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BAŞVURULARIN DEĞERLENDİRİLMESİ VE SEÇİLMESİ

2. BU TEKLİF ÇAĞRISINA İLİŞKİN KURALLAR

2.3. BAŞVURULARIN DEĞERLENDİRİLMESİ VE SEÇİLMESİ

Em 10 de outubro de 1945, dezenove dias antes da deposição de Getúlio Vargas e quando a agitação queremista atingia maior proporção, em grandes e planejados comícios em prol da ―Constituinte com Getúlio‖ (FERREIRA, 2003, p. 38), começava a circular, no Rio de Janeiro, o jornal Remodelações, sob a redação-geral de Moacir Caminha e tendo, como ―diretora-proprietária‖, sua companheira, a advogada Maria Iêda de Morais. Em suas quatro páginas em formato tabloide, o ―Semanário de Orientação Comunista Libertária‖ representou um ressurgimento da imprensa libertária na arena pública após o hiato imposto pela censura do Estado Novo e foi, como anotou Edgar Rodrigues, uma espécie de ―despertador, como toque de reunir para os anarquistas do Brasil‖ (RODRIGUES, 1992, p. 29).

Caminha era, como gostava de dizer, um ―veterano de cem batalhas‖, militante da velha-guarda das lutas sociais no Brasil. Cearense nascido em Icó em 27 de outubro de 1887, iniciou sua militância, entre os primeiros difusores de ideias socialistas de extração libertária no Ceará, ao lado de militantes como Joaquim Pimenta e Pedro Augusto Mota, entre outros.13 Entre as várias atividades políticas de que tomou parte, estão a

criação de círculos de leitura e de estudos, a organização de escolas voltadas à ―educação integral‖ e ―racionalista‖, o disseminar dos ideais libertários por meio dos jornais – e o apoio frequente à imprensa operária local e nacional – a presença constante nos combates do nascente movimento operário cearense e o entusiamo de divulgador do esperanto como arma para a emancipação dos trabalhadores. A militância social não demorou a fazer de Caminha adversário dos extratos conservadores de Fortaleza.

13 Sobre a trajetória de Moacir Caminha, sua formação e sua militância no Ceará, ver:

GONÇALVES, Adelaide. ―Moacir Caminha: o percurso original de um libertário cearense.‖ In: ADDOR, Carlos Augusto; DEMINICIS, Rafael (orgs.). História do Anarquismo no Brasil.

Volume 2. Rio de Janeiro: Ed. Achiamé, 2009. p. 103–118; GONÇALVES, Adelaide; SILVA, Jorge. (orgs.) A Imprensa Libertária do Ceará (1908-1922). São Paulo: Ed. Imaginário, 2000.

No Rio de Janeiro dos anos 1940, por meio do Remodelações, Caminha concita à (re)organização da militância libertária depois de mais de uma década de derrotas em âmbito internacional e nacional. A ascensão do fascismo, a imposição de governos corporativos e autoritários, a derrota da experiência autogestionária da Revolução Espanhola entre os anos de 1936 e 1939 e os desdobramentos da Segunda Grande Guerra impuseram aos libertários uma avaliação dos caminhos a serem seguidos.

No Brasil, a sistemática repressão a que foram submetidos os militantes anarquistas e a ação da estrutura sindical corporativa, elaborada a partir de 1930 pelo Ministério do Trabalho e seus agentes, estão entre as razões da pulverização da força social da militância libertária e do sindicalismo revolucionário como estratégia das lutas operárias.

