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Como dado histórico e para o completo estudo do tema, imprescindível que se analise, detidamente, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 144,261 caso célebre decidido em 2008 pelo Supremo Tribunal Federal antes da edição da Lei Complementar nº 135/2010, no qual se discutiu a possibilidade de afastamento da exigência do trânsito em julgado para tornar inelegíveis os candidatos condenados por improbidade administrativa,

261 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 144. Rel. Min. Celso de Mello, Tribunal Pleno, j. 06 ago. 2008, DJe n. 35, RTJ v. 215, p. 31.

consoante aplicação direta do princípio da moralidade administrativa (artigo 14, § 9º, da CF/88).

A ADPF nº 144 foi proposta pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e tratou de dispositivos da Lei Complementar nº 64/90 a seguir identificados, conforme sua redação originária — anterior à LC nº 135/2010 —, que impunham o trânsito em julgado de decisões condenatórias para que se pudesse afirmar a inelegibilidade do candidato, sendo afirmada a sua não recepção, em parte, pelo artigo 14, § 9º, da CF/88, após a Emenda Constitucional de Revisão nº 4/90, que reforçou o caráter ético das candidaturas, in verbis:

Art. 1º São inelegíveis: I - para qualquer cargo: [...]

d) os que tenham contra sua pessoa representação julgada procedente pela Justiça Eleitoral, transitada em julgado, em processo de apuração de abuso do poder econômico ou político, para a eleição na qual concorrem ou tenham sido diplomados, bem como para as que se realizarem 3 (três) anos seguintes;

e) os que forem condenados criminalmente, com sentença transitada em julgado, pela prática de crime contra a economia popular, a fé pública, a administração pública, o patrimônio público, o mercado financeiro, pelo tráfico de entorpecentes e por crimes eleitorais, pelo prazo de 3 (três) anos, após o cumprimento da pena;

[...]

g) os que tiverem suas contas relativas ao exercício de cargos ou funções públicas rejeitadas por irregularidade insanável e por decisão irrecorrível do órgão competente, salvo se a questão houver sido ou estiver sendo submetida à apreciação do Poder Judiciário, para as eleições que se realizarem nos 5 (cinco) anos seguintes, contados a partir da data da decisão;

h) os detentores de cargo na administração pública direta, indireta ou fundacional, que beneficiarem a si ou a terceiros, pelo abuso do poder econômico ou político apurado em processo, com sentença transitada em julgado, para as eleições que se realizarem nos 3 (três) anos seguintes ao término do seu mandato ou do período de sua permanência no cargo;

[...]

Art. 15. Transitada em julgado a decisão que declarar a inelegibilidade do candidato, ser-lhe-á negado registro, ou cancelado, se já tiver sido feito, ou declarado nulo o diploma, se já expedido. (grifo nosso)

Ao impugnar os dispositivos retrocopiados que exigem o trânsito em julgado das decisões, a AMB sustentou que não se deve ter em conta, apenas, para análise da vida pregressa dos candidatos, “casos objetivos”, tratando-se de apuração ampla, de acordo com a sua conduta moral e social no decorrer de sua vida, razão pela qual requereu a declaração de

que o artigo 14, § 9º, da CF/88 constitui norma de eficácia plena, ante a força normativa da Constituição.

Antes de passarmos a analisar o acórdão deste feito, cabe seja destacada a riqueza de conteúdo dos votos proferidos — sejam os vencedores, sejam os vencidos —, com fundamentos que guardam total pertinência com o tema em estudo.

O Relator, Ministro Celso de Mello, em seu voto condutor, realizou aprofundado estudo da questão posta.

Primeiramente, ressaltou o direito dos cidadãos à informação, “notadamente sobre aqueles que concorrem, em processo eleitoral, à obtenção de mandato eletivo”, tendo em vista que “a exigência da probidade deve representar, para o eleitor, um dado necessário ao exercício responsável e consciente do direito de sufrágio”. Destacou, em relação ao feito, que a AMB não impugnou a Súmula 13 do TSE, que afirma não ser autoaplicável o artigo 14, § 9º, da CF/88, como já visto.

Em seguida, definiu a controvérsia em questão: o direito fundamental à presunção de inocência restringe-se à esfera processual penal ou alcança e abrange todo o Poder Público?

