A Escola Técnica foi para mim lugar de muita beleza e aprendizagem de 1990 a 1994, quando vim a passar em outro concurso, desta vez para atuar no curso de Letras da UFC, na formação de professores de línguas. Ao ingressar na Universidade, o semestre tinha começado e as turmas haviam sido todas distribuídas. Por outro lado, as turmas da Escola tinham ficado descobertas. Solicitei à administração das duas instituições terminar o período letivo no curso de Turismo. Em uma dessas turmas, viria a conhecer Karla Martins, menina bela e tímida, com quem pouco pude conviver na época, amada musa minha com quem viria a me casar ao nos reencontrarmos dez anos depois.
Da UFC, muito poderia dizer. Economizo nas tintas, talvez? Para começar, tenho de dizer claramente que é a realização de um sonho muito acalentado isto de trabalhar no mesmo curso em que estudei, de ter podido voltar pra ficar no Bosque de Letras, de poder atuar na formação de outros professores, ao lado de gente que admiro. Para tudo resumir e anunciar, diria que tem sido belo e prazeroso conviver com os estudantes e a maioria dos professores, mas tem também sido desafiante, às vezes insuportável ter de conviver com alguns colegas.
Passar a formar professores, atuar com aqueles que no futuro viriam a ser justamente outros colegas, me deu a mais gostosa das oportunidades de refletir, viver e sentir a práxis docente. Se aprendera com meus mestres, todo o tempo e cuidado tenho dedicado a fazer o melhor possível pelos futuros educadores – no presente. O significado de minha atuação ganha a partir de então muito mais espaço em meu peito: sempre me senti trabalhando junto aos meus pares, em caminho de mútua (trans)formação. Nos dias de hoje, muitas dessas pessoas já se tornaram companheiros de profissão – e eu nunca deixei de me espantar com a atitude de alguns colegas da universidade que parecem nem sequer suspeitar que aqueles estudantes serão em breve também professores e pesquisadores. E o que me causa essa impressão não é senão sua arrogância, sua pretensão de neutralidade, sua estúpida impressão de serem superiores, uma ―elite intelectual‖ besta o suficiente para se superestimar.
O judô me ensinara que, uma vez no dojô, não podia subestimar nem superestimar o adversário. Nem a mim. Cairia sete vezes, diante do autoritarismo de um, diante do meu desconhecimento das regras acadêmicas, diante da burocracia de outro, diante da rubra gana e do vermelho arroubo meu em busca de fazer a meu modo, diante da maledicência e inveja de uns, diante da passividade ignorante de outros, diante do poderio dos cargos exercidos por outrem a me atravancar o caminho com leis fabricadas ao bel prazer daqueles a quem elas interessavam. Mas me levantei oito vezes. Qual o poeta passarinho...
Poeminho do contra Todos esses que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão...
Eu passarinho!
(QUINTANA, 1983, p.28)
Rememoro momentos de grande exercício interior para mim. Momentos em que a afetividade à flor da pele, a arte ou a busca por uma ordem mais justa me levaram a entrar em confronto com alguns colegas. E se os retomo aqui é por deles precisar para ilustrar – nesta tese a respeito de experiências afetivas formadoras de mim – o avesso do prazer que sinto em, sendo quem eu sou, atuar onde atuo.
Uma vez, voltei ao Bosque de Letras em que discursara quando estudante, de novo subi em um banco, desta feita como professor, porque os estudantes haviam reagido ao autoritarismo da colega que governava um feudo, perdão, que geria um setor da Universidade – e eu temia que sofressem represálias, como acabou ocorrendo. Há quem facilmente esqueça quão quente o sangue corre nas veias por volta dos 20 anos.
