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com o movimento da história e da natureza.

Hegel compreendeu muito bem que o concreto é o concreto porque é complexo, rico em facetas várias, em elementos, em múltiplas determinações; logo, para o conhecimento, este concreto só pode resultar da análise, através dela e segundo ela; e isto, embora o concreto seja o verdadeiro ponto de partida e o seu conhecimento o único objetivo do pensamento. Mas Hegel julgou que poderia alcançar este resultado, apenas por meio do pensamento em isolada reflexão, com as suas exclusivas forças, por seu exclusivo movimento (LEFEBVRE, 1963, p.38).

Posterior a tudo isso, Marx influenciado por esse mesmo filósofo idealista, conseguiu superar a situação circular da dialética hegeliana e rompeu com tudo isso, percorrendo um novo caminho no entendimento do mundo.

2.5.2 A DIALÉTICA MARXISTA

Os filósofos por meio da dialética sempre procuram a totalidade das coisas (KOSIK, 1995), através da concepção imorredoura das contradições existentes no cosmos (LEFEBVRE, 1963), ora na história, ora entre os próprios homens ou simplesmente na natureza como tentou Engels (1985).

Marx buscou a inovação do método dialético, seguindo toda a tradição crítica ocidental, uma vez que superou o mundo como simples particularidades no mundo das idéias, pois avançou na direção da história, não mais uma história contemplativa das contradições - Hegel (2002) - sim, uma história material e motivada por todo um complexo jogo de interesses materiais.

Tentaremos de forma breve sistematizar o pensamento marxista , no tocante ao método e sua visão de natureza.

“Por ser también ciência del pensamiento, la dialéctica materialista enfoca su objeto desde un punto de vista histórico, poniendo al descubierto el origem y el desarollo del conocimento.” (KONSTANTINOV, 1960, p. 286).

Ranieri (2001) enxerga o método dialético em Marx como original a partir do momento que o filósofo entende o pensamento humano sob os auspícios da própria socialização do homem, centrada na autoprodução do homem, só que uma autoprodução vinculada especificamente à matéria.

Para Abbagnano (1956) o método dialético utilizado por Marx enxerga na materialidade o início da totalidade, pois os homens produzem sua vida materialmente, utilizando e efetuando determinadas relações de produção e trabalho, constituindo a estrutura econômica e a própria sociedade, tudo, assim, é determinado por essas relações de produção da vida material, até mesmo as próprias relações sociais.

Segundo Marx (1965) as relações sociais são determinadas pelas forças e pelas formas produtivas, logo ao mudar as forças e os meios de produção material, também haverá mudanças na sociedade, no conjunto social, político e econômico. Ao modificar as formas de produção todas as relações também são modificadas na mesma proporção e direção:

“O moinho movido a braços, dá-nos a sociedade dos senhores feudais; o moinho de vapor, a sociedade dos capitalistas industriais ”.(MARX, 1965, p. 105).

Marx (1965) ainda afirma que as próprias idéias dos homens são modificadas e transformadas pelas relações e suas respectivas permanências ou dinâmicas. Para o filósofo toda a categoria do pensamento pode ser modificada, transformada dependendo de como os meios de produções materiais são organizados e hierarquizados (economicamente e politicamente). O pensamento, portanto, é muito diferente daquela forma imaginada por Hegel (2002), pois para Marx o pensamento não é eterno, sempre estará no dinamismo da mudança acoplado obrigatoriamente as relações de produções.

“Portanto, essas idéias, essas categorias, são tão pouco eternas como as relações às quais servem de expressão. São produtos históricos e transitórios”.(MARX, 1965, p. 105).

O próprio método dialético na concepção materialista histórica é o resultado de um momento histórico, influenciado pelas relações de produção, as quais exigiam que as explorações do homem pelo homem em consórcio com o poder econômico fossem explicadas. Para Sartre os resultados da metodologia marxistas estão ligados diretamente a visão crítica de Marx, que herdou a própria tradição crítica ocidental, sendo elaborada de forma dinâmica com as necessidades interpretativas daquela etapa histórica, em simultaneidade com a obrigação, logo após a compreensão, de romper com toda a hierarquização imposta aos mais pobres, os quais serviam como mão-de-obra farta e econômica para a burguesia. A própria formação filosófica e política de Marx não poderia aceitar o status quo e a opressão sobre a classe operária.

