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3. ARAŞTIRMANIN YÖNTEMİ

3.5. Verilerin Çözümlenmesi

CONFLITOS SOCIAIS E DIREITO DE PROPRIEDADE

A questão dos conflitos sociais e do direito de proprieda- de cruza-se na história florestal com um debate historio- gráfico mais antigo: o da privatização ou transferência dos terrenos comuns tanto para o sector privado como para o Estado. Este tema esteve muito em voga na histo- riografia, entre os anos sessenta e oitenta de Novecentos, nas análises sobre o desenvolvimento da indústria têxtil e da expansão de áreas de pastagens para criação de gado lanígero. Neste contexto historiográfico Andrée Corvol inovou, ao apreciar o tema da conflitualidade social em torno da apropriação de terrenos comuns, para reforço das políticas públicas de arborização e centralização de políticas administrativas nos séculos XVIII e XIX, procu- rando compreender de que modo a utilização de espaços silvestres e das montanhas se cruzou com um problema de direitos seculares de utilização de terrenos do Estado e comunais, situados em zonas de fraca densidade humana e de diminuta exploração agrícola84.

Nesta análise Corvol defendeu a resistência das po- pulações locais à arborização das montanhas como o maior entrave à aplicação daquelas políticas destinadas a minimizar o efeito torrencial nas zonas baixas e simulta- neamente cumprir o dever do estado em aumentar a floresta pública para fornecimento de carvão e materiais de construção à população85. Estudando a cordilheira

alpina realçou a necessidade de o governo negociar com os municípios, os proprietários privados e as populações de montanha como via inultrapassável para obter um

83 Idem, Ibidem.

84 Corvol, Andrée (1987) - L’Homme aux Bois. Histoire des Relations del

l’Homme et de la Forêt XVIIe-XXe Siècle, Paris.

acordo que permitisse opera a florestação para fins de contenção torrencial. A solução resultou na autorização de permanência da utilização das zonas a arborizar como pastos pelas comunidades locais. O compromisso assu- mido pelos governantes com as comunidades locais visa- va reduzir a tensão que se verificara entre os funcionários públicos encarregues de implementar o plantio de árvores nas zonas altas e as comunidades locais que viam as primeiras como invasoras.

Em 1880s verificou-se situação equivalente em Por- tugal, na Serra da Estrela, quando os Funcionários dos Serviços Florestais tentaram iniciar a arborização as cu- meadas da serra, como demonstrou Maria Carlos Ra- dich86. O compromisso entre as comunidades de monta- nha e a classe política teria de ser obtido através da cedência dos pastos tradicionais mesmo em perímetros florestais do Estado para diminuir a tensão entre os habi- tantes das zonas altas e os funcionários públicos encarre- gues de as florestas87.

INSTITUIÇÕES E CENTRALIZAÇÃO ADMINISTRATIVA DE ÁGUAS E FLORESTAS, MEIO DE UNIFICAÇÃO POLÍTICA

Na proposta interpretativa sobre a criação de instituições florestais e de gestão de águas, esta abordagem perfilha a tese da importância determinante das instituições públi- cas e respectivas corporações policiais, como instrumen- tos do reforço do poder central sobre as periferias. Estas teses foram desenvolvidas nos anos noventa do século XX e mantidas em historiografia mais actual, entre outros, sobre o caso suíço, italiano ou espanhol. Como referiram Pfister e Bruggmeir, as leis nacionais de arborização Suíça de 1876, Italiana de 1877 e Austríaca de 1884, seriam um exemplo daquela premissa. Bruggmeir, invocando os referidos diplomas, reforçou a importância não só da criação de um aparato institucional de âmbito universal nos respectivos territórios nacionais, mas o facto de aquele apresentar um carácter de centralização, com a perspectiva de inaugurar a implementação dum modelo público de gestão universal da floresta naqueles territó- rios88.