Em ―Nosso Programa‖, na abertura da primeira edição, Remodelações buscava uma definição de rumos, quando afirmava ser o comunismo libertário ―a doutrina sociológica mais de acôrdo com a tendência da evolução dos fenômenos econômicos e políticos‖. O acento nos conteúdos da Ciência, em face da ―remodelação‖ social, resulta da formação do libertário cearense, como a de muitos militantes contemporâneos, impregnada do cientificismo, quando ―as noções de ‗ciência‘, ‗técnica‘, ‗evolução‘ e ‗progresso‘ tinham grande força simbólica e um considerável poder legitimador de práticas e discursos‖ (SCHMIDT, 2004, p. 297).14 E, embora reconhecesse na palavra

14Sobre a influência do cientificismo na formação dos militantes políticos em inícios do século

XX: SEIXAS, Jacy. Anarquismo e socialismo no Brasil: as fontes positivistas e darwinistas sociais. Historia & Perspectivas (UFU) v. 12-13, p. 135-150, 1995; SCHMIDT, Benito Bisso. ―O Deus do progresso: a difusão do cientificismo no movimento operário gaúcho da I República.‖ In: Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH/Humanitas, vol. 21, nº 41, 2001. Sobre o papel das ―ideias científicas‖ no movimento republicano português, ver:

―cientista‖ significação distinta, Caminha expressava seu entendimento de que ―só os ensinamentos das ciências, em especial da sociologia, podem dirigir a vida humana‖ (Remodelações, 10/10/1945).

Na cultura libertária, vinha de longe o acento aos chamados ―avanços científicos‖. No magistral estudo sobre a cultura dos anarquistas espanhóis da virada do oitocentos, Lily Litvak anotou que a ciência se convertera, para os libertários, em uma nova fé, onde repousavam suas esperanças, quando se resolveriam os problemas sociais e o porvir da humanidade. O otimismo dos libertários em relação à ciência é compreensível na medida em que se percebe que as suas visões do progresso baseavam-se em concepções materialistas, alheias às explicações religiosas. Assim, a fé no revelado, no dogmático, no milagroso, seria substituída pelo credo na ―razão humana‖. ―Por causa dele‖, anota Litvak, ―é frequente na linguagem anarquista falar-se da anarquia como ‗o reinado da razão‘, ‗o império da ciência‘, a ‗realização do ideal racional‘” (LITVAK, 2001, p. 355). É nessa chave que compreendemos o acento, em Caminha, sobre o poder da ciência e a ―sociologia‖, convertida numa teoria científica de combate ao sistema capitalista.

O cientificismo anarquista dava por certo que o mundo do homem logo se encontraria submetido a leis tão positivas e exatas como as científicas. [...] A anarquia organizaria cientificamente a sociedade opondo-se à atual estrutura. Por estas ideias, a palavra sociologia converteu-se em um verdadeiro mito para os anarquistas. ‗Revista de sociologia‘, subtitulou-se La Revista Blanca; outra publicação se chamou Ciencia Social, outra era Natura, ‗Revista quinzenal de ciência e sociologia, literatura e arte‘ (LITVAK, 2001, p. 356).15

O programa apresentado no Remodelações, uma síntese de seu ―Curso Popular de Sociologia‖, marcava o pensamento do libertário cearense naqueles anos: o discurso marcado pelo pragmatismo possibilista e pela tentativa de institucionalização de um modelo social libertário (GONÇALVES, 2009, p. 112). Assegurando que desejava a liberdade ―disciplinada pela CATROGA, Fernando. ―O Republicanismo em Portugal.‖ In: 25 Olhares sobre a I República.

Do Republicanismo ao 28 de maio. Lisboa: Edições Público, 2010.

15 Exemplos do mesmo fenômeno repetem-se no caso português. A Sementeira, a mais

importante revista anarquista de Portugal, dirigida por Hilário Marques entre 1908 e 1919, subtitulou-se ―Publicação Mensal Ilustrada: Crítica e Sociologia‖, enquanto que a revista libertária Lúmen, sob a direção de Severino de Carvalho e Pinto Quartim entre 1911 e 1913, trazia por subtítulo ―Sociologia e Arte‖ (FREIRE; LOUSADA, 2013.a).

consciência e esclarecida pela razão e pela ciência‖, propunha uma organização social com base nos sindicatos de produtores, pelas uniões desses sindicatos, suas federações e a coligação na Confederação Operária Brasileira, respeitados os axiomas ―Quem não trabalha não come‖ e ―Todo o produto ao produtor‖. À organização jurídica, cabia a função de ―higiene social‖, com o policiamento exercendo a ―terapêutica social‖ pela reclusão dos criminosos.

