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3.BANKACILIK DÜZENLEME VE DENETLEME KURUMU 3.1 BDDK’NIN KURULUŞU VE KURULUŞ NEDENLERİ

3.2 BDDK’NIN HUKUKİ NİTELİĞİ

As “lesões causadas pelo alfabeto” e a frequência à escola promovem uma série de mudanças no menino. Elas se dão de maneira insidiosa e paulatina. E a palavra impressa é o seu motor principal. Na escola, a criança amarga a doutrinação imposta pela cartilha do “Barão de Macaúbas” e seus “conceitos sisudos”.600 Em sua adjacência, porém, ela aprende o valor do “jogo de palavras”. Nos momentos de folga da função de assistente de missa, o menino se refugia no “meio das moças”, que discutiam corte e costura. É ali, ao ter o seu chinfrim “paletó cor de macaco” elogiado com entusiasmo, 598 RAMOS, 2011, p. 118. 599 RAMOS, 2011, p. 193.. 600 RAMOS, 2011, p. 129-130.

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que se abre uma nova dimensão da linguagem para a criança. Aquele “vezo de afirmarem o contrário do que desejavam”, aquela “maneira de falar pelo avesso” mostra uma primeira factível possibilidade de fuga da pesada norma das cartilhas e das seletas clássicas: “Dissimulavam-se agora num jogo de palavra que encerra malícia e bondade. Essa mistura de sentimentos incompatíveis assombrava-me – e pela primeira vez ri de mim mesmo”.601 A súbita aprendizagem da ironia marca, a partir daí, a conformação da sensibilidade e da inteligência da criança. No momento certo, mas nem sempre com o absoluto controle sobre os efeitos que ela pode provocar sobre si mesmo, o escritor saberá dela lançar mão. É o instante da aquisição de sua primeira arma, num confronto que daí em diante teria um longo caminho. Nesse ponto, o menino, seguindo à risca o observado nas lições, já é capaz de enfrentar os caixeiros e os fregueses da venda do pai. Na disputa pela pronúncia correta do nome de Samuel Smiles, por exemplo, ele, apesar de não ter a opinião levada em conta, regozija-se, solitário, diante da ignorância dos que dele zombam.602 A circunstância é efeito direto da superioridade recentemente adquirida. E os livros são a sua fonte.

Como o olho humano, a vigilância da norma parece ter seu ponto cego. E é por ele que a literatura se imiscui no campo da linguagem do menino.

Descobri um folheto de capa amarela e papel ordinário, cheio de letras miúdas, as linhas juntas, tão juntas que para um olho inexperiente os saltos e as repetições eram inevitáveis. Creio que isso me apareceu depois do meu acesso de religião. Deve ter sido por aí. Os santos que se penduravam nas paredes do meu quarto cresciam demais. Diminuíram e foram substituídos pelos seres que povoavam as histórias volumosas.603

Nesse momento, os primeiros efeitos do esquema disciplinar a que a criança fora submetida se tornam mais facilmente discerníveis. Na perspectiva do menino, “a necessidade de mistério e de grandeza” explicava a atração pelos santos e pelos heróis. O crescente interesse pelos seres imaginários das histórias profanas é o primeiro efeito da intromissão de um novo registro de discurso. Uma história simples, sorrateira, que se insinua, taticamente; uma estratégia subversiva.

601 RAMOS, 2011, p. 204. 602 RAMOS, 2011, p. 211-216. 603 RAMOS, 2011, p. 217.

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Por que brigaram no meu interior esses entes de sonho não sei. Julgo que foi por causa de uma proibição, terrível proibição, relativa à brochura de capa amarela. Alguém a deixou na loja. Folheei-a devagar, soletrando, consultando o dicionário, sentado num caixão de velas.604