Por último, um dos temas aflorados pela historio- grafia, mas que não foi explorado como tema de análise

86 Radich, M. e Alves, A. (2000) Dois Séculos de Floresta em Portugal,

2000.

87 Idem, Ibidem, pp. 356-362.

88 Bruggemeier, J-F (2000) - “New Developments in Environmental History”

in Proceedings, 19th International Congress of Historical Sciences, Oslo.

individuado, foi o de saber em que medida as políticas de organização e de ordenamento de águas e de florestas contribuíram como dados fundamentais nas políticas de unificação territorial europeia, no contexto de formação dos Estados-nação e da diluição de antigas administra- ções regionais. As análises sobre a centralização adminis- trativa observaram este problema de um ponto de vista de política interna e dos meios necessários à sua execu- ção prática.

Foi neste sentido que, a historiografia parece ter transposto de forma mais implícita do que explícita, a perspectiva do economista e politólogo Douglass North, de que boas instituições fazem um bom Estado89. Da

eficácia de comando da cadeia administrativa, dependeria então, a execução de boas políticas territoriais. Para o desenvolvimento destas, era necessário portanto criar meios operativos destinados à sua implementação.

A criação das instituições passou assim a ser en- tendida pela historiografia que tratou a promulgação de leis nacionais para arborização da cordilheira alpina no século XIX, como um ponto de partida e um marco deci- sivo, na actuação positiva dos decisores políticos a favor de políticas públicas de ordenamento ambiental. Esta legislação marcou o momento em que o Estado deixou de ter uma atitude passiva sobre estas matérias para se tornar um agente interveniente de relevo na gestão am- biental. Como já foi referido, este tipo de análise saltou trâmites intermédios do processo político e de conjuntu- ras sociais e económicas, que justificaram ou bloquearam a instituição das referidas instituições e implementação das referidas políticas de arborização.

A maior ou menor celeridade impressa à criação deste tipo de organismos e dos meios operativos para impor e fiscalizar a adopção de medidas administrativas ao nível local, em áreas afastadas do centro político de Governo, é um tema que tem alimentado um debate historiográfico em Portugal, nas relações de poder entre os centros e as periferias90.

No caso luso, esta problemática foi abordada, por exemplo, na perspectiva da construção do aparelho do

89 North, D. (1998 [1990]) - Institutions, Institutional Change and Economic

Performance, Cambridge, University Press

90 Almeida, P. (1995) - A Construção do Estado Liberal…; Branco, R. (2005)

- The Cornerstones of Modern Government, 2005; Sousa, P. (2007) - “A construção do aparelho periférico do Ministério da Fazenda em Portugal (1832-1878)", in Burocracia, Estado e Território. Portugal e Espanha (séculos XIX-XX), Livros Horizonte, Lisboa, pp. 111-136.

Estado Liberal, por Pedro Tavares de Almeida91, por Rui

Carvalhinho Branco92 e Paulo Silveira e Sousa93 nas políti- cas de criação de instrumentos de uniformização de linguagem fiscal e jurídica ao nível local, para conferir maior eficácia ao objectivo de centralização do poder.

No entanto, como se indicou na Introdução, os es- tudos sobre florestas colocaram o seu enfoque na evolu- ção das competências administrativas das instituições e serviços encarregues de gerir o património florestal do Estado. A historiografia portuguesa não incluiu ainda o estudo do ordenamento de recursos naturais no debate dos instrumentos de centralização do aparelho burocráti- co do Estado. A gestão de águas e de florestas, cruzando os usos de propriedade comunal e particular a uma esca- la individual, constituiria (presumivelmente) um objecto de controlo social e económico privilegiado sobre as populações94.

As visões acima mencionadas seguiram um pouco a tendência da historiografia europeia onde se separam as abordagens da história da Administração Pública do tema das políticas de ordenamento ambiental. Paralelamente, a análise de políticas ambientais tende a isolá-las de outras conjunturas que influíram nas decisões políticas tomadas sobre aquele domínio. Importa integrar o seu estudo nas conjunturas epocais, políticas económicas e culturais em, que as políticas de florestas e de águas foram desenvol- vidas e como se integraram no projecto de administração territorial95.

