as decisões proferidas pelo magistrado de uma determinada comarca têm validade em todo o território nacional; há
339
A tutela antecipada nas ações coletivas como instrumento de acesso à justiça, In: FUX, Luiz; NERY JUNIOR, Nelson; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Processo e Constituição. Estudos em homenagem ao professor José Carlos Barbosa Moreira. São Paulo: RT, 2006. p. 133.
exemplo na doutrina, inclusive, de que é como se a sentença proferida por um juiz de São Paulo, constituindo o divórcio, não valesse no Rio de Janeiro, e nesta cidade continuassem casados340.