O trabalho com a memória dos idosos buscou colher as narrativas relativas a sua vinda para o Mato Grosso, bem como os relatos acerca das dificuldades que passaram em suas terras natais e as motivações para deixá-las. Os relatos seguiam uma certa estrutura temporal, passando em seguida para o processo de mudança para o novo território, com os relatos relativos aos medos, as ambições e as expectativas dessa transição. Depois as narrativas seguiam com os relatos acerca das dificuldades que enfrentaram. Bosi (1987) em seu livro “Memórias de velhos”, relata sua experiência ao entrevistar idosos imigrantes italianos da cidade de São Paulo durante a Revolução Constitucionalista de 1932.
Para Bosi (1987) a memória funciona como uma reserva infinita que cresce a cada momento da vida, sendo formada através das experiências vividas ao longo da vida. A memória dos indivíduos depende também das suas relações sociais como a família, a escola, a igreja, a profissão, enfim, com todos os grupos que envolvem a vida social do sujeito. Portanto, ela está diretamente relacionada com a memória de grupo, as suas tradições, a cultura, as ideologias e a memória coletiva de cada sociedade. A narração da sua própria vida é a essência pura da sua memória. “A memória funciona como uma sucessão de etapas, de pontos ou marcos onde o significado da vida se concentra” (BOSI, 1987, p. 337).
Assim, quando um grupo social trabalha sempre em conjunto, existe uma tendência de criar correntes de narração e interpretação dos fatos, constituindo o que
Bosi chama de “universos de significado” que fornecem o material para a versão da história, que se constrói e se consagra a partir do ponto de vista do grupo e acaba eternizado na sua história de vida (BOSI, 1987). Para Halbwachs in Bosi (1987), até a memória individual é um ponto de vista coletivo já que “pertencer a novos grupos nos faz evocar lembranças significativas para este presente e sob a luz explicativa que convém à ação atual” (p. 335).
O grupo no qual nos identificamos representa o suporte da memória e por isso acaba-se fazendo uma junção entre a memória do passado pessoal e a do grupo como um todo. Sendo assim, a memória grupal é constituída pelas memórias individuais, dado que a mente humana tem a tendência de remodelar toda as experiências vividas em categorias claras, coesas e com utilidade para o presente. Face ao exposto destaca-se que a memória individual ainda é mais fiel do que a social, uma vez que esta não sofre distorções, limitações ou a perca da percepção original individual, a memória grupal pode conter preconceitos e tendências de um grupo que pode entrar em confronto com as histórias individuais.
Bosi (1987) afirma que, na memória dos velhos é possível verificar histórias sociais mais bem desenvolvidas pois “elas já atravessaram um determinado tipo de sociedade, com características bem marcadas e conhecidas, já viveram quadros de referência familiar e cultural igualmente reconhecíveis” (BOSI, 1987, p. 22). Por conseguinte, a memória de um idoso é bem mais definida do que de pessoas na adolescência ou na vida adulta, a memória do velho é tradução pura do seu passado. Halbwachs in Bosi (1987) ressalta que o velho se interessa muito mais pelo passado, isto se deve a sua função social na fase idosa, pois, uma pessoa de idade já não é um membro ativo da sociedade e por isso a sua função é de lembrar. O desejo de lembrar resulta no modo de construir o seu presente. Bosi (1987) explica que, a memória dos velhos transmite um mundo social vasto de riquezas e uma diversidade que não dimensionamos, a sua narrativa é sempre composta por experiências profundas, uma mescla de nostalgia, revolta, resignação por mudanças e desaparição dos entes amados, ela representa a riqueza dos conhecimentos que podem ser repassados a gerações futuras e quando isto não ocorre é uma grande perda para o presente.
Nesta pesquisa destacou-se em vários tópicos o papel das redes das relações sociais nos processos de formação territorial que envolveram o Araguaia, como nas migrações, o capital social e nestes o papel da família no deslocamento e ambientação no novo território. Como citado anteriormente, as entrevistas coletadas também foram compostas de filhos de migrantes que ouviam as histórias de seus familiares sobre o processo de transição entre a cidade natal para Barra do Garças e sua adaptação. À vista disso, Bosi também destaca o papel da família na formulação das memórias das pessoas envolvidas no seu ciclo de convivência como os filhos, pois todos os acontecimentos externos chegam até os jovens filtrados e interpretados pelos parentes. Dentro do espaço familiar existe uma força de coesão muito forte, pois é neste espaço que o indivíduo é destinado, ou seja, os laços familiares são irreversíveis. Apesar da sua falta de flexibilidade são nas relações de parentesco onde a personalidade dos indivíduos é mais valorizada. A autora ainda cita que, na constituição da memória familiar depende do contato entre outros grupos, como a sua vizinhança, uma vez que essas pessoas fizeram parte de sua história, portanto, das suas memórias.
Rousso (2002) assim como Bosi acredita que a memória está estritamente ligada a uma representação seletiva do passado, que não se limita as recordações individuais mas também das relações sociais do qual o indivíduo fez parte. Por isso, as memórias são elementos essenciais na (trans)formação das identidades, dentro de contextos sociais que um indivíduo conviveu durante a vida, que se traduzirão nas suas experiências de vida, sendo assim, essas experiências serão compartilhadas por meio das memórias e estas por meios das narrativas, que terão influências de pessoas externas e isto influenciará na formação da identidade pessoal de um sujeito.
Pollak (1992) explica que na construção de identidade de um sujeito existem três elementos. O primeiro seria a unidade física, o sentimento de ter fronteiras (no corpo) ou fronteiras de pertencimento a um grupo. O segundo é de continuidade dentro do tempo, no sentido físico da palavra, moral e psicológico. O terceiro o sentimento de coerência onde os elementos do qual consistem um indivíduo são efetivamente unificados e portanto, a partir destes três elementos deve-se considerar que caso houver o rompimento do sentimento de unidade ou continuidade é possível observar fenômenos patológicos.
A partir daí, pode-se dizer que a memória é um elemento que constitui o sentimento de identidade (individual ou coletivo), assim como ela é também um fator muito importante no que se refere ao sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo. O autor traz uma reflexão importante para a pesquisa no que se refere a construção de identidades coletivas e o sentido de pertencimento, permitindo uma reflexão para a formação de territorialidades, pois segundo ele:
Ninguém pode construir uma auto-imagem isenta de mudança, de negociação, de transformação em função dos outros. A construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, e que se faz por meio da negociação direta com outros. Vale dizer que memória e identidade podem perfeitamente ser negociadas, e não são fenômenos que devam ser compreendidos como essências de uma pessoa ou de um grupo (POLLACK, 1992, p.5).
Deste modo conclui-se que, a memória é uma fonte rica de informações dado que, faz parte da história individual e coletiva dos sujeitos, assim como influência no processo de formação de identidades. Em destaque a memória de velhos que contém uma riqueza maior de informações devido ao acúmulo das suas experiências de vida. Ainda mais porque nesta fase nostálgica da vida, a pessoa idosa sente a necessidade e uma grande disposição de compartilhar essas histórias de vida com as gerações mais novas. Além disso, ressalta-se que a história contata pelos filhos dos migrantes não compromete os resultados da pesquisa, pois estas memórias têm toda a influência de seus pais.