A história que toma a atenção da criança de maneira inesperada é a narrativa infantil O Menino do Mato e o seu Cão Piloto.605 Trata-se de um provável conto

popular que discorre acerca da aventura de uma criança perdida na floresta com seu cachorro. É interessante notar que o enredo da “história da criança abandonada” age como uma primeira força de atração da sensibilidade do menino através da característica definidora da literatura. Seu poder de projetar a experiência do outro de forma complexa desperta a empatia e a “necessidade de conhecer” o destino da criança e do cão Piloto. Porém, nesse tempo, os saltos da dúvida e da curiosidade contam com um espaço limitado. Sabemos que o menino se refere à censura realizada pela prima Emília. No júbilo do deciframento penoso e gradual da narrativa, ele divide com a menina a experiência arrebatadora. Para sua decepção, a prima, sem qualquer hesitação, condena a história. Ele não a devia ler, o “livro era excomungado”, escrito por “um sujeito ruim, protestante”. Desarmado, o menino não tem sequer a vontade de expor sua réplica, justificada em seu espírito. E os antigos elementos da religião e da moral juntam-se ao desejo feminino, num perverso traçado normativo. Desse último, como sugerido antes, trata-se de uma primeira aparição na forma da lei.

Eu vivia numa grande cadeia. Não, vivia numa cadeia pequena, como papagaio amarrado na gaiola. Enxergara a libertação adivinhando a prosa difícil do romance [...] De repente as interdições alcançavam o mundo misterioso onde me havia escondido. Impossível mexer-me, papagaio triste e mudo, na gaiola. Quando principiava a imaginar espaços estirados, a lei vedava-me o sonho.606

No entanto, condizente com a apreensão da imanência, a materialidade do discurso da memória está sujeita a descontinuidades. E nessa brecha parece se localizar o ponto efetivo para a irrupção de uma proposta de solução de continuidade da norma.

604 RAMOS, 2011, p. 218. 605 RAMOS, 2011, p. 218. 606 R7AMOS, 2011, p. 220-221.

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O enunciado do narrador corrobora a hipótese: já nesse ponto, um vírus da literatura estava a atuar no organismo da criança: “Apareceu uma dificuldade, insolúvel durante meses. Como adquirir livros?”.607

A partir do contato com a fábula infantil, a “necessidade de conhecer” do menino vai focalizar os objetos que guardam com aquele a característica da inutilidade e do ócio. É uma maneira de constatar a “vocação para as coisas inúteis”, herdada do avô.608 São também, de certa forma, as primeiras movimentações num terreno estratégico frente à disciplina.

Três personagens se destacam no percurso da “educação sentimental” da criança. Duas delas como agentes diretos de apresentação e da manutenção do novo regime de discurso. Sendo a terceira o objeto privilegiado do investimento afetivo dessa experiência. Elas são respectivamente o tabelião Jerônimo Barreto, o agente do correio Mário Venâncio, e a vizinha e colega de classe Laura.

“E onde conseguir livros?”.609 A questão se repete. E aqui é preciso fazer justiça à prima Emília. É a ela que a criança se dirige novamente em busca de auxílio para tentar solucionar o problema. Da deliberação, surgem alguns nomes. Rechaçados os primeiros, os figurões da cidade, resta, no topo da lista, o do “tabelião Jerônimo Barreto”.610 Até aí reside o auxílio da prima, que se esquiva da tarefa de intermediar o encontro entre o primo e o tabelião. É curioso que o narrador apresente o período singular de educação da criança focalizando figuras vulgares, personagens que, ao contrário do protagonista, encontravam-se fora de uma “aristocracia” local. Mais uma vez a seleção das imagens se mostra comprometida com a modulação democrática acertada pela escrita.

A hesitação e a “inveja respeitosa”, efeito da observação das “bonitas prateleiras” repletas de livros do escritório do tabelião, são recompensadas pelo acolhimento solícito. Vencida a timidez e já no território do tabelião, a criança se deixa conduzir por suas indicações. De “O Guarani”, de José de Alencar611, aos “fuzuês de Rocambole”, as leituras iniciais passam ainda por “Joaquim Manuel de Macedo” e “Júlio Verne”.612

Em poucos meses li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e linguagem. Minha mãe notou as modificações com 607 RAMOS, 2011, p. 229. 608 RAMOS, 2011, p. 22, 609 RAMOS, 2011, p. 230. 610 RAMOS, 2011, p. 230. 611 RAMOS, 2011, p. 231. 612 RAMOS, 2011, p. 232.

