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IV. BULGULAR VE YORUM

4.5. BeĢinci Alt Amaca ĠliĢkin Elde Edilen Bulgular ve Yorumlar

Nilda Garré deixou o Ministério da Defesa em 2010 para assumir a recém-criada pasta da Segurança. Seu sucessor no MD foi o ex-governador de Santa Cruz, Arturo Puricelli, que tinha uma longa e conturbada relação com os Kirchner, sobretudo Néstor – com quem chegou a afirmar ter “diferenças irreconciliáveis” (SANZ, 2010). Apesar disso, Puricelli foi designado para o escritório de fabricações militares, em 2006, e, enquanto esteve no cargo, cultivou uma boa relação com a alta cúpula das Forças Armadas.

Durante sua gestão, a cooperação internacional foi das áreas nas quais a intensidade das ações se manteve, tanto bi como multilateralmente, em relação ao período anterior. Em visita ao Brasil, Puricelli encontrou-se com o então ministro da defesa brasileiro, Celso Amorim, para referendar os acordos de cooperação tanto para produção dos veículos blindados, e propor o início de cooperação na indústria naval.

Já na esfera regional, a Argentina engajou-se no Conselho de Defesa Sul- Americano, tema que será avaliado com mais vagar no capítulo quatro. O ministro manteve ainda a continuidade da bem-sucedida operação Cruz del Sur, bem como a presença das tropas argentinas no Haiti e os intercâmbios de experiências entre as unidades militares envolvidas na MINUSTAH.

No âmbito da formação militar, o ministério introduziu um novo elemento na reforma. Puricelli expediu um decreto proibindo o uso de armas de guerra nos liceus militares, cujo corpo discente é, em geral, formado por menores. A justificativa oficial concentrava-se em destacar a inserção da medida em um contexto de proteção aos direitos das crianças e adolescentes. Puricelli, ademais, sustentou que o “uso de armas de guerra se converteu em algo anacrônico e desnecessário” e que a educação militar

deveria “sensibilizar para a defesa de forma compatível com os direitos dos menores” (ELIMINARÁN..., 2013).

O ministro deu prosseguimento à cooperação cientifico-tecnológica com outras agências dependentes do Estado. Em dezembro de 2012, Puricelli assinou um convênio- quadro de assistência técnica com o Instituto Nacional de Tecnologia Industrial. O acordo, porém, até por sua natureza, não apresenta nenhuma agenda pormenorizada, limitando-se a definir a cooperação técnica com vistas a garantir a certificação de qualidade dos insumos industriais de origem nacional adquiridos pela pasta da Defesa.

A gestão de Puricelli também foi marcada por polêmicas envolvendo a marinha argentina. Em janeiro de 2013, o navio de guerra Santíssima Trinidad, que participou dos combates contra a marinha britânica na Guerra das Malvinas, afundou quando estava ancorado na base naval de Puerto Belgrano (DESDE..., 2013). O episódio foi inicialmente apontado como resultado de falta de manutenção adequada. Entretanto, Puricelli declarou dias depois que não descartava a hipótese de sabotagem ou atentado, alegando “há quem use as Forças Armadas para criticar o nosso governo” (PURICELLI

apud DE VEDIA, 2013).

Outro episódio conturbado envolveu a fragata Libertad. A fragata, que funcionava como barco de treinamento para a marinha e participava de uma viagem de instrução, foi detida no porto de Tema, em Gana, durante uma escala técnica. A retenção atendia à solicitação dos fundos de investimentos estadunidenses chamados de

hold outs – apelidados “fundos abutres” – que eram credores do Estado argentino que

haviam optado por não participar das rodadas de reestruturação da dívida externa ocorridas em 2005 e 2010.

A controvérsia foi desatada, sobretudo, porque se tratava de uma embarcação bélica, de modo que sua retenção era um ato de violação à soberania argentina com feições de ato de guerra76. Após dois meses de intensos esforços diplomáticos, a fragata retornou à Argentina, beneficiada por um parecer favorável do Tribunal do Mar. A saída da fragata foi, tecnicamente, uma fuga, visto que as decisões do Tribunal do Mar precisariam ser antes referendadas pela Corte Suprema de Gana para terem efeito cogente (DIAMINT, 2015b). Pouco tempo depois, porém, a falta de recursos para os reparos necessários poria a fragata em desuso.

76 O episódio mais tenso ocorreu quando o governo de Gana cortou o fornecimento de água e energia elétrica à fragata e exigia que ela se deslocasse para outra região, menos movimentada, do porto. Os militares argentinos, após a resposta negativa, mostraram suas armas às forças ganesas que se preparavam para abordar o navio.

