KÇ20D III. S
4.5.3. Basınç dayanımı
Dworkin apresenta uma abordagem teórica destinada à explicação da interpretação de uma prática e de estruturas sociais53.
Essa forma de compreensão da atitude hermenêutica conduzirá o autor a elaboração de uma teoria do direito e de uma teoria da decisão judicial pautada em uma integridade hermenêutica.
Assim tanto para elaborar uma concepção do direito (a sua concepção do direito como integridade), como para determinar o modo como juízes e intérpretes devem solucionar questões jurídicas, Dworkin defenderá a necessidade de seguir os passos interpretativos conforme o modelo de atitude hermenêutica que defende.
Assim, vem de seu interpretativismo a sua sustentação da interligação entre uma concepção de direito e de uma teoria de solução de caso concreto a uma hipótese política, a necessidade de integridade do pensamento, o viés individual do ser hermenêutico que alcança a resposta correta.
Passemos, então, agora, a um aprofundamento desta metodologia interpretativa do autor, tema importante em seu pensamento teórico.
Para Dworkin, a melhor maneira de compreendermos uma prática social é através da interpretação54. O raciocínio efetuado pelos indivíduos ao analisarem uma prática social
53 DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 81-89.
denota uma atitude interpretativa. Ao buscarem a compreensão de uma prática social querem elas realizar a melhor interpretação de tais práticas. Mesmo quando tentam descrever essa prática, elas assim o fazem porque creem ser esta a maneira mais valiosa de enxergá-la.
Um trabalho interpretativo demanda uma certa esfera de consenso social resultantes de acordos sobre pontos de vistas. Isso, todavia, não significa ausência de concepções distintas sobre o mesmo conceito interpretativo55.
A divergência, contudo, ocorre geralmente em uma etapa interpretativa posterior à fase inicial de quase consenso. Embora os objetos ou os eventos a interpretar sejam os mesmos, diversas concepções interpretativas emergirão. As pessoas podem divergir sobre o sentido que visualizam na pratica, por exemplo, ou, ainda, sobre o que ela realmente requer em uma circunstância concreta.
Para Dworkin, essa conscientização interpretativa nos permite aferir, através de uma análise teórica em um plano mais abstrato, qual interpretação da prática social vemos como apta a colocá-la em sua melhor luz. Isso porque em nosso raciocínio, quando mostramos concordância a uma interpretação e revemos nossos paradigmas, estamos, na verdade, revendo proposições que melhor se coadunam a concepções, conceitos, paradigmas mais abstratos que temos.
A interpretação de uma prática social é, para Dworkin, apenas uma ocasião dentre outras formas de interpretação56.
A interpretação de uma prática social é na proposta teórica do autor uma interpretação criativa. Ao lado desta espécie de interpretação, o autor cita outras. Há também a interpretação conversacional, na qual o intérprete busca aferir o que disse uma pessoa, ou o quis significar com os sons e os sinais que fez. Menciona também a interpretação científica, realizada através da coleta de dados inicial e da interpretação destes pelo cientista. Na
Uma questão de princípio. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.217-221.
55 PORTO, Ronaldo. Como levar Ronald Dworki a sério ou como fotografar um porco-espinho em movimento in
GUEST, Stephen. Ronald Dworkin. Rio de Janeiro: Campus Elsevier, 2010, IV.
56DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 60 – 67 e DWORKIN,
Ronald. Uma questão de princípio. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 217-221. Conforme Dworkin: “Interpretar uma prática social é apenas uma forma ou ocasião de interpretação. As pessoas interpretam em muitos contextos diferentes. A ocasião mais conhecida de interpretação- é a conversação. Para decidir o que uma pessoa disse, interpretamos os sons ou sinais que faz. A chamada interpretação científica tem outro contexto: dizemos que um cientista começa a coletar dados, para depois interpretá-los. Outro, ainda, tem a interpretação artística: os críticos interpretam poemas, peças e pinturas a fim de justificar algum ponto de vista acerca de seu significado, tema ou propósito. A forma de interpretação que estamos estudando- a interpretação de uma prática social- é semelhante à interpretação artística no seguinte sentido: ambas pretendem interpretar algo criado pelas pessoas como uma entidade distinta delas e não o que as pessoas dizem, como na interpretação de uma conversação ou de fatos não criados pelas pessoas com no caso da interpretação científica. Vou concentrar-me nessa semelhança entre a interpretação artística e a interpretação de uma prática social; atribuirei a ambas a designação de formas de interpretação criativa, distinguindo-as, assim, da interpretação da conversação e da interpretação científica.” (DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.60-61)
interpretação cientifica analisamos as conexões de causa e efeito entre uma coisa e outra, não havendo identificação de intencionalidade nos dados interpretados.
