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5. BULGULAR

5.4 BazYardmcBa³langç-De§er Problemleri ve Çözümleri

Se do ponto de vista normativo a decisão de não renovar a concessão da RCTV, em meio a outras políticas públicas que objetivavam a democratização da mídia e a efetividade da liberdade de expressão, não encontrou irregularidade, resta saber de seus efeitos nas dinâmicas políticas e sociais venezuelanas. É que a prática de medida extrema como essa não deixa de potencialmente intimidar empresas de comunicação e profissionais do jornalismo, que, nesta condição, poderiam abandonar sua atividade de fiscalização crítica sobre governo, no temor de sofrer medida semelhant e à

69 D e f e n d e A n t o n i o P a s q u a l i ( 2 0 0 7 , p . 1 ) q u e “ e l c i e r r e d e R C T V r e p r e s e n t a c a s i l a c o r o n a c i ó n d e e s a e s c a l a d a d e m o l e d o r a , a m p u t a d e s p ó t i c a m e n t e u n a p o r c i ó n d e m a s i a d o g r a n d e d e l a l i b e r t a d d e d i s e n t i r ( " u n d e r e c h o q u e l a l e y m i s m a n o p u e d e p r o h i b i r " d e c í a l a C o n s t i t u c i ó n d e A n g o s t u r a d e 1 8 1 9 ) g e n e r a n d o u n a p e l i g r o s a m e r m a d e p l u r a l i s m o y c i r c u l a c i ó n d e o p i n i o n e s e n c o n t r a d a s ; u n d a ñ o i r r e p a r a b l e a l a d e m o c r a c i a i m p e r f e c t a q u e q u e r e m o s p r o t e g e r d e u n a d i c t a d u r a p e r f e c t a . ” N o m e s m o s e n t i d o , a f i r m a D e m é t r i o M a g n o l i ( 2 0 1 0 , p . 4 2 ) , q u e “ a p r i m e i r a l i b e r d a d e p o l í t i c a q u e s o f r e u a o l o n g o d o p r o c e s s o d e c o n s o l i d a ç ã o d o c h a v i s m o f o i a l i b e r d a d e d e i m p r e n s a . E m 2 0 0 7 , a R e d e C a r a c a s d e T e l e v i s ã o ( R C T V ) f o i p r o i b i d a n a V e n e z u e l a . A j u s t i f i c a t i v a o f i c i a l f o i a q u e a r e d e a p o i a r a , e m 2 0 0 2 , a t e n t a t i v a d e g o l p e d e e s t a d o c o n t r a C h á v e z . A p e r g u n t a ó b v i a : p o r q u e , e n t ã o , a R C T V n ã o f o i p r o i b i d a , n u m p r o c e s s o l e g a l , e m 2 0 0 2 , m a s a p e n a s e m 2 0 0 7 , q u a n d o c o m e ç o u a p e r s e g u i ç ã o a u m a s é r i e d e o u t r o s ó r g ã o s d e i m p r e n s a ? O s v e í c u l o s q u e p a s s a r a m a s e r c e r c e a d o s e a m e a ç a d o s s o f r e m p r o c e s s o s p o r u m a s é r i e d e s u p o s t o s c r i m e s f i s c a i s , n u m a e v i d e n t e t e n t a t i v a d e i n t i m i d a ç ã o . A p a r e n t e m e n t e , n a V e n e z u e l a , t o d o s p a g a m i m p o s t o s – m e n o s o s r e s p o n s á v e i s p o r m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o q u e c r i t i c a m o g o v e r n o . ”

RCTV. Neste caso, a esfera pública poderia ficar submetida ao discurso único oficial, impedindo a formação de um saber alternativo ao do Estado.

Transcorridos, contudo, mais de quatro anos do término da concessão da RCTV, é possível verificar que esse temor, apesar de fundado, não se concretizou. Quem folheia diariamente as edições impressas de jornais como El Universal, El Nacional e de novos diários como o Tal Cual (fundado em 2000) ou ainda acompanha as edições on line destes periódicos verifica, sem maiores dificuldades, que a divulgação do discurso oposicionista pela mídia continua de maneira semelhante a que ocorria nos primeiros momentos da ascensão do governo bolivariano. Quem, da mesma forma, assiste ao programa Aló Ciudadano, veiculado pela emissora de televisão Globovisión, testemunha diariamente entrevistas realizadas em quase sua totalidade com opositores ao governo, situação que não foi alterada nem mesmo nas vésperas das eleições parlamentares de 2010, tornando-se tal concessão, no período, um poderoso instrumento à propaganda contra-hegemônica dos partidos de oposição.

Tem-se, outrossim, a nova política governamental de

concessões. Em 1998, havia no país, dentre transmissores de programação nacional ou regional, 31 canais privados abertos de televisão e oito públicos. Com a criação do CONATEL pelo novo marco de regulamentação concebido por iniciativa de Chávez, foram outorgadas até 2010 mais 65 concessões a canais privados, 37 a canais comunitários e 12 estatais (JAKOBSKIND, 2010, p. 1), de modo a se ampliar consideravelmente o pluralismo na transmissão de fatos e opiniões.

