2. BU TEKLİF ÇAĞRISINA İLİŞKİN KURALLAR
2.2. BAŞVURU ŞEKLİ VE YAPILACAK İŞLEMLER
A imprensa de cariz libertário no Brasil ressurgiu ainda antes da deposição de Getúlio Vargas, quando o Estado Novo e a censura política que exercera por mais de dez anos davam mostras de enfraquecimento. Partidos políticos fundados ou rearticulados, além de diversos grupos organizados da sociedade mobilizavam-se em torno da oposição à ditadura e pregavam a imediata reconstitucionalização do país. No sentido oposto, um amplo movimento de cunho popular cujas raízes repousavam no Ministério do Trabalho e no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mobilizava parte da população dos grandes centros em torno da defesa do legado trabalhista e da figura de Vargas (GOMES, 1988; FERREIRA, 1997, 2005).
A atividade da militância anarquista, forçada a manter-se subterrânea durante o regime discricionário, voltou então à arena pública, primeiramente por meio dos jornais, expressando não apenas a compreensão dos libertários em relação aos rumos da ebulição política nacional e internacional, mas, sobretudo, refletindo sobre a sua própria atuação e trajetória, sinalizando os caminhos para a retomada da difusão do ideal libertário. Esse esforço, diga-se, foi simultâneo à criação ou reorganização de agrupações ácratas, pela realização de manifestações públicas, organização
de cursos e conferências e pela atividade editorial que tinha por mote o incremento da propaganda anarquista.
Jornais libertários como Remodelações (1945), Ação Direta (1946- 1959), O Archote (1947), Revolta (1947) e Spartacus (1947), publicados no Rio de Janeiro; A Plebe (1947-1951), Ação Sindical (1958), O Libertário (1960- 1964) e Dealbar (1965-1968) publicados em São Paulo e O Protesto (1967- 1968), dado a lume em Porto Alegre, tornaram-se ferramentas da (re)inserção pública do anarquistas no período. Essa visibilidade pública da imprensa libertária resistiu à decretação da ditadura militar, em 1964, e continuou até o decreto do Ato Institucional nº 5, no final do ano de 1968, que a obrigou a uma descontinuidade temporária.
Embora não se deva incorrer numa generalização – uma vez que há entre eles sensíveis matizes – é lícito afirmar que os jornais libertários do período da chamada ―redemocratização‖ guardam semelhança com seus congêneres de outras épocas e mesmo de outros países. Naquele momento de (res)surgimento público da militância anarquista, preservavam-se enquanto imprensa de opinião em meio a um contexto de transformação ―modernizadora‖ e comercial dos jornais no país que, supostamente, passavam a substituir a doutrinação pela informação. Ao contrário de veículos da chamada ―grande imprensa‖ – muitos dos quais com interesses inconfessáveis – os jornais libertários expressam, de forma aberta, uma visão de mundo e declaram sua filiação ideológica, explicitando seus propósitos.
Sustentados basicamente por subscrições entre o público-leitor e sofrendo oposição de setores dominantes, os jornais libertários preservavam características comuns à imprensa de finais do século XIX e das primeiras décadas do século XX, como o caráter doutrinário, a defesa apaixonada de ideias e o aberto interesse de intervenção no espaço público (LUCA In: PINSKY, 2005. p.133).
Também guardavam forte relação com a imprensa operária da Primeira República, do seio da qual emergiram. Sua elaboração e difusão não eram obra de profissionais – fosse do jornalismo ou da militância – e seu trabalho é compreendido, neste estudo, em sua dimensão pedagógica, materializada na preocupação constante em relação à educação enquanto arma fundamental da transformação social.
Assim, concebemos tal imprensa como estratégia indissociável do movimento libertário, como sugeriu um dos mais notáveis militantes ―fazedores de jornais‖ ao anotar que
há outras [iniciativas] que, por corresponderem a necessidades permanentes, fazem parte integrante do movimento anarquista. Figuram entre essas atividades a imprensa (jornais e revistas), as de editoras, os centros e ateneus de cultura e grupos teatrais (LEUENROTH, 1963, p. 151).
Os periódicos libertários e seus grupos editores, no período estudado, desempenharam o papel de elo geracional que congraçou velhos e novos militantes, sendo comum compartilharem as colunas de suas folhas, como articulistas, militantes da ―velha guarda‖ das lutas sociais com os mais jovens, que principiaram sua militância na clandestinidade da atuação libertária sob a vigilância do aparato repressor do Estado Novo. Os jornais foram, nesse sentido, também uma escola em movimento de oradores, polemistas e publicistas das ideias libertárias.
Frutos da experiência de grupos sociais que desejam legar uma determinada imagem acerca de sua história nas lutas sociais, reivindicaram o papel de depositários da memória anarquista no Brasil mediando, com o arcabouço de sua trajetória e a tradição anarquista de outros países, suas análises acerca das transformações contemporâneas.
No escopo desta investigação, destacamos os jornais anarquistas que circularam entre os anos 1945 e 1968, como um corpus documental representativo de um projeto da militância anarquista no país, de uma ampla e permanente atividade – ao lado da divulgação dos ideais anarquistas e de intervenção político-social – de ensino mútuo e autoformação de homens e mulheres, veteranos e jovens, afirmando sua luta por uma organização social pautada nos valores da solidariedade, igualdade, justiça, apoio-mútuo e autonomia, experimentados como um compromisso ético.
