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A prática reflexiva é inerente ao processo de aprendizagem, especialmente à aprendizagem experiencial, possibilitando a transformação do indivíduo. Neste trabalho, caracterizou-se a prática reflexiva como dinâmica, crítica, individual e, por vezes, coletiva.

Os entrevistados apontaram essa dimensão como importante para o processo de aprendizagem em CMP:

Então eu acho que essa tua prática reflexiva aqui, ela teria a ver muito mais com

o processo de tomada de decisão, a capacidade de incorporar conhecimento científico na prática do sujeito. Eu acho que isso é uma coisa importantíssima para ele parar de... não vejo que ela é coletiva [...], então eu não considero que ela

que ela é crítica porque o saber teórico e metodológico já impõe a ele o limite da busca da verdade, então essa já seria suficientemente crítica. Eu acho que essa

explicação estaria muito mais dentro do saber teórico e metodológico e aí o saber teórico do conhecimento, sim, da Administração e, sim, da aplicação, muitas vezes, no próprio objetivo, [...] na medida do possível, as disciplinas estão trazendo textos, por exemplo, [...] Administração Estratégica [...]: eu vou dar ferramentas, eu vou mostrar para eles o que é cadeia de valor, o que é BSC, vou mostrar o que é análise interna, o que é um modelo, como é que se faz um mapa estratégico, o que é

benchmarking, como é que se faz e tal, e aí a gente vai estudar casos em que essas

ferramentas tenham sido aplicadas [...]. Aí a gente consegue trazer, por exemplo, mostrar para eles que aquilo não é abstrato [...], “mas, tem dificuldade!” e eu digo: “mas esse é o teu trabalho e não o meu, teu trabalho é converter isso para a tua

realidade” e esse é o trabalho do aluno profissional e depois do egresso. (C1.16)

[...] um aluno do mestrado profissional, uma turma do mestrado profissional, tende

a ter alunos com uma vivência social e profissional mais rica e extensa do que os colegas do acadêmico, e a prática reflexiva, ela exige, vamos dizer, uma triangulação: teoria, razão/raciocínio e vivência pessoal. São fatores que se

realimentam embora, às vezes, você tem pessoas que têm uma prática, um senso pouco crítico, algumas pessoas parecem que são assim menos críticas e outras mais críticas. Assim, essa capacidade de raciocínio reflexivo é, assim, um pouco inato às pessoas, mas é, sem dúvida, assim, diferentes estímulos no aprendizado permitem mais

reflexão e crítica. Então, em tese, se nós pegarmos 1000 pessoas com ampla vivência

teórico-acadêmica e outras 1000 com ampla vivência profissional e colocarmos num curso de mestrado profissional é onde se vai dar um novo aporte teórico. Para aqueles 1000 que tiveram vivência teórica, é mais do mesmo, eles não vão sair muito de onde eles estão. Aqueles que têm experiência profissional, nós vamos aportar coisas

que eles não têm e eles vão aportar coisas que não existem no curso, que vêm dos alunos, aí vem a riqueza. Então, eu vejo assim: os meus alunos do mestrado profissional com mais vivência profissional, em média, eles conseguem ter uma reflexão, uma argumentação um pouco mais rica do que aqueles que porventura entram no mestrado profissional, mas que têm uma menor experiência profissional, que saiu há menos tempo da graduação. (C2.17)

Ah, com certeza, com certeza porque eles são muito experientes, né? [...] Assim, são pessoas com uma bagagem muito grande. Agora mesmo temos diretores [...], pessoas com uma bagagem profissional incrível, mas com pouco suporte metodológico e acadêmico, teórico-acadêmico, então, em termos de reflexão sobre a prática, essa

é uma dinâmica bem forte no mestrado profissional. (C3.12)

Os respondentes ressaltam a importância da reflexão e fazem correlações com as dimensões de experiências profissionais e de saberes teóricos e metodológicos. As colocações são coerentes com a prática reflexiva, já que estas vão ocorrer tanto a partir das experiências e possíveis discussões sobre elas em sala de aula quanto das teorias e metodologias aprendidas no curso de CMP. Para Daudelin (1996), a reflexão ocorre a partir do momento em que o indivíduo vivencia uma experiência.

Para os entrevistados, é a partir dos novos saberes teóricos apreendidos que o aluno de CMP poderá encontrar soluções para os problemas organizacionais, objetivo precípuo do aluno e depois do egresso do CMP. Além do aporte teórico, os respondentes apontam que alunos mais experientes conseguem ter uma reflexão mais profunda sobre o que é requerido deles. Ainda

ressaltaram que os alunos refletem pouco nas organizações e que a sala de aula é um espaço propício para que isso ocorra.

Prática reflexiva é algo muito forte. Na verdade, a gente tem muita discussão em sala de aula, muito porque a gente tem a crença [...] de que o aprendizado é centrado

no aluno, então, com essa prática do ensino centrado no aluno, é algo que permeia [...] desde a graduação até o doutorado, [...], então acaba tendo isso também no mestrado profissional. Isso é uma coisa tão engraçada que, conversando com egressos, os

egressos dizem “nossa, eu tenho muita saudade do mestrado pelas discussões porque, no dia a dia, a rotina é tão forte que eu não tenho como discutir com os colegas, né?” Então isso é uma coisa bacana que a gente escuta. Então prática reflexiva é muito interessante para o aluno e é bem reconhecida pelo aluno.

