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Nesta seção, passamos a uma análise mais fina dos tópicos já apresentados. Enquanto na seção anterior nos preocupamos em verificar as peculiaridades das conversações como um todo, em toda a sua trajetória, nesta seção nos dedicamos a esquadrinhar, ponto a ponto, as participações nas conversas. O intuito é evidenciar de que forma as lutas por reconhecimento convocam os testemunhos para se fazerem valer. Na seção anterior evidenciamos as premissas de fundo que os surdos sinalizados, ao contarem suas histórias, buscam revelar e as hierarquias de valores e entendimentos de bem viver constituídos socialmente. Nesta seção, continuamos identificando algumas dessas premissas, tendo como horizonte as categorias já enunciadas: intercâmbio de narrativas, argumentos conectados a testemunhos, acirramento dos debates e aprendizado coletivo.

O intercâmbio de narrativas

Os testemunhos de vida, além de buscarem revelar premissas de fundo, também são invocados de maneira a compartilhar experiências, traçar afinidades coletivas e pontos de convergência de experiência, politizar situações coletivamente e buscar soluções conjuntas (YOUNG, 2002). O intercâmbio de narrativas apontado por Iris Young (2002) é uma maneira de conectar histórias de vida semelhantes e, assim, engendrar lutas coletivas e conectar situações particulares a contextos públicos.

No tópico “Oralização”, as mães contam suas experiências e identificam problemas comuns sobre a criação dos filhos surdos. No relato 3, de Lúcia, apresentado anteriormente, a mãe relata sua experiência ao ter uma filha surda, “Minha bebê hoje tem 1 ano e 7 meses, descobri ainda na maternidade e desde então, minha vida virou uma corrida atrás de médicos, fonos, surdos, implantados, etc...”. Assim como ela, outras mães relatam as dificuldades da oralização dos filhos e defendem essa forma de comunicação como a mais adequada para o desenvolvimento das crianças surdas. Há uma identificação com o outro que passa pelos mesmos constrangimentos e o estabelecimento de uma afinidade que pode vir a ser o fator de conjugação de uma identidade coletiva.

Relato 35 - Daniela D: Sou mãe de uma menina surda oralizada, graças à Deus. Penso q se existe essa possibilidade para eles se comunicarem pq não tentar... não é

fácil, exige muito da mãe, da fono,... tardes inteiras trabalhando, férias, tempo integral, mas vale à pena. Hj ela fala muito bem, quase não se percebe q ela tem surdez profunda e severa, mas usa libras com os amigos q não são oralizados. Minha opinião é q deve se tentar de tudo para oralizar. Não tenho o menor preconceito,

Há uma identificação entre as histórias de vida. Não necessariamente elas conjugam uma identidade coletiva, mas reconhecem que passam pelos mesmos problemas dentro de casa e que concordam com a opção da oralização. Os problemas são da mesma natureza. O primeiro deles é a peregrinação entre fonoaudiólogos, médicos, psicólogos e educadores. Segundo as mães, essa rotina exige uma dedicação exclusiva e muito esforço, além de gerar angústia e sofrimento. O calvário, entretanto, para elas tem a sua recompensa: a oralização dos filhos “Graças a Deus”, reforça a mãe. Ainda, ambas acreditam que seus filhos devem ser parecidos com os ouvintes. Daniela, no relato acima, afirma, “hoje ela fala muito bem, quase não se percebe que ela tenha surdez”, e Lúcia, do relato 3 reforça: “quero minha filha falando o mais próximo de um ouvinte”. A defesa pelo modo oral de comunicação, nesses dois testemunhos, é permeada por um processo doloroso de adaptação, reconhecem as mães, não apenas pelo tempo dedicado, mas também pela angústia e expectativa sofrida por elas. A grande recompensa da oralização reflete a sensação de dever cumprido. A língua de sinais, no primeiro relato, é criticada veementemente: “Sinceramente, se há condição de oralizar, acho RIDÍCULA essa conversinha que o surdo prefere a libras”. No caso de Daniela, relato 35, a Libras é relegada a segundo plano: “Minha opinião é q deve se tentar de tudo para oralizar”. Mais uma vez, podemos perceber o imaginário que muitas famílias têm sobre a comunicação gestual. Rejeitam e criticam tal forma de comunicação que pode vir a ser, um dia, o modo de expressão de seus filhos.

