Embora o foco de nossas análises seguintes recaia sobre partes do capítulo VIII e XXII das PB (que possui trechos do MSS 107 e 108 – entre setembro de 1929 até agosto de 1930), será através das notas de Friedrich Waismann, feitas por volta de 1930 (principalmente no Thesen – publicado no apêndice B do WVC), que encontraremos de forma mais visível a importância das análises sobre o tempo, no modo como
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Wittgenstein concebe a relação entre as hipótese, os objetos físicos e os fenômenos. Em um trecho dessas notas, Wittgenstein afirma:
Aspectos particulares são o que é variável e instável; é a forma da conexão desses aspectos que é inalterável e permanece. Essa conexão inalterável é significada por
uma palavra.316
Os aspectos são os fenômenos, dados de modo temporalmente fugidio, no fluxo presente da experiência imediata. É a conexão desses fenômenos que permitirá subsumir essa multiplicidade em formas inalteráveis (que permanecem a mesma, ao longo do tempo). A forma inalterável (de conexão dos fenômenos) desempenhará um papel semântico fundamental nas linguagem fisicalistas, pois será "significada por uma palavra". Essa forma transtemporal (que perdura), resultado da conexão de fenômenos, é o que chamamos de "objeto físico".
A importância da noção de hipótese para essa concepção construtivista de objetos físico é que a hipótese será a maneira pela qual os aspectos serão “(...) espacialmente e temporalmente conectados”.317 Como afirma o autor:
O conceito de um objeto envolve uma hipótese, pois assumimos como uma hipótese que aspectos particulares que percebemos estão conectados em uma maneira governada por regras.318
O que há de hipotético nos objetos físicos é que assumimos que aspectos fenomenológicos particulares estariam conectados, de uma maneira "governada por regras". Ou seja, o objeto físico será o resultado da aplicação de uma hipótese de ordenação ao múltiplo da experiência fenomenológica, segundo regras.319
Por exemplo, imaginemos que no campo visual ocorra um círculo vermelho sobre um retângulo azul. Ao longo do tempo, a posição e o tamanho do círculo se alterariam, assim como, as dimensões do retângulo e o modo como o círculo e o retângulo se relacionam. Sendo que a posição e o tamanho são propriedades internas do círculo, há um sentido em que podemos dizer que, ao longo do tempo, vários círculos vermelhos foram vistos (assim como, vários retângulos azuis). Essa multiplicidade de
316 WVC, p. 257. (Das Wechselnde, Unbeständige sind die einxelnen Aspekte; das Feste, Bleibende ist
die Form des Zusammenhanges der Aspekte. Dieser feste Zusammenhang wird durch eine Wort bezeichnet). (Grifo do autor).
317 Cf. WVC, p. 256. (Die Aspekte Hängen räumlich und zeitlich zusammen).
318 WVC, p. 256. (Der Begriff des Gegenstandes involviert eine Hypothese. Wir machen namlich die
Hypothese, daß die einzelnen Aspekte, die wir wahrnehmen, in gesetzmäßiger Weise zusammenhängen).
319 Um ponto importante a ser notado é que Wittgenstein não está sustentando, através dessa concepção
construtivista, que os objetos são entidades inferidas a partir dos fenômenos - como se estivéssemos postulando a existência de entidades, para além da experiência imediata. A realidade são os fenômenos. As hipóteses são apenas regras que aplicamos ao múltiplo fenomênico da experiência.
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fenômenos, variável e instável (dada ao longo do tempo, de forma sucessiva), poderia ser conectada através das hipóteses presentes na ideia de que “há uma bola vermelha sobre uma mesa azul”. Os objetos físicos bola e mesa seriam os expedientes hipotéticos, por meio dos quais subsumimos a multiplicidade dos fenômenos, temporalmente fugidios, em formas que perduram. (Um ponto que exploraremos na seção seguinte é que essa forma será governada por regras - sendo essas regras as leis da física, que atribuem poderes causais a essa forma e nos permitem gerar expectativas futuras).
A importância temporal das hipóteses é que, enquanto os fenômenos nos são dados no tempo primário, a forma que resulta da conexão dos fenômenos será uma entidade transtemporal, que se estende para além do presente da experiência imediata (no tempo físico). O objeto físico será necessariamente transtemporal, pois ele é o modo como conectamos fenômenos dados em diferentes momentos do tempo. Ao fazermos a conexão (assumindo que certos fenômenos estariam conectados de maneira governada por regras) tomamos fenômenos de diferentes momentos, como aspectos de uma mesma coisa (que será "significada por uma palavra").
