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Batu Han ile İlgili Efsaneler

BÖLÜM VII: BATU HAN’IN ÖLÜMÜ VE KİŞİLİĞİ

7.4. Batu Han ile İlgili Efsaneler

Seria possível dizer que o objetivo da descrição de um simbolismo imanente à cultura – tal como desenvolvido no artigo “La structure symbolique de l’action” é a inserção de uma semântica da ação, isto é, da célula melódica que provém, como vimos, do raciocínio prático, na rede de significação abrangente das formas culturais. Cada ação singular, começando pelas “a es b sicas”, muda a sua valência, obtém uma significação característica, se remetida a uma rede simbólica progressivamente mais complexa. Como na teoria da metáfora, uma palavra obtém uma nova pertinência semântica se colocada em uma frase que, em princípio, lhe é alheia, e, da mesma maneira, uma frase no contexto geral de uma obra acabada; assim, a rede semântica da ação (fim, motivos, atores, circunstâncias) deve ser integrada, em cada caso, aos âmbitos da cultura, das sociedades e das práticas para que seja inteligível e, dado o caso, para que seja relevante para essas próprias culturas, sociedades ou práticas. Antecipando os lineamentos gerais da mímesis III, a apropriação produtiva dos relatos levaria à inserção de uma ação, já estruturada simbolicamente, na temporalidade de uma história de vida ou de uma história das culturas ou comunidades.

A enumeração descritiva de características do simbolismo imanente tem, em meu modo de ver, essa progressiva inserção situacional da ação em complexos simbólicos cada vez mais abrangentes. Assim, em primeiro lugar, Ricoeur lembra o que já foi advertido na semântica da ação: a significação da ação tem um caráter público. Os símbolos não são constructos do espírito nem revelam estados privados do ânimo. Ricoeur põe-se em guarda, de novo, contra todo psicologismo como pretensão

hermenêutica. Um gesto só pode ser entendido enquanto ação se é percebido publicamente como uma “sauda ão”, “despedida” ou “admoesta ão”.48

Mas o conjunto das significações públicas não é aleatório, aquelas não são átomos significantes em uma espécie de dicionário infinito de que dispõem os membros de determinada cultura. Por isso se diz, em segundo lugar, que os símbolos estão estruturados. Cada símbolo faz parte de um entretecido, de um sistema ou estrutura, na qual a significação de um está em conexão com a significação do outro, e é difícil a sua compreensão se são tomados isoladamente. Diz Ricoeur: “antes de ser texto, a mediação simbólica tem uma textura”.49 Essas estruturas significantes funcionam, por sua vez, para o modo compositivo: compreendo um gesto dentro de um ritual, um ritual no interior de um culto, e assim por diante até chegar aos mesmos sistemas das convenções, crenças e instituições.50

Finalmente, a transição de níveis entre as diversas estruturas (ritual, culto) implica uma ordem, uma regulação que as identifica e que permite a descrição da ação segundo o nível desde o qual é interpretada. Aparece, assim, a noção de regra que, na terminologia de Wittgenstein e Peter Winch, remete afinal toda ação significante, nesses níveis elevados, à ordem de um “comportamento governado por regras”. Neste ponto, Ricoeur ressalta, seguindo Geertz, as semelhanças e diferenças entre o que seriam as regulações genéticas e as regulações culturais. Ambas supõem “programas” de codificação, de controle da ação.51

A partir deste ponto, o proceder compositivo não fica tão claro, e, implicitamente, todos os níveis subsequentes partem do eixo comum do conceito de regra simbólica. Parecia que a orientação da descrição viraria neste lugar para responder à pergunta sobre o status e a função simbólica da noção de regra. Em primeiro lugar, Ricoeur associa a “ordem das regras” à ordem simb lica”. Traz à mente a acepção antiga do símbolo como “fragmento quebrado” que se restaura no intercâmbio com outro. Tomando essa figura como base das interações, é possível entrar em cheio no que desde Lévi-Strauss podemos chamar o fio central da “constitui ão semiológica do