(C4.12)

Então, a prática reflexiva também é algo bastante distante do dia a dia desse

público, é algo que tem que ser trabalhado, tem que ser praticado, então é algo muito

importante. (C7.9)

Estas falas ressaltam que há uma dificuldade para que profissionais utilizem a prática reflexiva no dia a dia. Assim, é ressaltada a importância de se estimular a reflexão, especialmente a partir das discussões em sala de aula. De acordo com Mintzberg (2006), a reflexão ocorre a partir do acúmulo de experiência que o profissional traz para dentro da sala de aula e a ela são acrescidos novos conceitos e métodos.

Para C6, a reflexão pode ocorrer em sala de aula e fora dela também, pela imersão do aluno com atividades extraclasse como leituras, construção de resenhas e artigos, preparação de seminários, etc. É possível notar que, assim como ressaltado por outros entrevistados, a reflexão se dá a partir da aquisição de saberes teóricos.

Práticas reflexivas, eu acho que isso ocorre em sala de aula e extraclasse também. Talvez ocorra de forma mais forte extraclasse, talvez porque existe uma imersão bastante grande em leituras extraclasse. Há uma exigência muito forte de leituras,

de realização de resenhas, preparação de seminários. É uma exigência bastante grande, não diferente do mestrado acadêmico, neste aspecto, mas lembrando, existem

alguns aspectos que relacionam muito forte com a prática profissional, que aí está a diferença bastante clara com o mestrado acadêmico. Mas em termos, assim,

de exigências no desenvolvimento das disciplinas, por vezes, em disciplinas eletivas, nós podemos ter alunos de mestrado acadêmico e eventualmente até de doutorado que estão no mesmo ambiente com alunos do mestrado profissional porque uma ou outra disciplina é compartilhada. E os alunos são tratados, assim, de forma igual e acompanham de forma igualmente. Por vezes, eu já tive experiências de que, na

minha disciplina eletiva, alunos de mestrado profissional com melhor desempenho do que alunos de mestrado acadêmico. Bastante interessante. Então, essa prática reflexiva ela ocorre tanto em sala de aula como fora de sala de aula.

(C6.10)

As exigências para alunos de CMP e CMA são as mesmas, de acordo com C6. Contudo, percebe-se certa surpresa por parte do coordenador quando relata que “já teve experiência com

alunos de CMP com melhor desempenho que alunos de CMA”. Assim, constata-se a presença do preconceito em relação ao desempenho de alunos de CMP, o qual foi abordado na seção 7.1.3 sobre a dimensão política. No entanto, o grave neste discurso é que ele advém de dentro do programa. No momento em que o coordenador quer ressaltar a qualidade do aluno de CMP, sem perceber, ele carrega o discurso do preconceito.

Já o discurso de C8 apresenta elementos de contradição. A princípio, o respondente informa que não há prática reflexiva no curso e chega a chamar a reflexão de “parte filosófica”, porém se contradiz quando aponta que o aluno faz reflexão a partir da literatura. Por um lado, ele pontua que não há incentivo à prática reflexiva porque não se permite que o aluno dê sua opinião sem embasamento teórico. Por outro, ele aponta que a reflexão ocorre no curso a partir de uma prática reflexiva pautada em citações, ou seja, em teoria. No entanto, para Moon (2004), o processo de reflexão está intrinsecamente envolvido no processo de aprendizagem e este segundo só irá ocorrer a partir do primeiro.

Aí, e a gente deixa essa parte filosófica, que você chama da prática reflexiva, para

o aluno quando ele sair do mestrado. Então, nós não temos muita prática reflexiva, a gente não fica fazendo aulas em que os alunos dão opinião. Então, a

opinião do aluno todo tempo tem que ser opinião nunca do que eu acho. Então o aluno é proibido de falar na nossa aula, eu acho. “Você não tem direito de achar nada!”. Ter

o seu parecer com base na sua leitura. Então, toda vez que a gente faz uma prática reflexiva, toda ela obrigatoriamente tem que ser pautada em citação.

Fulano de tal disse isso por causa disso e esse outro fulano disse isso. Então, nós poderíamos talvez chegar, aí eles fazem a pergunta: “Professor, a gente poderia?” E

aí a gente vai treinando o aluno nessa prática reflexiva. (C8.9)

Desta forma, as entrevistas permitiram caracterizar que a prática reflexiva é fundamental em sala de aula, aproximando-se diretamente dos saberes teóricos e metodológicos, bem como das experiências profissionais.

Assim, apesar de um respondente ter afirmado que esta prática não acontece de forma coletiva, mantém-se a descrição original de que a reflexão em CMP é dinâmica, crítica, individual e, por vezes, coletiva.

A partir das análises realizadas em torno das dimensões micro processuais, foi possível notar que estas implicam diretamente no processo de aprendizagem de alunos de CMP, o que será abordado na seção a seguir.

Benzer Belgeler