Apesar de não ser um tema recente na literatura, a RSE vem sendo discutida com mais ênfase nas últimas décadas. Sua crescente visibilidade é decorrência da própria evolução do conceito, a começar nos anos cinquenta, com os argumentos de Bowen (1953) sobre as responsabilidades dos homens de negócios, até a noção mais recente, que advoga a RSE como uma via para a inovação.
De fato, acompanhar a evolução do conceito de responsabilidade social empresarial nos permite perceber claramente as mudanças sofridas pelas empresas, seja na sua importância, seja na sua natureza ao longo do tempo, de acordo com as demandas e expectativas da sociedade em um dado momento histórico (ALVES, 2007), uma vez que sua evolução não pode ser entendida separada de seu contexto. Berger e Luckmann (1967) e North (1990) entendem que as instituições têm sempre uma história, bem como são produtos dessa história. Assim, para os autores, é impossível entender uma instituição adequadamente sem compreender o processo histórico em que ela foi gerada.
Dessa forma, este processo pode ser dividido em quatro períodos ou fases, demarcadas pela quantidade e importância dos acontecimentos que resultaram na legitimidade da responsabilidade social no ambiente dos negócios. Portanto, a seguir serão descritos alguns dos principais acontecimentos que foram decisivos para a construção de um novo espaço de discussão e pressão sobre os limites da responsabilidade social e ambiental das empresas ao longo do tempo.12
2.2.1 Período I (1900 a 1960) – Ética dos homens de negócios13
Durante este período, vários acontecimentos favoreceram o surgimento das críticas de caráter ético e social no mundo dos negócios, segundo Gendron (2000). Primeiro, a desilusão com o liberalismo – provocada, principalmente, pelo crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929 e pelas consequências da Grande Depressão. Segundo, as empresas
12 Além destes, certamente vários outros acontecimentos, não citados aqui, foram decisivos na construção de um
cenário propício para a consolidação da responsabilidade social empresarial. No entanto, foram considerados, resumidamente, os mais marcantes em cada época a partir do impacto causado.
13Os espaços de análise foram demarcados em virtude das características dos acontecimentos no
desenvolvimento da RSE como um tema importante, seja para o meio acadêmico, público ou privado. Contudo, antes mesmo dos períodos demarcados neste trabalho, já exisitiam preocupações com a RSE, embasadas principalmente nos princípios de caridade e custódia de Carnegie (1889), nos quais a responsabilidade social aparece como princípio que deve estar presente nas corporações baseadas na caridade e custódia social, ou seja, os indivíduos mais afortunados deveriam ter caridade para com os menos afortunados, uma vez que eram considerados uma espécie de guardiães da riqueza.
passaram a se preocupar com sua imagem, em virtude dos grandes lucros de alguns monopólios que despertavam na população grande revolta. O desenvolvimento das ciências administrativas e a profissionalização da atividade gerencial também se configuraram como acontecimentos importantes para a época. E, ainda, a ascensão do socialismo, em virtude das críticas ao capitalismo, bem como o debate sobre o papel do Estado e a justa distribuição de riquezas.
Assim, nas décadas de 1920 e 1930, os homens de negócios são levados a atender aos interesses de outros atores sociais, resultado das mudanças estruturais nas instituições empresariais e na sociedade. Dessa forma, os gerentes passam a ser responsáveis, além da maximização do lucro, por manter um equilíbrio equitativo entre as reivindicações dos consumidores, dos empregados, dos fornecedores e da comunidade (HAY, GRAY e GATES, 1976; FARIA e SAUERBRONN, 2008).
Bowen (1953), com a publicação do livro ‘Social Responsibilities of the
Businessman’, começa a questionar a responsabilidade dos homens de negócios,
argumentando ser dever dos empresários assumir as consequências de seus atos num âmbito mais abrangente do que somente nas demonstrações de lucros ou prejuízos, posição vanguardista para a época (GARRIGA e MELÉ, 2004). Neste período, a responsabilidade social empresarial se sustenta em dois princípios básicos: a filantropia e a governança (CARROLL, 1999). Considerados manifestações paternalistas, ambos são a realização das ações sociais empresariais provenientes das atitudes dos seus gerentes e fortemente pautadas num cunho religioso.
Apesar de a obra de Bowen ser considerada na literatura o marco inicial do período moderno da responsabilidade social, mesmo que o autor detenha seus comentários na ética empresarial,14 Carroll (1999) ressalta a importância das obras de Barnard (The Functions
of the Executive, 1938), Clark (Social Control of Business, 1939) e Kreps (Measurement of the Social Perfomance of Business, 1940) na consolidação do tema.
