4. OPTĠMĠZASYON
4.2. Çok Amaçlı Optimizasyon
4.2.2. BastırılmamıĢ Sınıflandırmalı Genetik Algoritma II (NSGA-II)
Para apreendermos os sentimentos de família presentes em jovens participantes do Fórum Engenho de Sonhos, tivemos, como sujeitos da pesquisa, articuladores jovens dos bairros abrangidos pelo Projeto. Foram convidados para participar desse trabalho dois articuladores de cada bairro, de forma a constituir inicialmente um grupo de dez jovens, mas conseguimos mobilizar de início, com freqüência regular, nove participantes, dos quais, um reside no bairro de Guarapes e os demais, dois em cada um dos quatro bairros participantes. Os articuladores jovens foram escolhidos tendo em vista que são pessoas bastante implicadas no processo de intervenção do Engenho como
um todo, sendo representantes e agentes mobilizadores dos grupos de jovens nas suas comunidades. Para o Fórum, esses jovens são considerados como representantes de suas comunidades, possuem voz ativa nas decisões políticas e estão comprometidos no desenvolvimento do protagonismo juvenil. Alguns deles recebem ajuda de custo, na forma de bolsa, e outros recebem cestas básicas para as famílias.
Como tínhamos a intenção de trabalhar com um grupo focal que nos permitisse aproximar das diferentes realidades dos bairros, optamos por montar um grupo misto, de rapazes e moças, de faixa etária de 14 a 21 anos, para desenvolver os trabalhos de pesquisa. Os sujeitos foram reunidos a partir de contatos realizados com as reuniões mensais de articuladores jovens, nas quais pudemos apresentar a proposta do nosso trabalho e convidarmos os jovens a participarem de reuniões em que seriam apresentados os objetivos e intenções da pesquisa. Dessa forma, o grupo foi reunido a partir de pessoas interessadas na proposta, numa demanda espontânea de inscrição dos jovens, com exceção de uma jovem de Felipe Camarão, que foi mobilizada a partir de um convite feito por um educador atuante na comunidade. O grupo foi, então, formado por cinco jovens do sexo feminino e quatro do sexo masculino.
Antes do primeiro encontro realizamos duas reuniões com os jovens interessados, apresentando as intenções da pesquisa, bem como estabelecendo um contrato inicial de convivência e compromisso com o grupo. Os jovens mostraram-se receptivos à proposta, mas pediram que os encontros fossem realizados em um lugar que garantisse o sigilo, preservasse suas identidades e que pudessem se sentir à vontade, já que os espaços comunitários que o Engenho dispõe não garantiriam um clima de privacidade, por serem muito abertos e sujeitos a interrupções contínuas. Acabamos por optar pelo Serviço de Psicologia Aplicada (Sepa) da UFRN e sua sala de dinâmica de grupo. O
Engenho de Sonhos apoiou os encontros fornecendo os vales transporte para os jovens, bem como o lanche.
Acordos e reuniões realizadas, o primeiro encontro com o grupo aconteceu no mês de novembro, com a participação de uma estudante de graduação29 para auxiliar no processo de condução e registro da dinâmica grupal durante os encontros. Foi estabelecido em contrato que teríamos cinco encontros, um por semana, com duração de três horas cada, em que discutiríamos questões relacionadas à família, em um processo de pesquisa que serviria como intervenção futura para o Engenho e que, no final do processo, estaríamos avaliando com o grupo a continuidade do trabalho no próximo ano, aprofundando as questões da pesquisa por meio de um grupo de desenvolvimento interpessoal e capacitação para futuras intervenções nas comunidades. Os jovens aceitaram bem a tarefa e mostraram-se disponíveis em participar do processo. Também firmamos em contrato que as discussões seriam gravadas e que os adolescentes com menos de 18 anos teriam que trazer uma autorização dos pais para participarem dos encontros, o que foi realizado com sucesso30.
