Começamos por descrever estatisticamente as variáveis que caracterizam a história de uso de outras substâncias, após o que fomos investigar se o uso de cocaína estava associado ao uso de heroína, e se a idade dos doentes estaria de algum modo associada a esta história de consumo de outras substâncias.
Na caracterização da história de uso de outras substâncias (Quadro 9), observamos que perto de 15%, 11%, 11% e 10% da amostra referiram já ter usado respectivamente cannabis, BZD, heroína, cocaína. O uso de tabaco foi a substância mais prevalente em toda a amostra (69%).
Quando consideramos a hipótese dos doentes terem história de uso de pelo menos uma das 5 substâncias (heroína, cocaína, cannabis, BZD e tabaco) observamos uma substancial percentagem de indivíduos, ou seja, cerca de 72%. No entanto, este valor elevado deve-se em grande parte ao tabaco, uma vez que quando consideramos a história de consumo de pelo menos uma substância diferente do tabaco então a percentagem de 72% baixa para 22%.
No que respeita a drogas mais nocivas como a heroína e a cocaína, não deixa de ter algum significado que cerca de 12% dos doentes já tenha usado pelo menos uma destas duas substâncias. Ou seja, este valor pode indicar que nesta população de estudo, cerca de 1 em cada 10 alcoólicos já teve história de uso de substâncias de extrema nocividade como a heroína e a cocaína. Observámos ainda que uso de cocaína está estatisticamente muito associado ao uso de heroína nestes doentes (coeficiente de concordância K=0,82; p<0,001). Ao compararmos a idade dos doentes com história de uso de outras substâncias versus os doentes sem história de uso, observamos consistentemente que os alcoólicos que usam outras substâncias são tendencialmente mais novos. Mais concretamente os doentes com uso de
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pelo menos uma das 5 outras substâncias têm menos idade mediana (39 anos versus 45 anos ; p<0,001 num teste Mann Whitney), os doentes com uso de pelo menos uma das 4 substâncias com excepção do tabaco têm menos idade mediana (39 anos versus 43 anos ; p<0,01 num teste Mann Whitney) e os doentes com uso de cocaína e/ou heroína também têm inferior idade mediana (36 anos versus 42 anos ; p<0,01).
Quadro 9– História de uso de outras substâncias na admissão ao tratamento (n=209)
Variável da história de uso de substância (n=) Categorias da variável Contagens: Frequências absolutas Percentagens: Frequências relativas
História de uso de heroína (n=209)
0-Sem hist de uso 1-Com hist de uso
187 22
89,5% 10,5% História de uso de cocaína
(n=209)
0-Sem hist de uso 1-Com hist de uso
188 21
90,0% 10,0% História de uso de cannabis
(n=209)
0-Sem hist de uso 1-Com hist de uso
177 32 84,7% 15,3% História de uso de BZD (n=209)
0-Sem hist de uso 1-Com hist de uso
186 23
89,0% 11,0% História de uso ou uso
concomitante de tabaco (n=209)
0-Sem hist de uso 1-Com hist de uso
65 144
31,1% 68,9%
História de uso de pelo
menos uma das 5
substâncias (n=209)
0-Sem hist de uso 1-Com hist de uso
58 151
27,8% 72,2%
História de uso de pelo
menos uma das 4
substâncias à excepção do tabaco
(n=209)
0-Sem hist de uso 1-Com hist de uso
163 46
78,0% 22,0%
História de uso de pelo
menos uma das 2
substâncias heroína ou cocaína
(n=209)
0-Sem hist de uso 1-Com hist de uso
184 25
88,0% 12,0%
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4.3 – História de consumo de álcool na admissão ao tratamento
(n=209)
A caracterização da história de consumo de álcool apresentada envolveu diversas partes que pensamos serem de especial interesse para o tema em questão. Nomeadamente, começamos por apresentar os resultados de estatística descritiva das variáveis que caracterizam o consumo, incluindo um indicador de gravidade de consumo por nós criado e que combina a duração do consumo com a quantidade de consumo num dia típico. Para além desta análise, digamos mais descritiva, fomos ensaiar algumas associações de interesse, com o objectivo de aumentarmos a nossa sensibilização acerca da amostra em estudo. Nomeadamente, começamos por investigar se a idade do doente estava associada à duração do consumo, tal como seria esperado, e fomos investigar como é que as variáveis de gravidade do consumo que envolvem a duração e a quantidade de consumo se relacionam com outras variáveis de gravidade como o facto do doente beber de manhã e/ou antes do almoço, o doente beber continuadamente todos os dias e o tipo de bebida preferida. Fomos ainda relacionar a idade do primeiro consumo excessivo com outras variáveis de gravidade como o facto do doente beber de manhã e/ou antes do almoço, o doente beber continuadamente todos os dias e o tipo de bebida preferida. Finalmente, fomos investigar associações estatísticas entre as variáveis da história de consumo de álcool e as variáveis da história de consumo de outras substâncias.