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impaciência. E Jovino Xavier [diretor da nova escola] também se impacientou, porque às vezes eu revelava progresso considerável, outras vezes manifestava ignorância de selvagem. Os caixeiros do estabelecimento deixaram de afligir-me e, pelos modos, entraram a considerar-me um indivíduo esquisito.

Minha mãe, Jovino Xavier e os caixeiros evaporavam-se. A única pessoa real e próxima era Jerônimo Barreto, que me fornecia a provisão de sonhos, me falava na poeira de Ajácio, no trono de S. Luís, em Robespierre, em Marat.613

Com Mário Venâncio, a educação literária será levada a territórios impensáveis pela criança àquele tempo. O menino conhece o agente do correio e dublê de poeta na escola. É lá que o rapaz exerce também a função de professor. A chegada de Mário Venâncio à cidade foi cercada de elementos ligados à literatura. O rapaz “pobre demais”, que se “notabilizou pela feiura e pelos modos esquisitos”, foi acolhido, entretanto, como “literato”.614 Fato que o apresentava junto de uma aura que o predicado guardava naquele tempo. Além disso, ele aporta ali no momento da fundação da “sociedade teatral” do lugar. O mestre, poeta atuante, apresenta-se como um preceptor rigoroso e persuasivo. É dele a ideia de promover, juntos aos alunos, a “fundação de um periódico”. Sugestão levada a cabo com a ajuda do menino e do primo Cícero. Mário Venâncio escreve artigos para o jornal, promove discussões literárias, acompanha e corrige suas primeiras produções. O conto O pequeno mendigo, da pena do jovem escritor, logo sai no Dilúculo, nome pomposo dado pelo poeta ao jornal organizado pelo grupo de alunos.

O prazer atormentado da educação literária tem o seu preço. No momento em que pensa encontrar a liberdade no meio de uma edulcorada “provisão de sonhos”, abastecida pelos “livros de aventura [e] de viagens”, livros que traziam “questões em que os bons triunfavam e os malvados acabavam presos ou mortos”615, ele é pego novamente na ordem literária: “Isso me dava tontura e enjoo. Uma ideia clara me surgia: os romances agradáveis eram bugigangas. Em troca, exibiam–me insipidez e obscuridades”.616 É a lembrança de uma das discussões literárias coletivas promovidas pelo poeta, e que se encerra ironicamente com a emergência do modelo de “Coelho Neto”.617 Produto e flerte mimético da imaturidade, a imagem se equilibra na

613 RAMOS, 2011, p. 234. 614 RAMOS, 2011, p. 246. 615 RAMOS, 2011, p. 247. 616 RAMOS, 2011, p. 247. 617 RAMOS, 2011, p. 247.

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reconstituição de uma espécie de assembleia democrática. Do lado de Mário Venâncio, vemos a deixa do estado da arte: “- O naturalismo”. Na senda da nova ordem o menino se depara, entre outros, com Casa de pensão e O Coruja.618. E da “cópia” ao “original”, ele se envereda pelas histórias sobre os Rougon Macquart.619

Nessa atmosfera conflitante, que havia bem pouco tempo deixado para trás o peso exclusivo do catecismo, o menino encontra-se com Laura. É o mesmo tempo de novas mudanças: “Aos onze anos experimentei grave desarranjo”.620 A transformação do corpo, em suas “vagas exigências”, é acompanhada da necessidade de reconfiguração da identidade. A desordem característica da pré-adolescência é vivenciada através de uma circunstância que agora conjuga em si a cartilha da religião, o esboço mal traçado de um salvo-conduto rabiscado pela literatura e o emergir da sexualidade. Os pelos no corpo e as “maluqueiras” que passaram a lhe tomar o sono, efeito do chacoalhar das pulsões, são acompanhados de uma nova postura e apresentação. “Recompus gradualmente o vestuário”, informa o narrador, descrevendo a iniciativa da troca dos tamancos pelos “sapatos americanos”, e o hábito indispensável, a partir de então, do uso da gravata.