Utilizamo-nos dos seguintes procedimentos/instrumentos metodológicos para a constituição do corpus de pesquisa com os jovens:
- Questionário de Investigação Psicossocial: tal instrumento, bastante semelhante
ao utilizado pelo Engenho de Sonhos no processo de diagnóstico interativo nos bairros, tem como objetivo levantar dados psicossociais sobre os jovens participantes, tais como: estrutura e renda familiar, dados de escolaridade, trabalho, participação e vinculação no
29 Andreína Silva, estudante de Psicologia, bolsista PIBIC, a quem agradeço a participação e apoio na condução do grupo.
30 Vide Anexos 03 e 04, em que apresentamos as cartas de apresentação dos pais e a folha de rosto do conselho de ética da UFRN.
Fórum. O questionário foi entregue aos jovens, que o preencheram com a ajuda dos pesquisadores31;
- Entrevista semi-estruturada: tal procedimento permitiu, através do contato
intersubjetivo com cada jovem participante do grupo de discussão, uma exploração geral dos discursos e representações sobre a vivência familiar. Foram abordadas questões que versaram sobre os temas de interesse da pesquisa, tais como: relações familiares, papéis, história familiar, por exemplo32. Tentamos privilegiar um bom contato (rapport) com os jovens, utilizando-nos das salas de psicoterapia individual do Sepa, ou em salas reservadas na sede do Engenho de Sonhos, com vistas a promover a descontração e confiança necessárias para falar sobre a intimidade da relação familiar, garantindo a privacidade e o sigilo. As entrevistas foram realizadas depois de concluídos todos os encontros do grupo focal. Registramos o discurso com um gravador, com a autorização prévia dos sujeitos, e transcrevemos literalmente o conteúdo para posterior análise, que será explicitada a seguir;
- Grupo focal: como discutimos anteriormente, foi constituído um grupo de discussão, no qual tivemos a intenção de verificar a construção coletiva do discurso dos jovens sobre a família. Trabalhar com grupos focais consiste numa técnica importante para o estudo da produção do discurso e das representações sociais (Rizzini et alli, 1999; Minayo, 1993, Gondim, 2002). A constituição do grupo teve como critério básico a participação de articuladores jovens dos cinco bairros atingidos pelo Engenho de Sonhos, de maneira a propiciar uma diversidade de experiências de vida, a nível familiar e comunitário, socializadas no grupo. Foi realizado um contrato grupal, que deixou claro aos participantes o contexto da pesquisa e a atuação temporária, focal, do nosso trabalho. O grupo foi conduzido tendo o autor desse texto como animador de
31 Vide Anexo 01.
discussão e a bolsista citada realizando registros das falas significativas, do comportamento e dinâmica dos participantes no grupo33. Além da expressão pelo discurso em rodas de conversa, propiciamos ao grupo outras atividades expressivas, utilizando-nos de desenhos, bem como técnicas de relaxamento e consciência corporal, de forma a facilitar a discussão, pois reconhecemos que o trabalho com os jovens exige uma abertura, por parte do pesquisador, em trabalhar com recursos de linguagem que estejam além do verbal, que facilitem o entrosamento, a criatividade e a espontaneidade por meio de outras formas de recursos simbólicos.
- Análise e discussão de dados: Optamos pela teoria do imaginário social em
Castoriadis para referenciar nosso modelo de análise de dados. Essa abordagem, no nosso entendimento, condiz com os pressupostos da Sociologia Clínica que, segundo Sevigny (2001), se ocupa de compreender o universo simbólico, as significações e os sentidos produzidos no meio social. Gaulejac (2001) nos aponta a necessidade de encarar o sujeito numa autonomia relativa, sujeito a diversos mecanismos multideterminantes de suas atitudes e discursos na relação com o social. Não há de se desconsiderar, na relação indivíduo/sociedade, a gênese social de dinâmicas psíquicas de sofrimento, bem como a influência da fantasia, da imaginação e da produção contínua de significações e sentidos na produção do mundo. A possibilidade de entrar em contato com discursos do sujeito social pressupõe uma abertura para a dimensão que escapa, criativa, dos fenômenos psicossociais, o que Enriquez (2001) conceitua como o “desconhecimento”, presente nas atitudes de negação, exclusão e recalque presentes na linguagem, nas opiniões e discursos expressos pelos sujeitos no mundo. Nesse momento, considera-se a influência da teoria psicanalítica como abordagem que ancora as reflexões sobre o processo de constituição do sujeito no social.
