3.3. Veri Toplama Araçları
3.3.1 Başarı Testi
Vejamos o caso do Centro de Saúde Reprodutiva.42 Uma das profissionais afirma que os princípios da universalidade, eqüidade e integralidade são meras figuras ilustrativas. No discurso dessa instituição a assistência é destinada a homens e mulheres. Contudo, na prática, não se intervém nessa direção, mesmo sendo o CSR um Centro que também atua na qualificação de pessoal43. Assim, as ações desta instituição não estão voltadas para estender a assistência a todas as mulheres, nem tampouco desenvolver um trabalho que contribua para
42 O Programa de Saúde Reprodutiva vem sendo implantado pelas Secretarias de Saúde dos Estados do Rio Grande do Norte e do Ceará com o apoio do FNUAP. É uma nova estratégia de intervenção nesta área que valoriza, sobretudo, as relações de gênero. O RN dispõe de três Centros: Natal , Mossoró e Caicó . Saliente-se que, pela primeira vez, o Estado do Rio Grande do Norte tem um programa específico para o climatério.
43 As profissionais de saúde que atuam no Centro de Saúde Reprodutiva, além da
qualificação que receberem em serviços mais avançados, como o de Ribeirão Preto, onde funciona um Programa de Assistência ao Climatério que é referência nacional, foram, também, qualificadas pelo próprio Centro.
desmistificar a relação dos homens com os serviços de saúde. Na verdade, a prioridade do Centro é a gravidez na adolescência, as DST’s e a AIDS.
A dificuldade de acesso ao atendimento é igual para homens e mulheres. A preocupação é com a gravidez na adolescência e DST”s (...) A mulher tem obrigação de ir uma vez ao ano ao ginecologista. O homem não (...) quando tem um diagnóstico, já vem com um diagnóstico difícil... (S1).
A distância entre o idealizado e o executado fica flagrante nas falas das profissionais. Esta será, como veremos, uma invariante no desenvolvimento da assistência, o que, sem dúvida, é decorrente das contradições do processo de elaboração das políticas públicas no Brasil. Todavia, chamamos a atenção, na fala acima, para a dimensão gênero que perpassa a assistência à saúde
reprodutiva e sexual. Como diz essa profissional, a preocupação do CSR quanto à saúde reprodutiva é pontual: gravidez na adolescência ou DST’s e AIDS. A preocupação com a assistência ao homem, enquanto agente ativo do processo de reprodução, é ainda “mera figura ilustrativa”. O CSR contribui, assim, de modo “sutil” para a reprodução da dominação masculina ajudando a manter a crença de que é a mulher que tem a “obrigação de ir uma vez ao ano ao ginecologista”. Imerso na crença de sua superioridade, o homem é vítima da própria cultura que o exalta e lhe dar maior liberdade: “o homem não (...) quando tem um diagnóstico, já vem com um diagnóstico difícil...”
Se não existe uma preocupação com a saúde do homem, enquanto agente do processo sexual e reprodutivo, tampouco, existe alguma atenção ao homem na fase da “andropausa” (o climatério masculino), tema, aliás, bastante
controvertido na área médica. A este respeito, Kusnetzoff (1999, p. 10) é
bastante enfático: “a maioria dos profissionais não está disposta a admitir que a andropausa existe como fenômeno fisiológico ...[mas] como fenômeno
imaginário ou neurótico”. Segundo o autor, a andropausa não existe enquanto objeto da medicina. Dessa forma, não sendo objeto de estudo dessa ciência, a
população masculina não tem como se manter informada a respeito das mudanças do seu corpo decorrentes dessa fase, não sabe a quem se dirigir quando chegam os “sinais” e os profissionais da área da saúde não conseguem dar à andropausa a sua devida importância. O resultado final dessa realidade é, entre outras coisas, um diagnóstico tardio de câncer de próstata e uma
sobrevida menor.
Quanto à parte educativa desenvolvida pelo CSR, esta apresentava muitas limitações na época da realização do trabalho de campo, posto que o Centro estava em fase de implementação de um novo modelo de assistência. Vejamos os depoimentos:
Não existe uma proposta, uma metodologia para atender às mulheres no climatério (...) A gente não tem uma proposta ainda porque eu me envolvi com outras coisas (S8).
Fomos preparadas para atuar com uma equipe multiprofissional(...) numa assistência integral... com ênfase na parte educativa (S7).