Em outras ocasiões, durante quatro anos, percorri corredores universitários daqui e de além-mar, tentando contribuir com a construção de um acordo que chegou a ser firmado, mas nunca decolou por preconceito, pelo fato de ser oriundo da iniciativa e das interações entre professores de línguas – e isso apesar de conferir aos setores tecnológicos prioridade como de praxe , em detrimento dos investimentos na área linguística – embora seja o óbvio ululante que é imprescindível a pluralidade de idiomas nos diálogos internacionais e na própria pesquisa e difusão tecnológica.
Diversas vezes foi a palavra meu abrigo ao longo da vida. Não poderia ser diferente na Universidade. A poesia e a oratória várias vezes me ampararam. Perante uma colega que esbravejara com seus pares, expulsando-nos de uma sala que suzeranamente outra colega lhe
emprestara, eu respondi com um texto, espalhado pelo Bosque de Letras e perdido com o tempo. Anos depois, conheci uma moça, Rildete Ribeiro, que o guardara com zelo.
Unidade
Nada existe isolado; tudo se relaciona com tudo.
Anaxágoras
Destinados a vivermos juntos, nenhum de nós pode exigir de alguém que o ame, mas deve exigir que o respeite.
A convivência é uma arte e a linguagem, seara de Letras, ―uma fonte de mal- entendidos‖. Para o que a palavra planta torto, ao silêncio e ao Tempo cabe o trabalho de preparar a própria palavra para ceifar e tornar a plantar.
Todos erramos. E erraremos ainda. Juntos nos aprimoramos... para não errarmos demais. Assim, mesmo quando falhar um de nós, precisamos nos entender. Para isso, faz-se necessário saber calar e escutar e de novo falar.
É preciso tato (e visão e olfato e os outros sentidos mais o sexto) para palmilhar o terreno da mútua compreensão. É preciso fazer a travessia do mundo impreciso da humanidade.
No mais, a universidade, como o universo, é de todos nós. Cada canto e cada desencanto são nossos. Toda a paz e o inevitável conflito são nossos. Coisas de gente! Somos, por ora, seres humanos – simplesmente. Ao mesmo tempo – belo mistério! – somos mais, bem mais...porque somos Um.
Tudo vibra e tudo pulsa nesta esferinha dialética. Estamos todos conectados pela mesma teia quântica. Irmanemo-nos, pois, e se amar não pudermos, respeitemos a diferença... Mais: reverenciemos a diversidade que tece a delicada unidade do todo de que somos parte (BELTRÃO).
Em outros muitos momentos, a palavra, a escrita, a poesia vieram em meu socorro. O simples fato de ser afetuoso com os estudantes conturba(va) alguns de meus colegas. A atitude de adotar atividades artísticas ou incorporar a linguagem artística em algumas práticas pedagógicas eram (e por vezes ainda são) mal vistas. O gesto de ir para a sala de aula com o violão gerava críticas, questionamentos, comparações com colegas que supostamente não levavam a Universidade a sério por serem artistas! Uma vez mais, sei bem que não sou o único. Izaíra Silvino (2007, p.257) registra alguns exemplos de falas estapafúrdias que a arte pode em alguns acadêmicos suscitar, como sugerir que as aulas de música podem ser dadas debaixo das mangueiras para liberar as salas para disciplinas (termo caduco, este!) mais importantes, ou como declarar que a arte estimula exatamente... a indisciplina, ou esta outra: ―Professora, aqui é uma universidade, um lugar sério, que diabo a senhora pensa que está fazendo? Estou aqui, vizinho, dando uma aula séria e a senhora, aqui, cantando?‖ A esse respeito (ou desrespeito), comenta a autora (SILVINO, 2007, p.258):
O espaço, físico e de sociabilidade, do ensino da arte ou para o entendimento de uma outra lógica de ensino e de visão de mundo, ou para o exercício de outras maneiras de saber no corpo e pela prática do corpo a partir de novos (?) conhecimentos, não foi, ainda, digerido por parte da nossa comunidade acadêmica. E como tudo é segmentado, separado em tipos de sistemas quase que feudais (ou em tipo de sistema de seminários religiosos), baseado, no mais das vezes, em regras já mortas, o artista-professor, o professor-artista sofre na pele uma questão pedagógica que, mesmo discutida, não é sentida como uma questão acadêmica, no todo da comunidade. O ensino e a prática da arte, por conta disto, fica em segundo plano, como se na academia ouvesse uma hierarquia dos saberes, e alguns deles fossem de segunda categoria, podendo ser deixado para depois (SILVINO, 2007, p.258).