É verdade que, ao menos a curto prazo, o pluralismo não foi acolhido por considerável parcela da população e, o que é mais grave, terminou por beneficiar os principais concorrentes da RCTV. Tanto é assim que no ano seguinte à não renovação da concessão da emissora, a audiência da Venevisión alcançou a liderança isolada de 32,62 da média da audiência nacional (contra 27% em 2006), tendo a nova vice-líder Televen obtido 14,42% da audiência, quase o triplo do 5% alcançado em 2006 (AGB 2006 e 2008, p. 1).

Há ainda outros problemas não solucionados – e até agravados - pela atuação do Estado. Emissoras estatais como a VTV transmitem diariamente sua programação sem se submeter ao necessário controle de conteúdo, veiculando exclusivamente o discurso governamental. O presidente Chávez, por seu lado, na sua tradicional postura intransigente ao diálogo, continua a tratar a mídia não alinhada ao governo como uma inimiga a ser debelada, de forma a incentivar a prática de atos violentos ou arbitrários contra jornalistas e empresas oposicionistas, conforme constatado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS, 2009, item 441). De outro lado, a mídia aliada tem sido beneficiada pelo governo, mormente por recursos oriundos de publicidade oficial, fator que auxiliou em muito o impresso Ultimas Notícias

(fundado em 1941, pertencente ao grupo Capriles70) a desbancar o El

Universal e tornar-se o jornal de maior venda do pais71. Por fim, o Judiciário

venezuelano, não diferentemente, nem sempre tem colaborado para a ocorrência de debates livres e independentes, chegando em 2010 a proibir a mídia impressa de publicar imagens e textos com o tema da violência, decisão que ainda que prontamente tornada sem efeito, não deixou, por seu caráter

prévio, de equiparar-se à censura72.

Somadas a tais circunstâncias, tem-se a escassa participação da sociedade civil na implementação das políticas públicas de comunicação social; estas, na sua grande maioria, decorrem exclusivamente de decisões tomadas pela cúpula da Administração Pública venezuelana. Sob a ótica do modelo de democracia participativa projetado pela Constituição de 1999,

70 O m e s m o g r u p o , p o r é m , f o i p o r m u i t o s a n o s r e s p o n s á v e l p o r p u b l i c a ç õ e s o p o s i c i o n i s t a s – n ã o b e n e f i c i a d a s p e l a p u b l i c i d a d e g o v e r n a m e n t a l – c o m o o v e s p e r t i n o E l M u n d o , ( U L L O A , 2 0 0 4 , p . 1 2 9 ) , q u e e m 2 0 0 9 f o i t r a n s f o r m a d o e m m a t u t i n o e s p e c i a l i z a d o e m e c o n o m i a e n e g ó c i o s . 71 A i n d a q u e a m b o s o s j o r n a i s e s t e j a m u n i d o s p o r u m p o o l e n t r e d i á r i o s n a d i s t r i b u i ç ã o d e s e u s e x e m p l a r e s . S e g u n d o U l l o a ( 2 0 0 4 , p . 1 3 0 ) , e s t a a s s o c i a ç ã o e n t r e i m p r e s s o s , q u e d e v e r i a m s e r c o n c o r r e n t e s u n s d o s o u t r o s , d e u - s e e m r a z ã o d a n e c e s s i d a d e d e a s e m p r e s a s e n f r e n t a r e m a c r i s e p r o v o c a d a p e l o p a r o p e t r o l e r o d e 2 0 0 2 . 72 C o n f o r m e F a r a c o ( 2 0 0 9 , p . 2 2 2 - 2 2 3 ) , “ q u e r p a r e c e r q u e a ú n i c a f o r m a d e d a r a o c o n c e i t o d e c e n s u r a u m a s i g n i f i c a ç ã o p r ó p r i a e o p e r a t i v i d a d e p r á t i c a é c e n t r a n d o - s e n a c a r a c t e r í s t i c a d o c o n t r o l e p r é v i o d e c u n h o i n s t i t u c i o n a l i z a d o a n t e s e n u n c i a d a . D o c o n t r á r i o , o t e r m o s e r á e m p r e g a d o d e f o r m a s i n ô n i m a a q u a l q u e r r e s t r i ç ã o à l i b e r d a d e d e e x p r e s s ã o e c o m u n i c a ç ã o i n c o m p a t í v e l c o m o t e x t o c o n s t i t u c i o n a l ( o q u e o t o r n a r e d u n d a n t e ) . C o m i s s o , p e r d e r - s e a p o s s i b i l i d a d e d e i d e n t i f i c a r a a t i v i d a d e e s p e c í f i c a q u e é v e d a d a p e l o d i r e i t o c o n s t i t u c i o n a l e o c a r á t e r n o c i v o q u e a p r e s e n t a [ . . . ] ” .

cuida-se de fato que deixa de levar em conta que a legitimidade democrática de medidas como as implementadas pelo governo Chávez necessitaria da “[...] livre discussão de todos os interesses envolvidos no interior de uma esfera

pública institucionalizada (o parlamento)73 e a primazia do mundo da vida em

relação aos dois subsistemas”74 (ARATO; COHEN, 1994, p. 168).

