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TERRITÓRIO PARAENSE.

A segunda metade do Século XX desencadeou uma corrida por minério na Amazônia. Pará (2013) e Silva (2012) consignam que, entre 1953 a 1959, que após

diversas frentes foi descoberto ouro na região do Tapajós causando uma explosão garimpeira. Em razão da sua significância, este pode ser considerado mais um evento de leva migratória que robusteceu a ocupação da Amazônia além daqueles propostos por Treccani (2001).

Contudo, as incursões para as pesquisas patrocinadas exclusivamente pelo capital privado preponderaram até a década de 1960, quando daí por diante se inicia a participação estatal-militar para financiar a prospecção e a exploração de minerais.

A febre pelos metais e o enriquecimento vertiginoso provocou a vinda de muitos facilitada pela abertura das rodovias, o que não elidia as severas dificuldades de adaptação. Somou-se a este exército de brasileiros de todas as regiões do país os colonos que não conseguiram se beneficiar na distribuição de lotes de terras ou que, mesmo tendo-as recebido, viam uma oportunidade excepcional de enriquecer100 e escapar daquele inferno verde101.

Principalmente entre as décadas de 70 e 80, os homens buscaram áreas para minerar atraídos pela alta demanda do mercado pela cassiterita com ocorrências em Rondônia (SILVA, 2012) e na região de São Félix do Xingu-PA, e a alucinada corrida do ouro nas regiões do Tapajós-PA e da Serra Pelada-PA (SCHMINK e WOOD, 2012), em concorrência com empresas mineradoras que detinham legalmente os direitos minerários de prioridade para exploração das jazidas, visto que requeridas as áreas nos termos do Código Minerário de 1967.

Tudo isso provocou uma nova dinâmica na região, em particular no Sul do Pará, visto que a febril busca por minérios promoveu o aumento da população da fronteira e alterou a sua distribuição espacial.

A economia local também teve o seu boom, gerou empregos diretos e indiretos, fazendo com que os garimpeiros demandassem por bens e serviços de cada centro urbano próximo aos garimpos que eclodiam embrenhados na floresta. Diante desse cenário de apoderamento econômico, o próprio sistema bancário dispensou tratamento atencioso diante de tanta riqueza circulando (SCHMINK e WOOD, 2012)102.

100 Segundo Procópio Filho apud SCHMINK e WOOD (2012, p. 135): ―O dinheiro ganho em três dias de garimpagem podia ser maior do que aquele proveniente de um mês de trabalho na agricultura‖.

101 Éleres (2002) utiliza a expressão de inferno verde como uma figura de linguagem para demonstrar o grau de dificuldades enfrentadas por todos que aqui vieram na crença de encontrar o el dourado fundiário.

102 Os autores Schmink e Wood (2012, p.82) trazem o exemplo de Serra Pelada: ―Serra Pelada – cuja extensão não passava de meio quilômetro quadrado – estava estreitamente ligada às economias das cidades vizinhas de Marabá, Imperatriz e Araguaína. Esses municípios beneficiavam-se do aumento da receita dos impostos arrecadados com a mineração.‖

Em paralelo ao ouro, a cassiterita também assumiu papel relevante na Amazônia. Além da região de Ariquemes-RO, o Município de São Félix do Xingu-PA ganhou destaque ao ter por volta de 1986 o maior número de concessões de mineração do que qualquer outro lugar do Pará, sendo em sua maioria para aquela substância estanífera (SCHMINK e WOOD, 2012).

As investidas da estatal Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e das suas subsidiárias também se mostraram presentes, demonstrando a razão de ser da federalização pelo Decreto-Lei nº 1.164/71 enquanto estratégia imprescindível para o controle das terras e os recursos minerais coincidentes.

Os exemplos da chamada militarização das áreas de mineração (SCHMINK e WOOD, 2012, p. 134) são inúmeros destacando-se: a criação da Província Minerária de Carajás e a Floresta Nacional de Carajás concedida para uso da CVRD; a arrecadação da área de Serra Pelada de titularidade da mesma mineradora, embora a tensão social tenha sido tamanha com os garimpeiros que, mesmo com o apoio militar, não foi possível retirá-los103; a arrecadação da área do

Distrito da Taboca, no município de São Félix do Xingu, onde foram concedidos títulos minerários também a CVRD para exploração da cassiterita.

Quanto ao acesso às terras necessárias à exploração minerária, a valorização mercadológica dessas commodities resultava no estado de ameaça de invasão de áreas de colonos, caboclos e índios por empresas mineradoras e garimpeiros. A resistência ao desapossamento ensejava, por sua vez, em exacerbada violência e assassinatos.