48 Ibid., p. 36.

49 Ibid., p. 37. 50 Ibid.

sistema social”: a lógica do intercâmbio. Curiosamente, Ricoeur eleva esta lógica do intercâmbio ao status de “ordem das regras” ou de “regra das regras” por sua natureza substitutiva de símbolos: intercâmbio de bens, símbolos e mulheres. A tendência geral da lógica do intercâmbio é formar sistemas de relações autossuficientes sobre a base da substituição de elementos: uma coisa por outra, uma coisa por um signo ou um signo por um signo.52

Porém, adverte Ricoeur, a significação dos sistemas semióticos com os quais se entende a lógica do intercâmbio tem seu limite no seu próprio formalismo, pois aquilo que essa lógica estatui é uma simplificação da regulação própria que o simbolismo exerce sobre a ação concreta do intercâmbio. Por isso, Ricoeur, seguindo Geertz, assume aqui uma posição pragmática: “para descrever um sistema simbólico fechado, o principal critério não é a sua coerência, mas sua eficácia social”.53 Pois “é na ação social que as formas culturais encontram a sua articula ão”.54 Esse sair da lógica do intercâmbio para o lugar da regulação simbólica da ação concreta encontra toda a sua ressonância no conceito de jogos da linguagem de Wittgenstein que é, aqui, apenas mentado por Ricoeur: “representar uma linguagem significa representar uma forma de vida, a palavra jogo da linguagem deve ressaltar aqui que falar uma linguagem faz parte de uma atividade ou de uma forma de vida (Investigações filosóficas, §19 e 23)”.55 Finalmente, Ricoeur outorga ao conceito de regra simbólica o carácter de mediação significante entre a ação concreta e um contexto de descrição: “É ‘nos termos de’ ou ‘em função de’ tal regra simbólica que podemos ver tal comportamento como significando isto ou aquilo”.56

A pesquisa sobre o status do conceito de regra é, em nosso modo de ver, o momento culminante do tratamento compositivo do simbolismo imanente. A regra simbólica se apresenta como o resultado do entretecido da ação significante, em contraste, por exemplo, com as respostas ou estímulos dos indivíduos aos signos isolados, como acontece com o comportamento animal ou reflexo. Símbolo significa, à diferença do signo, textura e densidade. A noção de regra simbólica expressa um grau

52 Ibid., p. 38.

53 Ricoeur, Poética y simbólica, op. cit., p. 22. 54 Ricoeur, La structure sy bolique de l’action, p. 39. 55 Ibid., p. 39.

elevadíssimo dessa complexidade do símbolo. O procedimento compositivo de Ricoeur tem esse horizonte: mostrar que a noção de regra já contém, como parte de sua própria história evolutiva, o compêndio dos signos relativos aos gestos ou à afetividade, mas também à lógica funcional do intercâmbio ou à relação constitutiva entre práticas vitais e regras de ação próprias dos jogos da linguagem. A dimensão simbólica aparece assim como oposição a uma concepção de regra em seu sentido meramente nomológico, detida no limiar do signo e na mera tradução de princípios causalistas para a ação humana. Entender uma regra como símbolo significa submetê-la, como diz Geertz, a uma “descri ão densa” que tem em conta ou, pelo menos, supõe uma série de estratos de significação que participam da sua constituição.

No entanto, segundo nossa ótica, a noção de regra simbólica cumpre também a função de dobradiça entre as duas teses de Cassirer, isto é, entre um princípio constitutivo formador de sentido e um princípio regulativo e de distinção do sentido, ou, nos termos de Ricoeur, entre o simbolismo imanente e o simbolismo explícito. A alusão aos jogos da linguagem não é gratuita neste caso, pois como conceito o jogo da linguagem contém já em si mesmo as “ambiguidades” próprias da noção de regra. Nas páginas que K. O. Apel dedica a estas questões, inclusive fazendo algumas alusões analógicas à filosofia das formas simbólicas de Cassirer, diz o seguinte: “a ideia de uma mediação simbólica universal conhece a sua diferenciação e relativização segundo as formas vitais dos jogos de linguagem”.57 Isto é, os jogos de linguagem não se encarregam simplesmente de fazer legível uma ação, mas de entendê-la como inteiramente distinta de outras.