Os anos de consumo excessivo pesado rondaram em termos medianos os 13 anos, podendo atingir um máximo de 39 anos. Quase metade da amostra teve um consumo excessivo pesado até 10 anos (46%) sendo que 85% teve um consumo excessivo pesado até 20 anos (Quadro 10). Ao correlacionar-se os anos de consumo excessivo pesado com a idade dos doentes obteve-se uma correlação positiva e com alguma magnitude (R de Spearman=0,44; p<0,001), o que de certo modo reforça a validade da variável anos de consumo excessivo de álcool, dado que se espera que doentes mais velhos estejam associados a mais anos de consumo de álcool.
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A quantidade de álcool em gramas num dia típico atingiu as 192 gramas/dia em termos medianos, o que representa um consumo diário próximo de 4 vezes o limite das 50 gramas para consumo excessivo pesado e perto de 10 vezes o consumo de baixo risco de 20 gramas/dia. Perto de 85% da amostra consumia diariamente mais de 100 gramas/dia de álcool. Todos estes valores dão uma ideia da nocividade do consumo destes doentes dependentes de álcool (apesar dos médicos interrogarem os doentes sobre o tempo de consumo excessivo pesado com a referência de 5 bebidas por dia, ou seja, 50 gramas/dia, 4 dos 209 doentes entraram no estudo com consumo diário entre as 35 gramas/dia e 48 gramas/dia. Estes doentes eram predominantemente do sexo feminino, 3 em 4 doentes, satisfazendo pelo menos 5 dos 7 critérios de diagnóstico do SDA segundo o DSM-IV. Relembremos ainda que segundo a OMS (WHO, 2004), para além do consumo excessivo pesado poder ser definido pelo consumo de 5 ou mais bebidas num dia de consumo pelo menos uma vez na semana, pode ainda ser definido pelo consumo diário continuado de pelo menos 3 bebidas).
Com os dados do tempo de consumo e quantidade de consumo, construímos um indicador de gravidade combinado destas duas variáveis. Começou-se por calcular o produto dos anos de consumo pela quantidade de álcool diário consumida, assumindo-se que quanto maior é o tempo de consumo e a quantidade de consumo em simultâneo, maior é a gravidade esperada para o consumo do doente. No entanto, como esta variável tem uma distribuição muito pouco normal (p<0,001 num teste de normalidade de Kolmogorov Smirnov), para efeitos de aproximar os valores à distribuição normal pela desejável conveniência estatística, logaritmizou-se os valores obtendo-se uma versão com distribuição normal (p=0,81 num teste de normalidade de Kolmogorov Smirnov). Seguidamente e de modo a obter uma variação da gravidade numa escala do tipo percentual (0 a 1) e consequentemente de mais fácil leitura, dividiu-se o valor normalizado pelo máximo possível nestes doentes, isto é, pelo logaritmo do produto de 39 anos por 1080 gramas/dia
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(ou seja logaritmo de base e do máximo 39 anos* máximo 1080gramas/dia). Este indicador de gravidade revelou-se bem correlacionado (R de Spearman) simultaneamente com os anos de consumo excessivo e o consumo de álcool num dia típico, respectivamente R=0,76 (p<0,001) e R=0,62 (p<0,001), e deste modo pode servir na análise de factores de prognóstico combinando estes dois aspectos individuais de gravidade. Em termos médios, o indicador de gravidade apontou para os 0,72 pontos (72%), o que pode ser revelador de um nível de gravidade algo elevado, o que está perfeitamente consistente com os resultados de elevados valores de consumo diário dos doentes e de elevadas durações em anos de consumo excessivo pesado. Ao dividir-se a amostra no ponto de corte de 0,75 do indicador de gravidade, obteve-se que 37% dos doentes tinham uma gravidade, digamos ainda mais extrema.