Dworkin57 assemelha a interpretação de uma prática social à interpretação artística. Ambas são espécies de interpretação criativa. Nelas as pessoas buscam interpretar algo criado por elas, como entidades distintas de seu ser. A interpretação dessas práticas é muito distinta do raciocínio envolvido na análise de um objeto físico ou de uma conversa ou gesto físico não artístico. É em razão de sua própria natureza de objeto da cultura, a qual faz de sua interpretação um ato criativo, o fundamento da distinção entre a interpretação criativa e a interpretação conversacional, pautada no que as pessoas quiserem dizer, e a interpretação científica, embasada na interpretação de fatos não criados pelas pessoas.
Dworkin58 defende que a interpretação criativa é construtiva. Ela é construtiva por ser o exercício de uma intenção. A interpretação construtiva é uma questão de impor um propósito à prática59.
Isso não quer dizer que o intérprete possa fazer o que quiser de uma prática ou de uma obra de arte. A história ou a forma de uma prática ou objeto realiza uma limitação sobre as interpretações disponíveis (daqui sairá sua visão de integridade). Dworkin afirma que, do ponto de vista construtivo, a interpretação criativa é um resultado de interação entre propósito e objeto. O propósito é posto pelo intérprete, mas o objeto, por seus caracteres, imporá limites, condicionando a intelecção do autor a uma teoria de integridade e coerência que este forma em seu raciocínio.
Será desta forma de visualizar a interpretação humana que se seguirá a emanação da base de sustentação de Dworkin acerca de sua teoria do direito e acerca da necessidade do juiz, enquanto intérprete da prática jurídica, elaborar uma teoria prévia de análise que proporcione integridade de princípios a história institucional e da exigência deste formular uma hipótese política.
Conforme argumenta Dworkin60, em uma interpretação de uma prática social, o participante que a interpreta impõe-lhe um valor que entenda descrever algum interesse, objetivo ou princípios que se supõe expressados pela prática. A interpretação que cada intérprete faz deve refletir a intelecção que, de seu ponto de vista, atribui o máximo de valor à prática.
57 DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.62,63. 58 DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.63.
59 Na interpretação do direito Dworkin defenderá o aspecto da legitimidade a que está envolto o fenômeno
jurídico, cuja a finalidade para Dworkin será a justificação da coerção estatal contra o indivíduo.
60 DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, 78-79 e DWORKIN, Ronald.
Toda interpretação- seja artística, científica, conversacional-, busca tornar o objeto o melhor possível, colocando-o em sua melhor luz61. Na interpretação construtiva a intenção posta em prática é a do intérprete e os limites conduzidos pelo objeto de conhecimento à sua teoria de integridade e de coerência possuem um ajuste no qual a intelectualidade do intérprete tem participação ativa.
A interpretação construtiva deve aprimorar ao máximo a experiência ou objeto social ou artístico, de modo que melhor realize a finalidade dita pelo intérprete como a que em melhor luz coloque a prática. Por isso, sua característica primária é o desenvolvimento de uma intenção, a qual não se confunde com o propósito de alguém que cria a prática ou a obra, mas que represente a melhor maneira de efetivar a finalidade vista no empreendimento.
Segundo Dworkin62, a sua realização pressupõe uma atividade composta de três fases. Nestes três momentos interpretativos, os graus de consenso em uma comunidade exigidos para cada etapa são diferentes. Sem dúvida um trabalho interpretativo requer certos consensos sociais, acordos sobre pontos de vistas, mas não requer um amplo consenso em todas as fases da interpretação.
A primeira etapa é a chamada fase pré-interpretativa, na qual o intérprete procura identificar os padrões existentes, os quais até aquele momento ele visualiza como integrante da prática. Aqui, devem ser identificados as regras e os padrões que para o intérprete fornecem o conteúdo experimental da prática. Essa fase exige um alto grau de consenso, mas ainda assim demanda algum tipo de interpretação.
Na etapa interpretativa o intérprete busca uma justificativa geral para os principais elementos da prática identificada na etapa pré-interpretativa. Essa justificativa demandará um fit63, um ajuste que permita ao intérprete ver-se como alguém que interpreta a prática e não como alguém a inventa, colocando-a em sua melhor luz.
Uma interpretação demandará uma teoria normativa prévia e uma hipótese
61 DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.65 62 DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p 81-84.
