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34. BİLANÇO TARİHİNDEN SONRAKİ OLAYLAR 30.11.2005

1.2 “Avante! Pela eletrificação”

Na coluna Rosa dos ventos, em O Nordeste55, J. Stenio Lopes56 acoimou os candidatos pré-eleições que prometeram aos cearenses a eletrificação do Estado e, ao alcançarem suas candidaturas, olvidaram-na. Essa crítica se deu de acordo com a apreciação das propostas governamentais defendidas pelos candidatos no período eleitoral, cujas promessas em seus palanques, nas proeminências de sua eloquência e acenos, galgavam em torno da eletrificação estadual; contudo, após eleições, ignoraram-na e não observaram mais o sofrimento das camadas sociais esperançosas por esse recurso e desejosas em alavancar o Ceará da crise econômica do final dos anos 1940. A sua evocação e reclamação se avigoravam pelo apoio da elite comercial e industrial do Estado, desesperada em relação às perdas financeiras e de seu mercado consumidor para os estados vizinhos.

Nesse momento de redemocratização brasileira, após o Estado Novo, faziam-se presentes alguns resquícios do modelo tradicional de conduzir a política nacional, atrelado às oligarquias locais. Por exemplo, no Ceará, segundo Carvalho (2002), o título de coronel fora ressignificado e atrelado aos aspectos do campo, do poder e do latifúndio, como também as características do moderno e urbano. É por isso que a noção de chefia política, enquanto detentor de uma capitalização simbólica, tornou-se central para se pensar os anos 1950 e 1960. Entendemos, assim, que nesse período, cujo voto representava um símbolo desse novo momento democrático pelo qual passava a nação, a ideia de chefia57 política se transfigurou em uma noção pertinente para entendermos como esses líderes partidários galgaram, ao redor de si, redes de solidariedades.

A autoridade e o mando político são entendidos aqui em sua miscelânea entre o simbólico e o físico, com demarcações de violências simbólicas que afetaram os vários campos da luta política, por exemplo, de um lado UDN e do outro PSD. Dessa forma, pensamos que o uso do poder-imposição é uma atitude que pode acarretar uma dupla consequência, a saber, o silêncio dos revoltosos – aqueles que se insuflam contra a operação do líder - ou a nutrição de novos focos de insatisfação. Portanto, consideramos que a sutileza do convencimento imagético, em seus micropoderes (FOUCAULT, 2009), em suas práticas de desterritorialização (DELEUZE; GUATTARRI, 1995) política e no jogo de apoios

55

ano XXVIII, n.8052, Fortaleza, sexta-feira, 1 de julho de 1949, p.05.

56 Paraibano, professor e jornalista, defensor do ensino profissionalizante. Alguns dos livros que publicou foram: Um fósforo na Escuridão (1987); Campina: Luzes e Sombras (1989) e Uma Saga da Criatividade Brasileira

(SENAI, 40 anos) (1982).

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Segundo Carvalho, o chefe é um líder que personifica a sua autoridade e o seu mando, “é o marco definidor das fronteiras dos territórios políticos” (2002, p.10).

parlamentares, liga-se pela correlação do pensado e incorporado, das imagens simbólicas e de suas manifestações sociais.

Tal processo se dá por via de uma mediação e apropriação em que o discurso se transforma em vestígios significantes de uma prática que se traduz em determinações sociais e culturais. Esse determinismo, contudo, é flexível, move-se em meio aos impulsos dos afetos, das relações interpessoais e das escolhas que movimentam a vida política-cultural. Destarte, partimos do termo chefia política e de atores políticos (CHARAUDEAU, 2006; GOFFMAN, 2002) para refletirmos como alguns políticos cearenses construíram a sua imagem de si por intermédio desse embate em prol de sua eletrificação. Sabemos que não há uma imagem de si, mas várias que se conectam e entrelaçam à tessitura de outras ou aos pontos convenientes para sua reformulação. Devido a esse caráter complexo da construção da imagem de si do político, procuramos verificar algumas que se destacaram na disputa política tendo em vista a eletrificação do Ceará. Concordamos com Charaudeau (2006), que a heterogeneidade dos indivíduos que recebem essas imagens promove uma multiplicidade de interpretações e usos, isso podemos averiguar nas matérias dos jornais de oposição ou não dos políticos aqui destacados. Dessa forma, para ele, a sutileza das oposições dos valores, como tradicional e moderno, poderoso e modesto, atrela-se a figura desses atores e se faz enquanto uma estratégia política para garantir a sua polivalência.

