A. BALIKESİR HALKEVİ
1. Balıkesir Halkevi’nin Açılışı Ve Gelişimi
Civilização, progresso e desenvolvimento constituem uma preocupação fundamental também no texto da Memoria Sobre Immigração, que em 1867 fora apresentada à "Sociedade Internacional de Immigração", na qual Tavares Bastos participava como membro da diretoria, e publicada no Jornal do
Commercio em 22 de março do mesmo ano.
O ponto central da Memoria é a defesa da imigração como instrumento de civilização.25 Explicava Tavares Bastos que a "livre exploração da terra por todos os seus habitantes vae sendo agora uma das mais energicas manifestações do espirito moderno", e, como tal, "a emigração deixou de ser, como o exodo dos Hebreus, o exilio forçado para se tornar o mais efficaz instrumento da civilisação do globo". Segundo Tavares Bastos, a imigração seria "um facto providencial" tanto quanto "a multiplicação da especie humana" e, portanto, na sua concepção, "promovêl-a, facilital-a, protegel-a é servir aos designios da Providencia, que multiplica os filhos de Abrahão como as arêas do mar e as estrellas do céo". Em seu raciocínio, a implicação é que a imigração deve ser aplicada e protegida pelo estado, porque se trataria, de fato, de um "dever sagrado" ao qual "os governos christãos bem comprehendem", e de uma "obrigação" para a qual "o governo do Brasil tem sido dos mais solicitos em corresponder".26
Apesar dos pesares, o Brasil seria um país definitivamente propício à imigração. A expressão dessa opinião, de acordo com Tavares Bastos, seria também "o ponto de vista do programma" da "Sociedade Internacional de Immigração". Dissecando os potenciais e entraves do Brasil, a Memoria afirma que a abundância é uma estímulo para a imigração ao país, o qual é descrito, em seus termos, como um lugar "dotado de vastos recursos naturaes", com "excellente clima", "grandes rios, extensas costas e optimos portos a pouca distancia da Europa". No entanto, dizia, o que faltam "para que se estabeleça
25 Cf. PEREIRA, L.. Tavares Bastos, a imigração europeia e o lugar das ideias liberais no Brasil oitocentista. Diálogos (Maringá. Online), v. 16, n.3, p. 1085-1110, set.-dez./2012. Disponível em: http://www.uem.br/dialogos/index.php?journal=ojs&page=article&op=view&path%5B%5D=697. Acesso em: 15 Ago. 2013.
26 TAVARES BASTOS, Aureliano Cândido. Memória Sobre Immigração [1867]. In: ___. Op. cit. [1861], 1939, p. 57.
aqui uma poderosa corrente de immigração espontanea, que aliás se promove desde o começo do século, desde o regimen da metropole" seriam "certas vantagens materiaes e condições moraes do mais elevado alcance". De acordo com Tavares Bastos, o Brasil contava com um código de leis que estava à altura e em sintonia com as exigências da civilização, mas que sua realidade adversa reunia dificuldades que se impunham como obstáculo à imigração em razão da distância entre a lei escrita e sua aplicação prática. Em suas palavras, dizia Tavares Bastos que "a nossa lei fundamental é um dos mais respeitaves monumentos da sabedoria humana", porque "as leis do Brasil consagram em principio todas essas grandes conquistas da civilisação", mas que, entretanto, "do principio ao facto, da lei á pratica, ha uma distancia consideravel".27
Grande parte do problema seria uma consequência direta dos costumes baixos e condenáveis da população, pois, observava Tavares Bastos que "não raras vezes a lei é bôa, mas os costumes do povo máos".28 Outra parte importante dos impedimentos à imigração ao Brasil - e por conseguinte de sua civilização - residiria em uma miríade de fatores que, segundo Tavares Bastos, dizem respeito à desorganização social e administrativa do país:
Supponha-se, por um momento, a nossa organisação social transformada: a escravidão abolida, a administração local desembaraçada da dupla centralisação provincial e geral, a justiça bem remunerada e confiada a mãos habeis, muitas vias de communicação, completa discriminação do dominio publico, subdivisão da grande propriedade, igualdade dos cultos, governo activo e prestigioso, confiança do paíz nos seus destinos; supponha-se isso possivel, e não se duvidará crer que desde então faria o Brasil concorrencia aos focos actuaes de immigração no mundo.29
Essa suposição, além de indicar qual a direção e o sentido das soluções para transformar o país, revela o que, na compreensão de Tavares Bastos, estaria errado com o Brasil e projeta como o país deveria idealmente ser.