63 Segundo Ronaldo Porto: “Para Dworkin uma concepção é melhor que outra, e não apenas diferente, quanto
mais se ajustar adequadamente (fit) aos paradigmas socialmente compartilhados desse mesmo conceito e é capaz de descrever as práticas paradigmáticas de maneira mais coerente”( PORTO, Ronaldo. Como levar Ronald
Dworki a sério ou como fotografar um porco-espinho em movimento in GUEST, Stephen. Ronald Dworkin. Rio
de Janeiro: Campus Elsevier, 2010, VII) e Segundo Dworkin: “A primeira objeção está correta? Ela declara que, se todas as partes de uma interpretação são dependentes de uma teoria da maneira que digo que são, não pode haver nenhuma diferença entre interpretar e inventar, pois o texto só pode exercer uma restrição ilusória sobre o resultado. Antecipei essa objeção ao argumentar que as convicções interpretativas podem atuar como controles
recíprocos, de modo a evitar essa circularidade e tornar incisivas as afirmações interpretativas. Dividi as
convicções interpretativas em dois grupos- convicções sobre a forma e sobre a substância- e sugeri que, apesar das interações óbvias, esses dois grupos eram, não obstantes, suficientemente separados para permitir que o primeiro restringisse o segundo (...)”(DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.254).
interpretativa.
Comecemos a explicação com exemplificações. Ao interpretarmos uma obra de arte, um quadro por exemplo, buscamos mostrar qual a maneira de ver o quadro revela-o como a melhor obra de arte. Nessa busca pelo melhor sentido de uma obra de arte necessitaremos de uma hipótese estética, a qual pressupõe uma teoria normativa sobre a arte: o que é arte, o que faz um quadro um bom empreendimento. Ao interpretarmos uma obra literária, outro exemplo de empreendimento artístico, devemos nos perguntar: uma obra literária boa é aquela que propicia uma reflexão sobre os problemas políticos de uma comunidade? é aquela que leva a um autoconhecimento? é aquela cheia de passagens de ação e romance?
A interpretação é um empreendimento complexo. Essa teoria normativa prévia ao juízo interpretativo exigirá também subteorias, configurando duas dimensões de análise64.
Haverá, assim, duas dimensões da teoria normativa, uma dimensão formal e uma dimensão substancial. Na primeira, o intérprete ao interpretar exercita uma subteoria à teoria normativa que lhe permite atribuir identidade a uma obra de arte, possibilitando-o distinguir entre interpretar e modificar a obra. Esta subteoria forma a dimensão formal da teoria normativa do intérprete e lhe dará os substratos de integridade, coerência, unidade do empreendimento que interpreta.
Uma teoria normativa prévia a uma interpretação demandará também uma dimensão substancial, a qual atribuirá uma finalidade à pratica ou empreendimento artístico. No caso de uma interpretação artística, essa dimensão substancial será responsável pelo valor estético do intérprete, com sua análise de para que a arte serve. De diferentes teorias normativas prévias resultarão diversas teorias interpretativas e diversas interpretações.
A escolha entre interpretações melhores demandará, para Dworkin, a análise e averiguação da melhor teoria normativa. É desta visualização da interpretação que Dworkin integrará a afetação de uma hipótese política, com uma teoria de moralidade política, nas decisões jurídicas de um intérprete e que defenderá em sua concepção do direito a hipótese política do liberalismo igualitário.
A interpretação do direito enquanto prática social também demandará teorias normativas, com considerações formais de identidade, coerência, integridade e considerações substanciais. Da mesma forma que na interpretação artística temos um valor, um valor artístico resultante de uma hipótese estética, no direito temos um valor político decorrente de uma hipótese política que perquiri os valores promovidos pelo direito, sua finalidade. Como
salienta Dworkin, o direito é um empreendimento político, e uma interpretação correta da prática jurídica deve demonstrar argumentativamente seu valor político, evidenciando o melhor princípio ou política a que serve65.
Compreendida a etapa interpretativa passemos ao terceiro momento de uma interpretação, na aferição teórica de Dworkin.
A terceira etapa configura a fase pós interpretativa. Nesta o intérprete visualizará, após o momento interpretativo teleológico do empreendimento, a sua ideia do que a prática realmente exige para melhor servir à finalidade que ele aceita na etapa anterior. Nesse momento o intérprete pode promover ampliações e restrições aos padrões usualmente seguidos na prática. Pode inclusive aferir que um certo padrão tido até aquele momento como próprio da prática deve ser visto como erro à luz da justificativa atribuída. Diversas análises, como as dimensões da prática, outros propósitos ou objetivos da prática, algumas características, podem ser revistas como consequências pós interpretativas desse propósito, sempre, é claro, respeitando a dimensão formal da sua teoria normativa prévia.
Se a intepretação é ou não cindível em etapas ou se é possível formular teorias prévias de nossas análises, esse fato não nos impede de evidenciar a relevância do seguinte aspecto de seu pensamento: a diferenciação posta por Dworkin nos auxilia a perceber a dependência de nossas atitudes interpretativas de parâmetros prévios mais abstratos, os quais também podem ser objeto de reflexão. O alcance ou não da objetividade almejada por Dworkin, é, todavia, ponto de reflexão apartado66.
