O estudo do papel das instituições no funcionamento do sistema econômico foi explorado por alguns autores, dentre os quais se destaca North (1993). Para ele, as mudanças institucionais conformam o modo em que as sociedades evoluem ao longo do tempo, motivo suficiente para o entendimento da mudança histórica e o desenvolvimento de longo prazo da economia. Neste ponto, Pondé (2005) ainda enfatiza a importância das instituições para a elaboração de uma teoria que pretenda explicar o funcionamento do capitalismo. Tal teoria “será sempre uma investigação dos mecanismos institucionais que o constituem e potencialmente
explicam seus padrões de operação” (PONDÉ, 2005, p.138).
De modo geral, North (1993) afirma que as instituições são a “regra do jogo”, na qual são atribuídos limites à interação humana que vão desde instituições formais, como a imposição de normas ao comércio e regulação de setores
econômicos, até arranjos informais, tais como regras e códigos de conduta que moldam o comportamento, a linguagem, a cultura, os hábitos e as rotinas, tanto das empresas quanto dos indivíduos.
Destarte, a principal função das instituições é viabilizar as condições de reprodução material, reduzindo a incerteza através do estabelecimento de uma estrutura estável, de coordenação e regulação das atividades econômicas, ou seja, identificam-se como uma regularidade e previsibilidade de comportamentos ou regras gerais, de caráter social, aceita pelos membros de determinado grupo social. Dosi (1991 apud PONDÉ, 2005, p. 124) complementa esta definição tratando as instituições como “conjuntos particulares de normas que são socialmente compartilhadas, socialmente impostas em diferentes graus, e tendem a se reproduzir inercialmente através do tempo”.
North (1993) ressalta que parte do funcionamento das instituições prevê formas de aplicar punições a desvios com relação às normas formais estabelecidas ou aos códigos de conduta. Desta forma, a efetividade do funcionamento da instituição requer sua monitoração constante, podendo assim ser criada para atender um tema específico, como são os casos da Constituição de um país, ou até mesmo da criação de agências reguladoras, com o propósito de fiscalizar a conduta das empresas (KON, 2012, p. 3).
Contudo, as instituições não podem ser definidas apenas como leis, costumes e regras do jogo que moldam o comportamento humano. Scott (1995, apud PONDÉ, 2005, p. 128) apresenta um conceito mais amplo de instituições ao defini-las a partir de três pilares básicos: os processos reguladores, as regras normativas e as construções cognitivas.
O pilar regulativo é definido como as regras de conduta que influenciam o comportamento dos indivíduos que estão direcionados pela busca de interesses próprios e são orientados para determinados sentidos, sendo as instituições responsáveis pelo monitoramento de suas ações, bem como pela aplicação das devidas sanções. Além disso, possuem o papel de inibir o comportamento oportunista e trazer certa estabilidade ao cumprimento dos contratos (FELIPE, 2008, p. 254).
No pilar normativo, as instituições adquirem caráter de valores e normas definidas através de um processo evolutivo, no qual o comportamento coletivo adquire significado e torna-se moralmente aceitável. De certa forma, espera-se uma tendência dos indivíduos agirem de acordo com o que é socialmente desejável. Desta forma, as punições a comportamentos que desviem das condutas estão mais relacionadas às sanções morais e sociais, sem que seja obedecida alguma racionalidade instrumental (PONDÉ, 2005, p. 130).
Por fim, o pilar cognitivo é caracterizado pelas regras que constituem a natureza da realidade e as estruturas pelas quais os significados são produzidos. As ações dos indivíduos são uma representação interna do ambiente e as construções cognitivas incorporam as regularidades de comportamento social representadas por
conhecimentos e rotinas ‒ elementos essenciais da teoria neoschumpeteriana. Tais
elementos do aprendizado são importantes por garantir que as condutas individuais
estejam na direção das inovações – ponto chave para entender a conexão das
instituições com o desempenho econômico.
Em suma, os três pilares – regulativo, normativo e cognitivo ‒ permitem a
Scott (1995) oferecer uma definição mais ampla acerca das instituições:
Instituições consistem em estruturas e atividades cognitivas, normativas e regulativas que proporcionam estabilidade e sentido ao comportamento social. As instituições são transportadas por vários portadores – culturas, estruturas e rotinas – e estes operam em níveis múltiplos de jurisdição (SCOTT, apud PONDÉ, 2005, p. 131).
Deste modo, a partir da análise do pilar cognitivo, pode-se perceber que as mudanças nas instituições processadas ao longo do tempo constituem um processo complexo, dado que envolve condutas individuais, rotinas e processos de aprendizado, além de não se configurarem de modo abrupto, mas sim de maneira incremental a partir da interação entre as instituições e os organismos. Estes últimos são considerados por North (1993) os agentes das mudanças institucionais, podendo ser compostos por corpos políticos (agências reguladoras e Conselhos), corpos econômicos (empresas, sindicatos) e corpos sociais (igrejas, associações esportivas). Assim, os organismos influenciam e podem ser influenciados pelo marco institucional (KON, 2012, p. 7).
Embora as instituições não sejam o objeto central da análise neoschumpeteriana, elas constituem um elemento indissociável para a compreensão da dinâmica da mudança tecnológica (FELIPE, 2008, p. 249). Para Nelson (1995), as instituições moldam o comportamento dos indivíduos e das organizações no sentido de determinar a maneira como o conhecimento será apreendido e aplicado. Desta forma, as instituições formais surgem a partir de uma trajetória histórica e social definida a partir da interação entre os indivíduos e grupos sociais. As organizações com força de negociação suficiente usarão a política para influenciar o ambiente institucional, que em última instância molda a direção em que se atribui valor ao conhecimento e às aptidões de cada organização. De fato, as organizações possuem a capacidade de intervir na realidade e o fazem, dentre outros motivos, na busca por seus interesses pecuniários. Segundo Kon (2012), a interação entre as instituições e as organizações determina a direção da mudança institucional. Assim,
As instituições juntamente com as limitações comuns determinam as oportunidades de uma sociedade. As organizações são criadas para aproveitar estas oportunidades e na medida em que evoluem alteram as instituições (KON, 2012, p. 8).
Este último ponto é importante para se compreender a ligação desta estrutura teórica com a evolução institucional do setor de telecomunicações. Admitidas as premissas de que as instituições influenciam o desempenho dos agentes econômicos, cabe, então, entender a relevância de se estudar as instituições e suas mudanças para a compreensão do contexto institucional atual do setor de telecomunicações. Este ponto será estudado com mais detalhes na próxima seção 1.4.3.
1.4.3 As modificações institucionais e a emergência das tecnologias da informação