C. Türk Kültüründe Toplumsal Cinsiyet ve Cinsiyet Rollerinin AlgılanıĢı
1.8. EĢ Olarak Kadın
1.8.4. Basiretli EĢ Olarak Kadın
Na década de 1990 observa-se não apenas um aumento quantitativo no número de organizações indígenas, mas uma mudança qualitativa em sua atuação. Enquanto nas décadas de 1970 e 1980 o movimento indígena tinha com o objetivo de reivindicar direitos, tendo como principal interlocutor o Estado, as organizações institucionalizadas assumem diferentes funções, atuando não apenas na defesa de direitos, mas promovendo diferentes serviços de ordem social e econômica. Estas organizações não dialogam somente com o Estado brasileiro, mas tem como interlocutores organizações e agências financiadoras governamentais e não- governamentais, brasileiras e estrangeiras (ALBERT, 2000).
Não há dados sistematizados sobre o número de organizações indígenas criadas a partir dos anos 90, mas uma pesquisa voltada para a região da Amazônia brasileira identificou um processo bastante dinâmico de criação de organizações indígenas neste período: enquanto até 1988 havia apenas 10 destas organizações, no ano 2000 observou-se a existência de mais de 180 entidades (RICARDO, 2000).
Cardoso de Oliveira (2000) interpreta o crescimento de organizações indígenas na segunda metade da década de 90 como um experimento tentativo de inserção na sociedade civil, apoiados pela própria, por meio de suas organizações não-governamentais.
Entre os diferentes papéis que as organizações indígenas vem assumindo a partir dos anos 1990, além da defesa de direitos, que permanece na agenda dessas entidades, é importante destacar que diversas entidades passaram a se organizar em função de atividades profissionais (professores, agentes de saúde) ou econômicas (associação de produtores, cooperativas). Há também organizações de estudantes e uma importante rede de associações de mulheres (ALBERT, 2000). São expressões de modos diferenciados de se relacionar com uma gama variada de novos atores, instituições e conjunturas.
As organizações indígenas vêm se estruturando com referência não apenas as questões enumeradas acima, mas também em resposta as circunstâncias e oportunidades a elas colocadas. O caso da saúde é interessante nesse sentido, pois colocou o desafio para que estas organizações se transformassem, por um lado, em prestadora de serviços e, por outro, em agentes de controle social. O modelo dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, implementado a partir de 1999 colocou a oportunidade para que as organizações indígenas pudessem firmar convênios com a Funasa. Isso fez com que algumas dessas organizações, criadas para a defesa de direitos, passassem a implementar a política de saúde, recebendo para isso orçamentos bilionários (MAGALHÃES, 2001). Esse processo tem levado diferentes aprendizados a estas organizações indígenas que experimentam o desafio de oferecer os serviços de saúde, tais como o de contratar funcionários, administrar logísticas complexas, gerenciar e prestar contas de um elevado montante de recursos. A mudança na política também trouxe dificuldades em razão da ambígua situação de responsabilização perante a população, que identifica nas organizações indígenas a responsabilidade para a retomada da oferta dos serviços em situações de atraso no repasse de recursos, as quais não são raras. Quando não há mais remédio, gasolina para o transporte e recursos para os salários, muitas vezes as organizações indígenas recorrem até mesmo a compras a crédito, numa tentativa de contornar uma situação da qual não têm governabilidade. A nova política de saúde também abriu espaços para a participação indígena nos conselhos dos distritos e nas instâncias federais, como no Conselho Nacional de Saúde, que tem um assento reservado à participação de representes indígenas.