As fronteiras a partir de 1950 no Ceará se construíram pelas escolhas políticas, por exemplo, ao se aproximar de Virgílio, Colombo ou Roriz. Essas opções eram fluídas, não havia uma imposição da permanência no campo de influência desses personagens, mas as possibilidades e interesses do momento regiam o fluxo dos políticos cearenses entre essas partes. Tais atores políticos, escolhidos para serem analisados, moveram-se, nesses anos, para cativar os aspirantes a seu grupo, mediante o campo dos discursos e ações, e fortalecer suas alianças, a partir da construção e divulgação de seu ethos, como o de “caráter”, “inteligência” e “Chefe”. Conforme Charaudeau, “o ethos político é resultado de uma alquimia complexa feita de traços pessoais de caráter, de corporalidade, de comportamentos, de declarações verbais, tudo relacionado às expectativas vagas dos cidadãos, por meio de imaginários que atribuem valores positivos e negativos a essas maneiras de ser” (2006, p.137). Concernente a isso, depois dos embates políticos que envolveram a figura de Virgílio Távora, colocando-o contra os anseios do Comitê Pró-Eletrificação e Industrialização do Cariri, a sua imagem política se sustentou pelos elementos representantes de seu ethos. Por exemplo, para o jornal Tribuna do Cariri, “o Cariri todo guarda uma terna lembrança do Governador que foi o Cel. Virgílio Távora. Antes dele, o sul do Ceará não conhecia politicamente a sua capital.

Vivíamos ilhados. A sua sinceridade e autoridade conquistaram os nossos corações. Hoje Virgílio Távora é deputado federal, amanhã, por certo, defenderá os nossos direitos no Senado da República”58.

Pensaremos, portanto, neste tópico, como certos atores políticos cearenses defenderam a eletrificação do Cariri e quais as roupagens sociopolíticas assumidas por eles em prol desse objetivo. Tais lideranças partiram do desejo de quebrar o projeto tradicional norteador da economia cearense – uma produção exportadora de matérias-primas – para buscar sua industrialização e a sua modernização. Com a criação e expansão da Chesf, então, poder-se-ia fortalecer e realizar tal intuito. O líder político aqui pensado também cria, é criado e se fortalece por suas redes de solidariedades e pelas teias de relações sociais que o constituem. Esses debates de âmbito estadual se transmitiram por meio dos jornais cearenses, que, por sua vez, moveram-se por seus valores e ideologias, por suas escolhas e recortes editoriais. A batalha travada por essas imprensas, em suas posições contrárias ou não à eletrificação do Cariri, fundamentou-se por meio dos diferentes encadeamentos de sentido conectados pelos sujeitos-colunistas, mediante suas experiências individuais, políticas, sociais, culturais e o posicionamento da imprensa da qual participava.

Por exemplo, nos embates em prol da eletrificação do Ceará pós-1945, evidenciara-se Américo Barreira, Secretário Geral da seção cearense da Associação Brasileira dos Municípios e atrelado ao Partido Comunista desde os anos 194059. A sua atuação partiu e se sedimentou mediante estes campos do saber: político e jornalístico. Suas posições se fortaleceram a partir da incorporação de seus discursos em atitudes concretas que legitimavam a sua imagem política. Por exemplo, em seu embate em prol da redemocratização do País, contra o Estado Novo e a Ditadura Civil-Militar, de sua campanha a favor da fundação da Petrobrás e Eletrobrás. As contradições de suas atitudes realçavam seu esforço em evidenciar que o meritório em sua atuação não era impor a sua posição ideológica, mas usá-la tencionando o crescimento nacional e estadual.

Essa estratégia edificante de um ser político para esse ator se permeou das figurações de moderação, sentimento e astúcia. Em uma entrevista de Lucio Lima feita a Barreira sobre as tensões que envolviam o projeto de eletrificação do Cariri-Ceará e a construção de conjuntos termoelétricos, expressou-se da seguinte maneira: “Tais conjuntos

58 Ano I, n.4, 9 de agosto de 1970, p.01.

59 Nasceu em 1914 na cidade de Baturité - Ceará. Graduado em Direito pela Faculdade de Direito do Ceará e

destacou-se no ensino como professor de História do Brasil. Além de sua ligação política com Fortaleza, por exemplo, como vereador, vinculou-se, estreitamente, ao Cariri quando se tornou prefeito de Várzea Alegre em 1934.

entrariam como parte do capital, quer das prefeituras, como dos particulares. Se partiria daí para nova etapa: de produção de energia termoelétrica nos municípios fora do alcance das redes do São Francisco”60.

