Em “Mudança Estrutural da Esfera Pública” Jürgen Habermas empreende uma investigação sobre o significado das expressões “público”, “publicidade” e “esfera pública”. A obra, escrita no início dos anos 1960, parte da observação do emprego das expressões referidas acima em diferentes épocas e sociedades para avançar no sentido de localizar as formações sociais e modelos ideológicos a que elas correspondem. Em sentido mais estrito, o ponto central da obra consiste em analisar a chamada “esfera pública burguesa”, forjada nos séculos XVII e XVIII com a crescente insatisfação da nova classe de comerciantes e profissionais liberais com os regimes absolutistas. Logo no início da obra, Habermas chama atenção para a localização histórica da categoria que apresenta:
Concebemos a ‘esfera pública burguesa’ como uma categoria típica de época; ela não pode ser retirada do inconfundível histórico do desenvolvimento dessa ‘sociedade burguesa’ nascida no outono da Idade Média européia para, em seguida, ao generalizá-la num ideal-tipo, transferi-la a constelações formalmente iguais de situações históricas quaisquer (HABERMAS, 2003, p.9)
Na época em questão, a burguesia via seus proeminentes projetos comerciais esbarrarem nos ditames do autoritarismo do governo dos reis. Apesar de ser a responsável pela sustentação econômica da corte, a burguesia não detinha representatividade política.
37 A institucionalização de uma esfera pública, na qual se pudesse frear ou neutralizar o poder e a dominação (HABERMAS, 1984, p.104), interessava aos burgueses como possibilidade de emancipar-se das diretrizes da autoridade em geral e do poder público em particular (GOMES; MAIA; 2008, p.43).
Dessa insatisfação é que nascem espaços voltados para a discussão como cafés, clubes literários, salões e fóruns públicos. A um só tempo, a imprensa crescia, inflamando os debates com os periódicos opinativos. A discussão nestes espaços, chamados por Habermas de “esfera pública literária”, atendia (ou deveria idealmente atender) a critérios básicos de comunicabilidade, a saber:
Por mais que se diferenciem entre si comunidades de comensais, salões e cafés, no tamanho e na composição do seu público, no estilo de seu comportamento, no clima de raciocínio e na orientação temática, todos tendem sempre a organizar, no entanto, a discussão permanente entre pessoas privadas; dispõe, para isso, de uma série de critérios institucionais em comum. Em primeiro lugar, é exigida de sociabilidade que pressupõe algo como a igualdade de status, mas que inclusive deixa de levá-lo em consideração. Contra o cerimonial das hierarquias impõe-se tendencialmente a polidez da igualdade (HABERMAS, 2003, p.51).
A primeira condição exigia que os participantes atuassem na discussão despidos de quaisquer hierarquias sociais relacionadas ao poder político ou econômico. Neste caso, estabelecia-se uma “paridade inicial” condizente com um ambiente discursivo racional e equilibrado. A segunda condição versava sobre a tematização de assunto até então inquestionáveis, como a arte, a literatura e, posteriormente, o próprio poder político. A terceira e última condição diz respeito ao “não-fechamento do público” (HABERMAS, 2003, p.53).
Dessa forma, a condição é, pelo menos em princípio, uma exigência que diz respeito a propriedades que têm a ver com a mera humanidade dos sujeitos, excluídas as propriedades provenientes de status, força, poder e etc. Se isso é verdade, a publicidade comporta a exigência de que os públicos não sejam excludentes, que sejam, em princípio, sempre abertos, como também implica o requisito da acessibilidade: todos devem ter a chance de introduzir-se na esfera em que possam dizer e contradizer (GOMES, 2008, p.40).