A idade do primeiro consumo excessivo pesado (determinado a partir da idade do doente menos os anos de consumo excessivo pesado) foi de 27 anos em termos medianos, podendo variar entre os 10 e os 55 anos. Observou-se ainda que cerca de 8% da amostra revelou ter tido um primeiro consumo excessivo pesado com menos de 18 anos de idade.
Antes dos doentes entrarem em tratamento, estiveram em termos medianos 10 dias sem beber, sendo que perto de 66% da amostra esteve mais de uma semana sem beber antes de entrar em tratamento. O tipo de bebida com álcool mais preferida foi a cerveja seguida do vinho e finalmente as bebidas destiladas e fortificadas. Cerca de 85% da amostra consome preferencialmente cerveja ou vinho, ou seja, bebidas de acesso mais facilitado em termos económicos, o que de certo modo nos parece estar consistente com a tendência observada para os doentes em estudo terem um nível sócio económico algo mais desfavorecido.
O padrão de frequência de consumo é predominantemente diário (91%), com 75% dos doentes a consumirem álcool pela manhã e/ou antes do almoço. Estes resultados sugerem um nível de gravidade tendencialmente elevado, o
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que também está consistente com os relativamente elevados resultados do tempo de consumo em anos e da quantidade de álcool consumida diariamente, assim como, do indicador de gravidade que combina a duração com a quantidade de consumo.
Fomos ainda relacionar estatisticamente as variáveis quantidade de álcool consumida num dia típico e o indicador de gravidade que combina o tempo de consumo e quantidade de álcool, com as variáveis indicadoras de consumo de manhã e/ou antes de almoço, o padrão de consumo diário e o tipo de bebida preferida. Os únicos resultados com algum interesse sugerem que quem bebe de manhã e/ou antes do almoço pode ter algo mais gravidade (medianas do indicador de gravidade de 0,73 versus 0,71 ; p=0,05 num teste de Mann Whitney) e quem consome diariamente também pode ter mais gravidade em comparação com quem bebe ao fim de semana ou episodicamente (medianas do indicador de gravidade de 0,73 versus 0,68 ; p<0,05 num teste de Mann Whitney). O sentido destas diferenças foi consistente com a quantidade de álcool num dia típico, ou seja, quem consome mais num dia típico são os doentes que consomem de manhã e/ou antes do almoço, assim como, os doentes que consomem diariamente. No entanto, para a quantidade consumida as diferenças não atingiram significado estatístico. Também, quem consome bebidas destiladas ou fortificadas consome mais quantidade de álcool num dia típico em comparação com quem bebe vinho ou cerveja (mediana 204 g/d versus 192 g/d), embora estas diferenças também não tenham tido significado estatístico.
Também, fomos relacionar os anos de consumo excessivo de álcool com as mesmas variáveis indicadoras de consumo de manhã e antes de almoço, o padrão de consumo diário e o tipo de bebida preferida. Os resultados foram bastante relevantes mostrando que quem consome diariamente consome à mais anos em termos medianos (14 anos versus 10 anos ; p<0,05 num teste de Mann Whitney), quem consome vinho ou cerveja consome à mais anos
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em termos medianos em comparação com quem consome bebidas destiladas ou fortificadas (medianas de 10, 15 e 14 anos respectivamente para bebidas destiladas+fortificadas, vinho e cerveja ; p<0,05 num teste de Kruskal Wallis), observando-se ainda alguma tendência estatística para quem bebe de manhã também beber à mais anos (mediana de 15 anos versus 10 anos ; p<0,10). Estes resultados dão alguma consistência de uma maior gravidade de duração de consumo de álcool estar mais associado ao padrão de consumo diário e a bebidas de mais fácil acesso económico como a cerveja e o vinho. Também, os consumidores de álcool pela manhã e/ou antes do almoço poderão estar associados a mais tempo de consumo excessivo de álcool.