Dworkin utiliza como exemplo para explicar a atitude interpretativa através de um exemplo imaginário67: o modo como as pessoas interpretam a prática social da cortesia em uma sociedade. As pessoas compartilham, em um quase consenso, que certos
65 Conforme Dworkin: “(...) Disse que uma interpretação literária tem como objetivo demonstrar como a obra em
questão pode ser vista como a obra de arte mais valiosa, e para isso deve atentar para características formais de identidade, coerência e integridade, assim como para considerações mais substantivas de valor artístico. Uma interpretação plausível da prática jurídica também deve, de modo semelhante, passar por um teste de duas dimensões: deve ajustar-se a essa prática e demonstrar sua finalidade ou valor. Mas finalidade ou valor, aqui, não pode significar valor artístico, porque o Direito, ao contrário da literatura, não é um empreendimento artístico. O Direito é um empreendimento político, cuja finalidade geral, se é que tem alguma, é coordenar o esforço social e individual, ou resolver as disputas sociais e individuais, ou assegurar a justiça entre os cidadãos e entre eles e seu governo, ou alguma combinação entre alternativas. (...)Assim, uma interpretação de qualquer ramo do direito, como o dos acidentes, deve demonstrar seu valor, em termos políticos, demonstrando o melhor princípio ou política a que serve.”(DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.239)
66 Dworkin é um interpretativista. Como tal está centrado no âmbito individual monológico, do ser humano,
como ser hermenêutico que dentro de seu sistema de ideias coerentes emite respostas corretas. Veremos ao estudar Habermas a necessidade transpor as reflexões individuais ao âmbito discursivo da aferição dos acordos racionais intersubjetivamente compartilhados no mundo da vida se quisermos falar de verdade, não para o ser hermenêutico, mas para a comunidade.
67 Ver DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, pp. 56-60, bem como p. 84-
comportamentos retratam a prática da cortesia. Verificam que a retirada de um chapéu aos mais nobres, aos soldados que voltam da guerra, o cumprimento cordial são exemplos de cortesia. Vistos as regras e os comportamentos que identificam a prática, os participantes do empreendimento ao interpretá-lo pressupõem que a ele tem um valor, serve a algum interesse ou propósito, reforça a algum princípio. Dworkin propõe que um intérprete, ao analisar a cortesia, chegará provavelmente a conclusão de que esta prática reflete respeito. Depois desta fase de justificação, deverá se perquirir se as exigências da cortesia, os comportamentos que ela evoca, são exclusivamente o que em dado momento é tido como cortês ou se os comportamentos são suscetíveis de ampliação ou restrição conforme a finalidade verificada na etapa interpretativa. Poder-se-á chegar à conclusão que determinado comportamento não deve ser tido como cortês ou que outro deve ser tido.
É comum na atividade interpretativa o fato de as pessoas tentarem impor um significado às instituições e em seguida reestruturá-las à luz desse significado68. É por isso que interpretação de uma prática se modifica ao longo de um tempo. A cortesia, por exemplo, foi tida como detentora da finalidade respeito. Mas as concepções sobre os fundamentos do respeito podem variar. Em uma época pode-se valorizar a posição social, a idade, o sexo. As opiniões podem variar quanto à natureza do respeito e com o tempo novas interpretações ganham aderência e conduzem a paradigmas dominantes. A interpretação é, no entanto, construtiva e não a mero relato de paradigmas dominantes. Os paradigmas mudam justamente em razão de novas interpretações que parecem mais racionais e ganham aderência.
A análise de Dworkin da atitude interpretativa leva-o a uma teoria da verdade, de correção de proposições derivadas de juízos de interpretações construtivas, na qual propõe a possibilidade lógica de existência de uma única resposta correta a problemas hermenêuticos.
68 Nas palavras de Dworkin: “Todos desenvolvem uma complexa atitude interpretativa com relação às regras da
cortesia, uma atitude que tem dois componentes. O primeiro é o pressuposto de que a prática da cortesia não apenas existe, mas tem um valor, serve a algum interesse ou propósito, ou reforça algum princípio- em resumo, tem alguma finalidade- que pode ser afirmado, independentemente da mera descrição das regras que constituem a prática. O segundo é o pressuposto adicional de que as exigências da cortesia- p comportamento que ela evoca ou os juízos que ela autoriza- não são, necessariamente aquilo que sempre se imaginou que fosse, mas ao contrário, suscetíveis a sua finalidade, de tal modo que as regras estritas devem ser compreendidas, aplicadas, ampliadas, modificadas, atenuadas ou limitadas segundo essa finalidade. Quando essa atitude interpretativa passa a vigorar, a instituição da cortesia deixa de ser mecânica, não é mais a deferência espontânea a uma ordem única. As pessoas agora tentam impor um significado à instituição- vê-la em sua melhor luz- e em seguida reestruturá- la à luz desses significados. (...) A interpretação repercute na prática, alterando sua forma, e a nova forma incentiva uma reinterpretação.”(DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.57,58,59)