Desenhava-se assim, na análise de Habermas, uma esfera pública que funcionava como esfera de mediação entre o Estado e a sociedade civil, reunião de indivíduos privados em espaços públicos. Tal concepção está intrinsecamente ligada à ideia de democracia discursiva ou deliberativa cujo preceito fundamental é a “defesa da discussão pública enquanto mecanismo de produção e legitimação das decisões políticas” (MARQUES; MIOLA; 2010, p.1). Esse modelo
38 emergiu na confluência do pensamento de Habermas e do filósofo americano John Rawls e coloca-se como uma alternativa para os problemas dos modelos de governo liberal e republicano. Dentro desta perspectiva, caberia aos meios de massa “(a) integrar-se, favoravelmente, na constituição de uma esfera pública forte, extensa, efetiva, definitivamente arraigada na esfera civil, (b) abrir brechas na guarda do sistema político que permitam nela a entrada da vontade e da opinião públicas” (GOMES; MAIA; 2008, p.18).
Paradoxalmente, os meios de comunicação de massa iriam ter papel central na degradação da esfera pública burguesa na visão habermasiana. Segundo o autor, a crise da esfera pública burguesa estava ligada às modificações profundas na estrutura social que a circundava, sobretudo na diluição dos limites entre Estado e sociedade causada pela emergência de políticas sociais do Estado e da ascensão deste como regulador ‘desejável’ das relações econômicas (atuando contra a tendência de concentração de capitais e à formação de oligopólios). A degradação da esfera do uso público da razão foi impulsionada ainda mais pelo advento de uma imprensa sensacionalista, afeita não mais ao debate público, mas, sobretudo, à propaganda.
A análise do teórico evidencia sua filiação à corrente de pensamento que ficou conhecida como “Escola de Frankfurt”, cuja produção se voltava, fundamentalmente, a denúncia dos processos maléficos engendrados pelos meios de comunicação de massa ou, como eles cunhavam, pela “indústria cultural”. Herdeiros do pensamento do economista alemão Karl Marx, os Frankfurtianos enxergavam o processo de produção dos bens culturais massificados como um processo alienante, uma vez que a indústria cultural estava a serviço do status quo, a ela cabendo o apaziguamento das tensões oriundas da luta de classes. Desta forma, o indivíduo torna-se
consumidor dos bens culturais e perde a capacidade de análise e discussão que caracterizam a
esfera pública.
Com os novos mídia (rádio, cinema e televisão), modifica-se a forma de comunicação enquanto tal; por isso, no sentido estrito da palavra, atuam de um modo mais penetrante do que a imprensa alguma vez pôde fazê-lo. O comportamento do público, sob a coação do ‘don’t talk back’, assume uma outra configuração. Os programas que os novos mídias emitem, se comparados com comunicações impressas, cortam de um modo peculiar as reações do receptor. Eles cativam o público enquanto ouvinte e espectador, mas ao mesmo tempo tiram-lhe a distância da ‘emancipação’, ou seja, a chance de poder dizer e contradizer” (HABERMAS, 2003, p.202)
39 Se antes a imprensa atuava como importante instrumento para consolidação da esfera pública contribuindo para a publicidade das discussões, a partir do surgimento da indústria cultural, ela assume as funções de propaganda, contribuindo para a formação de consensos fabricados. Wilson Gomes (2008) nos explica esta relação:
A origem da opinião que se quer difundir ou publicar são certamente interesses privados com acesso privilegiado aos meios de comunicação. Com efeito, se, antes, o fato da imprensa ser privada significava ter garantida a sua liberdade crítica em face da autoridade, agora, o fato de ser privada – portanto, de ser um campo de ressonâncias de interesses particulares – é que frequentemente compromete a sua função crítica e, por conseguinte, a sua capacidade de servir na constituição de uma autêntica esfera pública. Agora ela é simplesmente um campo em que proprietários privados agem sobre pessoas privadas, enquanto público, para influenciá-las (GOMES; MAIA; 2008, p.50).
A análise empreendida por Habermas em “Mudança Estrutural da Esfera Pública” foi alvo de muitas críticas e, por isso mesmo, foi submetida a releituras ao longo destes anos, inclusive feitas pelo próprio autor. Uma das críticas comuns à obra incide no fato da visão Habermasiana privilegiar o foco na esfera pública burguesa e desconsiderar os proletários, que também forjaram historicamente espaços de discussão e deliberação pública. Autores como Cohen e Arauto (1992) apud Avrtizer e Costa (2006) fazem referência aos chamados new publics formados pelos movimentos contra-culturais, movimentos sociais e espaços alternativos que influem na esfera cultural e repercutem na esfera política.