A discussão “Oralização” é a única do nosso corpus que traz muitos comentários das mães de surdos. Essas narrativas compartilhadas acima evidenciam que há situações semelhantes pelas quais passam essas mães e que, em geral, a melhor solução é oralizar. Isso evidencia um entendimento fortemente enraizado entre as famílias sobre a surdez. A maioria delas não espera um filho surdo, e há forte decepção quando eles nascem. A defesa pela oralização é, em geral, uma constante entre essas famílias. Em resposta a isso, outro conjunto de testemunhos compartilhados busca enfatizar as qualidades da língua de sinais:

Relato 7 - Luana: Eu sou oralizada e uso LIBRAS, e curso faculdade.. e muitos surdos que usam LIBRAS cursam faculdades, de onde está a inferioridade deles? Só por utilizar LIBRAS? Na verdade LIBRAS é importante, e foi importante para mim tbm na faculdade!

Relato 4 Mara: Eu que sou oralizada, aprendi muitas palavras novas, graças à Libras, que muito me ajudou. E na faculdade consigo entender todo mundo e não finjo mais que estou entendendo, graças à minha intérprete que traduz tudo o que todos falam. Conheço muitos surdos não oralizados que passaram na faculdade...estamos evoluindo mesmo. Até minha família que era contra a Libras, hj percebeu que eu realmente estou falando melhor com a Libras.

Ambos os testemunhos demonstram que as mesmas reivindicações em relação à lingua de sinais são importantes para ambas. A utilização deste meio de comunicação foi importante na faculdade na medida em que abriu as portas do conhecimento e possibilitou aprendizado maior dos conteúdos e até mesmo do português, conforme o relato 4, de Mara. Já o relato de Luana valoriza da mesma maneira a presença do intérprete na faculdade e a comunicação gestual como válida. Esse meio de comunicação não inferioriza ninguém, segundo o testemunho de Luana. Isso representa uma amostra de parte da luta por reconhecimento na esfera social, que almeja a consideração deste modo de vida que opta por utilizar um intérprete em sala de aula. Além disso, representa uma conquista legal que garante a existência desse profissional.

Já no tópico “Como fico numa reunião de ouvintes”, a concentração de testemunhos é grande e expressa as dificuldades em comum em relação a lugares onde precisam se comunicar com muitas pessoas ao mesmo tempo.

Relato 36 - Roberto - O grande problema é numa reunião com mais de duas pessoas, quando um fala, e depois outro começa a falar e tenho que mover a cabeça rapidamente para pegar essa fala; é um verdadeiro pingue-pongue que acaba cansando e, sim, fico perdido.

Relato 37 - Miguel -Eu também sofro nessas reuniões. Tenho uma turma de amigos que gostam de sair pra tomar chopp em mesas grandes de bar. Só consigo ouvir quem está do meu lado. Faço um esforço tão grande pra ouvir e ler lábios que às vezes chego em casa com dor de cabeça.

Relato 38 - Lana - Pois é, mas gente, comigo isso é TODA HORA, seja no colégio ou saindo com amigos... É, conheço um mundo de gente... É difícil ficar com menos de duas pessoas pelo colégio, é sempre uns 4 pra cima. Festa no escuro? Eu curto, um dia fui numa festa dessas com minha amiga meu namo e um mundo d gente! Fico perdida, mas sempre pergunto pra alguém. Dependendo desse alguém, vai tirar uma com a minha kara ou vai me explicar!

Relato 39- Gabi - o meu problema é com pessoas novas, não entro de jeito nenhum no grupo e finjo até que to entendo tudo..e odeio boate escura.

Relato 40 – Julia :Ola... Gostaria de compartilhar meu sofrimento com voces. é quao dificil para mim, principalmente no trabalho e não consigo participar de conversas com colegas até porque eles não me entendem bem e também as vezes nao consigo expressar de maneira correta e as pessoas me evitam, as vezes tambem evito eles pq fico com aquele constrangimento de ficar perguntando ah Hã. o que ... e concordando em tudo o que eles dizem.

