O autor do texto narrativo histórico possui um posicionamento capaz de influenciar o entendimento da História. Ferro apresenta em seu trabalho o caso do primeiro livro de História norte-americana que possui a seguinte passagem:
A derrubada de dinastias, a ascensão de outras e as maiores revoluções tiveram apenas resultados sem importância se comparadas com o descobrimento da América [...] As conseqüências das maiores vitórias geralmente não proporcionam felicidade à Humanidade nem o aperfeiçoamento da raça humana, e sim o contrário, mas o descobrimento da América teve efeitos benéficos, embora não em todos os lugares [...] Porque em relação à América do Sul, sabemos quanto tempo já se passou desde a conquista [...] É preciso assinalar bem que o progresso e a expansão das letras e das artes foram freados pela incapacidade dos espanhóis de serem estimulados pelos espíritos de iniciativa; [...] (FERRO, 1999, p. 259).
Esse texto foi publicado, em 1823, por John Pretisse e impresso por Keene, em New Hampshire, no intuito de ensinar crianças e famílias norte-americanas.
Os primeiros historiadores norte-americanos criaram toda uma mitologia a respeito de si, em detrimento de outras culturas, não levando em consideração diversos aspectos sociais, políticos e ambientais alheios aos países da América do Sul.
Lippmann (apud MOTTER, 2001, p. 45) afirma sobre estereótipos:
[...] nem mesmo a testemunha ocular traça um quadro ingênuo da cena. Pois a experiência parece mostrar que ela própria traz à cena alguma coisa, que dela retira mais tarde e o mais das vezes, o que supõe ser relato de um acontecimento é, na realidade, uma transfiguração dele.
A necessidade de auto-afirmação torna-se quase belicosa, transformando o campo da cultura em um cenário de batalha. A história brota de fontes diferentes de acordo com as necessidades de cada povo. Encontramos exemplos de contra- história que existe paralelamente a história institucional.
Para Ferro (1999, p. 293):
A história é dominada por essas duas fontes, que misturam certezas e ilusões, mas não estabelecem nem uma só vez uma só verdade científica que seja, na qual se possa confiar, tão diferentes e contraditórias são as versões do passado que propõe, impõem e reproduzem.
Dessa forma, podemos considerar como uma narrativa histórica não apenas aquela expressa em livros didáticos, como também a produção oral e imagética de diferentes grupos culturais. Cada sociedade irá refratar a realidade de acordo com a sua necessidade naquele exato momento.
Os japoneses tiveram posicionamento similar quando abriram seus portos ao comércio com o Ocidente no século XIX. Para eles os mitos e antigas crenças eram partes vivas de sua história, fato que permitia ao Imperador exercer o poder máximo, pois, para o povo do Japão, ele era o herdeiro legitimo dos antigos deuses. Esse pensamento perdurou até quase a metade do século XX quando, após a derrota na Segunda Guerra, o Imperador foi obrigado a dizer em rede nacional que não era uma divindade.
Campbell (1997) nos afirma que os mitos sustentam nossa existência social e são capazes de dar respostas que muitas vezes nossa praticidade cientifica não consegue fornecer. Para alguns povos, essa verdade mitológica torna-se mais forte que a própria realidade.
O Japão sempre foi um país isolado, tanto geograficamente quanto política e socialmente e isto fortaleceu suas crenças e costumes. Esse aspecto ajuda a reforçar os mitos.
Campbell (1997, p. 9) diz que:
O fato é que, numa cultura que tenha mantido a homogênea por algum tempo, há uma quantidade de regras subentendidas, não escritas, pelas quais as pessoas se guiam. Há um “ethos” ali, um costume, um entendimento segundo o qual não o fazemos desta maneira.
Um exemplo desse posicionamento em relação à narrativa é a origem dos quadrinhos no Japão.
Os primeiros artistas ocidentais ligados à área de humor e quadrinhos vieram da Inglaterra, trazendo consigo os conceitos de um jornal de humor chamado
London Punch.
Dentre esses artistas, estava Charles Wirgman, que havia trabalhado no jornal inglês e trouxe consigo os parâmetros aplicados naquele periódico. Ele foi o responsável pelo surgimento do Japan Punch e revelou aos novos artistas japoneses conceitos gráficos que iriam influenciar na produção de futuras revistas.
Porém, o tipo de humor inglês não agradou muito aos japoneses e, em pouco tempo, as histórias ganharam uma roupagem nipônica, tanto em conteúdo quanto na estética.
Os artistas japoneses criaram suas narrativas mesclando o que havia de novo com os antigos costumes de sua terra. Para Moliné (2002), os japoneses já possuíam diferentes formas de passar por meio de imagens informações humorísticas e críticas sociais. Os Zenga, Otsu-e, Nanban e, em especial, o Ukiyo-e eram suportes gráficos para narrativas dos costumes e problemas sociais no período Edo (1600-1867).
Luyten (2000, p. 112) afirma que:
Os artistas japoneses desenvolveram seu estilo próprio, único e bem nativo, e os leitores passaram a olhar os quadrinhos europeus e americanos como ultrapassados, sentindo dificuldades em se relacionar com eles. Além disso, as diferenças de costumes e cultura eram também uma barreira para a identificação com as situações e os heróis.
Na produção da narrativa, assim como na relação cognitiva da história, existe um contrato enunciativo, no qual o historiador escritor é possuído de um certo saber
(suas fichas, seu conhecimento, de um objeto, de uma porção qualquer do referente) que ele distribuirá sob a forma de descrições. Funciona como um discurso didático em que a camuflagem do eu dissimula o sujeito da enunciação, a função referencial permite que o real assuma o dizer, ou se enfatize o contar em detrimento do pensar. (MOTTER, 2001).
O exemplo dos artistas japoneses mostra como o narrador uniu o conhecimento histórico com aspectos de sua cultura, gerando um novo parâmetro para os leitores. Este posicionamento reflete uma resistência cultural por meio do entretenimento.
A resistência cultural via entretenimento é uma das formas da chamada contra-história manter-se viva e possibilitar o questionamento quanto a sua escrita. Não apenas os textos escritos são a única fonte da História, mas as festas, as peças teatrais e o cinema, são capazes de criar uma memória nacional muito mais forte. (FERRO, 1999).
Para Eco (1994, p.124), “[...] Já que a ficção parece mais confortável que a
vida, tentamos ler a vida como se fosse uma obra de ficção.”
Há séculos as artes narram fatos e feitos da humanidade. As histórias em quadrinhos são uma forma de narrativa artística na qual o literário e o imagético se fundem, aguçando ainda mais o imaginário do observador.