Na esfera política, defendia a coordenação de todos os órgãos sociais por meio de um regime ―democrático libertário‖, que significaria, segundo Caminha, ―o governo do povo por meio de suas assembléias distritais ou de bairro‖, (Remodelações, 10 de outubro de 1945) cujas decisões seriam efetivadas por departamentos da administração pública sob a superintendência das assembleias e dos sindicatos de trabalhadores. Essa proposição, em alguma medida, antecipa discussões em torno do chamado ―municipalismo libertário‖, proposta de organização político-social em que, alicerçadas na valorização do primado ético em relação ao econômico, instituições assembleárias exercem a democracia direta e federam-se em comunas ou municípios livres, como alternativa ao Estado (BOOKCHIN, 1999).

Várias propostas de Moacir Caminha expressas no Remodelações, calcadas no ―pragmatismo possibilista‖, como o projeto ―Bases Constitucionais da República Libertária do Brasil‖, causaram polêmica nos meios anarquistas; o que não impediu que militantes anarquistas como José Oiticica, Manuel Peres, Roberto das Neves,16 entre outros, colaborassem no jornal. Essa relação, ao

que parece, não se deu sem tensão, uma vez que os debates, justificativas e retificações de posição são frequentes no jornal. Oiticica, militante histórico do movimento anarquista brasileiro, publicou, nas colunas do periódico, os ―Príncipios e Fins do Comunismo Libertário‖, em que buscava responder às necessidades de reorganização da sociedade, observando, entretanto, a tradição anarquista (Remodelações, 1º dez. 1945).

16Roberto das Neves, anarquista individualista português, veio para o Brasil durante o primeiro

governo Vargas, onde continuou a oposição à ditadura salazarista que desenvolvia em Portugal. Foi ativo colaborador do jornal Ação Direta, onde, além de inúmeros artigos, publicou coluna intitulada ―Não apoiado pelo Dr. Satan.‖ Em 1948, fundou a Editora Germinal, especializada na publicação e divulgação de obras libertárias.

Ilustração 2 - Remodelações (Rio de Janeiro - RJ), 22 de dezembro de 1945.

O programa publicado por José Oiticica em Remodelações fora originalmente publicado em 1919, no folheto ―Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista‖, no calor dos eventos que, sob o impacto da Revolução Russa, ocasionaram a criação de um ―Partido Comunista Brasileiro‖ de orientação anarquista. O mesmo texto reapareceria ainda em duas ocasiões, no jornal Ação Direta (1946-1959), dirigido por Oiticica, permitindo compreender que, ao contrário do libertário Moacir Caminha, aquele continuava percebendo validade nas previsões práticas do anarquismo manifestadas nas primeiras décadas do século.

A própria variação dos epítetos do Remodelações parece ter relação com essas retificações. De ―Semanário de Orientação Comunista Libertária‖, passou a identificar-se como ―Semanário Político de Propaganda e Combate‖,

até reaparecer, em 1958, numa segunda fase como ―Órgão de Combate à Opressão e à Exploração‖, quando já distanciado da orientação libertária.

Antes disso, porém, os debates em torno da orientação do jornal já se faziam sentir, e Moacir Caminha voltava, com alguma frequência, a dar explicações quanto à linha política do periódico, sua denominação e as formas de sustentação. O título Remodelações podia soar algo próximo a ―reformismo‖, em que abdicaria da transformação revolucionária da socidade. De igual quilate, deveriam ser as ressalvas daqueles que pressentissem no nome do jornal uma necessidade de ―remodelar‖ os ideais anarquistas, o que, em vista do pragmatismo de Caminha, não era um temor infundado. O redator, entretanto, assegurava que ―‘Remodelações' significa remodelar a sociedade de acôrdo com nossas doutrinas, de acôrdo com os ensinamentos das ciências sociais. [...] É um nome como outro qualquer. Não tem importância maior. Deixêmo-lo em paz‖.

