Em 1964, após o golpe militar, o presidente Castello Branco criou a operação Amazônia, que tinha como objetivo iniciar um modelo de desenvolvimento econômico na região amazônica. Em 1966, o Governo Federal criou a SUDAM (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia) que foi essencial para o fomento de grandes empresas agropecuárias e de latifúndios na região de Barra do Garças. Este marco inicial impulsionou a migração oriunda do centro-sul em direção a Amazônia Legal (NASCIMENTO, 2009). Graças a Sudam, a fronteira agrícola do Vale do Araguaia se estendeu em grandes proporções. O incentivo era dado por meio dos financiamentos governamentais para empresas que queriam ocupar e produzir na região leste do Mato Grosso, focando, principalmente, na atividade pecuária.
“A Sudam continou a existir, a Sudeco também que surgiu no final dos anos 60, que foi mais pra controlar o patrimônio da fundação, só função de fiscalização. Ela era mais burocrática não tinha fundação de fomento a Sudam tinha fomento e você apresentava a terra como garantia, se você não pagasse eles tomavam a terra, então pegava-se muito dinheiro e graças ao projeto Sudam vieram pra cá empresário um pessoal que investiu na criação de gado. O interessante é que esse projeto Sudam investiu tanto dinheiro aqui era tanto dinheiro, que o Aeroporto de Aragarças chegou a ter o segundo maior movimento do Brasil de pousos e decolagens de aviões, então a gente tinha mais de 100 aviões, então era uma potência, cada Fazenda tinha 2ou 3 aviões e era muito dinheiro investido. O cara dava alguma coisa de garantia porque praticamente não precisava pagar, não tinha política ambientalista então desmataram todo o cerrado” (Entrevista 34, 41 anos, sexo masculino, Bahia).
A Sudam chegou a financiar a compra de 8,4 milhões de hectares de terras em toda a Amazônia, sendo a região banhada pelos rios Xingu e Araguaia uma das principais regiões beneficiadas. A fazenda mais famosa foi a Suiá-Missú, que entre os anos de 1966 a 1976 recebeu 30 milhões de dólares e chegou a ter 560.000 hectares
(SANCHES; GASPARINI, 2000). A fazenda se destacou não somente pela sua grande extensão de terras, mas pelo processo de redes que a envolveu.
“Araçatuba no interior de São Paulo é uma cidade de pecuária que na época lá era conhecido como a capital do Boi Gordo, então fazendeiros o César Vilela, o Mineiro já tinham vindo pra cá comprar fazenda eram os maiores pecuaristas de Araçatuba, então eles já tinham vindo pra cá comprar fazenda e lá em Araçatuba tinha uma fazenda que era da igreja católica e esse pessoal tinha requerido as Terras do governo no Mato Grosso e montou a fazenda Suiá Missu, hoje no município de Alto Boa Vista, que antes era tudo município de Barra do Garças. Aqui chegou a ser o maior município do mundo. E aí vieram esses grandes pecuaristas, com essas empresas, então a região ficou conhecida como uma região que tinha cerrado pra colocar gado, então tinha já frigorífico instalado na região, a empresa Sudanisa que era uma empresa da Sadia e montou um frigorífico aqui na Barra do Garças. Então os pecuaristas começaram a vir aqui pra essa região do Vale do Araguaia e do Xingu. A gente ficou conhecendo a região pelo senhor Ferdinando que veio em 1951 pra cá, que era de Araçatuba também e aí o pessoal veio vindo e foi assim que começou o desbravamento da região e veio gente de todo lugar, dos outros estados os mineiros, os paulistas, os paranaenses e aí começou a desbravar o estado, a abrir, ajustar o estado” (Entrevista 30, 54 anos, sexo masculino, São Paulo).
A criação da fazenda em 1960 pela família paulista de origem italiana de Hermínio Ometto caracterizou a época de expansão dos paulistas no leste Mato- grossense. Esta expansão ocorreu em território indígena, da etnia Marãiwatsédé, pertencente ao povo Xavante. A área da fazenda era considerada ilegal. Entretanto, devido ao grande interesse do governo em ocupar e anexar o Mato Grosso na economia os interesses indígenas não foram considerados e no ano de 1966 graças ao pedido de Ometto junto ao Serviço de Proteção ao índio (SPI) e igreja católica os Xavantes foram retirados do território para que os projetos da Suiá-Missú fossem executados (ROSA, 2013). A retirada dos indígenas foi realizada através dos aviões da FAB (Força Aérea Brasileira). Os indígenas contam que foram obrigados e ameaçados a sair das terras. O governo diz que foi um processo de negociação em que todos foram de livre vontade. Assim sendo, foram levados aproximadamente 286 Xavantes para a Missão Salesiana de São Marcos, próximo ao município de Barra do Garças. Com a mudança e o contato com os brancos, houve uma grande epidemia de sarampo (DELUCI; PORTELA, 2013).
