No contexto de comparação entre o sistema jurídico e econômico, uma nota de similaridade é produzida, pois, recorda-se que um dos grandes problemas do sistema do direito também é encontrado no sistema econômico é que as medidas adotadas para resolver um problema sempre possuem um viés anti- cíclico, ou seja, para combater os problemas a medida que surgem e se acomodar no momento em que o status quo atinge o seu ponto de equilíbrio.
Logo, uma entropia semântica surge, já que a nova semântica serve, justamente, para tentar resolver problemas sem criar margens de manobras, alternativas no texto originário para uma resolução futura, sem uma obsolescência programada daquele texto.
Neste sentido deve ocorrer uma expansão de medidas que tenham uma revolução constante como motor, evitando obsolescência das estruturas do sistema por meio de uma super exposição no tempo, que dá espaço a reviravoltas pragmáticas no campo da interpretação e novas formas de tentativa de escapar ao círculo da linguagem.
Tal expansão deve tomar, apenas, cuidado para que não ocorra uma erosão semântica, como no caso dos princípios jurídicos, já que ela surge pelo uso desmedido das palavras com um alto grau de generalidade, de forma desmedida, desenfreada, perdendo sua mais valia com relação as demais formas/semântica do sistema jurídico.
Retomando, a relação entre direito e economia acontece de múltiplas formas, poliédricas, mas, primariamente ocorre quando produz respostas pressupostas às demandas e interesses da economia, em um processo de segunda ordem sob a forma de hetero-observação.
O direito em sua função de generalização consciente de expectativas (re)conduz os interesses econômicos através de suas próprias operações.
Os conceitos econômicos e suas definições no sistema jurídico divergem entre si, pois a fórmula programática e a codificação destes sistemas são distintas, ambos apresentando línguas arbitrárias e próprias.
Estes processamentos paralelos e estas diferenças e similitudes entre tais sistemas demonstram alguns dos fundamentos dos acoplamentos estruturais entre estes sistemas, permitindo seus, respectivos, fechamentos operativos e aberturas cognitivas.
A aplicação continuada e inesgotável da codificação de cada um destes sistemas e a forma de vinculação e inesgotabilidade, através do impedimento à erosão semântica são o fundamento de ambos os sistemas.
O pagamento em dinheiro é o ápice do desenvolvimento da vinculação e reprodução infinita de comunicações econômicas, fundamento da sociedade econômica complexa e diferenciada.
Ainda, é critério de redundância do sistema econômico e forma de vinculação entre as operações, assim como a validade está para o sistema jurídico e o mecanismo de aplicação de normas gerais e abstratas produzindo individuais e concretas como resultado.
Elucidando, enquanto o direito opera com a validade para a vinculação indiciária de suas comunicações intrincadas, a economia opera com o dinheiro/moeda (enquanto unidade de mensuração do capital/patrimonial) como forma de vinculação indiciária, analogamente.
Neste sentido, a validade e o dinheiro como formas de vinculação entre operações são o fundamento da autopoiesis, pois as estruturas jurídicas e
econômicas podem reproduzir mais estruturas sem perder sua característica originária.
No contexto da decepção da vinculação entre as operações do sistema econômico, há a necessidade de um espelhamento, uma operação paralela e redundante do sistema jurídico para preservar a codificação capital/não-capital do sistema econômico.
Posteriormente, um segundo acoplamento entre o direito e a política permite a aplicação da codificação de terceira ordem política que se refere a codificação jurídica para uma irritação produzida no sistema econômico.
Contextualizando os acoplamentos estruturais entre economia e direito dois são ressaltados, o contrato e a propriedade, recordando que, diversamente de alguns autores, tende-se a enumerar os acoplamentos citados por
Luhmann87 de maneira taxativa quando existentes entre sistemas já enumerados por
este autor em suas diversas obras.
A delimitação entre a existência do código capital e não-capital é dada através de um marco, um conceito, a propriedade, que na forma econômica delimita o ator do programa codificado como capital e, sincronicamente, quais direitos e deveres, na programação jurídica, são lícitos a quem detém tal propriedade.
As funções de cada um destes sistemas na preservação de sua codificação pressupõe, justamente, a reciprocidade da existência da operação sincrônica no outro sistema.
Quando existe uma dissincronia entre eles produz-se mais irritações que potencializam novas tomadas de posição/decisão utilizando as estruturas de cada um dos sistemas.