“Foi então que vi Laura, num exame”.621 Ela é a personagem ideal que agencia as dimensões da experiência. A menina, cujo nome é uma espécie de anagrama destilado de literatura, ainda traz em si todos os predicados que a relaciona intimamente com o universo literário. Num jogo de espelhos, ou num sofisticado uso da metonímia a serviço da composição, a garota está contida na dimensão literária, da mesma forma que a apresenta.

Laura não possuía o azul e o ouro convencionais, mas dividia períodos, classificava as orações com firmeza, trabalho em que as meninas vulgares em geral se espichavam. Imaginei-a compondo histórias curtas, a folhear o dicionário, entregue a ocupações semelhantes às minhas – e aproximei-a, encareci-lhe depois o mérito – e afastei-a. Se ela estivesse próxima, não me seria possível concluir a veneração que se ia maquinando. Situei-a além dos lagos azuis, considerei-a mais perfeita que as moças do folhetim.622 618 RAMOS, 2011, p. 248. 619 RAMOS, 2011, p. 248. 620 RAMOS, 2011, p.261. 621 RAMOS, 2011, p. 262. 622 RAMOS, 2011, p. 263.

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L a u r a e L i t e r a t u r a são uma vez mais a expressão do poder, a forma,

ainda que fantasmática, de impingir a ancoragem do desejo. O regime do discurso que se vê inexoravelmente refém do sujeito e de sua historicidade. “A imagem repelida voltava, transformava-se em ideia fixa, agradável e dolorosa”.623 Ora a garota é denominada de “fantasma”, ora de “uma personagem de romance”, que “não tinha corpo”. Porém, a arte não ignora a concretude da vida. E o apelo do corpo e a importunação do fantasma íntimo agenciam-se no controle dos cordéis do menino. Tais figuras femininas são pontos de passagem num deslize metonímico que teria como origem discernível a figura da mãe. Era ela quem impingia, despercebidamente, às crianças as histórias do “Papa hóstia”. Em sua sequência, deparamo-nos com Mocinha, no auxílio afetuoso durante as lições de soletração, além da lembrança contraditória da prima Emília, instância de repressão e de incentivo à leitura durante a infância. Na companhia das heroínas dos romances, elas se conformam como o principal objeto do investimento afetivo. Laura, a literatura, as personagens de O cortiço ilustram a feminilidade distante, digna de veneração, e, ao mesmo tempo, a feminilidade vinda do real, que deseja.

Sob a orientação do caixeiro batizado com o sugestivo nome de Constantino, que além do mais alegava a ciência da medicina e lembrava a ameaça da loucura, o menino se convence da importância de visitar “Otília da Conceição”.624 A excursão pela zona meretrícia da cidade, apesar de reforçar o clichê do discurso acerca dessa circunstância, parece figurar, de alguma maneira, como uma espécie de libertação. A cena triste e desencantada sucede à iniciativa do menino de embrulhar e esconder o volume de O cortiço, no fundo de sua prateleira. A lembrança e os sentimentos por Laura não eram compatíveis com a história de “safadeza”. Por seu lado, a brutalidade com que a “forma do real”625 do sexo se apresenta, paradoxalmente, liberta-o. Depois do ocorrido, vêmo-lo reestabelecendo o lugar do romance. A imagem de antes já não o importunava, e a “nuvem colorida” que representava Laura se esfuma. Ao fim de

Infância, o modelo do “desejo da mãe”626 e a distorção perniciosa da feminilidade parecem ter sofrido uma torção. Através dela se nota o desabilitar de sua potência autoritária e violenta. Antes disso, como sabemos, serão necessárias as experiências de 623 RAMOS, 2011, p. 263. 624 RAMOS, 2011, p. 267. 625 Cf. SAFATLE, 2009, p. 64-68. 626 SAFATLE, 2009, p. 65.

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Caetés, S. Bernardo e Angústia. Bons tempos em que o poder se restringia ao universo

dos afetos e das identificações. Bem, isso depende do ponto de vista.