O cerne dessa concepção é expresso por Wittgenstein através de um símile espacial:
Um objeto é similar a um corpo no espaço – os aspectos particulares são seções transversais [Schnitte] feitas quando cortamos através dele.320
O que é importante notarmos é como esse símile aplica-se também ao tempo. O objeto físico será como um corpo que ocupa um lugar no tempo físico (estendendo-se ao longo do tempo homogêneo da física) e os aspectos serão seções transversais, feitas ao se cortar temporalmente esse objeto; obtendo aspectos temporalmente instantâneos, dados no constante fluxo presente fenomênico (no tempo primário). Assim, pelo ponto de vista da linguagem fisicalista (cuja gramática atribui um papel semântico fundamental aos objetos físicos), concebemos os dados imediatos como aspectos fenomenológicos dos objetos físicos. Porém, mais propriamente, o objeto físico não nos é dado. Ele é apenas o resultado da aplicação de hipótese ao fluxo da experiência.
Uma questão extremamente importante é levantada por Wittgenstein no WVC: “[q]uantos aspectos são necessários serem vistos antes de estabelecermos com
320 WVC, p. 256. (Ein Bild zur Verdeutlichung: Der Gegenstand gleicht einem Körper im Raum: die
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segurança a existência de um objeto?”321 A resposta de Wittgenstein (e que revela ainda o seu comprometimento com a fenomenologia neste período – e, consequentemente, com o verificacionismo) é que “[n]enhum número de aspectos pode provar uma hipótese”.322 Hipóteses não podem ser provadas, pois não são verificáveis (apenas proposições genuínas - como veremos a seguir - serão passiveis de verificação, visto que descreveriam a experiência imediata (o aspecto que é o corte transversal da hipótese)). O caráter não verificável da hipótese pode ser notado através de um exemplo. Imaginemos que, diante de uma série de aspetos visuais, seja aplicada como regra de conexão a hipótese de mesa. Porém, em um instante seguinte, constataríamos que o suposto objeto não oferece nenhuma resistência ao tato. Nesse caso (e por mais estranho que isso possa parecer), a hipótese de mesa não será falsa. O que ocorre é que essa hipótese passará a ser inaplicável nesse caso, como regra que conecta esses diferentes aspectos. Ou seja, não estaríamos mais justificados a usar nesse contexto a hipótese de mesa.323
A aceitação ou rejeição de uma hipótese envolve uma série de questões de cunho pragmático, atreladas ao caráter de simplicidade e economia do uso de hipóteses. A descrição dos aspectos fenomenológicos seria enormemente complicada e o uso de certas hipóteses (dada a simplicidade que proporciona - pois significamos uma enormidade de fenômenos por meio de apenas uma palavra) estaria justificado, mesmo que nos leve a proposições genuínas falsas. Nesse caso, como afirma Wittgenstein: “[p]oderíamos mantê-la [a hipótese], introduzindo novas hipóteses”.324 Porém, “[s]e uma hipótese requer constantemente novas hipóteses auxiliares, ela se torna impraticável e a abandonamos”.325
321 WVC, p. 259. (Wieviel Aspekte muß man gesehen haben, bis die Existenz des Gegenstandes gesichert
ist?).
322 WVC, p. 259. (Noch so viele Aspekte können die Hypothese nicht beweisen). 323 Cf. Perrin. XXXX.
324 WVC, p. 255. (Wir können sie aufrecht erhalten, indem wir eine neue Hypothese einführen).
325 WVC, p. 255. (Bedarf eine Hypothese immer neuer Hilfshypothesen, so wird sie unzweckmäßig und
wir geben sie auf.) O poder de gerar expectativas das hipóteses não se encontra apenas no modo como conectam formas lógicas distintas (de diferentes espaços de possibilidades), permitindo fazer predições acerca de um espaço de possibilidades a partir de aspectos de um outro espaço de possibilidade. De acordo com Wittgenstein, é possível a utilização de hipóteses que tenham uma forma matemática e que permitam a organização das regularidades observadas nas experiências prévias de acordo com leis formais. Essa matematização das regras hipotéticas estaria presente, por exemplo, no modo como a física faz suas predições (cf. WVC, p. 255 / PB, §128).
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3.1.2. Os poderes causais das entidades transtemporais e a crença na