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3.2. Araştırmanın Amacı ve Önemi

3.2.3. Değişkenlerin Belirlenmesi Süreci ve Değişkenlerin Tanımı

3.2.3.2. Bağımsız Değişkenler

O interesse por conhecer “os mundos” do trabalho do PFP-E/LE remete obrigatoriamente o pesquisador da área da Lingüística ao campo das Ciências do Trabalho e dos conceitos que embasam suas teorias antes mesmo de recorrer à sua disciplina de origem. Estabelece-se um diálogo entre distintas disciplinas para a compreensão da atividade de trabalho. Nesse percurso, as leituras iniciais desvelam rapidamente uma perplexidade: “A questão resume- se a: quem pode definir o que é uma situação de trabalho? Ou, melhor ainda, um ‘meio’ de trabalho?” (SCHWARTZ, 1998, p. 4).

79 Segundo Schwartz e Durrive (2007a), a perspectiva ergológica nasce no início dos anos 1980 a partir de pesquisas de uma equipe universitária pluridisciplinar, movida pelas reflexões do filósofo francês Yves Schwartz, que se debruça sobre questões relacionadas ao trabalho, imbuída do desejo de conhecer esse trabalho que se modifica e que modifica os trabalhadores. Tal equipe, integrada também pelo lingüista Daniel Faïta e pelo sociólogo Bernard Vuillon, forma o “APST” (Análise Pluridisciplinar das Situações de Trabalho), no seio da Universidade de Provence, e, mais tarde, em 1999, o Departamento de Ergologia – APST. Desenvolve-se, dessa forma, um modo de encaminhamento para discutir a atividade humana de trabalho: a Ergologia.

Sob essa perspectiva, a abordagem sobre o trabalho e, consequentemente, sobre uma atividade específica humana, requer um diálogo constante entre protagonistas do trabalho e pesquisadores de distintas áreas em todas as esferas da sociedade. Assim, volta-se o olhar para pensar as mudanças no trabalho por meio do diálogo entre os conceitos e os saberes da experiência e toma-se como objeto a conceitualização do trabalho do outro (SCHWARTZ, 1997).

A Ergologia tem dois pontos importantes para seu surgimento: os conceitos da Ergonomia situada, particularmente os de trabalho prescrito e real, e a noção de Comunidade Científica Ampliada, desenvolvida por Ivar Oddone (BARRETO, 2005).

O conceito de Comunidade Científica Ampliada propõe um intercâmbio entre o conhecimento informal dos trabalhadores e o formal dos pesquisadores. Oddone integra um grupo de pessoas oriundas de distintos campos – cientistas, operários, estudantes, trabalhadores e sindicalistas – reunidas na

80 Bolsa de Trabalho de Turim que desenvolve uma concepção de pesquisa que tem como objetivo reunir esses saberes oriundos de variadas experiências (FREITAS, 2010). Assim, organizam-se as comunidades científicas ampliadas em torno da produção de saberes acerca do trabalho.

A Ergologia amplia esse conceito de Comunidade Científica Ampliada, de Oddone, ao colocar os trabalhadores no centro da produção de saberes sobre o trabalho, fundamentando-se na negociação entre saberes, atividades e valores:

Para compreender o trabalho, os saberes disciplinares são necessários, mas é com aqueles que trabalham que se validará conjuntamente o que podemos dizer da situação que eles vivem. (...) Estes conceitos me oferecem elementos de abordagem, mas é preciso que eu dê esses conceitos, essas competências disciplinares que descrevem situações, como alimento – se é que posso dizer isso – às pessoas que os vivem, para que em conjunto se possa testar o grau relativo de validade, de pertinência deles. É esta a perspectiva. (...) é preciso ver como retificar e reaprender nessa espécie de vaivém entre a experiência e os conceitos, reaprender o que são as mudanças reais. (SCHWARTZ, 2007a, p. 36)

Nesse sentido, conforme Schwartz (2007a), é importante destacar a proposição do dispositivo de três pólos: o primeiro é o pólo das disciplinas acadêmicas, com seus métodos, conceitos e formulações; o segundo é o do conhecimento produzido pela experiência dos trabalhadores que constroem saberes investidos nas ações e respostas às prescrições. O terceiro e último pólo é o da disciplina ergológica, com suas exigências éticas e epistemológicas no que diz respeito à análise da atividade de trabalho.

Schwartz destaca que

este modo de encaminhamento de produção de conhecimentos não pode, por definição, se estabilizar, pois ele nasceu e se prolonga em um desconforto intelectual permanente, que o conduz a multiplicar os dispositivos e os encontros próprios a

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interpelar e fazer retrabalhar tal modo de encaminhamento. (SCHWARTZ, 2007a, p 22)

De acordo com o autor, o trabalho é um tema cuja abordagem deve estar preparada para enfrentar muitos “enigmas” e “paradoxos”. Existe, portanto, uma dificuldade inicial para se definir situação de trabalho ou meio

de trabalho. Neste estudo o objetivo principal é a criação de um espaço

dialógico em que o tema central de discussão é o trabalho do PFP-E/LE e, consequentemente, uma definição de situação de trabalho faz-se necessária. Para Schwartz (2007a), o trabalho é uma forma de atividade historicamente específica dentro de algo mais geral que é a atividade humana. É possível, segundo o autor, encontrar no domínio do trabalho

áreas de interesse, imersões diferentes na realidade industriosa e histórico-social que suscitam e requerem por parte dos protagonistas "usos de si" em parte comuns, em parte diferentes (SCHWARTZ, 1998, p. 4).