A sustentação material do jornal foi outro ponto de debates, uma vez que veiculava anúncios pagos, fato estranho ao fazer da imprensa libertária no Brasil. À interpelação crítica, Caminha respondia ser um ―mal necessário‖, uma vez que os custos de papel e das tipografias eram altos. E completava: ―Faz mais mal ao ideal, todavia, cruzar os braços em vergonhosa inatividade quando um inimigo perigoso como o Partido Comunista está se impondo aos operários‖ (Remodelações, 1/12/1945).

Em seu décimo número, em 15 de dezembro de 1945, publicava um segundo ―Nosso Programa Jornalístico‖, afirmando que o clima de liberdade precária recomendava cautela, aparecendo assim Remodelações ―com um programa provisório, semicomunista-libertário, semi-democrático. Despistador‖.

E demos a Remodelações um programa mínimo, evitando assim provocar uma reação oficial. Fomos prudentes e acertamos. Remodelações foi quem primeiro atacou Prestes, desmascarando seu maquiavelismo e suas mistificações. Mostramos ao proletariado que ele não passa de um renegado, um traidor. [...] Remodelações fez, pois, tem feito, obra boa, de saneamento moral do proletariado e de combate ao queremismo.

E Remodelações causou boa impressão, foi bem recebida pelo povo e pelos camaradas. Alguns todavia não concordaram com o programa mínimo. Queriam o programa integral: não concordaram também com a publicação de anúncios. Erraram, porém, não compreenderam a situação.

Aquele programa meio libertário, meio democrático era provisório. Foi imposto pelas circunstâncias do momento, aconselhado pela

prudência. Já caducou. As circusntâncias, hoje, são outras, já se pode adotar o programa integral do comunismo libertário‖ (Remodelações, 15/12/1945).

Esse programa integral anuncia a disposição de combater a exploração do trabalho, de opor-se à criação de ―mentalidades de rebanhos‖, dar combate aos órgãos estatais com função de mando, à propriedade privada, à educação anticientífica aos jovens e crianças, à diferenciação social entre os homens em classe, casta, profissão, religião ou ideologia, ao sistema eleitoral democrático que ―significa, não a representação da vontade do eleitor, mas sim a renúncia de sua vontade em benefício de senadores que vão representar interesses próprios e dos partidos a quem pertencem‖; além de marcar posição contra a colaboração entre classes.

A expropriação dos meios de produção, circulação e distribuição era defendida em Remodelações como forma de garantir o consumo dos bens necessários à vida humana e na reorganização da socidade propunha-se a criação das ―comunas libertárias‖, forma de organização do pensamento anarquista clássico, definidas como conglomerados sociais de individualidades ―que se socializam de acordo com as leis naturais da luta pela existência e do acôrdo para a luta, a fim de estabelecer condições necessárias ao homem para que ele possa viver intensamente a sua vida‖.17

A ação direta era proclamada como ―norma da luta de classes nas reivindicações proletárias‖, e, em vista do que consideravam ―as necessidades atuais do nosso meio social‖, Remodelações direcionava sua atividade combativa contra: ―a) o Partido Comunista; b) a rearticulação integralista; c) ao queremismo trabalhista; d) à exploração econômica do povo; e) à politicagem burguesa; f) o ‗franquismo‘, o ‗salazarismo‘ e o ‗peronismo; g) a mentalidade de rebanho‖. Ao mesmo tempo em que propunha intensificar a propaganda: a) da doutrina comunista libertária; b) da rebeldia consciente; c) da organização libertária; d) da sindicalização operária (Remodelações, 15/12/1945).