Mais exatamente entre as décadas de 1940 e 1960, há pressões a favor da criação de uma legislação que determinasse condições mínimas de direitos aos trabalhadores (Consolidação das Leis do Trabalho) e reconhecimento internacional dos direitos humanos (Declaração Universal dos Direitos Humanos), na tentativa de conter o risco de desintegração social.
14 O termo original é business ethics, usado para designar a ética nas organizações. Surgiu como ponto de
interseção entre o crescente descontentamento da sociedade com os excessos da busca pelo capital (HOFFMAN e MOORE, 1990; BEAUCHAMP e BOWIE, 1997; CARROLL, 1999). O termo engloba três níveis de análise: o individual, o organizacional e o sistema social.
Mesmo assim, neste período, a responsabilidade social é vista somente como uma ferramenta para prover a maximização do lucro, uma vez que a preocupação até então estava voltada para a ética pessoal na condução dos negócios, considerando, sobretudo, os dilemas morais que os executivos poderiam enfrentar (FARIA e SAUERBRONN, 2008). Localizava-se, portanto, a responsabilidade social na esfera do indivíduo, e não como empresarial.
2.2.2 Período II (1960 a 1980) – Filantropia empresarial
O período demarcado entre 1960 e 1980 é caracterizado por uma grande mobilidade cívica e revolucionária e também por um grande avanço científico e tecnológico. O ciclo dos ‘Anos Dourados’, que começa em 1945 e vai até 1973, entra em declínio, provocado principalmente pela crise do dólar e do petróleo, apesar de o modo de produção e de acumulação do capital ainda ser intenso e também de a produção e o consumo em massa possibilitarem grandes economias de escala. Neste período, a economia capitalista apresenta oscilações conjunturais, longos e profundos períodos de recessões, queda do ritmo de crescimento e altas taxas de desemprego (KUMAR, 1997).
Os grandes conglomerados e multinacionais atingem um poder nunca antes visto. As estruturas organizacionais se burocratizam em virtude da complexidade adquirida, e o controle das empresas se dissocia da propriedade, passando para as mãos dos diretores e gerentes. Assim, em virtude do cenário que se instaura, as lutas de classes e as greves chegam a seu ponto máximo. As empresas passam a ser alvo de numerosas e variadas críticas e reivindicações, particularmente em questões como consumo, emprego, discriminação racial e de gênero, poluição ou, ainda, natureza do produto comercializado (KUMAR, 1997; FARIA e SAUERBRONN, 2008).
As organizações são levadas a se envolver com a busca do bem-estar social, em virtude dos problemas sociais que se instauram e das críticas sofridas por elas na época (VARADARAJAN e MENON, 1988). Para Campbell et al. (1999), o que marcou positivamente a inserção da empresa enquanto entidade também responsável pela sociedade foi o caso americano da A. P. Smith Manufactoring Company, cujos acionistas se negaram a doar recursos financeiros à Universidade de Princeton. O caso foi levado à Suprema Corte de Nova Jersey, que se posicionou a favor da doação à universidade. Daí, segundo o autor, resultou a lei da filantropia corporativa, a qual determinava que as corporações também
poderiam contribuir para o desenvolvimento social e cultural da sociedade15 (CAMPBELL et
al., 1999).
Fry, Gerald e Meinres (1982) comentam que, na década de 1960, as empresas pressionadas começam a criar as suas próprias fundações, inaugurando o que os autores chamam de diplomacia corporativa. Neste momento, as empresas, visando evitar uma maior regulação do governo ou, ainda, para conseguirem concessões, passam a tomar decisões administrativas que não necessariamente garantem lucro, mas que de certa forma poderiam ajudá-las a adquiri-lo no futuro (VARADAJAN e MENON, 1988).
Outros acontecimentos importantes se deram na década de 1970, como a publicação do artigo The Social Responsibility of the Business is to Increase its Profits, de Friedman, ainda no início da década, publicado pela New York Times Magazine, no qual o autor protesta contra as ações sociais da General Motors, argumentando ser dever dos executivos somente servir aos interesses dos acionistas.16 Em 1972, foi realizada a Conferência do Meio Ambiente em Estocolmo, servindo de marco para os movimentos ecologistas e partidos verdes (GENDRON, 2000).
No final da década de 1970 e início da década de 1980, a ideia de responsabilidade pessoal (perspectiva individual), até então em vigor, é, finalmente, substituída pela noção de responsabilidade empresarial (perspectiva organizacional) (LECOURS, 1995; FARIA e SAUERBRONN, 2008). Ainda segundo Lecours (1995), o vocabulário filosófico de poder, dever, mal e justiça passa a ser substituído por uma terminologia mais sociológica, como poder, legitimidade e racionalidade. Isso acontece ao mesmo tempo em que a noção de filantropia se dissocia da ideia de responsabilidade social empresarial, ou seja, distancia-se da perspectiva da doação corporativa para focar nas consequências usuais das atividades das empresas.