Porém, é naquela ideia da legibilidade que Ricoeur baseia o trânsito do nível imanente ao nível explícito. A figura da legibilidade constitutiva da ação simbólica sugere imediatamente a ideia de um “leitor da a ão”, e de uma “leitura da a ão”, o que Ricoeur chama de “leitura dos interpretantes” e que, no desenvolvimento do seu pensamento, será a operação característica do simbolismo reflexivo do segundo nível, e será expressa basicamente nos objetos textuais. A leitura dos interpretantes toma como seu objeto de interpretação uma ação “j interpretada” simbolicamente pela cultura. Estes interpretantes de segundo grau podem ser, em termos gerais, dois: por um lado, o texto do cientista social que, de certa maneira, contrasta as regras categoriais e

conceptuais inerentes à sua disciplina e as regras simbólicas que determinam no nível de imanência um contexto de descrição para a ação; e, por outro lado, o simbolismo reduplicado da textualidade cultural que, por meio da analogia e das composições poéticas (metáfora e narrativa), mostra como uma cultura se interpreta a si mesma.58

Nos dois casos, deve-se ressaltar que segue sendo o termo de regra simbólica o que serve tanto para uma leitura aprofundada dos estratos de constituição de toda ação quanto para a distinção entre “regras imanentes” e “regras de leitura”, e, tacitamente, para a distinção entre contextos, jogos de linguagem e culturas. Porém, em ambos os casos, parece-me haver a falta de um tratamento mais dialético entre os contextos regulados e os contextos simbólicos. Poder-se-ia dizer: sente-se o déficit do que denominaremos, despretensiosamente, uma dialética das regras simbólicas, pois, se é certo, como já vimos, que o símbolo amplia a noção de regra, não é menos certo que a regra limita a abrangência do símbolo, isto é, delimita o espectro de compreensão da ação.

Esta dialética é fundamental à definição mesma do conceito de jogos de linguagem e seu postulado principal: a noção de “seguir uma regra”. Na fenomenologia do símbolo, Ricoeur passa muito rapidamente por este aspecto básico introduzido por Wittgenstein nas Investigações filosóficas, e complementado por Peter Winch, como núcleo de sua epistemologia social no célebre trabalho A ideia de uma ciência social. Porque, em realidade, na prática cotidiana é difícil que o significado simbólico da ação se mantenha “imanente” em todo momento. Toda ação prática pode ser remetida a um fundo de significação cultural, mas também toda ação prática está destinada à compreensão efetiva por parte do destinatário ou destinatários das intenções ou ofertas de interação nela envolvidas. Enquanto se apresentam dissonâncias nesta compreensão interativa, explodem pelos ares fragmentos da ligação constitutiva entre cultura e ação. E, em muitos casos, aquilo que seria evocado pelos participantes da interação para suprir as suas dissonâncias interpretativas será a “regra da intera ão”, que determinado ator pode enunciar como o motivo legitimador de seu comportamento.

Poder-se-ia dizer que uma ação é constitutivamente legível por outro ator graças a sua inserção em um contexto simbólico delimitado pela noção de regra, mas o fato de saber se o ator tem seguido ou não tal regra que se diz imanente à ação só se pode

determinar por sua explicitação, se posta em comum nas próprias dinâmicas de interação e interlocução. Por outro lado, a noção de se entender com outro implica uma complexa inter-relação entre os termos de entendimento, regra simbólica e distinção. Invocar uma regra simbólica em uma situação de interação tem como pressuposto, em muitos casos, a conformação de acordos diferenciados. Entender-se com outro sobre algo significa, efetivamente, levar em consideração aspectos do próprio contexto de descrição e, neste sentido, pôr em relevo os próprios limites sob os quais determinada ação é tida como significativa e, eventualmente, válida. Aquilo que surge na evocação de uma regra simbólica é a pertinência ou não dos cânones avaliativos que o próprio contexto de descrição ou jogo de linguagem demandam.