Finalisticamente, cada sistema opera com seus próprios fundamentos, o direito com a estabilização das expectativas normativas, enquanto a economia com o lucro, mais valia.
Obviamente, a propriedade permite, internamente, a recomposição episódica e específica do tempo de cada um dos sistemas, já que ela é tomada antes e depois de uma dada transação econômica ou de mutações programáticas no direito.
Neste sentido, a propriedade é um dado temporal, que (re)produz estabilidade após a nova revolução, permitindo capacidade de diferenciação entre o proprietário ou não depois e antes de uma transação.
Esta modificação dos estados de coisas no direito e economia de maneira sincrônica externamente, analogicamente, é que permite a diferenciação funcional entre eles.
Esse catalizador da troca da programação e codificação de um dado objeto estático é possível, apenas, através do contrato, em uma codificação lícita.
A propriedade, forma estrutural programática é delimitada pela valoração jurídica, válida ou não válida, lícita ou ilícita, e, sincronicamente pela valoração econômica, capital ou não capital, avaliável através de um sistema de contraposição entre moeda ou bem (material, imaterial, etc.), a exemplo.
A autopoiesis entre estes sistemas é diferenciada, como elucidado pela forma de vinculação de comunicações e o elemento utilizado para a propagação e programação destas comunicações.
Interessante é notar que um dos marcos da propriedade é uma dúplice transferência de capital, a primeira entre particulares e a segunda entre um daqueles particulares e o estado, a tributação.
O contrato, em sua estruturação como acoplamento entre estes dois sistemas permite a validade, demarcação temporal da ligação entre comunicações entre dois sistemas.
O contrato é o início e o fim do lícito/ilícito e do capital/não-capital sincronicamente, é a memória recursiva e o índice de propagação das comunicações cruzadas, inter-seccionadas em ambos os sistemas.
Sem o contrato e suas espécies, juridicamente, seria impossível qualificar e quantificar as trocas e, economicamente, seria impossível possuir um marco que delimite a validade ou não destas trocas, um elemento de recursividade que permita a visualização da estabilidade ou não destas trocas econômicas.
Sem tal rede contratual, a indiferenciação funcional inexistiria, pois sem a pressuposição do direito atuando na estabilização e aferição da validade (no sentido de aceitabilidade ampla e irrestrita do contrato pelos demais sujeitos da sociedade) de um contrato, uma indiferenciação existiria entre direito e economia e a pressuposição recíproca, que permite o fechamento operativo de ambos, estaria prejudicada.
Obviamente, na sociedade pós-moderna, os contratos são cada vez mais desformalizados, porém, os signos de validação e preservação da memória no sistema jurídico e econômico são preservados.
Ainda, os contratos, em seu desenvolvimento nas novas teorias da imprevisão ou problemas interpretativos preservam, de um lado a contingência do direito e, em um segundo lado, a possibilidade de reparação de prejuízos e programações de propósito específico na economia.
Obviamente, neste contexto surge o problema dos danos causados no campo concorrencial, quer seja por práticas internas das empresas como dunping ou como práticas coordenadas entre diversos atores, particulares, no truste, ou públicos e privados, monopólios ou, ainda, produção de condições artificialmente
vantajosas com programas de incentivos governamentais, no campo tributário ou no campo dos financiamentos estatais subsidiados.
A concorrência de maneira irrestrita é um problema que causa assimetria de valoração no sistema econômico, com a eficiência sendo motor do sistema, e no sistema jurídico com a idéia de equilíbrio social.
Esta assimetria valorativa é prevista e necessária, sendo o entrecruzamento entre estas expectativas motor de propulsão de produção de políticas legislativas que coordenem estas valorações díspares, ou seja, a política, no processo de produção legislativa, em uma visão de terceira ordem, produzirá programas para mitigar tais contingências através de um ato singular de decisão.
Estas contingências cruzadas de assimilação das irritações e complexidade do ambiente é que permitem que os acoplamentos estruturais sirvam como elemento de sincronia externa e como motores de equalização, alinhamento entre as expectativas intra-sistêmicas e as expectativas cognitivas, extra-sistêmicas.
Interessante é notar, finalmente, que a partir destes acoplamentos e pressuposição recíproca é que operações sincronizadas entre os sistemas são possíveis e a interação muda entre eles é consolidada, como no exemplo de programações interconectadas ou inter-dependetes, contingenciais entre os sistemas, em que a operação de um pressupõe a espera no processamento da operação do outro sistema.