Existe um Programa só que a coisa não está funcionando. Você sabe como é serviço público! (...) Eu estava em São Paulo. Quando voltei fiquei muito empolgada, pensando que ia funcionar como o serviço de lá (...) Aqui foi dito que ia funcionar como o de lá (S9).
Como mostramos no Capítulo III, com a instalação do CSR o Rio Grande do Norte, pela primeira vez, estava tendo um programa especifico para o climatério. Todavia, apesar de ser uma proposta inovadora, particularmente, no tocante à educação à saúde, não havia um projeto pedagógico definido. Segundo os princípios norteadores do CSR, que por sua vez segue os princípios do PAISM, a mulher no climatério precisa ser atendida como um todo, através de palestras informativas, grupos de discussão, espaços para reflexão, a fim de que se possa encarar o climatério como uma fase natural:
Nossa proposta de trabalho é numa linha educativa, de prevenção (...). sala de espera com vídeo, palestras, orientação
medicamentosa (...) porque se enfatiza muito a reposição hormonal (S5)
Entretanto, no momento de por em prática o novo modelo de assistência que prioriza a prevenção e a promoção à saúde, o Centro passa a ser referência para a assistência terciária. Dessa forma, o desabafo, nas falas anteriores, reflete a inquietação de profissionais qualificadas para o serviço, mas que se deparavam com uma realidade bem adversa: a enfermeira que parecia ser o suporte da consulta médica assumia outra função; a assistência, que se
propunha primária passa a ser terciária; não tinha demanda porque os Posto de Saúde não funcionavam a contento; não havia como registrar a mulher no Programa porque o Centro não dispunha de uma Central de Marcação; as poucas mulheres consultadas tinham dificuldade de realizar os exames
laboratoriais, pois o serviço não os oferecia; dispunha-se de um mamógrafo, mas não havia profissional para operá-lo. Vê-se nas falas das profissionais,
colocadas a seguir, como a própria instituição é a primeira a não valorizar o modelo de assistência que ela se propôs a aplicar:
Na prática a Secretaria colocou que teria de ser uma assistência terciária... só com o encaminhamento dos Postos de Saúde! (...) Todo mundo ficou sem saber como ia funcionar (...). Tá ainda meio solto. estamos com um pouco de dificuldade com o Programa (...) Como ainda não tem encaminhamento, nós estamos atendendo sem a triagem... (S7).
(...) o que eu fiquei sabendo é que a Secretaria de Saúde não vai estimular essas palestras (...) antigamente elas substituíam consultas... tinha produtividade para o Centro... se deixar de atender para fazer palestra o Centro fica sem receber... o financeiro (S9)
Ora, uma assistência terciária significa que houve falha no nível primário e secundário da assistência. Esses níveis são organizados de acordo com a tríade ecológica de Leavell-Clark (1978) e significa que um desequilíbrio entre o humano, o agente patogênico e o meio desencadeia um processo patológico. A evolução desse processo pode levar à cura, à morte ou a outros
estados intermediários44
.
Assim justificava-se a inquietação da equipe, pois tornar-se apenas um serviço de prevenção terciária seria do ponto de vista operacional, impraticável. Como trabalhar saúde reprodutiva na perspectiva de gênero sem palestra? Como considerar uma gravidez em uma adolescente como um processo patológico? Como informar, ajudar, estimular a auto-estima de uma mulher que está enfrentando o climatério com dificuldades, apenas prescrevendo hormônio para ela tomar?Como assistência terciária, que eles querem dar, eu reconheço que é bom porque não existe no Estado! Mas, todos nós achamos... é um tanto utópico, sabe por quê? Porque a assistência básica não está funcionando.(...) Tá sendo utópico... as pacientes vêm sem nenhuma assistência básica. A gente vai falar de hormônio, de dieta, de exercício... as mulheres ficam sem entender porque o que elas estão buscando é outra coisa: é um preventivo que há séculos não fazem; é um tratamento de um corrimento que elas estão há séculos e não acham ginecologista.... Então tem sido utópico (S9). Diante dessa orientação institucional, não restava outra saída às profissionais senão procurar “burlar” certas ordens superiores, a fim de não ter o seu saber técnico-científico negado e nem se transformar em simples reprodutoras das políticas oficiais:
(...) Mas eu como médica e... com certeza nós vamos fazer... mas, seria extra. A gente também pensou em, de 15 em 15 dias fazer uma reunião, para discussão de casos, para melhorar a qualidade do ambulatório (...) Tem falado bem alto a questão da produção. Mas a gente, assim, como uma equipe especializada, a gente quer dar mais, a gente quer crescer” (S9).