(...) enquanto o núcleo da esfera pública política, constituída por parlamentos, e a grande mídia, mantém-se, antes (mas não da mesma forma em todas as partes!) fechada e inacessível, uma pluralidade de públicos alternativos, diferenciada, mas interrelacionada, revifica de tempos em tempos os processos e a qualidade da comunicação pública. Com a emergência de novos tipos de organização política, até mesmo a discussão pública nos parlamentos e nas convenções partidárias tende a ser afetada (...) (COHEN; ARAUTO, 1992, p.460 apud AVRTIZER; COSTA, 2006, p.71).
Nancy Fraser (1990) num artigo intitulado “Rethinking the public sphere: a contribution
to the critique of actually existing democracy” combate veementemente o ponto de vista
excludente da ideia habermasiana de uma esfera pública nacional e única. Apesar de reconhecer a importância da análise da esfera pública burguesa, Fraser questiona a condição de igualdade/paridade dos indivíduos que constituem a esfera pública. Para a autora, a análise de Habermas termina por encobrir as desigualdades políticas, econômicas, culturais e de gênero existentes no debate público, o que caracterizaria a esfera pública “machista-burguesa”.
40 Fraser traz à tona essas desigualdades colocando-as como elementos essenciais à formulação da noção de democracia discursiva. A paridade seria instrumento de legitimação útil aos poderosos, uma premissa para a organização social do estado em estratos diferenciados.
Habermas's account of the bourgeois conception of the public sphere stresses its claim to be open and accessible to all. Indeed, this idea of open access is one of the central meanings of the norm of publicity. Of course, we know, both from the revisionist history and from Habermas's account, that the bourgeois public's claim to full accessibility was not in fact realized. Women of all classes and ethnicities were excluded from official political participation precisely on the basis of ascribed gender status, while plebeian men were formally excluded by property qualifications. Moreover, in many cases, women and men of racialized ethnicities of all classes were excluded on racial grounds. (FRASER, 1990, p.63)7
Outro ponto revisto na obra de Habermas é a impossibilidade da existência de uma discussão racional/deliberativa mediada pelos mass media. Ainda que se reconheça que estes estão expostos a tensões internas (rotinas de produção, hierarquias profissionais, busca de status, disputa entre empresas e etc) e externas (pressões de grupos políticos e econômicos), é inevitável nos dirigirmos às instituições de comunicação ao pensar numa política deliberativa na sociedade atual.
Há um pressuposto inevitável que nos compele ao exame da interface entre esfera pública e comunicação de massa: na sociedade contemporânea, não há espaço de exposição, exibição, visibilidade e, ao mesmo tempo, de discurso, discussão e debate que se compare em volume, importância, disseminação e universalidade com o sistema de comunicação de massas. Por isso mesmo, grande parte das práticas políticas democráticas estabelece relações fundamentais com o espaço discursivo predominante: a cena midiática (GOMES; MAIA; 2008, p.118)
Aceitar a ideia de uma “esfera pública midiática” (GOMES; MAIA; 2008, p.123) não quer dizer, entretanto, necessariamente, desconsiderar as formas desiguais de acesso aos mass
media (como alertou Fraser) e ainda, os diferentes modos de elaboração das mensagens a partir
deles segundo os estratos sociais. Neste ponto, avançamos no sentido de entrever de que modo os meios de comunicação podem funcionar como espaços de pré-estruturação da esfera pública numa análise que, em parte, utiliza-se de dos conceitos presentes em “Mudança Estrutural”, mas
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41 por outro lado, contraria a visão determinista e trágica que transfere toda a responsabilidade para os mass media.
2.2. Condições de visibilidade e desigualdade deliberativa: limites para o