Após realizar minucioso estudo histórico acerca da presunção da inocência; analisando tanto a legislação brasileira quanto internacional que tratou da matéria ao longo desses anos, ressaltou a integridade do sistema de garantias construído pela Constituição Federal de 1988, que tem o estado de inocência como uma garantia oponível ao arbítrio do Estado e extensível aos direitos fundamentais, inclusive quanto ao direito do cidadão de participação política.

Nesse sentido, destacou o Ministro Celso de Mello que o entendimento exposto pela AMB em sua Arguição implica o desrespeito ao direito fundamental à presunção da inocência, insculpido no artigo 5º, LVII, da CF/88, que assegura aos cidadãos, nas hipóteses de imposição de medidas restritivas de quaisquer direitos, a garantia essencial do devido processo (CF, art. 5º, LIV).

Salientou que a presunção de inocência se mostra “legitimada pela idéia democrática”, estando presente, ao longo da história, nas sociedades civilizadas, e que constitui “exigência

básica de respeito à dignidade humana”, consoante dispõe o artigo 11 da Declaração Universal de Direitos Humanos, motivo pelo qual concluiu pelo desacolhimento da Arguição.

Em seguida, o Ministro Carlos Ayres Britto proferiu voto divergente, aprimorando o exposto na Consulta nº 1.621, embasado na interpretação sistemática da Constituição, sustentando que não se identificam, de todo, a esfera penal e a esfera eleitoral, por se tratarem de “setores diferenciados da Constituição”, afirmando que os direitos fundamentais, previstos no Título II da Constituição, se distinguem dos direitos individuais, sociais e políticos, devendo ser equacionados de forma também distinta.

Isso porque os direitos políticos não são exercidos para servir imediatamente aos seus titulares, mas, sim, “para servir imediatamente a valores de índole constitucional”, previstos no artigo 1º e em seu parágrafo único, da CF/88, quais sejam, a soberania popular e a democracia representativa, que correspondem a valores “transindividuais”.

Nesse sentido, sustentou que a probidade administrativa e a moralidade administrativa para o exercício do cargo, considerada a vida pregressa do candidato, “são valores condicionantes do exercício dos direitos políticos”, tendo em vista que os direitos de votar e ser votado estão associados ao “princípio da responsabilidade”, que reverencia os princípios da soberania popular e da democracia representativa.

Dessa forma, concluiu que a exigência do trânsito em julgado contida na Lei Complementar nº 64/90, sofreu “revogação” ou “inconstitucionalidade superveniente”, tendo em vista que a Emenda Constitucional de Revisão nº 4 foi editada para proteger valores e não pessoas, motivo pelo qual o artigo 14, § 9º, da CF/88 teria, “no mínimo”, autoaplicabilidade com relação à expressão “considerada a vida pregressa”, acolhendo, assim, integralmente, a Arguição.

Aderindo ao voto do Ministro Carlos Ayres Britto, o Ministro Joaquim Barbosa sustentou o conflito aparente entre os princípios da moralidade administrativa e da probidade administrativa e o princípio da presunção de inocência. Afirmou que a presunção de inocência repercute, só e só, na esfera individual, já os direitos políticos repercutem não apenas na esfera individual, mas “no sistema representativo como um todo”, motivo pelo qual, ante a

inexistência de direitos fundamentais de caráter absoluto, as exigências contidas no artigo 14, § 9º, da CF/88 devem prevalecer, acolhendo a Arguição.

O Ministro Menezes Direito, convergindo com o voto proferido pelo Ministro Celso de Mello, ressaltou que “a disciplina normativa, o direito posto, está em sentido expressamente contrário à interpretação que se poderia dar para a exigência pretendida pela inicial desta ação” e, remetendo-se a estudo feito por Ernst Tugendhat, da Universidade de Tübingen — “Sobre o que significa justificar juízos morais” —, afirmou que “o justo é um conceito contrário ao poder” e, assim, uma ordem normativa justa é aquela em que “os indivíduos se impuseram eles mesmos, essa ordem”, motivo pelo qual, considerando o direito posto, não há como se afastar a exigência do trânsito em julgado.262

A Ministra Cármen Lúcia, em voto que também desacolheu a Arguição, salientou a necessidade de respeito a três princípios constitucionais, sendo eles o princípio da segurança jurídica, uma vez que imperioso que o cidadão saiba qual a regra que está valendo; o princípio da igualdade, evitando-se que haja distinção no tratamento conferido aos candidatos e, por fim, o princípio da separação dos poderes, tendo em vista que cabe apenas ao legislador complementar editar lei a respeito da questão.