Aquilo que queremos ressaltar neste ponto é que, na estrutura da ação simbólica de Ricoeur, que divide a compreensão entre os lugares de um quase-texto da cultura e um texto como tal que permite a uma cultura se pensar, não se vislumbra essa dialética das regras simbólicas como jogando algum papel no desenvolvimento das competências reflexivas dos sujeitos. Porém, o que se percebe nelas como chave ou abertura a uma atitude reflexiva é que, em primeiro lugar, já no uso prático de regras simbólicas estão ao mesmo tempo imbricados os papéis dos intérpretes e os interpretantes e, em segundo lugar, que é possível, chegado o caso, a distinção pelos próprios participantes em interações discursivas entre contextos simbólicos e contextos regulados. Porque, como o próprio Ricoeur reconhece desde seu enfoque pragmático, mesmo que a regra surja e se legitime em seu uso, o seu conteúdo se reafirma ou se atualiza em cada utilização não questionada.

Se afirmarmos que os papéis do intérprete e do interpretante são uma condição sine qua non para a interação discursiva na vida cotidiana, então, podemos dizer que existe uma ordem de reflexão anterior ao simbolismo de segundo grau do texto da cultura e do texto do cientista na interação cotidiana. Não chegamos a afirmar que Ricoeur nega ou oculta este nível básico de formação de uma competência reflexiva, mas simplesmente que ele não é tematizado em seu elemento fundamental: o surgimento da noção de regra simbólica. Seria possível dizer, inclusive, que o fenômeno dos símbolos reduplicados, a partir dos quais Ricoeur explica a reflexividade do discurso, e que Ricoeur associa especialmente com a textualidade poética, se encontra já presente na dialética das regras simbólicas em seu uso concreto nas enunciações da fala cotidiana. Cada ato de fala pronunciado no meio de uma interação discursiva tem dois

componentes de significação: o primeiro remete aos diferentes estratos de significação e de conteúdo proposicional, que pode ficar assim submetido a uma “descri ão densa”; o segundo delimita a força performativa, o tipo de interação e, deste modo, a situação de interação segundo a qual tal ato pode ser avaliado, isto é, acentua o limite que demarca as regras simbólicas aos âmbitos simbólicos.

A subestimação de uma competência reflexiva no nível intermédio da interação cotidiana coloca de novo no eixo do debate o que podemos denominar o "corte da textualidade" que, sob a tese do distanciamento textual, Ricoeur insere no passo do simbolismo imanente ao simbolismo de segundo grau. O corte da textualidade, sob o

pretexto de distinguir entre um quase-texto da cultura e um texto como tal, portador da função simbólica, parece pôr entre parênteses os potenciais reflexivos da interação cotidiana – composta, entre outros, pelos discursos da argumentação, da narração e da conversação –, reduzindo-os, em ocasiões, às características próprias dos discursos instrumentais, descritivos ou meramente ostensivos.59 Levada ao extremo, a premissa do distanciamento textual parece postergar as competências de distanciamento dos participantes no jogo das perguntas e respostas da interação cotidiana, para a forma de um diálogo ultrassofisticado e estendido na esperança de uma fusão de horizontes, só possível por meio de um treinamento que parece exclusivo à comunidade de textos e leitores. Contudo, deve-se perguntar, inclusive, se para os processos de pré- compreensão narrativa as teses do distanciamento textual são realmente possíveis. E se, pelo contrário, as diferentes maneiras com que os sujeitos invocam, justificam ou dispõem a distância das formas e regras simbólicas de sua própria cultura, mediante posicionamentos argumentados, não constituem um insumo incontornável para a própria qualidade reflexiva das produções textuais. Um parêntese nas competências discursivas das situações cotidianas de interação para o distanciamento ao respeito da densidade simbólica das culturas poderia não só trivializar o potencial reflexivo dos textos narrativos, mas também resultar contraditório ao eliminar artificialmente algo que é necessário para a própria compreensão textual. Sem a distância efetiva que se opera a respeito de toda regra simbólica ou de toda oferta comunicativa, é dificilmente compreensível a distância das narrativas ou da teoria social, enquanto textos.

59 Ricoeur (2000). “La funci n hermenéutica del distanciamiento”. In: Del texto a la acción, op. cit., pp.