Os cinco testemunhos acima demonstram como as narrativas se somam umas às outras e tornam coletivo um problema que anteriormente parecia particular. As dificuldades que as pessoas passam por não conseguirem se comunicar em ambientes escuros ou com muitas pessoas são muito parecidas e recorrentes. Muitos surdos encontram nesses espaços virtuais um lugar para coletivizar essas questões e talvez uma motivação moral para tentar revertê-la. Conforme expresso, algumas das dificuldades comuns são o constrangimento de perguntar o que não entendeu a ponto de fingir que entendeu, a dificuldade de se fazer entendido e o fato de evitar as pessoas para não passar constrangimentos. Todos os depoimentos acima, do 36 ao 40entretanto, se referem a surdos que não utilizam a língua de sinais, mas sim o meio oral de se comunicar.

Em oposição a esses constrangimentos em ter que se comunicar oralmente em meio a muitas pessoas, dois outros testemunhos já apresentados se colocam na discussão:

Relato 6 - Carla: pelo que li, maioria dos oralizados reclamam a dificuldade de acompanhar a reunião, mas tem medo de pedir interprete apra estas ocasiões, porque será? Eu acompanho com maravilha 100% do que estao falando na reuniao em secretaria de educação, sem incomodar ninguem e ainda dou minhas opiniões em nivel de igualdade. Fico feliz que tem interprete sim e não tenho vergonha de dizer Relato 23 - Mara: Nós surdos, na I Conferência Nacional dos Direitos dos Deficientes em Brasília, 12 à 15 de maio, fizemos parar tudo, mas tudo mesmo, pq não estávamos entendendo a intérprete pq os que estávam na mesa líam muito rápido as propostas, eles estávam muito longe e usavam o microfone, o que foi impossível de ler os lábios e pedimos para lerem mais devagar e pedimos outras intérpretes para ficarem perto da gente, para podermos tirar as dúvidas e podermos votar na hora certa, foi ótimo, todo mundo respeitou e assim conseguimos muitas coisas boas!!!! E olhe, tinha mais que 1.500 pessoas!!!

O sucesso na comunicação por meio da Libras é evidenciado nos dois testemunhos. Nesse sentido, além de apresentar afinidades, os dois relatos também propõe soluções para um problema que é coletivo. Young (2002) aponta que apresentar soluções para problemas comuns é um dos benefícios dos testemunhos. A autora defende que encontrar pontos de convergência de experiência pode ser benéfico para politizar situações coletivamente. Quando Carla diz: “pelo que li, maioria dos oralizados reclamam a dificuldade de acompanhar a reunião, mas tem medo de pedir interprete apra estas ocasiões, porque será?” e apresenta o seu testemunho, ela coletiviza o problema de modo a oferecer solução para ele. O testemunho de Mara, que participou da conferência, também evidencia e reforça o posicionamento de Carla. A solução desse problema, especificamente, passa também por uma luta por reconhecimento engendrada coletivamente, já que a dificuldade de participar de reuniões é coletiva.

No tópico “Vergonha Surdo”, aqueles que se expressam por meio da língua de sinais também trocam experiências, falam sobre o momento em que descobriram a Libras e expressam as dificuldades do oralismo. Esses testemunhos são convocados em um contexto de acirramento de debates, onde a língua de sinais é severamente criticada e a oralização valorizada. Para responder aos argumentos que apresentam as maravilhas da oralização, a experiência de vida relatada abaixo demonstra que ela não foi tão eficaz assim:

Relato 42 Robson: Sou surdo muito profundo de nascença. Tentei aprender falar quando era criança de 1 ano e 6 meses até 17 anos e aí eu desisti, pq já cansei de praticar . Perdi o meu tempo...É impossivel, porque as vezes eu não entendo e não consigo ler os lábios. Por exemplo: “faca” e “vaca” e também outras palavras. Principalmente, me atrapalho em entender as letras parecidas: “M, P, B”, “S, Z e X, ç”, “T e D”,.. É possivel entender labios sem sons? É um engano!!! [...]pedi ao meu amigo de infância pra aprender Libras.. Me ensinou e fiquei louco quando aprendi Libras, absorvi muito rápido pra conhecer as novas informações. Mudei a minha vida e agora sempre divirto com meus amigos surdos e com ouvintes que sabem Libras. não sou mais como antes quando eu não aprendi Libras.