Tal engajamento político em prol da eletrificação do Ceará também se assentou na defesa da construção de uma empresa elétrica estadual no paradigma da economia mista, ou seja, a amarração dos capitais estaduais e privados em sua implantação e manutenção; proposta essa defendida na constituição da Chesf, que beneficiava o comedimento entre os nacionalistas e as forças patrocinadoras das ideais liberais no Brasil. Consoante Silva (2011), esse tentame de atrelar dois projetos econômicos e políticos – privatistas e tupiniquins – em benefício de sua construção favoreceria, segundo as expectativas da União, a industrialização e o aumento do mercado consumidor de bens duráveis no Nordeste.

Outro causídico da eletrificação do Estado foi Colombo de Sousa. Ele campeou organizar alguns grupos na Capital e no interior, que pelejassem por tal causa. Esse, não obstante, fundamentou suas preleções por meio dos recursos dados pelas Ciências Econômicas, Sociais e Jurídicas. Tais sujeitos, destarte, assemelhavam-se no escopo de obter a sua eletrificação e na busca de congregar suas forças políticas e econômicas conflitantes para consegui-la. J. Stenio Lopes, em matéria publicada em 1º. de julho de 1949, expôs sua revolta perante o silêncio dos políticos cearenses que não se mobilizaram para incorporar essa unidade federativa ao projeto de ampliação da Chesf:

Só não se pensa em emitir para o financiamento de obras imprescindíveis como essa da eletrificação do Sul do Ceará e região a ser coberta pela rede eletrificadora de Paulo Afonso! Aqueles que fizeram da eletrificação do Cariri e região circunvizinha instrumento da propaganda de sua própria eleição para a Câmara Federal, esqueceram muito depressa o seu apregoado patriotismo, o seu zelo condoreiro pelos interesses do Estado61.

Quando Colombo noticiou sua inquietação em relação à eletrificação estadual e o descaso dos políticos cearenses que não se movimentaram para requerer novos estudos aos técnicos da Chesf, alguns caririenses se incomodaram e iniciaram uma mobilização interna, em nível regional, para esse intuito: expediram solicitações, cartas, telegramas e usaram outros meios de comunicação existentes no período, para todos os deputados e políticos de renome nacional, em busca de sua adesão à eletrificação do Cariri, ou melhor, puseram em jogo as suas redes de relações políticas. Consoante Sousa, ao saberem dessa notícia e

60 DIÁRIO DO POVO, ano IX, n.36.2363, Fortaleza, terça-feira, 23 de junho de 1956, p.01. 61

aperceberem uma possibilidade da eletrificação de sua região, laboraram “incessante e patrioticamente para a consecução desse desideratum máximo” (1951, p.06).

Objetivando uma maior organização para alcançá-la, criou-se o Comitê Pró- Eletrificação do Cariri em 1949. A princípio, essa matéria de Colombo de Sousa movimentou os intelectuais do Rotary Club cratense e as lideranças políticas, possuidoras de um poder simbólico nessa sociedade e pertencentes às teias de relações que transitavam por entidades culturais, religiosas, acadêmicas, políticas e midiáticas. Tal comitê principiou a fazer vários telegramas em prol de conclamá-los para uma reunião, tendo em vista a discussão da matéria do mencionado professor de economia. Nela o desprazer posterior à sua leitura, os olhares de insurreição e as palavras de aclamações simbolizavam um pacto, uma missão.

Para realizá-la, arquitetou-se um grupo que o atentasse de forma sui generis e assentou-o sob os cuidados, tutela e orientação de Colombo de Sousa. Dessa forma, esse intelectual se tornou o seu líder, incentivador e impulsionador de ações para essa causa; sua mente engenhosa arquitetava os passos para consegui-la. Nessa reunião no Cariri, depois das deliberações iniciais, houve o arrolamento dos nomes dos deputados – por exemplo, o parlamentar Manuel Novais – que poderiam advogar em favor do Cariri, para serem notificados e advertidos de sua afinidade com aquela terra e de seus deveres para com seu progresso.