Mencionado problema não se limita às providências visando a efetivação da liberdade de expressão, podendo ter sua origem na fragilidade da sociedade civil venezuelana, onde “não há sindicatos e nem entidades vigorosas [...]” (MARINGONI, 2004, p. 196). Contudo, o Estado governado por Chávez tem colaborado para esta atrofia, inclusive na adoção de medidas que em tese possibilitariam a participação cidadã, mas por vezes utilizadas

como instrumentos de cooptação governamental75.

Problemas como os acima colocados, mesmo que profundos, podem ser compreendidos por ocorrerem em ambiente de extrema polarização, que conheceu tentativas de golpes de Estado patrocinadas pela grande mídia privada há menos de uma década atrás. Tudo isso, contudo, não impede que oposicionistas continuem a veicular suas ideias pelos principais meios de comunicação abertos do país, especialmente as emissoras privadas de televisão, que, em 2010, obtiveram em média 61,4% da audiência nacional contra apenas 5,4% da audiência dos canais públicos e estatais, derrubando por terra a assertiva corrente de que Chávez teria o controle completo da mídia venezuelana (WEISBROT; RUTTENBERG, 2010, passim). E o que é mais importante, mencionados problemas não impedem que os cidadãos exponham e recebam livremente pontos de vista plurais, seja nas relações

cotidianas de trabalho ou de vizinhança formadoras dos espaços

comunicativos primários (COSTA, 2002, p. 77-78); seja nos pequenos

impressos locais, nos jornais de repercussão nacional ou nas emissoras de

73 “ [ . . . ] a e s f e r a p ú b l i c a n ã o a p a r e c e l i m i t a d a n e m e x t e r n a , n e m i n t e r n a m e n t e . N ã o h á u m a d i s t i n ç ã o a p r i o r í s t i c a e n t r e a s f r o n t e i r a s d o p ú b l i c o e d o p r i v a d o q u e d e f i n i s s e d e s a í d a o s t e m a s p a s s í v e i s d e t r a t a m e n t o p o l í t i c o ” ( C O S T A , 2 0 0 2 , p . 2 7 ) , 74 O s s u b s i s t e m a s m e n c i o n a d o s p e l o s a u t o r e s s ã o o E s t a d o e o m e r c a d o , n o s t e r m o s d a s o b s e r v a ç õ e s r e a l i z a d a s n o i t e m 2 . 1 . 3 d e s t e t r a b a l h o . 75 É o c a s o d a i m p l a n t a ç ã o d o s c h a m a d o s C o n s e j o s C o m u n a l e s , e n t i d a d e s q u e t ê m s e u f u n d a m e n t o n o p o d e r C i d a d ã o e q u e d e v e r i a m p e r m i t i r à s o r g a n i z a ç õ e s c o m u n i t á r i a s , g r u p o s s o c i a i s e c i d a d ã o s a p a r t i c i p a ç ã o d i r e t a n a g e s t ã o d e p o l í t i c a s p ú b l i c a s . T o d a v i a , s e g u n d o a u t o r e s c o m o L a n d e r ( 2 0 0 7 , p . 7 8 ) , P e l á e z , J a i m e s e C h a g u a c e d a ( 2 0 0 9 , p . 6 7 ) , t a i s c o n s e l h o s s ã o t a m b é m o b j e t o s d e c l i e n t e l i s m o e d e d i s c r i m i n a ç ã o d e o p o s i t o r e s .

televisão privadas veiculadoras de programação nacional; seja, por fim, na própria Assembleia Nacional, desde 2011 enriquecida com o retorno de significativa bancada da oposição, que lá debate com parlamentares governistas ou ministros nomeados por Chávez acerca dos destinos do país, recebendo intensa cobertura midiática.

Esse é o quadro que existe na Venezuela. Ante o sectarismo que ainda se mantém entre grupos políticos, não sabemos se perdurará ou se sucumbirá. De toda forma, a realidade é que as medidas de democratização da mídia implementadas por Chávez deixaram evidente que a atuação estatal no campo das comunicações - se efetuada nos limites do ordenamento jurídico e se aperfeiçoados os mecanismos sociais de controle fragilizados ante um prolongado estado de instabilidade política - não submete a esfera pública ao discurso único oficial nem tampouco leva um país em direção à autocracia. A ação positiva do Estado configura, pelo contrário, verdadeira necessidade de instituições democráticas consagradoras da liberdade de expressão.

Benzer Belgeler