2.2.3 Período III (1980 até 2000) – Responsabilidade social empresarial
A partir da década de 1980 e durante toda a década de 1990, vários acontecimentos fortalecem o ressurgimento do liberalismo, tais como: privatizações, desregulamentação, liberalização do comércio, das taxas de câmbio e das relações trabalhistas, a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. A revolução causada pelas novas tecnologias de informação impulsiona a globalização e financeirização da
15 O termo "filantropia corporativa" (corporate philantropy) surgiu nos Estados Unidos, dando ao país a alcunha
de país berço da filantropia empresarial. Para maiores informações, consultar Himmelstein (1997).
economia. Os grandes conglomerados empresariais locais dão lugar a redes corporativas multinacionais, mudando todo o ambiente de trabalho (FARIA e SAUERBRONN, 2008).
O fordismo, em declínio, é substituído pelo pós-fordismo, que consiste no modo de produção e de acumulação flexíveis, de base microeletrônica, proporcionando consequências que se revelaram devastadoras para os níveis de emprego, tanto nos países industrializados como nos periféricos (KUMAR, 1997). A produção se torna descentralizada, e a mão de obra passa a ser subcontratada, nascendo aí o trabalho autônomo, informal e subcontratado, provocando, tanto no cenário norte-americano quanto no europeu, pobreza, desemprego e outras formas de exclusão (KUMAR, 1997).
No início da década de 1980, consolida-se a visão que percebe a empresa e a sociedade como uma rede inextrincável de interesses e relações, permeada por disputa de poder, por acordos contratuais implícitos e explícitos e pela busca constante por legitimidade. Neste momento, a problemática ambiental passa a ser mais discutida, o que acontece em diversas conferências internacionais. Em 1987, o Relatório de Brundtland aborda e consagra o termo "desenvolvimento sustentável", que busca conciliar o crescimento econômico e a proteção ambiental (NOBRE e AMAZONAS, 2002).
Popularizou-se, nesta época, a teoria dos stakeholders, de Freeman (1984),17 a qual prega a ideia de que a empresa deve ser gerida levando-se em consideração o conjunto de seus stakeholders. Das teorias existentes no âmbito da responsabilidade social, trata-se da mais abrangente, uma vez que leva em consideração todos os públicos que interagem de imediato ou não com a organização.18
Ainda neste intervalo de tempo, foram importantes as conferências realizadas no Rio de Janeiro em 1992, das quais resultou a Agenda 21, e a conferência realizada em Copenhagen em 1995, na qual se criou a Cúpula Mundial pelo Desenvolvimento Responsável.
Neste ambiente de discussões e debates e numa tentativa de normatização das ações de responsabilidade social das empresas, foram criadas a ISO 14000 – conjunto de normas e padrões para a gestão ambiental em 1993; a BS 8800 – norma para a gestão da segurança e saúde no trabalho em 1997; e a SA 8000 – normas para a gestão das condições de trabalho, lançada em 1998. Em 1999, entra em vigor a Occupational Health and Safety
17 A origem do conceito de stakeholders foi alvo de trabalhos bem antes da teoria formulada por Freeman
(1984), conforme Hummels (1998), Clark (1916), Dodd (1932) e, ainda, Carroll (1998). No entanto, todos concordam que a popularização do conceito só aconteceu depois da publicação do artigo de Freeman, importância também ressaltada por Gibson (2000) e Mitchel et al. (1997).
18 Em virtude de sua dimensão e importância a teoria dos stakeholders será mais detalhada na seção 2.6..2 desta
Assessment Series OHSAS 18001 – conjunto de normas para a gestão da saúde e segurança no
trabalho, bem como foi lançada a AA 1000 – diretrizes para a condução de diálogo com
stakeholders e prestação de contas dos mesmos, e o índice de sustentabilidade da Dow Jones
pela Bolsa de Nova York.
Assim, a partir deste período, a responsabilidade social empresarial passa a ser vista como algo concreto, passível de análise e avaliação por parte da sociedade, que passaria a exigir das organizações ações sociais e ambientais, além das econômicas, sempre realizadas.