Após alguns conflitos internos e o quase extermínio da população Xavante, em 1992 começou o processo de restituição da terra e de demarcação das terras indígenas. O reconhecimento das terras indígenas afirmou-se através do relatório de identificação da área indígena Marãiwatsédé. Porém, a demora na demarcação das terras indígenas,
ocorrida somente em 1998 fez com que a área fosse invadida por posseiros, movimentos sem-terra, militantes, grileiros e fazendeiros incentivados por lideranças locais, o que ocasionou um grande conflito interno no processo de retomada de posse. Pois, nesta área já havia muitas famílias que possuíam a posse da terra e tiveram que se retirar (DELUCI; PORTELA, 2013). Durante a entrevista quando questionado sobre os conflitos da região o entrevistado 30 relata a expulsão das famílias que se instalaram na fazenda Suiá-Missú:
“Um outro problema que teve na região do Posto da Mata onde era um pedaço da propriedade da Suiá Missu que a empresa fechou e fez um acordo com os posseiros pra entrar lá naquela região e até que eles formaram uma cidade pequena nessa região, mas ai a Funai estava sempre requerendo processo na justiça federal dizendo que aquela área era indígena e um pedaço da propriedade realmente era área indígena, só que quando a Suiá Missu veio para essa região aí eles tiraram os índios de lá, trouxeram aqui pra Matinha em Ribeirão Cascalheira, deram comida e tudo mais. Então quando a fazenda Suiá Missu parou e a Funai ressuscitou o processo novamente e começou a brigar pra tirar o fazendeiros, porque a Suiá Missu era uma fazenda de mais ou menos 300 mil hectares só de pecuária. Então eles lotearam a fazenda e começaram a vender aos poucos e aí a Funai entrou na justiça e foi brigando e conseguiu recuperar área que era da reserva indígena. Então conseguiram recuperar área de volta, aí os fazendeiros que compraram fazenda lá perderam tudo, hoje você passa lá e vê aquele mundo velho de terra abandonado. Aquela Vila que tinha na região do Posto da Mata houve um conflito grande lá, entrou polícia no meio, os posseiros e os policiais tiraram todo mundo de lá e desmancharam a cidadezinha à força, a posse era dada pelo Governo Federal, então foi uma cena triste lá porque todo mundo estava instalado, tinha parque, tinha casa, tinha hotel, tinha restaurante era uma cidade pequena e aí com a reintegração de posse para os índios foram passando com máquina derrubando tudo, quebrando tudo e hoje está abandonado é além do alô Brasil 60 quilômetros pra quem vai pra São Félix do Araguaia” (Entrevista 30, 54 anos, sexo masculino, São Paulo).
A criação da fazenda Suiá-Missú marcou a chegada da leva de migrantes provenientes, principalmente, de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Muitos fazendeiros destes estados compravam terras na região e posteriormente vendiam para seus conterrâneos. Assim, foram formando-se colônias de paulistas, mineiros e goianos em Barra do Garças como relata a entrevista:
“essas famílias paulistas ficaram juntas porque o dono do terreno era de lá, o senhor Zico Braga o dono da área ele tinha 14500 alqueires de chão aqui e ai ele foi colonizando colocou o corretor pra vender, fazia uma caravana lá de vez em quando e trazia as pessoas pra ver, como ele sabia que o povo lá em São Paulo é diferente, porque lá não é na beira de córrego é mais no espigão, então quando o cara chegava aqui e via aquele mato bonito na beira do córrego ele ficava animado, pensava nossa essa terra aqui é boa
demais, mas não ia nem longe pra ver, então todo mundo comprava” (Entrevista 9, 69 anos, sexo masculino, São Paulo).
Após a vinda dos paulistas, goianos e de mineiros, Barra do Garças entra na a sua terceira fase de colonização: a criação da cooperativa gaúcha Coopercana, que trouxe muitas famílias agricultoras do Rio Grande do Sul, principalmente, da cidade de Tenente Portela.