Antes, contudo, o presidente do Rotary Club cratense havia se adiantado e telegrafado a esse político, solicitando, através de um discurso patriótico e de dever, enquanto representante do Crato e Cariri, a sua ajuda nesse projeto; pois, em uma reunião ordinária da entidade, o rotariano Raimundo de Oliveira Borges requereu que se fizesse uma ação em prol de consegui-lo para a região. O presidente dessa instituição civil, Darival Teles Cartaxo (1950-1951), para iniciar a movimentação de suas redes de influência política, mandou o seguinte telegrama aos parlamentares Antônio Alencar Araripe, Leão Sampaio, Joaquim Fernandes Teles e Raul Barbosa:

Rotary Club Crato unanimidade seus membros apela nobre patriótico espírito vossencia sentido batalhar junto quem de direito fim Cariri seja incluído zona eletrificação São Francisco. Professor Colombo de Sousa Fortaleza está confeccionando memorial respeito já nos tendo solidarizado mesmo justa iniciativa reivindicação direita inalienáveis nossa estremecida região. Saudações62.

Esse movimento dos rotarianos cratenses impulsionou a expansão da discussão sobre a eletrificação de sua região às municipalidades adjacentes. As primeiras a se afetarem e

62 SOUSA, 1951, p.16.

mobilizarem para tal intuito foram Juazeiro do Norte e Barbalha, que, por sua vez, instituíram uma mesa redonda para debater sobre o tema no dia 11 de dezembro de 1949 e para viabilizar a construção de um Memorial. Nessa reunião, que ocorreu no Clube dos Doze em Juazeiro do Norte, havia a presença de cratenses, juazeirenses e barbalhenses, que representavam seus diversos setores econômicos e “de classe”, ou seja, dos Presidentes das Associações Comerciais à Cooperativa Agrícola e Pastoril, dos profissionais liberais – Dr. Gregório Calou de Sá Barreto (advogado) – aos agricultores – Gerano Oliveira.

Nesse evento, um discurso de unidade, em vista dessa finalidade, evocara-se por Sousa, apropriado pelos rotarianos cratenses, que o vincularam às construções das imagens identitárias do Cariri, cujo processo de (re)edificação se dera intensamente pós-1950. Fora nesse momento que as forças políticas e econômicas do interior se ajuntaram para tal fito, que, por sua vez, pautavam-se pela tensão com alguns grupos de políticos e proprietários no Ceará - discordantes do plano de eletrificação pensado, exclusivamente, para o Cariri. Esses grupos foram vistos como formuladores de um suposto complô dos fortalezenses contra a sua industrialização regional. A divulgação dessa imagem de perseguição se fez como uma oportuna estratégia não só para congregar e fortalecer o comitê, mas também para torná-lo seu representante legítimo e de direito. Tal atitude reforçou, por sua vez, o fosso existente entre esse espaço e a capital cearense. Visando-a, então, os representantes dos setores econômicos e das camadas sociais dessas três cidades presentes deliberaram as seguintes ações:

a) constituição do “Comitê Pró-Eletrificação do Cariri”; b) realização de outra reunião à noite e domingo, 18 do corrente, no mesmo local da presente; c) convocação, para tomarem parte nessa reunião, de prefeitos e comissões representativas dos municípios abaixo indicados, que estão incluídos no polígono de eletrificação do Cariri: 1- Aurora, 2-Araripe, 3- Assaré, 4- Brejo Santo, 5- Campos Sales, 6- Caririassú, 7- Cedro, 8- Jardim, 9- Lavras da Mangabeira, 10-Mauriti, 11- Milagres, 12- Missão Velha, 13- Quixará, 14- Santanópole e 15- Várzea Alegre; d) colocar à disposição do prof. Colombo de Sousa, para vir até Juazeiro do Norte, para tomar parte na citada reunião, um avião do Aeroclube do Ceará; e) comunicação telegráfica ao deputado Manuel Novais da constituição do “Comitê Pró-Eletrificação do Cariri”, das providências já encetadas e convite para que S.S.ª compareça ou faça representar na reunião de 18 do corrente mês63.