Em muitas das situações por mim vivenciadas, respondi intimamente, sem alarde, mas com arte. Foi o caso na época em que um lugar onde atuava sofria o jugo militaresco de uma colega despótica. Fiz um texto que viria depois a publicar no Vermelho.
Em busca do caminho da aurora
Passam os dias saudosos de auroras serenas, dentro de um tempo de escuridão. O fio da fraternidade, tênue, oscila sem tocar todos... porque restam aqueles que anoitecem os encontros e amargam as esperas, que dividem e afastam, que não encontram amor nem acreditam nas pessoas... Eles têm mofado os gestos de ternura e em seu lugar fincaram rimas duras.
Todos, o tempo depura. Ao final teremos passado como os dias sem auroras serenas. Sequer deixaremos duradouras saudades. Tudo o quanto parece relevante, definitivo será memória ou esquecimento até se desfazer quem lembre ou olvide.
Deixo por ora que as palavras orvalhem a folha. Sou assim, que assim seja. Trago na alma um gosto pela claridão. Vim do ventre da hora para o anúncio da palavra, teia e tecido do encontro com os outros. Sei pouco, sinto muito. Sinto tudo em tantos tons! Penso no plural, reverencio a diversidade e encaro a diferença como qualidade intrínseca de cada ser.
Sigo meu caminho do modo como aprendi: de bem comigo, de mãos dadas com os meus semelhantes, tão diferentes entre si! Ando e assobio e me refaço porque me acolho. E muito embora eu me ame assim como eu sou, cuido em vir revolvendo a terra em mim; deixo-me fluir à maneira da água, mas me cultivo qual jardineiro de si mesmo. Eu sou desta minha vida, somos jardim encantado e secreto, aberto às artes e às festas, à fé e à amizade, ao cálido amor feito na alta madrugada, à palavra e ao silêncio.
Deixa que anoiteçam os teus olhos de espanto. Cuida dessas horas que não voltam mais. Ao final de contas terás feito grande quantidade de coisas e acumulado numerosas exigências, mutilações, regras, disputas, comparações que deverão se acomodar na estreiteza de teu peito. Vejo que vazam inverno e deserto de teu semblante entristecido. Se contemplares um tanto do que fizeste, espero que algum orgulho residual possa te servir de alento em meio ao desafeto. Lembra que não há pílulas sinceras nem teorias que nos deem colo. A ti e aos teus parece natural cobrar, competir, apartar. Parece natural o dedo em riste, o cenho franzido, a pele despida de carinho. Ampara-te no que ainda puderes recomeçar. E olha como as coisas não depndem de ti e seguem indiferentes a te demorares – em solidão – pelo caminho (BELTRÃO, 2007, p.92-93).
Se respondo com poesia e prosa poética a esses fatos, é que penso e sinto que essas palavras podem melhor que outras dar a conhecer o que julgo essencial neste questionamento. E se rememoro estes acontecimentos, à guisa de exemplos, não tenho a intenção de tão simplesmente desabafar, mas de refletir sobre experiências afetivas formadoras que não foram prazerosas e apontar o quão absurdo pode ser o contexto de atuação para quem faz arte ou considera a docência em sua dimensão estética ou com arte faz suas aulas. A ameaça que supõem pairar sobre si não corresponde ao que de fato acontece, o que não quer dizer que os artistas atuantes na Universidade (pelo menos alguns deles) não tenham intenção de alterar o curso das coisas, mexer nas concepções de prioridades, na visão que se tem da arte e dos próprios artistas. Um dos temores tem a ver com o fato de as artes expressarem a afetividade das pessoas. Gente séria prioriza a racionalidade. Gente que pinta o sete, canta em outras tonalidades, dança novos sons, pronuncia palavras dissonantes do coro do enquadramento – essa gente leva a sério a brincadeira.