Como resumo a todos os apontamentos feitos sobre a relação entre a estrutura fundiária e a ocupação do solo e do subsolo, é pertinente inspirar-se nas observações de Mascarenhas e Antunes (1994) que, embora tenham estudado o caso do município de Itaituba-PA (região do Tapajós), suas conclusões encontram identidade a todos aqueles que, direta ou indiretamente, desenvolvem ou pretendem desenvolver atividade mineira no Estado do Pará. São elas:

a) que a aguda complexidade da estrutura fundiária dificulta – e pode até inviabilizar – tanto a atividade minerária quanto outras atividades concorrentes, como a agropecuária, independentemente do porte;

103 Schmink e Wood (2012) constataram que, em 1980, os militares tiveram um novo desafio em virtude da descoberta de depósitos de ouro no sul do Pará. A corrida pelo metal resultou em uma nova leva de migrantes para Amazônia, transformando a economia da região. Estabelecia-se, assim, uma nova forma de violência, desta vez envolvendo garimpeiros, índios, camponeses e empresas mineradoras, como é o caso de Serra Pelada em que a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) – mesmo com o apoio militar – não conseguiu retirar os garimpeiros.

b) há desorientação e desconhecimento dos antigos ocupantes quanto à

necessidade de regularização de suas posses, sendo raríssimos os títulos definitivos. A maioria dos documentos que dispõe das suas terras não tem força constitutiva de domínio privado do imóvel, tais como certidões vintenárias do registro de imóveis, escrituras públicas de compra e venda, contratos particulares de compra e venda, Licença de Ocupação, Autorização de Ocupação. Além disso, não sabem a quem recorrer e como proceder;

c) inoperância dos órgãos fundiários para iniciar, realizar procedimentos de

demarcação, delimitação, vistoria e fiscalização nos imóveis rurais, e concluir o processo de regularização fundiária;

d) falta de apoio administrativo, técnico e de infraestrutura para os

trabalhadores rurais, garimpeiros e ex-garimpeiros desprovidos de terras, o que agrava a tensão social;

e) conflitos entre donos de garimpo e donos de áreas já ocupadas,

utilizando-se, para tanto, de apossamentos ilegítimos e da grilagem.

Para demonstrar o estado de tensão por espaço, Mirad apud Schmink e Wood (2012, pp. 380-381) empresta o seguinte caso:

―Em meados dos anos 80, algumas empresas também buscaram direitos sobre a terra, nas áreas que conduziam operações de mineração em São Félix do Xingu. Esperg, um dos pequenos compradores de estanho tinha comprado um seringal de dezenove lotes, ou cerca de 57 mil hectares. A empresa também tinha fazendas em Goiás. Mamoré tinha desmatado

aproximadamente dezessete hectares para plantar pasto e cultivos agrícolas, e buscava o título de posse. A empresa tinha procurado o Getat para verificar a possibilidade de construir uma estrada para São Félix,

em troca do título de terra em um lado da estrada. O órgão não se

interessou pela proposta. Essas posses de terra eram, às vezes, causa do envolvimento de mineradoras em disputas por terra. Em 1985, um

grupo de posseiros em São Félix acusou a Comipa de fazer ameaças, destruir propriedade e invadir seus lotes. (grifo nosso)

De acordo com o DNPM (2013), os mais diversos requerimentos minerários, demonstram interesses – seja para fins especulativos de reserva de mercado/patrimonial, seja para efetiva produção – sobre 46,5% do território paraense, o que corresponde a uma área de 58.258.880 hectares, conforme discriminado no quadro a seguir.

Regime de Exploração Área do solo e de ocupação do subsolo do Pará (ha) Percentual de ocupação solo e subsolo

Solicitação de Pesquisa 37.816.931 23,5

Autorização de Pesquisa – Alvará 13.665.538 64,9

Requerimento de Lavra 610.422 1,0 Portaria de Lavra 933.397 1,6 Disponibilidade 3.531.888 6,1 Requerimento de Licenciamento 9.750 0,0 Registro de Licenciamento 12.087 0,0 Requerimento de Extração 25 0,0 Registro de Extração 99 0,0 Requerimento de PLG104 1.584.845 2,7 Autorização de PLG 93.893 0,2 TOTAL 58.258.880 46,5%

Tabela 6 – Relação Títulos Minerários x Tamanho da Área do Título Minerário x Percentual de Ocupação do

Solo/Superfície. Fonte: DNPM (2013)

A disposição espacial dos títulos minerários no território paraense pode ser visualizado no mapa adiante exposto:

Imagem 4 – Mapa ilustrativo da quantidade e da localização dos títulos minerários no território do Estado do

Pará. Fonte: DNPM (2013).

Já a relação fundiária entre os títulos minerários e o ordenamento da superfície, tais como glebas de terras públicas, áreas militares, unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas, e assentamentos rurais, o mapa abaixo serve para ilustrar a dimensão das sobreposições que podem se traduzir em potenciais conflitos pelo uso e ocupação do solo.

Imagem 5 – Mapa ilustrativo da relação de sobreposição entre áreas dos Títulos Minerários x áreas da

superfície. Fonte: Pará (2014)/DNPM (2013).

Por tudo exposto, isso significa que, até nos dias atuais, a descoberta de riquezas minerais em áreas onde o superficiário, ocupante ou proprietário do solo não é minerador, bem como para aquele que compra uma área para minerar, não significa, na expressão de Enríquez (2008a), necessariamente uma ―dádiva‖ e sim uma ―maldição‖. Principalmente diante da pressão econômica sobre a Amazônia diante de um novo aquecimento do mercado das commodities minerais.

CAPÍTULO 4 – A PROPRIEDADE MINERÁRIA E A PROPRIEDADE DO SOLO E OS

Benzer Belgeler