É desse ideal pedagógico, em que a instrução suplanta o mero sentido de educação formal, que nos parece estar impregnada a propaganda anarquista produzida aqui e alhures.
Longe de propor gradações ou dicotomias entre períodos da atuação libertária no Brasil, como as que, às vezes, emergem implícitas na sugestão de
que a perda de influência do anarquismo nas lutas dos trabalhadores – sobretudo por meio de estratégia do sindicalismo revolucionário a que muitos libertários se devotaram – durante as décadas de 1920 e 1930, seria a responsável pelo cariz educativo e cultural de que a militância libertária se revestiu no período entre ditaduras, trata-se de aqui investigar o que compreendemos como uma das mais longevas e articuladas atividades dessa atuação. Na discussão acerca da influência do anarquismo (e seu descenso) nas lutas operárias no Brasil, o tema da cultura foi destacado, muitas vezes associado à compreensão de que ―os aspectos culturais não são apêndices nem complementos da história social das classes em luta, mas, ao contrário, elementos inerentes ao processo de sua formação e de seu próprio movimento‖ (FOOT HARDMAN, 2002, p. 32).12
Seja entre finais do século XIX e início dos anos 1930, ou no pós- Estado Novo, o projeto de defesa e divulgação de uma ―instrução que redime‖ atravessa o discurso anarquista. Sua defesa e prática se faz no âmbito de um grupo de afinidades, em uma liga de bairro, num sindicato de resistência, ateneu, centro de estudos, em uma biblioteca social ou por meio da produção e circulação de uma ―literatura libertária‖ e da criação de jornais.
É notável o destaque, nos jornais libertários, à importância da leitura e à divulgação e circulação de obras identificadas com as ―questões sociais‖, por meio de suas ―Estantes Libertárias‖, da elaboração de repertórios de leitura por meio das colunas intituladas ―O que todos devem ler‖ ou ―Leituras que recomendamos‖, dos excertos de livros, traduções, comentários sobre autores, resenhas e da publicação de livros ou capítulos – novos ou clássicos – à maneira de folhetim. Esse esforço se pode dimensionar como parte de compreensão dos libertários do lugar central da cultura na emancipação humana. ―Para eles‖, lembra Litvak (2001), ―esta permitiria não apenas mudar o meio social e econômico, mas também os próprios homens‖ (p. 40).
12 Sobre o descenso da influência anarquista nas lutas operárias ver, entre outros: SAMIS,
Alexandre. ―Anarquismo, ―bolchevismo‖ e a crise do sindicalismo revolucionário.‖ In: ADDOR, Carlos Augusto; DEMINICIS, Rafael. (orgs.) História do Anarquismo no Brasil. Volume 2. Rio de Janeiro: Ed. Achiamé, 2009; COLOMBO et al. História do Movimento Operário
Revolucionário. São Paulo: Imaginário/São Caetano do Sul: IMES, 2004; SAMIS, Alexandre. Clevelândia. Anarquismo, sindicalismo e repressão política no Brasil. São Paulo:
A criação de círculos de leitura em torno dos grupos editores dos jornais teve papel fundamental no agrupamento dos militantes, na urdidura de vínculos entre grupos de afinidades em várias regiões do país e como instrumento imprescindível ao processo de autoeducação dos trabalhadores (GONÇALVES, 2009, p. 109).
O reconhecimento dessa valorização das práticas de leitura se pode atestar pelo espaço que ocupam nas folhas. Em geral, dispondo de quatro páginas, nos jornais ácratas, é usual a referência a esse projeto de difusão libertária por meio da circulação do livro e da leitura.
Há que se destacar, como o fizera Kropotkin em suas Memórias, que, diante do volume limitado de livros voltados ao pensamento socialista e das dificuldades de natureza vária à sua circulação entre os trabalhadores, os jornais e outras publicações de mais fácil acesso foram os grandes propagadores das ―novas doutrinas‖ de que se alimentou o ideal de emancipação social, tornando-se, nessa perspectiva, no livro em movimento:
A literatura socialista nunca produziu muitos livros; ela se dirige aos trabalhadores para os quais um cêntimo é dinheiro; nos folhetos e jornais reside a sua principal fôrça. Por isso, quem procura esclarecimento sobre o socialismo não encontra nos livros senão uma pequena parte do que procura. Os livros contêm, é verdade, as teorias ou os argumentos científicos em favor das aspirações socialistas, mas não contam de que maneira os trabalhadores concebem o ideal socialista, nem como são preparados para o realizarem praticamente (KROPOTKIN, 1946, p. 261–262).
Em nossa pesquisa, buscamos demonstrar a articulação entre o periodismo e o projeto editorial. No argumento impresso, encontra-se a fonte doutrinária de que se nutrem as variadas formas de difusão da leitura. É essa dimensão que destacamos neste capítulo, tendo, como ponto de partida, a análise dos jornais Remodelações (1945), Ação Direta (1946-1959), O Archote (1947), Revolta (1947) e Spartacus (1947), A Plebe (1947-1951), Ação Sindical (1958), O Libertário (1960-1964), Dealbar (1965-1968) e O Protesto (1967- 1968), que, de suas redações no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, chegaram a outras regiões do país e estabeleceram pontos de contato com os diversos grupos de afinidades em outros países.