O Ministro Ricardo Lewandowski, em voto que também acompanhou o Relator, destacou que a Constituição Federal de 1988 enalteceu os princípios da presunção da inocência, da ampla defesa e do devido processo legal, não podendo se ter o artigo 14, § 9º como “verdadeira norma em branco”, deixando ao critério subjetivo dos juízes definir acerca da inelegibilidade do candidato, de acordo com a análise de sua vida pregressa, com vistas à probidade administrativa e à moralidade para o exercício do mandato, motivo pelo qual o trânsito em julgado da decisão condenatória constitui “critério objetivo para a decretação da inelegibilidade”.

No extenso e bem fundamentado voto proferido pelo Ministro Eros Grau, este primeiramente confrontou o exposto pelo Ministro Carlos Ayres Britto acerca da distinção, em blocos, dos direitos previstos no Título II da Constituição Federal de 1988. Afirmou que

262 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 144. Op. cit.

tal divisão “não afeta a normatividade constitucional, seja para potencializá-la, seja para torná-la relativa”, especialmente porque “não se interpreta a Constituição em tiras, em pedaços, mas sim na sua totalidade”, estando a interpretação sujeita a limites, ou será transformada em prática de subjetivismo.263

Prosseguindo em seu voto, reiterou o exposto na Consulta do TSE nº 1.621 no sentido de que a democracia tem como preço o devido processo legal, sendo que “ninguém está autorizado a ler na Constituição o que nela não está escrito”. Ressaltou a impossibilidade de se substituir o Direito pela moralidade, sob pena de se derrogarem as instituições do Estado de Direito, consignando que o Direito moderno substituiu o subjetivismo da equidade pela objetividade da lei, tendo-se a “ética da legalidade”, razão pela qual desacolheu a Arguição.

O Ministro Cezar Peluso, em voto que acompanhou o exposto pelo Relator, observou que, caso fossem revogadas as normas impugnadas, tal como requerido na Arguição, seria necessário que fosse expedida nova lei complementar para que a Justiça Eleitoral pudesse reconhecer a inelegibilidade ou a ausência de condição positiva de elegibilidade, sem a qual se cairia no “puro arbítrio” decorrente dos subjetivismos.

Por fim, votou o Ministro Gilmar Mendes, o qual destacou que, além da necessidade de observância do princípio da presunção da inocência, haveria outros meios previstos no regime democrático para que se impedisse a chegada ou a permanência de mau governante no poder, sendo o voto o mecanismo mais elementar de controle.

Nesse sentido, trazendo a regra do artigo 14, “caput”, da CF/88, salientou que o voto é direto e secreto, com valor igual para todos, ou seja, o voto é livre, sendo ampla, portanto, a possibilidade de escolha do eleitor. Ressaltou que a igualdade de voto “não admite qualquer tratamento discriminatório, seja quanto aos eleitores, seja quanto à própria eficácia de sua participação eleitoral”, razão pela qual o direito ao voto “permite ao eleitor escolher, de forma livre e soberana, candidatos que, em sua visão, são os mais aptos ao exercício do mandato eletivo”.264

263 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 144. Op. cit.

O Ministro Gilmar Mendes afirmou ainda outra forma de controle para coibir acesso de maus governantes ao poder, qual seja, a escolha de candidatos no âmbito interno dos partidos políticos, os quais deverão eleger candidatos cuja vida pregressa os qualifique para exercerem determinada função pública.

Cabe salientar que participaram do julgamento os Ministros Ellen Gracie e Marco Aurélio Mello, os quais se manifestaram, de forma breve, acompanhando o voto do Ministro Relator Celso de Mello, tendo ambos enfatizado o respeito às garantias constitucionais já salientadas.

Portanto, o antológico julgamento realizado em 06 de agosto de 2008 pelo Supremo Tribunal Federal, afirmou a necessidade do trânsito em julgado para as hipóteses de inelegibilidade previstas no artigo 1º, I, alíneas “d”, “e”, “g” e “h”, da LC 64/90, conforme redação anterior à LC nº 135/2010.

Benzer Belgeler