Relato 43 - Newton: Eu sou surdo profundo, quando nasci e meus pais ajudaram pra eu aprender a falar. Mas eu nao sabia nada de Libras. Pouco tempo eu conheci os surdos que usam LIBRAS e comecei interessar LIBRAS porque eu quis conviver com surdos. Bem, antes eu era surdo ORALIZADO que vivia com poucos amigos. Na epoca, eu era surdo oralizado e sai pouco com ouvintes e tbm conversar poucos, por isso eu tive dificuldade de conviver com os ouvintes. Agora eu ja comparei entre as diferença: OUVINTES e SURDOS, entao eu ja adaptei os surdos pq a comunicação é muito fácil pra surdos. Por isso tenho orgulho de ser SURDO pq mundo ouvintes nao tem respeito a identidade própria do surdo, isso é preconceito.

Ambos os testemunhos demonstram que já foram oralizados, mas que se sentem mais à vontade com a língua de sinais. No primeiro deles, somada ao testemunho há uma crítica à leitura labial, considerada falha e incompleta. Devido a essa dificuldade, o surdo optou por se comunicar por meio da Libras. Já o segundo aderiu ao novo modo de vida por se sentir isolado da sociedade, por ter poucos amigos, por conversar pouco e ter dificuldades de conviver com os ouvintes. Mais uma vez, o testemunho funciona em resposta às críticas à Libras e também como uma maneira de demonstrar uma afinidade coletiva e um ponto de convergência das experiências (YOUNG, 2002). O ponto comum está no fato de que ambos mudaram suas vidas depois da língua de sinais e que se divertem mais com as pessoas que se comunicam da mesma forma que eles. A resposta às críticas dos oralistas, que é feita também por meio de testemunhos, revela uma premissa: o bem viver para eles está na utilização dos sinais como meio de comunicação. Para eles, é digno e valoroso esse modo de vida, na medida em que assim eles têm a possibilidade de ter amigos, de se divertirem, de entenderem e de se fazerem entendidos. Nesse caso, o compartilhamento de experiências evidencia uma

identidade coletiva daqueles surdos sinalizados. Ao conectar uma história a outra, eles confirmam o partilhamento das mesmas premissas e evidenciam laços de pertença a um grupo social. O próprio testemunho de Newton confirma essa pertença: “tenho orgulho de ser SURDO porque o mundo dos ouvintes nao tem respeito pela identidade própria do surdo, isso é preconceito”. O orgulho de ser surdo e a identificação de uma identidade dos surdos sinalizados são aclamados como forma valorosa de vida. O preconceito e a desvalorização dos modos de vida, quando identificados por aqueles que sofrem, podem ser motivadores de uma luta por reconhecimento em busca da valorização destes (HONNETH, 2003). Nos testemunhos em questão, o compartilhamento de narrativas e experiências evidencia uma identidade coletiva já existente e a tematização de injustiças por meio desses testemunhos demonstra a existência de uma luta por reconhecimento que ultrapassa os limites da Internet.

Além desse intercâmbio de narrativas como resposta a uma crítica, outro ponto merece destaque. Comentários como esses podem gerar entendimentos de que os surdos querem formar um gueto e que não fazem questão de conviver com o restante da sociedade. Entendemos que os surdos sinalizados são uma minoria lingüística que merece respeito pelo modo de comunicação, mas são comentários dessa natureza que podem levar a entendimentos diversos daqueles pretendidos pelas lutas por reconhecimento.

Articulações entre testemunhos e argumentos

Young (2002) afirma que os testemunhos tendem a conectar “experiência silenciosa de estar injustiçado a argumentos políticos” (2002, p. 72). Os testemunhos, por si mesmos, nem sempre são suficientes para evidenciar valores e premissas. Benhabib (1996) defende que o uso de argumentos pode garantir maior imparcialidade e padrões de justiça em um debate. Já Dryzek (2000) explica que mesmo os argumentos correm o risco de coagir ou de não promoverem a conexão de experiências particulares a coletivos, o que seria essencial para a qualidade do debate. Dada a relevância dos argumentos para as conversações políticas, e conseqüentemente para as lutas por reconhecimento, optamos por identificar quando os argumentos são acionados junto a testemunhos e em que medida se mostra necessária essa conexão.

A maioria dos argumentos expressos é utilizada para justificar, demonstrar ou explicar determinado ponto de vista. É claro que outros elementos acompanham as conversas, tais como a ironia ou os jogos de linguagem, mas a constante conexão entre argumento e testemunho nos alerta para o fato de que as biografias expressas de maneira isolada pouco contribuem para o avanço de questões políticas controversas. Nas conversações analisadas,

vários são os argumentos apresentados; entretanto, vamos nos concentrar apenas naqueles que acompanham os testemunhos, naqueles argumentos opostos que conduzem à explicitação de histórias de vida como resposta e naqueles argumentos acionados em resposta a determinados testemunhos.