Assim, Marx não aceita a parcialidade das coisas e busca progressivamente a essência das questões, apartando definitivamente o entendimento do mundo somente pelas aparências ou simplesmente a utilização sistemática de hipóteses dedutivas.

Marx vai além da quantidade, da indução e da própria dedução, ao aceitar que a verdade seja apenas a compreensão do aparente ou somente do idealizado, há uma mensuração da totalidade aparente e essência no conjunto histórico atrelado obrigatoriamente aos meios e as formas de produções da vida material, conseqüentemente de todas as relações sociais.

Lefebvre (1963) coloca o método marxista como o mais completo - posteriormente Sartre (2002) também concorda com essa afirmação - pois ele não é apenas um guia ou mesmo uma orientação, tal como a metodologia cartesiana, (o positivismo de Comte ou ainda o positivismo lógico de Popper).

O método materialista histórico dialético não generaliza o mundo, busca uma compreensão ampla do mesmo sem abandonar as particularidades de cada objeto estudado ou na pretensão de estudá-lo (POLITZER, BESSE, CAVEING, 2002).

O método dialético em Marx evidencia os fatores concretos no conjunto da totalidade histórica, não isola os elementos que serão estudados, muito pelo contrário alimenta-os com outros elementos na relação direta dos meios e das formas de produções materiais. Os críticos de Marx, acusam o mesmo de ser sobretudo um determinista econômico, o que não é verdade, pois a própria dialética não permite a inércia diante da apuração dos acontecimentos do mundo, ou seja, a própria dialética abomina a parcialidade do entendimento do mundo (LEFEBVRE, 1981).

Como já foi dito as relações de produção movimentam as relações sociais e até mesmo política-econômica (LÖWY, 1991), o próprio movimento da história vai gradativamente com seus respectivos estados produtivos interferindo no homem enquanto homem, na concepção categórica de homem (RANIERI, 2001).

Surge, em Marx, o homem como parte das tramas societárias e econômicas, como intermediário entre o mundo presente com a história, também já comprometido com o futuro. O homem em Marx é antes de tudo o resultado dos processos históricos, o homem contemporâneo é o resultado da própria história ao mesmo tempo que reflete os meios econômicos e sociais em que vive (LEFEBVRE, 1963).

Para falarmos de homem precisamos definí-lo em conformidade com o pensamento marxista, para isso Lefebvre (1963) usa a dialética da negação, primeiro dizendo o que o homem não é. Definitivamente o homem não é inumano, a humanidade é a somatória da própria história e todos os objetos produzidos pela mesma, podemos ainda dizer que homem é o ser consciente de sua capacidade criativa, de seus meios de superar os estados inumanos.

Há na história humana um conflito brutal e significante: o homem buscando ser humano contra a natureza que aparece em Marx como problema para o próprio homem.

Qual a razão em utilizarmos a palavra brutal?

Entendemos a brutalidade como forças antagônicas em jogo, tendo uma disputa constante até a subtração de forças de um dos oponentes, o mais forte sobrepõe-se ao mais fraco num processo de domínio. Poderá ocorrer o completo aniquilamento do mais fraco, ou ainda a subjugação perpétua. Na disputa homem e natureza (MARX, 2001), o homem tentou superá-la através do trabalho, da confecção de objetos e o advento da civilização, mas é uma luta constante, pois o homem nunca conseguirá derrotar por completo a mesma, parece que a lei da ação e reação funciona muito bem quando falamos nessa disputa, aí há uma brutal luta para toda a humanidade, todavia a brutalidade maior ainda estava por vir. Pois, o homem não mais lutaria contra as intempéries climáticas, nem com os “disparates” da cadeia alimentar, após a revolução industrial surge uma luta mais brutal.

As forças da burguesia se apropriaram logo após a primeira revolução industrial de tudo, parece exagero mais segundo Marx (2001) realmente a burguesia assume o mundo e produz o mundo de acordo com suas vontades, com seus caprichos e necessidades econômicas constantes na busca do lucro.

A luta do homem contra a natureza, antes uma luta inevitável para a superação do inumano e para a própria existência do homem, agora é uma luta muito mais cruel, pois o homem não depende apenas de si, de sua aldeia, de seu feudo, agora o homem depende da vontade de uma classe distante do mesmo. Nesse instante o homem deixa de ser homem e segundo Marx (2001) torna-se máquina – como também apontou Moreira (2004).