Em Remodelações, é constante o combate ao marxismo e à atuação do Partido Comunista do Brasil; Luís Carlos Prestes, com frequência

denominado ―o errado‖, ―o traidor‖ ou ―o renegado‖, é alvo preferencial da verve libertária, sobretudo por conta de sua adesão à campanha política da ―constituinte com Getúlio‖, nas manifestações queremistas e pela linha do PCB de aliança com a chamada ―burguesia progressista‖.18 Para Moacir Caminha, o

seu novo erro

significa renegação do ideal de emancipação humana, significa traição ao movimento proletário, significa mistificação da opinião pública, significa estar servindo de agente provocador da ditadura e estar a serviço da burguezia progressista, exploradora das classes pobres.

E conclui considerando que Prestes traiu a consciência revolucionária do povo brasileiro, ―chefiando o movimento neo-fascista do ‗queremismo‘‖ (Remodelações, 10/10/1045).

O combate ao fascismo é um compromisso central do jornal, sobretudo nos escritos de Manuel Peres, abordando a Revolução Espanhola, os crimes do franquismo e o salazarismo em Portugal. O tema da Revolução, as coletivizações realizadas pelos anarquistas na Espanha, a luta travada contra os falangistas e a resistência dos grupos libertários no exílio, ganharam as páginas do jornal.

Remodelações apelava à (re)organização dos libertários e à intervenção militante. Diagnosticando a falta de organicidade como um dos maiores obstáculos à atuação da militância anarquista, propunha a criação de um organismo articulador dos grupos e individualidades libertários, atento, pois, aos debates em curso no movimento libertário internacional. Em vários países, os militantes ácratas se reorganizavam após a Segunda Guerra Mundial, e são frequentes as notícias sobre a constituição de federações anarquistas.

No Brasil, a perspectiva de exercer livremente a propaganda libertária entusiasmava a possibilidade de organização. Em 8 de novembro de 1945, José Oiticica assinava pela ―comissão reorganizadora‖, uma exortação ―aos libertários do Brasil‖ – um balanço do panorama histórico, apontando ambiente favorável ao reagrupamento. Assinalando a falência de ―todos os

18Sobre projetos e posicionamentos do Partido Comunista Brasileiro entre 1945 e 1964 ver

conjunto de artigos em: FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Aarão. As Esquerdas no Brasil. (Volume 2 – Nacionalismo e Reformismo Radical). Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2007.

programas burguezes‖, – monarquias, repúblicas ou democracias, bem como a ruína de várias matizes do socialismo, sobretudo do bolchevismo que ―desabou no mais torpe reacionarismo burguês‖, Oiticica diagnosticava que o fim do fascismo implicava a busca de uma nova forma de organização social.

Agora a humanidade não terá ilusões: só lhe resta conhecer a doutrina libertária, a que lhe pode mostrar o êrro fundamental: o Estado, garantidor da propriedade particular, aparêlho sustentador do capitalismo e opressor dos que realmente trabalham. Companheiros, para ressurgirmos havemos de reagrupar-nos. Importa urgentemente, reaparecermos nos sindicatos, nas fábricas, nos campos, nos centros de estudos, nos nossos periódicos, nos nossos congressos, preparando, com mais vigor, duas obras pujantes outrora, e sufocadas pelo Fascismo: a Federação Operária Brasileira e a Federação Libertária Brasileira (Remodelações, 8/11/1945).

A necessidade de organização, que levava em devida conta a necessidade de fortalecimento da cultura política anarquista, doutra parte, chamava à reavaliação de formas de atuação costumeiras, cuja pertinência era debatida frente ao que se consideravam as tarefas apresentadas à atuação dos anarquistas. Em ―Urge a Organização Libertária‖, Remodelações recorria à obra ―El Anarquismo en el movimiento obrero‖, de E. Lopez Arango e Diego A. Santillán, para criticar a tendência de certos grupos militantes de ―fecharem-se em si‖, a falta de organicidade que tendia a transformar o anarquismo em uma ideologia de intelectuais, a reunirem-se em ―igrejinhas‖, apartados do povo trabalhador.