2.2.4 Período IV (2000 até o presente) – Investimento social e sustentabilidade.
O início dos anos 2000 foi marcado pela intensificação das preocupações com questões climáticas em virtude do aquecimento global, bem como por preocupações com a biodiversidade. A problemática ambiental passou a ser alvo de grandes debates e discussões em diversos países, colocando os problemas das mudanças climáticas como o assunto mais importante a ser enfrentado pela comunidade global no longo prazo, conforme a presidência do G-819 em 2005. Ainda em 2005, entra em vigor o Protocolo de Kyoto, que compromete uma série de nações industrializadas a reduzir suas emissões de carbono em 5,2%, em relação aos níveis emitidos em 1990, para o período de 2008-2012.
Este contexto levou a sociedade e as organizações governamentais e não- governamentais a um maior envolvimento com as preocupações ambientais e com a observação das consequências da degradação ambiental sobre as diversas espécies, inclusive a espécie humana. Além de estar na pauta de discussão de governantes, a preocupação ambiental passou a ser alvo de estudos de vários pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, permeando, aos poucos, as atividades humanas em diversos níveis (ONU, 2003; GREENPEACE, 2007). Neste contexto, a busca por energias renováveis ganha um grande fôlego e passa a ser alvo de várias pesquisas em muitos países, dentre eles o Brasil.
Deste modo, o termo "sustentabilidade" ganha uma grande visibilidade, apesar de já ser conhecido desde a realização da conferência mundial sobre o meio ambiente (ECO- 92). O conceito apregoa a capacidade da humanidade (incluindo organizações) de satisfazer suas necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades (BRUNDTLAND, 1987).
19 G-8 é o grupo de países mais industrializados e desenvolvidos do mundo, que inclui Estados Unidos, Japão,
Em dezembro de 2009 aconteceu a Conferência de Copenhague (COP 15)20, a qual reuniu representantes de 192 países, tendo como propósito chegar a um acordo mundial para conter o ritmo do aquecimento global, os níveis de exaustão do solo, o desmatamento predador, a ausência próxima de água potável, o desaparecimento de espécies animais e vegetais e os estragos da poluição despejada na natureza. Esperava-se que os países industrializados, liderados pelos Estados Unidos, ao lado da China21 e de países emergentes (Índia, Brasil, dentre outros), chegassem a um acordo para diminuição do efeito estufa, mas, ao contrário, o que se viu foi o adiamento das expectativas para 2010 (RICO, 2010).
Recentemente, em outubro de 2010, a ONU (Organização das Nações Unidas) reuniu, em Nagoya, no Japão, representantes de 193 países para discutir como promover o uso sustentável das espécies de plantas e animais do planeta e recuperar habitats já degradados. O evento foi o décimo realizado sobre o tema e não teve a mesma repercussão do encontro do clima realizado na Dinamarca, mas, de acordo com seus participantes, rendeu bons frutos. Os representantes dos países presentes conseguiram chegar a um acordo sobre uma série de metas, como a de reduzir em 50% a perda de habitats, e isso inclui as florestas, e recuperar 15% dos ecossistemas degradados (GUIA EXAME DE SUSTENTABILIDADE, 2010).
Neste contexto, a ideia de investimento socialmente responsável (ISR) passa a se destacar no mundo empresarial, configurando a afirmação do termo "sustentabilidade" no mundo financeiro ao desenvolver a crença de que as empresas com melhores práticas sociais e ambientais tendem a desempenhar uma melhor performance financeira.
Assim, a RSE ganha contornos estratégicos e voltados para a sustentabilidade dos negócios. Esta é cada vez mais almejada e de difícil concretização, pois os esforços para a sobrevivência e continuidade das organizações requerem que os gestores passem, definitivamente, a compor questões associadas não somente a enfoques econômicos, mas também sociais e ambientais como norteadoras de seus modelos de gestão, desenvolvimento de processos, produtos e serviços e busca pela inovação.
Desta maneira, as empresas foram chamadas, provocadas pelas demandas do ambiente institucional que se instalou nas últimas décadas, a rever o impacto de suas atividades, reavaliando seus processos na busca por meios menos nocivos ao meio ambiente e à vida em sociedade, e, para tanto, várias são as contribuições de estudiosos. No entanto, falar
20 A COP 15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática -
foi realizada em Copenhague, Dinamarca, em 2009.
21 A China está colocada à parte em virtude de sua posição individualista quanto à diminuição do efeito estufa.
Antes da Conferência de Copenhague, o país se comprometeu a reduzir em 40 a 45% sua intensificação carbônica até 2020, mas não aceitou transformar suas metas em obrigações (RICO, 2010).
de responsabilidade social está longe de ser consensual, pois desde que o tema é objeto de debate, as opiniões se dividem, dando origem a diferentes correntes de pensamento, o que será detalhado na seção seguinte.