A construção filosófica de todos os filósofos anteriores a Marx pesa sobre a contemporaneidade, o homem máquina e o universo organizado para o gozo do próprio homem pode ser compreendido em Galileu, Descartes, Newton e outros, posteriormente

reforçados por Comte. Essa filosofia, na visão marxista, é ideologia e construiu um mundo significantemente máquina, uma natureza para ser adquirida e domesticada. O próprio Marx compactua com essas idéias referentes a natureza (MARX, 2001), não da forma burguesa. Portanto, é inevitável o olhar por séculos do homem superior sobre a natureza inferior, a “civilização” sobre a “selvageria”.

A revolução industrial proporcionou o avanço do homem máquina sobre a natureza, e, portanto, uma natureza estática e pronta para servir ao progresso e ao processo civilizatório.

A industrialização modificou todo o mundo, as relações sociais, políticas e econômicas, bem como a própria noção de homem e como o mesmo precisa se comportar diante da sociedade.

No século XIX houve um aumento violento da produção material, o homem burguês conseguem superar o ritmo da natureza, as inovações tecnológicas contribuem para que isso ocorra.

Em primeiro lugar, a economia industrial, nos seus primórdios, descobriu – graças em grande parte à pressão da busca de lucro da acumulação do capital – o que Marx chamou de sua “suprema realização”: a estrada de ferro. Em segundo lugar – e parcialmente devido à estrada de ferro, ao vapor e ao telégrafo “que finalmente representaram os meios de comunicação adequados aos meios de produção” – o espaço geográfico da economia capitalista poderia multiplicar-se repentinamente na medida em que a intensidade das transações comerciais aumentasse. O mundo inteiro tornou- se parte dessa economia. (HOBSBAWM, 2004, p. 59)

Agora, o homem burguês dominava não apenas a natureza, mais principalmente o próprio homem, pois havia uma classe dominante e uma dominada (operários e camponeses) – não que antes não houvessem relações antagônicas sócio- econômica, é que preferimos destacar esse período.

Não são mais iguais os homens diante da natureza, nunca foram no decorrer da histórica ocidental, todavia nunca houve um distanciamento tão grande e uma aquisição enorme de forças para um grupo tão pequeno de pessoas (os burgueses). As forças que

estamos aqui destacando precisam ser entendidas tais como a política, a economia e a tecnologia sobre a natureza.

Uma coisa é um lenhador trabalhar com seu machado na derrubada de árvores nas florestas outra coisa é um grupo econômico adquirir um pedaço da floresta para si e derrubar a mesma com tratores. O ritmo e a intensidade abrupta será descomunal quando o corte for realizado pelo grupo econômico, não dando a mínima possibilidade de recuperação para a floresta com suas respectiva biodiversidade. Muito ao contrário o lenhador solitário, cujo seu ritmo poderá não afetar o ritmo da floresta e nem prejudicar a sua biodiversidade. Outro exemplo: a questão da agricultura, pois o latifundiário produz em larga escala, desmatando, assoreamento rios e contaminando os lençóis freáticos, também subtraem a capacidade de regeneração da biodiversidade local, pela intensificação do uso de máquinas e agrotóxicos. Já o pequeno produtor, o camponês, não destruirá a biodiversidade da mesma forma, pois será muito mais lento e com maiores possibilidades regenerativas.

Marx no século XIX conseguiu capturar todas essas idéias, não conseguiu prever a situação caótica que hoje se encontra a natureza, antecipou a degradação do próprio trabalhador e a superação do mesmo pela utilização de tecnologias. Marx enxergou o domínio mundial do capitalismo, enfim analisou o sistema econômico capitalista como vencedor de uma etapa em simultaneidade com os capitalistas, que trabalharamm ideologicamente as visões dos trabalhadores tornando-os pacíficos diante do mundo que aí está.

“O capital é então o poder de domínio sobre o trabalho e sobre os seus produtos. O capitalismo tem este poder, [...] mas como proprietário do capital. O seu poder é o poder de compra de seu capital, a que nada se pode contrapor.” (MARX, 2001, p. 80).

O capital do capitalista tornou-se insuperável e inatingível, dominando as relações de produções de objetos, ao mesmo tempo em que conseguiu poderes econômicos e por conseguinte poderes políticos.