Como se pode observar pela síntese de temas his- toriográficos abordados, as lógicas subliminares que orientaram a decisão legislativa sobre políticas de orde- namento, nem sempre se tornaram evidentes nas pers-

91 Almeida, P. (1995) - A Construção do Estado Liberal, … pp. 251-259. 92 Branco, R. (2005), The Cornerstones of Modern Government, … 93 Sousa, P. (2007) “A construção do aparelho periférico do Ministério da

Fazenda em Portugal (1832-1878)”, in Burocracia, Estado e Território. Portugal e Espanha (séculos XIX-XX), Livros Horizonte, Lisboa, pp. 111- 136.

94 Melo, C. (2007) - “A política de água e da floresta em Portugal no século

XIX” in Idem, Coord, Almeida P. e Branco, R., Livros Horizonte, Lisboa, 163-182.

95 Radich, M., Alves, A. (2000) - Dois Séculos de Floresta em Portugal,

2000; Idem (1988) - “A Agronomia Portuguesa no Século XIX”, in Ler História, nº. 14, Lisboa, pp. 87-99; Idem (1996) - Agronomia no Portugal Oitocentista: uma Discreta Desordem, Celta Editora, Oeiras; Devy-Vareta, N. (1989) - “Os serviços Florestais no século XIX. Os Homens e as Ideias” in Finisterra, XXIV, Lisboa, 47, pp. 105-116; Idem (193) - A Floresta no Espaço e no Tempo em Portugal - A Arborização da Serra da Cabreira (1919-1975), mimeo, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto; Idem (2006) - “A Floresta em Mapas” in Geografia de Portugal, vol. I, Coord. de Medeiros, C., Círculo de Leitores, Lisboa, pp. 108-114; Idem (2006) -“A Floresta na Construção das Paisagens Rurais” in Ibidem, vol. I, Coord. Medeiros, C., Círculo de Leitores, Lisboa, pp. 115-136.

pectivas oficiais. O que ressalta da análise historiográfica é que as motivações, bloqueios, indecisões ou decisões governativas para adopção de políticas de águas e de florestas, resultaram de um amplo conjunto de factores em diversas regiões europeias.

Reúne consenso alargado na historiografia que, a destruição de complexos portuários por inundações marí- timas espoletou uma questão política em torno dum problema hidrológico. Foi a partir da menção a este qua- dro de destruição material que, se iniciou debate parla- mentar e geraram preocupações governativas com a gestão de águas e de florestas. Os restantes estímulos e entraves à decisão política para a sua regulação e imple- mentação variaram nos diferentes casos europeus.

Em Portugal, num território demarcado politicamen- te por uma fronteira estável, verificou-se que tal como nos outros casos, a questão política de alargamento do modelo estatal de águas e de florestas a todo o território, foi motivado por inundações e numa conjuntura climática agressiva. Todavia, a decisão política principiou, ao con- trário dos outros casos europeus (em territórios circunda- dos por mar), por favorecer as medidas de arborização no litoral e não nas respectivas regiões montanhosas. Importa compreender que tipo de factores favoreceu esta escolha relativamente a regiões que registavam proble- mas afins e em territórios com algumas semelhanças geográficas.

Para melhor entender as decisões dos políticos por- tugueses, apresenta-se uma breve caracterização geo- morfológica, climática, hidrológica, e florestal do território que, como se demonstrará ao longo do trabalho, em muito influiu na mencionada decisão (xxx). Segue-se posteriormente uma breve contextualização das conjun- turas política, demográfica e económica nas quais se modelaram as políticas de águas e de florestas na segun- da metade de Oitocentos (no subcapítulo 1.4), para se- guidamente se iniciar a narrativa analítica do quadro de devastação material que originou a discussão política sobre o tema em estudo (no subcapítulo 1.5).

Benzer Belgeler