Criticava-se, assim, a mera formação de grupos de afinidades, se estes não tinham por objetivo primordial influir sobre o movimento de massas, sem coordenação de ação e disciplina, impotentes para ―enfrentar adversários poderosamente organizados, como o Partido Comunista‖. E, concluindo que o particularismo ameaçava o anarquismo enquanto movimento social revolucionário, advertia que a luta que se deveria travar exigia do movimento libertário ―organização eficiente, livremente coêsa, mas também fortemente coêsa. Organização de ação disciplinada. Disciplina consciente, mas disciplina responsável.‖

Milhões de oprimidos, de explorados, milhões de mártires, de apóstolos exigem de nós a luta contra a tirania, contra o poder governamental, contra a mistificação, contra a mentalidade de rebanho e contra, também, a inércia libertária, verdadeira traição ao ideal (Remodelações, 8/12/1945).

A análise, secundada por uma proposta de bases de acordo para a formação de uma ―Organização Libertária do Brasil‖, era sintomática da situação de isolamento político que então viviam os anarquistas, alijados dos sindicatos pelo sindicalismo ―ministerialista‖, dizimados e buscando reconquistar espaços à sua atuação. A defesa da ação direta como estratégia da luta dos trabalhadores, a oposição ao sindicalismo oficial e o reconhecimento da necessidade de militarem nos sindicatos foram motivo de artigos, visando a uma abordagem histórica dos sindicatos nas lutas dos trabalhadores antes e depois do que chamavam ―fascismo getulista‖ e dos ―malefícios do bolchevismo‖. ―Se não querem ser palhaços dessa ignóbil farsa‖, afirmava Oiticica atacando o sindicalismo ministerialista, ―despedacem por si mesmos as ataduras, rasguem as carteiras sindicais, organizem seus sindicatos à feição dos sindicatos de resistência e mandem às favas as leis trabalhistas e seu Ministério‖ (Remodelações, 8/11/1945).

Em relação ao movimento operário, a defesa pública do sindicato de ação direta foi a maior trincheira dos libertários naquela conjuntura. A perspectiva de atuação dos anarquistas na estrutura sindical não se mostrou frutífera e, malgrado o esforço, os ―dias áureos‖ do sindicalismo revolucionário restariam à memória.

§

Remodelações continuou a sua ―sementeira de idéias‖ e não cessaram os debates em torno da orientação determinada pelo seu redator- chefe. Aproximando-se o ano de 1946, as colaborações antes frequentes de alguns libertários escasseavam, ficando à pena de Caminha a redação de praticamente todos os artigos. O número 20 do jornal trazia mais uma tentativa de definição de seu perfil. Após assegurar sua resoluta oposição ao comunismo bolchevista, ao trotskismo e ao socialismo do Partido ―Socialista‖ Brasileiro (―Qualquer explorador se diz hoje socialista‖), Caminha afirmava igualmente não fazer parte do movimento anarquista, embora visse nos anarquistas ―homens sinceros e verdadeiros, dignos de respeito e consideração‖. ―Na prática, porém‖, afirmava o libertário cearense, ―vivem como se ainda estivéssemos vivendo na década de 1890 a 1900...‖. E, de forma

respeitosa, completava: ―Deles discordamos, mas não os combatemos, e temo- los em muita consideração‖ (Remodelações, 15/8/1947).

Esta relação é comprovada pelos frequentes anúncios dos dois principais períodicos libertários então publicados, Ação Direta e A Plebe, que Caminha recomendava à leitura:

‘A PLEBE‘ e ‗AÇÃO DIRETA‘. Recomendamos aos que leem e pensam a leitura de dois periódicos bem escritos e que só dizem a verdade. São escritos por homens que dizem o que pensam com sinceridade admirável. No meio dessa atual decadência moral da nossa intelectualidade, saber que no Brasil se publicam periódicos como AÇÃO DIRETA e A PLEBE alegra o coração dos homens de consciência esclarecida. A PLEBE é um semanário de São Paulo e