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A participação de Alfredo Camarate na imprensa foi bastante marcada por sua trajetória como crítico musical. Para Camarate, a música, além de ser uma experiência sonora, era também objeto de teorização. Fica claro, em muitas das suas crônicas sobre

201 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XV. Minas Geraes. Ano III, n.124, 10 de

março de 1894, p.4.

202 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XV. Minas Geraes. Ano III, n.124, 10 de

março de 1894, p.4.

203 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XV. Minas Geraes. Ano III, n.124, 10 de

uma teoria musical, um tom pedagógico, incentivando uma educação estética e auditiva a partir da apreciação sonora. Discorrendo sobre o ensino da música, o cronista diz que a música “é uma cadeira obrigatoria dos cursos primarios e secundarios”.204 em todas as nações civilizadas.

O viajante estabeleceu também uma diferença entre o ensino empregado nos conservatórios e institutos de música e a presença dessa disciplina nas escolas normais. Para Alfredo Camarate, “Empregar, nas escolas normaes, as minuciosidades e rigores de ensino de um conservatorio é uma tarefa impossivel, sem vantagem para os conhecimentos musicaes do alumno (...)”. A presença do ensino da música em uma instituição voltada para a formação de professores não teria por objetivo “preparar alumnos para exercerem a carreira artistica, nem essa escola tinha competencia nem tempo para isso.” Cabia-lhe “familiarisar os discipulos, com essa linguagem universal, que, apesar dos seus grandes defeitos de notação e de temperamento, é o idioma mais espalhado do mundo”.205

Parece que a escrita dessa crônica fora incentivada por uma proposta de realização de um concurso para o preenchimento de “dois logares de professor de musica de escolas normaes”. Assim, Alfredo Camarate informava aos leitores de seu texto e pretensos candidatos o que seria necessário ensinar e, portanto, saber sobre a música. Para tanto, traçou quase um programa de ensino:

Duas claves, a de sol na segunda linha e a de fa na quarta, bastam para um alumno de escola normal; umas noções geraes de arte, muito pouco decoradas e muito raciocinadas; o conhecimento dos tetracordes pythagoricos, nome que assusta um pouco os alumnos; mas, que, em duas licções, os põem ao facto das escalas diatonicas de todos os tons, da ordem e da collocação dos accidentes e igualmente da causa da sua disposição na armadura do pentagrama. O solfejo resado e nunca cantado no primeiro anno; conhecimentos vagos sobre a contextura da nossa escala temperada, sobre a nomemclatura e corte de peças, sobre a constituição das grandes e pequenas orchestras, sobre a formação das bandas e fanfarras; sobre a historia, estylos e epochas da musica; de maneira que um homem possa ter noções exactas, si bem que limitadas, sobretudo quanto respeita a musica e saiba fallar, ouvir e apreciar um trecho, com o goso sereno, completo e consciente daquelles que conhecem a matéria de que fallam, a obra artística que apreciam.206

204 RIANCHO, Alfredo. Collaboração/ O ensino da musica nas escolas normaes. Ano II, n.173, 28 de

junho de 189, p.3.

205 RIANCHO, Alfredo. Collaboração/ O ensino da musica nas escolas normaes. Ano II, n.173, 28 de

junho de 189, p.3.

206 RIANCHO, Alfredo. Collaboração/ O ensino da musica nas escolas normaes. Ano II, n.173, 28 de

Fica evidenciada uma estratégia retórica nessa proposição do cronista. O emprego de termos técnicos indicaria que não poderia ou não deveria se inscrever, no concurso, qualquer candidato. Na sua concepção: “para professor de musica de uma escola normal, não basta um musico, embora muito habilitado nas transcendencias do contraponto e da fuga; é necessario um artista muito instruido e illustrado; que tenha estudado a musica, (...)”. Estaria aí Alfredo Camarate defendendo e valorizando sua própria formação em relação à música, mais voltada para a teoria, a instrução e a crítica do que a própria prática como músico? A exposição desse programa também parece informar aos examinadores alguns pontos a serem observados na especificidade do ensino da música: “a mesa examinadora, mais competente do que eu, fará o que entender, ou, antes, o que lhe dictar o programma dos estudos, mas, sem lhe fugir inteiramente, aos seus dictames, poderá transformal-o um pouco, no sentido das modernas doctrinas da arte”.207 Essa possível maleabilidade da banca examinadora, da qual parece que fora excluído, expõe também uma crítica a um processo de formação e educação:

O tempo das mudanças, do escarcejo, do fa certo, já passaram; a moderna geração, como si as velocidades da electricidade e do vapor lhe fossem contagiosas, tem necessidade de chegar depressa, embora superficialmente illustrada, ao acabar todos os cursos sem excepção; vamos pois, com o seculo, como temos sempre de ir com todas as evoluções da lingua, da litteratura, da sciencia e como já não temos meios de fazer mestres, ao sahir da escola, tratemos de preparar alumnos completa e largamente habilitados para, ao terminar os cursos, poderem começar a estudar profundamente a materia, em cujos elementos se iniciaram apenas na aula.208

Nesse trecho da crônica, Alfredo Camarate parece sinalizar que o tempo necessário para uma educação estética é distinto daqueles outros saberes contemplados pela formação oficial. Para Camarate,“Em fins do seculo dezenove, já não pode haver escolas, de onde saia mestres; mas officinas de debaste, donde saiamos apparelhados methodicamente, para entestar com as maiores transcendencias da sciencia ou da arte. E é esse ‘debaste’ e esse ‘apparelho’ a maior difficuldade que tem diante de si a pedagogia moderna”.209 Seria mesmo suficiente apenas aparelhar e “debastar” os alunos? Desengrossar, tornar menos basto, aperfeiçoar, polir, dar dos primeiros ensinamentos? O cronista mostrou ter um olhar atento às transformações mais amplas

207 RIANCHO, Alfredo. Collaboração/ O ensino da musica nas escolas normaes. Ano II, n.173, 28 de

junho de 189, p.3.

208 RIANCHO, Alfredo. Collaboração/ O ensino da musica nas escolas normaes. Ano II, n.173, 28 de

junho de 189, p.3.

209 RIANCHO, Alfredo. Collaboração/ O ensino da musica nas escolas normaes. Ano II, n.173, 28 de

da sociedade impactada por um “tempo das mudanças” aceleradas e profundas e como tais alterações resvalavam em concepções que envolvem a educação e principalmente uma educação voltada às sensibilidades e à percepção estética. A educação das sensibilidades exigiria também um cultivo, um aperfeiçoamento.