Além disso, apesar de confiar que "o crescimento da riqueza em um paiz dotado de tantos recursos naturaes attrahirá os emigrantes espontanoes",
27 TAVARES BASTOS, Aureliano Cândido. Memória Sobre Immigração [1867]. In: ___. Op. cit. [1861], 1939, p. 59.
28 TAVARES BASTOS, Aureliano Cândido. Memória Sobre Immigração [1867]. In: ___. Op. cit. [1861], 1939, p. 59.
Tavares Bastos reconhecia que o sucesso da imigração para o Brasil dependia sobretudo da propaganda sobre o país no exterior, e esta propagando, por sua vez, dependeria de "sua revelação pela estatistica e por uma publicidade larga e constante que irá acordar as ambições, ferir a imaginação e desviar para o Brasil uma parte da corrente que se encaminha para os Estados Unidos e para a Australia". Entretanto, ai havia um problema: "nós não temos uma estatística". Dizia Tavares Bastos que "este é o documento de um povo civilizado" e que "nós, entretanto, o havemos dispensado", sobretudo porque "a vaidade nacional contenta-se com os palavrões e prefere-os ás realidades". Teriam havido duas tentativas prévias para uma estatística nacional que, contudo fracassaram: uma "fez-se em 1851" pelo "marquez de Monte Alegre", mas "a ignorancia fel-l abortar"; e a outra em 1862 com "o Sr. Sinimbú", porém, lamentava, "a nossa instabilidade administrativa impede o desenvolvimento destes projectos". Sob pena de o Brasil permanecer preso às amarras do passado sem deslanchar seu potencial, dizia Tavares Bastas que "isto não póde continuar", que "esta ausencia dos primeiros documentos da civilização de um povo é deploravel".30
Assim, a proposição imediata de Tavares Bastos era que o Brasil adotasse medidas de curto prazo para que o país se beneficiasse do momento propício à imigração no cenário internacional, buscando auferir "legitimo proveito", dizia, da "guerra e das excitações politicas dos Estados Unidos". Para isso, sua estratégia calculava que o Brasil deveria dar "abrigo a homens industriosos", pois esses imigrantes contribuiriam com o avanço do país, porque eles, dizia, "communicarão ao nosso povo as suas artes, a sua pericia e a sua actividade".31
A Memoria reivindicava, desse modo, "á solicitude do governo uma medida de immediato proveito para os immigrantes e a immigração".32 Parece então plausível inferir que a compreensão compartilhada por Tavares Bastos enxerga a imigração como um meio de trazer para o Brasil, junto ao imigrante, seus costumes e seu grau de instrução que à época eram considerados ideais e
30 TAVARES BASTOS, Aureliano Cândido. Memória Sobre Immigração [1867]. In: ___. Op. cit. [1861], 1939, p. 124.
31 TAVARES BASTOS, Aureliano Cândido. Memória Sobre Immigração [1867]. In: ___. Op. cit. [1861], 1939, p. 70.
32 TAVARES BASTOS, Aureliano Cândido. Memória Sobre Immigração [1867]. In: ___. Op. cit. [1861], 1939, p. 74.
que, conforme Tavares Bastos acreditava, faltavam à população local, ou seja, a imigração seria um atalho no caminho para a civilização. Dai a Memoria de Tavares Bastos defender, com todas as letras, que "a immigração para o Brasil é, como a instrucção do povo, um serviço commum ás administrações geral e provinciaes".33
Quanto ao funcionamento de uma almejada política de imigração, Tavares Bastos sugere que a sua implementação fosse essencialmente deixada "á iniciativa dos particulares", mas com o Estado exercendo o papel de regulatório e fiscalizador, "regulando-se os contractos para que não se transformem em um novo modo de escravidão, e fiscalisando-se os navios importadores para que o transporte não violente a humanidade com as scenas do trafico de negros". De acordo com a proposta de Tavares Bastos, "quanto aos seus esforços directos e auxilios pecuniarios", a "missão do governo", prescrevia, "reserva-se para a formação de uma corrente de emigrados dos povos civilisados".34 Por conseguinte, o raciocínio compartilhado por Tavares Bastos é uma equação na qual a riqueza do país de destino é diretamente proporcional à corrente migratória, desde que proveniente de povos civilizados. Essa lógica é a base que sustenta a defesa da importância da imigração para o Brasil.
6.3 Exclusividade do voto aos agentes do progresso e da civilização