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Bakım ve temizlik 23

O meio negro não se restringiu apenas a Imprensa Negra Paulista, pelo contrário, as atuações dessa parcela da sociedade foram variadas desde as criações de clubes recreativos, passando por associações culturais até a continuidade das irmandades religiosas criadas por negros desde o século XVI.

Embora a imagem da maioria dessas instituições estivesse ligada a promoção de bailes para entretenimento da população negra, os esforços para que os momentos que reuniam grande parte do grupo fossem aproveitados com a intenção de promover a instrução ao grupo, configura a expansão com o qual o projeto educacional alcançou no meio negro.

As lideranças negras que colaboravam com os jornais negros também exerceram papeis de grande importância em associações recreativas, clubes, agremiações, entre outras. Muitas destas instituições possuíam periódicos que as representavam e que acabavam compondo a Imprensa Negra Paulista. As atividades e ações dessas lideranças convergiam na tentativa de valorizar as questões culturais, intelectuais, de instrução e de solidariedade dentro destas instituições. Na visão de Pinto:

Havia, por parte das lideranças negras, uma luta constante para que a vida associativa não se reduzisse a satisfazer apenas às necessidades de lazer. Na opinião dessas lideranças, ela deveria ter um caráter instrumental, deveria ser aproveitada para a melhoria do negro, seja do ponto de vista moral, intelectual, cultural, e também beneficente, a fim de proporcionar amparo à população negra." "(...) as realizações no campo da cultura e da

educação, desenvolvidas pelo Centro Cívico Palmares e pela Frente Negra, sempre tiveram destaque na imprensa negra. (PINTO, 2013, p.83-84) Percebemos que não só as instituições recreativas, mas também as de cunho cultural de forma geral, como os citados acima Centro Cívico Palmares e a Frente Negra Brasileira, o Grêmio Dramático e Recreativo Kosmos, o Clube Negro de Cultura Social, o Clube 13 de Maio dos Homens Pretos, a Sociedade Beneficente Amigos da Pátria, também endossaram o projeto educacional dos negros. Aliás, enquanto os periódicos da Imprensa Negra Paulista serviram de divulgadores das ideias, essas instituições serviram para colocar em prática tal projeto.

As instituições culturais que apareceram a partir da metade da década de 1920 tinham como objetivo unir os negros em torno das reivindicações do grupo. Na verdade, tais instituições surgiram no bojo da Imprensa Negra que pretendia articular um movimento para dar voz e vez a população negra. Tanto a Imprensa Negra quanto as demais associações foram organizadas por esta elite intelectual negra da qual citamos anteriormente. O que nos parece é que o movimento negro à época estava ganhando força e se ramificando, inclusive variando as suas formas de atuação.

Importantes entidades negras criaram e mantiveram, até quando foi possível, bibliotecas para seus associados, como o Grêmio Dramático e Recreativo Kosmos e o Centro Cívico Palmares. O segundo chegou até mesmo fundar "escolas e um curso secundário, que contava com ‘um afinado corpo docente preto’ e cujos alunos chegaram a frequentar as escolas superiores do país." (PINTO, 2013, p. 86). Grosso modo, percebemos como as instituições negras estavam interessadas em levar instrução aos seus associados. No próprio Centro Cívico Palmares as ações eram diversificadas. Nas palavras de um antigo membro deste centro cívico, em entrevista concedida a Regina Pahim Pinto, fica evidente a ênfase na escolaridade:

Era um apelo constante. Por isso a gente enraizou, a nossa família tem que estudar, nós sempre enraizamos isso. O Centro ajudou muito a todos que o frequentaram. Gente que às vezes estava assim com o pensamento meio devagar, entrou tudo com aquela ‘temos que vencer é pelo estudo’." (Idem, ibdem, p.87)

Nesse sentido, as ações das instituições negras evidenciavam, em seus discursos sobre a importância da instrução, que o caminho para a ascensão social do negro deveria ser por meio da inserção no mercado de trabalho e, para tal, deveriam buscar a qualificação, o que poderia resultar na procura pelo processo de

escolarização. Outro entrevistado da pesquisadora também se lembrou dos discursos pronunciados no Centro:

(...) Os homens que se reuniam lá estudavam e incentivavam para que todos os negros se reunissem a fim de estudar e de encontrar uma melhor cultura, para poder participar de todo esse trabalho que tinha na cidade, mas não eram aceitos, então a base toda era estudar. (Idem, ibdem, p.87- 88)

O Centro Cívico Palmares foi um órgão que reuniu um grande número de lideranças negras as quais colaboravam com os jornais da Imprensa Negra Paulista. Embora tenha funcionado apenas entre 1926 e 1929, desempenhou um papel fundamental no meio negro de organização do grupo. Com o seu fechamento, seus líderes retomaram o projeto e dois anos depois reuniram para a fundação da Frente Negra Brasileira.

A Frente Negra Brasileira foi uma instituição muito bem organizada que permitiu a população negra condensar suas reivindicações num só espaço. Ainda em relação a sua organização, a FNB criou diversos departamentos dos quais destacamos o Departamento de Instrução ou de Cultura. Segundo Pinto (2013), criou um curso primário que chegou a ser reconhecido oficialmente pelo governo e até recebeu subsídio oficial com nomeação de professoras do Estado e o fornecimento de mobiliário escolar e material didático. Há indícios também de um curso secundário preparatório para o ensino superior. Além disso, ofereceu aulas de inglês através do professor Euzebio dos Santos e cursos direcionados especialmente para as mulheres frentenegrinas (Idem, p. 219)

Na criação da FNB a preocupação em estimular a instrução da população negra esteve muito presente. Nas palavras de seu primeiro presidente, no porta-voz da instituição, o jornal A Vóz da Raça, Arlindo Veiga dos Santos assim definiu as pretensões da instituição:

Deve ser a F.N.B. (e ela faz por ser) uma obra de educação e reeducação; de formação e preparação para a vida, ordenadas à Gente negra e ao Brasil; uma obra de dar ao patricio consciência do que êle é, e mais ainda: do que êle pode vir a ser com o esforço próprio orientado por quem sabe orienta-lo porque sabe onde tem o nariz...; uma obra de cultura que não se faz em um dia, mas lentamente, com o vagar das coisas sérias. Sómente realizando êsse programa, é que poderá ser concretizada a ‘integralização’ do Negro na vida nacional, como quer o Sr. Conde de Afonso Celso, que acima citamos, como quer o Orgânico-Sindicalismo. (Arlindo Veiga dos Santos, Papagaios negros, A Vóz da Raça, 1(13) 17.06.1933, p.1, in PINTO, 2013, p.93)

Nesse artigo, o autor enfatiza o propósito ao qual a FNB deve ater-se, ou seja, a busca por incentivar a educação no meio negro. Como citamos anteriormente, para atender esta tarefa, a FNB criou escolas e cursos para dar formação aos negros. Arlindo ressalta ainda que não será de um dia para o outro que a consciência chegará à mente dos negros. A tarefa deverá ser processual, chegando mesmo a ser lenta.

Em relação às demais associações citadas não encontramos muitos registros no que tange às atividades educacionais. Quanto ao Clube 13 de Maio dos Homens Pretos, possui apenas uma notícia no jornal Progresso dando conta de que tal associação iria manter uma escola. O mesmo jornal menciona a escola mista Progresso e Aurora, criada pela Sociedade Beneficente Amigos da Pátria, fundada em 13 de maio de 1908 por Salvador de Paula, um descendente de africanos (Ibdem, p.223). Porém, suas atividades não duraram mais do que dez anos, o que para a época era um período a ser considerado, haja visto que não contava com nenhum subsídio do governo.

Os esforços das lideranças negras foram preponderantes para levar ao consentimento dos demais negros a valorização na formação, através da instrução, seja ela escolarizada ou não. No entanto, qual era a relação dessas lideranças negras com a instrução?

Benzer Belgeler