No que diz respeito à idade do primeiro consumo excessivo pesado, foi curioso observar que não se encontrou associada com significado estatístico com o padrão de consumo diário e o facto de beber de manhã e/ou antes do almoço. No entanto, a cerveja parece estar estatisticamente associada a uma inferior idade do primeiro consumo pesado, enquanto que o vinho está mais associada a uma superior idade do primeiro consumo (26, 28 e 30 anos respectivamente para cerveja, bebidas destiladas+fortificadas e vinho; p<0,01 num teste de Kruskal Wallis). Este resultado pode sugerir assim um início mais precoce do binge drinking com recurso à cerveja, uma bebida que como já referimos é de acesso fácil em termos culturais e económicos.
Para além destes resultados fomos ainda investigar possíveis associações estatísticas entre estas variáveis de consumo de álcool e a história de uso de cocaína e/ou heroína, a história de uso de pelo menos uma das quatro substâncias sem o tabaco (cocaína, heroína, cannabis e BZD) e finalmente, a história de uso de pelo menos uma das outras 5 substâncias diferentes do álcool. Os únicos resultados relevantes encontrados foram que quem tem história de uso de pelo menos uma das quatro substâncias bebe menos antes do almoço (63% de consumo de álcool antes do almoço versus 78%; p=0,04 num teste do Qui quadrado), quem tem história de uso de pelo menos uma
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das cinco substâncias bebe mais cerveja e menos bebidas destiladas, fortificadas e vinho (54% de consumo de cerveja versus 28% para quem não tem história de uso de substâncias, p<0,001 num teste do Qui quadrado) e quem usou pelo menos uma das cinco substâncias tem inferior idade mediana do 1º consumo pesado (27 anos para quem tem história de uso de pelo menos uma das 5 substâncias versus 33 anos; p<0,001 num teste de Mann Whitney). Alguns destes resultados podem sugerir assim uma associação negativa entre o consumo de outras substâncias e o consumo de álcool, nomeadamente, quem consome outras substâncias bebe menos antes do almoço e bebe bebidas de inferior teor alcoólico como a cerveja. No entanto, estes resultados também sugerem que são os doentes que começaram a beber mais novos que tendencialmente consomem outras substâncias para além do álcool.
Quadro 10– História de consumo de álcool na admissão ao tratamento (n máximo=209)
Variável da história de consumo de álcool (n=) Categorias da variável Contagens: Frequências absolutas Percentagens : Frequências relativas Estatísticas descritivas de variáveis numéricas(n=) Anos de consumo excessivo pesado (n=209) 1-<=10 anos cons 2-11-20 anos cons 3->20 anos cons 95 83 31 45,5% 39,7% 14,8% Média: 13,4 anos Mediana: 13,0 Desvio padrão: 7,7 Mín-Máx:1-39 (n=209) Quantidade em gramas
num dia típico de consumo (n=207) 1-<=100 g/dia 2-101-200 g/dia 3-201-300 g/dia 4->300 g/dia 32 82 52 41 15,5% 39,6% 25,1% 19,8% Média: 225,0 g/dia Mediana: 192,0 Desv padr: 134,4 Mín-Máx:35-1080 (n=207) Indicador combinado de gravidade Ln (anos consumo * Consumo diário álcool em gramas dia) / Ln (39anos*1080 gramas) (de 0 a 1 máx gravidade) (n=207) 0-<0,75 1->=0,75 130 77 62,8% 37,2% Média: 0,72 Mediana:0,72 Desv padr: 0,08 Mín-Máx:0,44-0,89 (n=207)