Para encerrar esta passagem, difícil, mas necessária, lanço mão de mais um poema. Ele nasceu pelo avesso do que senti. Um dia, deixando o Bosque de Letras, em um período muito áspero, por alguns instantes, eu perdi a esperança no que faço: me deu vontade, uma imensa e intensa vontade de desistir de tudo! De deixar a Universidade, de abandonar o curso de Letras e a formação de professores, de tirar os programas do ar e me afastar da formação radiofônica de futuros colegas, enfim, de buscar recomeçar em outro lugar, onde seria talvez mais bem acolhido e mais feliz. Ao imaginar o gesto consumado – porque em meu peito de poeta, o imaginado se avizinha do real – eu senti a profunda tristeza que, antes de qualquer pessoa, me invadiria... e esboçou-se em mim a maneira obscura com que esse desgosto se propagaria entre as pessoas a quem quero bem. Então, veio o contrário disso tudo, em um jorro, como uma mensagem para amigos poetas e um poeta célebre que em mim me respondiam diante de meu desânimo – antecipadamente.
Recado para o poeta
Para Enrique Sánchez, Horácio Dídimo e Luiz Teixeira. Para Vinicius de Moraes.
Amigas, digam ao poeta que eu não perdi a esperança. Por gentileza, digam-lhe que continuo cantando a beleza. Digam, sim, digam também cantando que ainda sou criança. Lembrem ao poeta que ele me faz falta... Não, não,
falem que tenho saudades. Não há falta na lembrança. Murmurem em segredo pelo caminho a minha canção. Peçam-lhe que me escreva uns versos bem simples e que ele cuide em enviar, para de cor eu os trazer. Contem ao velho bardo que tenho afinado o violão, pronto a novas músicas – o rumo é o do coração.
Confessem que têm se preocupado comigo, mas não exagerem, não assustem o meu amigo. Podem revelar que trago este desconforto no peito, que aos dias íngremes de hoje não sou nada afeito. Se quiserem, falem mal da gente sombria da academia, porém não esqueçam os raros mas veros bons afetos que lá cultivei nas sendas de luz e dor que percorria. Ensinem-lhe o meu novo endereço, a porta está aberta. Ainda que não me visite, seu correio virá à minha procura e nos novos versos seus, eu sei que relerei na certa a mesma palavra leve e morna que desde sempre cura. Evitem detalhes mais mórbidos da gente torpe e egoísta, digam talvez um tanto das agruras desta vida de artista.
Entretanto principalmente digam do que cultivo em meu jardim. Falem do bom aroma do fumo e dos filhos em torno de mim. Comentem sobre o gelado da cerveja e o tempero da cozinha. Segredem os detalhes da biblioteca que ele de longe adivinha. Recordem com ele dias de palco, estúdio, sala de aula, camarim. Deem notícias da terna eterna companheira, a bela musa minha. Mostrem-lhe o Vermelho, meu livro primeiro, meu filho dileto. Confessem que se admiram por eu fazer curvo o caminho reto. Sobretudo, amigas, digam ao poeta que eu não perdi a esperança e continuo com vocês desfrutando da vida a sua sutil e intensa dança.
(BELTRÃO, 2009, p.27-28)
A gente se forma na alegria e na tristeza, com amor e com raiva, com gozo e dor, com o medo e com a coragem, na adversidade e em meio aos deleites. Claro que os bons afetos e as boas lembranças de aprendizagem bem vividas são mais belas e agradáveis. Mas são inevitáveis os conflitos, as decepções, os deslizes, os desgostos – há que viver com eles, ou melhor, há que apreender o que a sombra nos traz para aprender, mas sobretudo incorporar o que a luz nos dá a sentir e saber.