Castoriadis (1996) aprofunda essas questões afirmando que o sujeito encontra-se imerso numa teia complexa de significações sociais imaginárias, ou seja, a realidade sócio-histórica não se esgotaria em manifestações racionais e funcionais como pensaria Marx em sua teoria da ideologia, na qual postula a existência de um discurso dominante que configuraria uma consciência distorcida (alienação) de forma a mascarar as injustiças sociais, mantendo e legitimando a ordem dominante vigente. O discurso, na perspectiva do autor, estaria sujeito a uma construção contínua de sentidos, reconhecendo as representações e afetos da ordem do inconsciente. Takeuti (2000) reforça esses argumentos discorrendo sobre o desaparecimento, no mundo contemporâneo, das meganarrativas que constituíam e regulavam o mundo ocidental até o desenvolvimento do capitalismo. Atualmente nos encontramos em uma transformação contínua de valores e atitudes, em paralelo à imposição de contínuas necessidades e desejos mercantilistas. Pulverizam-se os poderes e ideologias, de forma a não sabermos mais quem realmente é responsável pela produção dos discursos sociais. Existem poderes anônimos, invisíveis, que estão em todos e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Takeuti (2002c) alude a Foucault, quando ele afirma que o poder na sociedade ocidental é investido, produzido numa relação entre diversas instâncias e instituições. O olhar na microfísica social torna-se foco de discussão, trazendo em cena a coletiva produção de significações que regem as práticas sociais, na qual não se atribui a origem de determinados discursos a uma classe, mas sim a uma relação, a uma prática social.
A teoria do imaginário social reconhece a capacidade do ser humano em fantasiar, evocar uma imagem, representar, simbolizar, de forma a considerar a dimensão individual de criação contínua da psique no anonimato sócio-histórico (Castoriadis, 1999). Cada sociedade cria significações específicas que configuram um mundo próprio, desde as representações de mundo, ações e tipos de afeto disseminados
e ressignificados continuamente. Apesar dessa determinação, a relação com a sociedade somente é possível quando existe um campo de criação e manifestação das fantasias individuais na rede simbólica social exterior, num fluxo representativo, afetivo e intencional que escapa das determinações e das tentativas de controle. Nesse sentido, o sujeito social é constituído na união e tensão contínuas entre a dimensão social instituinte (a história que se realiza) e a instituída (história realizada) (Takeuti, 2000).
Apesar desse potencial criativo do ser humano, como falamos anteriormente, vivemos em uma sociedade marcada pela crise dos modelos identificatórios e simbólicos, na qual o individualismo, a luta por lugares socialmente reconhecidos, a pulverização da dimensão afetiva são propulsores da (des)ordem social, deixando nos sujeitos um sentimento de vazio, falta de referências, que, segundo Castoriadis (1996) leva os sujeitos a utilizarem-se de recursos como a bricolagem e o conformismo para sua constituição na sociedade. A bricolagem consiste na assimilação de valores, condutas, necessidades, enfim de significações sociais sem um processo de síntese criativa na constituição do eu, sem o reconhecimento das heranças histórico-culturais, ou seja, uma atitude reflexiva sobre si mesmo no mundo, existe na realidade uma junção de influências, uma sensação de identidade pulverizada numa atitude social de conformismo, diferente do questionamento e crítica. Dessa forma, o conceito de imaginário social enganoso trabalhado por Enriquez (2001a) nos esclarece a postura restrita que os sujeitos sociais assumem em assimilar um discurso social/institucional acrítico, que preenche o vazio psíquico decorrente da falta de referências simbólicas.
Tendo em vista a discussão acima, situamos as nossas análises na investigação das significações sociais imaginárias que os jovens podem produzir sobre a família, tendo em vista que a mesma consiste no cenário primeiro de contato com a linguagem e a produção de significações. Como vimos no capítulo II, a vertente teórica da crise dos
modelos de identificação nos parece bastante adequada para investigarmos a relação dos jovens com seus familiares. No caso das famílias desfavorecidas economicamente, esses fatores estão presentes de forma material e simbólica, tendo em vista as condições de falta nas quais vivem. Pretendemos observar como se dá essas configurações, relações e práticas discursivas e imaginárias que estão presentes na vida desses jovens.