O mundo tornou-se objeto do capital e todos os acontecimentos mundiais realizados pela maioria dos governos e por todos os capitalistas visam a supremacia do sistema capitalista (MARX, 1996a).

Os capitalistas conseguem dominar o homem e a natureza, não que o homem não seja também natureza, mas o homem é o intermediário na modificação da natureza voltada sobretudo para os interesses do próprio capital. O homem modifica a natureza não pela sua vontade, ou pelo seu único interesse, o homem pelo intermédio do trabalho efetua mudanças e reorganizações na natureza pela vontade soberana dos capitalistas visando acima de tudo o lucro.

O trabalho é a própria construção de mundo, os elementos materiais são construídos pelo trabalho, a natureza é modificada pelo trabalho, enfim, o trabalho é a ferramenta utilizada pelos capitalistas para mudar as faces globais para seus benefícios próprios.

Por outro lado é o trabalho elemento fundamental para a classe operária sobreviver, uma vez que vende sua mão-de-obra e somente assim consegue dinheiro para comprar mercadorias e objetos, bem como moradia, água e energia elétrica.

O trabalho inicialmente pertencia de forma total ao trabalhador, pois o mesmo executava o trabalho intelectual e manual, exercia suas forças sobre a natureza por meio de seus músculos e de seus conhecimentos, auxiliado ora outra por peças e pequeno equipamentos feitos por ele mesmo.

O trabalhador era o senhor de si, de seu trabalho e não dependia de muitos outros para executa-lo, mais a mais apenas de sua família e/ou ajudantes. A partir da incorporação do intermédio do capital sobre o trabalho ocorrem mudanças significativas, principalmente a ruptura do sistema produtivo vinculado simultaneamente ao labor intelectual e manual. Há uma subtração do poder dos trabalhadores, já que não pertencem mais aos

mesmos a incumbência do pensar (o trabalho intelectual) e criar para si próprios ferramentas. Separam de forma definitiva os meios de produção e o trabalhador. (MARX, 1996b).

O trabalho gera mercadorias e lucros para os capitalistas (industriais, fazendeiros...), enquanto os trabalhadores ficam apenas com seus salários.

Para ampliar nossa discussão referente ao conceito de natureza é fundamental a noção de trabalho em Marx, pois o mesmo entende a transformação da própria natureza unicamente pelo trabalho (seja trabalho escravo ou trabalho livre) (MARX, 2001).

O trabalhador ao perder sua autonomia, isto é, quando concentrava simultaneamente o trabalho intelectual e manual (técnicas e tecnologias), fica tal como um barco sem leme, lançado e carregado pelas forças do oceano e dos ventos.

O trabalhador, inevitavelmente, é conduzido pela sistematização e hierarquização das formas e dos meios de produção da vida material (conseqüentemente econômica e política), logo o próprio trabalhador será apenas o que as necessidades do capital impor e incidir sobre os mesmos. A distância entre o trabalhador (seus ganhos e poderes de barganha) progrediram geometricamente desde a Revolução Industrial para com os capitalistas(MARX 1996a e 1996b), assim:

“O trabalhador não ganha necessariamente quando o capitalista ganha, mas perde forçosamente com ele ”.(MARX, 2001, p. 66).

Se o trabalhador desejar ter aumentado seus salários, possibilitando relativo alívio econômico e talvez social, deverá se sacrificar enquanto homem, tornando-se definitivamente homem-máquina, o trabalho empregado pelo mesmo deverá apartar o homem de sua própria liberdade conduzindo-o para um tipo novo de escravidão ofertada aos homens livres:

“[...] em que sua liberdade se encontra totalmente alienada e a serviço da mesquinhez” (MARX, 2001, p. 67) do capitalista, que ganhará muito mais que o funcionário, pois terá algo para vender (seus produtos e mercadorias) e explorará o próprio trabalhador.

No processo de trabalho a atividade do homem efetua, portanto mediante o meio de trabalho, uma transformação do objeto de trabalho pretendida desde o princípio. O processo extingue-se no produto. Seu produto é um valor de uso, uma matéria natural adaptada

às necessidades humanas, mediante transformação da forma (Marx, 1988, p. 151).

O trabalho efetua-se simplesmente no modo de produção

Benzer Belgeler