No campo da educação, a descentralização nos anos 90 passou as atribuições que até então eram da Funai para a esfera do Ministério da Educação (MEC), cuja política se baseia na premissa que compete ao Sistema Nacional de Educação (municípios e estados) a provisão de serviços de educação básica e o nível federal seria responsável pela normatização, repasse de recursos e supervisão, além de apoio a projetos pontuais. Assim, diferentemente do caso da saúde, as organizações indígenas não têm a possibilidade de gerenciar a política de educação nas terras indígenas, restando-lhe a oportunidade de articulação entre os professores e professoras indígenas visando à troca de experiências e seu fortalecimento para influenciar políticas públicas. Há também, pelo menos em teoria, espaços abertos em diferentes instâncias de participação popular na política de educação aos povos indígenas, como em conselhos municipais, estaduais e no Comitê de Educação Escolar Indígena do MEC, para que os representantes dessas populações compreendam, influenciem e controlem as políticas de educação.
No caso das mulheres indígenas, a presença de posseiros, garimpeiros, fazendeiros, funcionários de empresas extrativistas, militares, comerciantes e missionários nas terras indígenas sempre gerou uma série de problemas, desde agressões verbais até variadas formas de agressões físicas. Ocorre, por exemplo, o recrutamento para o trabalho doméstico em regime de semi-escravidão, a prostituição formal ou informal e até o tráfico de drogas. Não são raros também os casos de estupro e de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis (SEGATO, 2003). Apesar da escassez de informações sistematizadas, é possível observar um crescente na mobilização das mulheres indígenas no país, seja criando organizações próprias, ocupando cargos nas entidades indígenas e também criando novos espaços nessas organizações (como o Departamento das Mulheres Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, por exemplo), as mulheres indígenas vêm criando oportunidades para, nas palavras de Gersem dos Santos Luciano Baniwa, Gerente Técnico dos Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas (PDPI), revitalizar o movimento indígena como um todo, chacoalhando a estagnação das suas idéias e imaginando novas formas e caminhos para a ação (SEGATO, 2003). O protagonismo feminino indígena se faz sentir não somente no Brasil – onde atualmente há representação feminina indígena no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (Condraf), no Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), na Comissão Nacional da Biodiversidade (Cnbio), no Conselho Nacional de Saúde (CNS), no Conselho Nacional de Educação (CNE), entre
outras instâncias (INESC, 2005 b) – mas também no exterior, com a participação de mulheres indígenas brasileiras em premiações, encontros e conferências internacionais.
O campo internacional é também um dos novos espaços que vêm sendo ocupado pelas organizações indígenas: a participação em redes internacionais de organizações indígenas e também ligadas à defesa do meio-ambiente, bem como em eventos e conferências no exterior é crescente. O Brasil tem, por exemplo, representantes indígenas em fóruns das Nações Unidas.
Albert argumenta que de uma etnicidade estritamente política, nos anos 1970 e 1980, baseada em demandas legalistas e territoriais, atualmente passamos progressivamente a o que o autor chama de etnicidade de resultados: lógica segundo a qual a afirmação identitária é apenas o cenário utilizado para acessar o mercado de projetos nacional e internacional encetado pelas novas políticas descentralizadas de desenvolvimento (ALBERT, 2000).
Desse modo, as organizações indígenas, ainda que se mantenham na defesa de direitos gerais, vão assumindo um crescente perfil de ongs de projetos e, também, reproduzindo práticas – nem sempre saudáveis – adquiridas nas novas relações de contato (SANTILLI, 2002: 28).
Outro traço marcante desse período é o surgimento de organizações com representatividade paralela a outras já existentes. Este é o caso da Federação de Organizações, Caciques e Comunidades Indígenas da Tribo Ticuna, criada em oposição ao Conselho Geral da Tribo Ticuna (SOUZA, 2000). Isto evidencia que, como ocorre em outros segmentos organizados, também há divergências políticas entre as organizações indígenas. E não somente entre elas (e também no seu interior), mas igualmente com segmentos não organizados do movimento, que decorrem de conflitos étnicos ou grupais, das relações com intermediários diversos, da disputa por oportunidades no mercado de projetos ou, mesmo, por diferenças ideológicas em relação ao Estado (SANTILLI, 2002: 28).