Nesse mesmo dia e na euforia desse ritual, deu-se, por meio dos discursos, a conclamação e a aderência dos 18 municípios do Sul cearense contemplados pela eletrificação da Chesf. A definição do comitê se realizou por meio da aclamação por parte dos presentes; esses, por sua vez, deveriam figurar homens de prestígio econômico, intelectual e político na região, isto é, possuidores de capitais - simbólico e material - que os projetassem. A concordância nessa liturgia política se efetivou na eleição e deliberação dos representantes,

63 SOUSA, 1951, p.19.

dos defensores, organizadores e promotores da unidade regional. Esse comitê se fundou como um símbolo de sua integração (e seus membros almejaram promovê-la) visualizando a meta ambicionada; pois, para eles, a junção dos juazeirenses, barbalhenses e cratenses permitiria influenciar as demais zonas. Além disso, essa aliança foi amiúde salientada nos seguintes setores: econômico, religioso, educacional, da imprensa e da tradição regional. Tal comitê, fundado em 11 de dezembro de 1949, tinha o seguinte quadro:

Presidente - Dr. Hidelgardo Belém de Figueiredo – médico - Juazeiro do Norte. Vice-presidente - Dr. Décio Teles Cartaxo, médico e presidente da Legião Brasileira de Assistência e chefe do Posto de Tracoma e do Crato Tênis Clube- Crato. 1º Tesoureiro - Cel. Argemiro Sampaio - agricultor e Prefeito - Barbalha. 2º Tesoureiro - Cel. Antonio Braz de Oliveira - alto comerciante e Presidente da Câmara Municipal - Juazeiro do Norte. 1º Secretario - Dr. Geraldo Menezes Barbosa, odontólogo e jornalista, diretor do “Correio de Juazeiro” - Juazeiro do Norte. 2º Secretário - Jurandir de Oliveira Nunes, funcionário público federal, contador e jornalista, representante do O POVO, de Fortaleza - Crato. Comissão de Propaganda - Candido Hermes Carneiro Monteiro, do alto comércio do Crato; Antonio da Costa Sampaio, do alto comércio de Barbalha64.

Formado por líderes políticos, comerciantes e intelectuais (bacharéis, padres da Diocese do Crato, radialista, entre outros), esse grupo ressaltou a estima de cingir todas as classes para que se discorresse por um projeto comum. Tal ideia viabilizou o fortalecimento da identidade regional em contraponto ao diferente, ao restante do Ceará, que era posto como perseguidor da aspiração caririense de se industrializar. De acordo com Sousa, esses possíveis problemas existentes seriam solucionados através de uma resolução que entrosaria “este problema do Ceará na ação do Governo Federal” e conseguisse o adiantamento pela União de fundos ou garantias de investimentos, “eis a solução do problema que deverá ser conseguida por meio das medidas legislativas adequadas” (1951, p.06).

Com essa ideia, evocou-se, para corroborar a sua veemência, a sensibilidade perante a extensão desse benefício que ultrapassaria o território cearense e abarcaria o centro do sertão nordestino. Foi usado também o dispositivo mitológico da nação dos Índios Cariris, que englobava os territórios da Paraíba e Pernambuco. A afirmação desse Cariri grande demarcou, nos traços de uma cartografia, uma espacialidade interestadual, enlaçou à miscelânea das fronteiras e transformou-as, desterritorializando-as e (re)forjando-as a partir das redes elétricas, enquanto símbolo de modernização. Por exemplo, na imagem I, há um mapa que demarca as ligações das cidades e territórios fora do Ceará, por meio das linhas que partiram do Cariri cearense. Ela, portanto, é a visualização cartográfica desse Cariri grande. Colombo de Sousa também chamou a atenção da necessidade de buscar o apoio político e

64 SOUSA,1951, p.20, grifo do autor.

econômico desses espaços que se beneficiariam das redes elétricas da Chesf via Sistema Cariri.

E como o problema interessa não somente ao Ceará, mas também à Paraíba e Pernambuco, de vez que a parte mais ocidental desses Estados deverá ser beneficiada com a linha de alta tensão trazida para o Cariri, justa e necessária torna- se uma ação conjunta desses três Estados, através de suas bancadas e seus Governos. Efetivamente, a extensão da linha até o Cariri, permite que, de Missão Velha (ponto final da linha de alta tensão) se distribua energia para as cidades de Cajazeiras, Souza, Antenor Navarro, Pombal, Piancó, etc, na Paraíba. Seu percurso, até M.Velha, permite o beneficiamento das cidades de Floresta, Salgueiro, Belmonte, Triunfo, Bela Vista., Serra Talhada, etc, em Pernambuco. A questão interessa aos três Estados e deve ser por eles resolvida, em um esforço conjunto de seus filhos65.

Benzer Belgeler