Na discussão “Oralização”, depois de Lúcia, mãe de uma menina surda, relatar a sua experiência, ela desenvolve uma crítica à Libras baseada na facilidade de sua aquisição. O relato sobre a discriminação e sobre a sua luta com a filha surda embasa o argumento de que é preciso oralizar e de que o uso da Libras seria condicionado apenas à impossibilidade da oralização. Ela conta a sua experiência de vida: “Minha bebê hoje tem 1 ano e 7 meses, descobri ainda na maternidade e desde então, minha vida virou uma corrida atrás de médicos, fonos, surdos, implantados”. A partir de sua experiência ela diz o porquê de não admitir que sua filha se comunique por meio da Libras:

Sinceramente não a quero usando libras...sou ouvinte e sei como a sociedade DISCRIMINA SIM [...] Só acho muito válido SIM a libras, qdo não há forma de oralização, ou se a oralização não fôsse possível em cada caso...

Percebe-se que, neste caso, o testemunho apenas complementa um ponto de vista. A história que a mãe conta sobre sua filha e sobre sua experiência de sofrimento em relação à surdez serve para embasar o seu ponto de vista a respeito do oralismo e da língua de sinais. As justificativas para rejeição à Libras são: a discriminação da sociedade, a suposta dependência que esse meio de comunicação geraria e o comodismo gerado por ela. Esses pares de sentido já foram identificados anteriormente nessa análise.

Ainda neste mesmo tópico, Carla conta da sua experiência como professora de surdos. Relato 6 Carla: pela minha experiência de professora por 20 anos pode acontecer que muitos surdos que tiveram dificuldade com a oralização (sem entender significados das palavras aprendidas e oralizadas) e a cognição fica muito atrasada por falta de evolução natural de uma lingua (uma lingua que lhes permitam a fazer raciocínio e pensar sobre tudo na vida)então quando estes mesmos surdos vão aprender a libras eles passam a entender melhor o portugues.

O entrelaçamento entre testemunho e argumento é evidenciado na medida em que a Carla convoca a sua experiência “de professora por 20 anos” para justificar o porquê de vários surdos ficarem com a cognição atrasada. A justificativa é que “muitos surdos que tiveram dificuldade com a oralização (sem entender significados das palavras aprendidas e oralizadas) e a cognição fica muito atrasada por falta de evolução natural de uma língua”. Ela usa a experiência e o argumento do atraso de cognição em surdos com dificuldade de oralização

para defender que esses mesmos surdos passam a entender melhor o português quando conhecem a língua de sinais.

Um exemplo da relevância dos argumentos junto aos testemunhos são os relatos 42 e 43 de Robson e Newton, quando eles contam que foram oralizados na infância, mas que a comunicação ainda era ineficaz. Sobre a leitura labial, Robson afirma “É impossivel, porque as vezes eu não entendo e não consigo ler os lábios. Por exemplo: ‘faca’ e ‘vaca’ e também outras palavras”. Já Newton explica que antes possuía poucos amigos.

Relato 43 - Na época, eu era surdo oralizado e sai pouco com ouvintes e tbm conversar poucos, por isso eu tive dificuldade de conviver com os ouvintes. Agora eu ja comparei entre as diferença: OUVINTES e SURDOS, entao eu ja adaptei os surdos pq a comunicação é muito fácil. Por isso tenho orgulho de ser SURDO pq mundo ouvintes nao tem respeito a identidade própria do surdo, isso é preconceito. Mesmo que ambos os testemunhos tragam histórias de vida que desmistifiquem a relevância da oralização, eles, por si sós, não foram capazes de gerar respostas e posicionamentos. Foram simplesmente ignorados no conjunto do debate. A partir do momento em que argumentos completaram os seus testemunhos, os seus pontos de vista começaram a ganhar consideração. Um desses argumentos foi sobre os limites do oralismo:

Relato 44 - Fernando: Sobre oralismo ser limitado, ele é limitado no sentido que nem todas pessoas têm a mesma facilidade para ser oralizados. Muitos possuem