A evolução dos eventos durante a crise sinalizava o desencontro de cursos de ação por parte dos ministérios da Defesa e Relações Exteriores e evidenciou o descompasso entre as burocracias responsáveis por conduzir as duas faces da política exterior, exemplificada principalmente pela do que a comunicação e desencontrada. Diamint (2015b) relata que fontes ligadas à marinha afirmavam que o MD havia tentado dissuadir o chanceler Héctor Timmerman de realizar a escala em Gana, além de informar que a comunicação com o Ministro da Defesa ganês foi feita não por Puricelli, mas por um oficial da marinha (Idem).

Contudo, documentos reproduzidos pelo jornalista Horacio Verbitsky no jornal

Página 12 contradiziam a versão dos militares. Segundo o levantamento feito pelo

jornalista, o Ministério da Defesa – atendendo à solicitação da Marinha, que definiu isoladamente os procedimentos a serem adotados – encaminhou à chancelaria um ofício no qual solicitava a obtenção junto aos ministérios estrangeiros das permissões necessárias para que a fragata pudesse navegar pelas águas territoriais de outros países (VERBITSKY, 2012).

Em resposta, o Palácio San Martin informou ao Ministério da Defesa que havia risco de que a fragata, apesar das imunidades pertinentes a um bem de Estado, fosse “objeto de possíveis reclamações, medidas cautelares, ou de execução durante sua estadia em portos estrangeiros” (VERBITSKY, 2012).

Ademais dessas polêmicas, que revelavam certa falta de tato do ministro frente a questões sensíveis, a gestão de Puricelli, em geral, teve a face do revés em termos de ativismo político e voluntarismo que caracterizaram os anos de Garré. A questão da fragata denuncia um aspecto interessante. Durante a querela, um militar era, frequentemente, porta-voz do ministério. Embora não seja um fato que, por si só, represente algo robusto do ponto de vista concreto, é simbolicamente muito relevante. Arriscamo-nos a dizer que, sob a gestão anterior, tal fato não se daria em uma questão dessa natureza.

Sem uma agenda própria clara e definida, a gestão de Puricelli deu continuidade ao que já vinha sendo desenvolvido no Ministério, mas sem o engajamento, traquejo e dinamismo demonstrado por sua antecessora, inclusive no que diz respeito ao exercício total da autoridade política sobre o Ministério.

Um indício interessante desse novo perfil do ministério foi a redução drástica do ritmo de publicações do Ministério – que no período Garré fora apelidado de “editorial” pelo volume de publicações realizadas. Sob Puricelli, cessou, por exemplo, a publicação

dos anuários que se constituíam como uma espécie de relatório anual de prestação de contas do Ministério. Igualmente, na página online do MD constam onze resoluções77 assinadas por Puricelli, contrastando esmagadoramente com os 836 atos semelhantes expedidos por Garré ao longo dos cinco anos em que esteve à frente da pasta.

Não se trata, evidentemente, de uma questão puramente numérica, mas qualitativa. Além de discrepar de maneira abissal em volume, os atos do ministro estavam concentrados em questões burocráticas, relacionada mais à rotina ministerial que à definição de políticas. Evidentemente, uma política de defesa é mais que uma coleção de atos institucionais, mas transcende também da gestão da coisa pronta e uma atuação pouco imaginativa e propositiva.

Se bem é certo que a situação econômica do país, que foi bastante positiva entre 2003 e 2011, trouxe consigo as costumeiras restrições pecuniárias para a defesa, por outro, é notório que faltou a Puricelli o engajamento e mesmo o discernimento sobre a temática para propor uma agenda que avançasse a partir do arcabouço institucional arquitetado pelas gestões anteriores.

Posto em perspectiva com a gestão Garré, as diferenças evidenciadas ganham a dimensão de um abismo. Dadas as particularidades de enquadramento da defesa em um país como a Argentina, o perfil do ministro e sua capacidade de gestão junto à presidência pode ser um fator chave na construção de uma política de defesa consistente.

Os principais eventos do período Puricelli se concentram mais em questões continuadas que inéditas. Se bem não houve uma retração deliberada, tampouco parece ter havido impulso. Caracterizamos, assim, o período, por sua continuidade inercial, isto é, pelo prosseguimento das agendas provocado mais por sua dinâmica própria que por uma atividade do ministro nesse sentido.

3.6 A efetivação do controle e os limites da condução: um balanço da política de defesa

Benzer Belgeler