O conceito de usos de si se refere ao fato de que o trabalhador não é aquele que simplesmente executa as tarefas impostas por seu empregador46, conforme pressupõe o modelo de organização taylorista-fordista do trabalho47, que simplifica as relações de produção, fazendo imperar o pensamento de maior produção/menor esforço.

Ter evidenciado esse descompasso nos regimes taylorianos de obediência estrita certamente teve um valor demonstrativo particularmente forte: por uma espécie de raciocínio a fortiori,

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De acordo com Schwartz (2007a, p. 28), entende-se como necessário o fim de uma visão do trabalho como um uso da atividade humana “em que se tenta pré-determinar o mais exaustivamente e o mais precisamente possível a atividade dos homens e das mulheres, de modo que eles não tenham muito que pensar no uso de si-próprios em uma situação de trabalho, por exemplo, na linha de montagem.”

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Daher e Sant’Anna (2005) afirmam que “tradicionalmente, as análises sobre o trabalho voltavam-se para os sistemas de produção e o lugar do trabalhador no processo produtivo”. As autoras ressaltam que se destacam entre essas análises as dedicadas ao estudo do

taylorismo, do fordismo e do toyotismo. Uma apresentação mais abrangente sobre o tema pode

ser encontrada em “A formação do professor de E/LE: a construção de um coletivo profissional” (DAHER; SANT’ANNA, 2005, p.9)

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significava mostrar, ao investigar o infinitamente pequeno, que até nos regimes de produção mais rigorosos, nos quais, aparentemente, nenhum espaço sobrava, por princípio, para a variabilidade das circunstâncias e a engenhosidade inventiva, brotavam gestões individualizadas ou microcoletivas de procedimentos [...] (SCHWARTZ, 2002b, p.133).

De acordo com a concepção ergológica, há dois segmentos relativos ao trabalho: um primeiro em que se encaixam aqueles que o determinam, indicando o que se deve fazer e outro que engloba os que executam as tarefas determinadas.

Dito de outra maneira, é na distância – e no porque desta distância – entre os projetos do taylorismo e as realidades concretas, nas fábricas onde ele foi iniciado e experimentado que, creio, vai-se encontrar o que chamamos de atividade. Esta é uma aposta muito importante, um tipo de raciocínio a fortiori. Se, mesmo no caso da organização do trabalho dita científica (e a expressão científica é importante, registra que se trata de algo totalmente pensado, predeterminado), se mesmo neste caso existe algo que escapa à predeterminação, à antecipação da atividade, então de uma certa maneira trata-se de algo que deve escapar sempre e por todo lugar. (SCHWART, 2007b, p. 39, grifo do autor)

Se parece hoje inequívoca a idéia de que o trabalhador faz uso de si quando trabalha, no sentido de que coloca em movimento seu corpo, sua história pessoal e coletiva, o conjunto de valores com os quais orienta suas ações em sociedade, não sendo, destarte, aquele que apenas “executa” as tarefas impostas por seu empregador, ela foi construída ao longo do tempo, principalmente a partir da Ergonomia da Atividade48 e da Ergologia.

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Segundo Barreto (2005), o termo Ergonomia surge em 1857, quando o polonês Wojciech Jarstembowsky o define como uma ciência do trabalho que possibilita a compreensão da atividade humana no que se refere ao esforço, pensamento, relacionamento e dedicação (VIDAL, 2000). Surge como disciplina no pós-guerra, na Inglaterra, visando a projetar produtos e postos de trabalho, utilizando-se, para isso, de pesquisas realizadas em laboratório. Na França, a atenção estava dirigida a uma análise ergonômica em situação real de trabalho, denominada Análise Ergonômica do Trabalho (AET) ou Ergonomia Situada. Essa concepção foi oficializada por Wisner em 1966 (VIDAL, 2000). O Grupo de Ergonomia e Novas Tecnologias, do Instituto Alberto Luís Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, GENTE, (2005) define a AET como uma

83 A atenção do homem para sua relação com o trabalho é antiga e vem se desenvolvendo desde diferentes perspectivas que se propõem a entender o que é a atividade de trabalho. Os estudos sobre o trabalho receberam contribuições valiosas dos conceitos de trabalho prescrito e trabalho real, permitindo um novo olhar sobre a atividade humana de trabalho.

A Ergonomia apresenta esse conceito de trabalho prescrito evidenciando, por meio da análise do trabalho real, a distância existente entre o que se orienta que seja feito e o que se concretiza no trabalho; o real não corresponde exatamente ao esperado. Esperar que o indivíduo se restrinja aos modelos de procedimentos é “contribuir à tentativa de bloquear a história, de bloquear as ‘reservas de alternativa’ imanentes à toda situação humana de atividade.” (SCHWARTZ, 2002a). A tarefa, portanto, é o prescrito, o que serve como norma do que se espera que seja feito; a atividade, “o trabalho real dos homens”, a realização da tarefa.

Segundo Schwartz (2002b), em toda atividade de trabalho, até mesmo naquela em que os procedimentos são extremamente rigorosos e repetitivos, ocorre essa distância entre o prescrito – o que se espera que o indivíduo faça – e o real – o que, de fato, é realizado.

Considerando, a partir desses conceitos, a impossibilidade de conceber a atividade como um simples ato de execução do prescrito, Schwartz (2002b) propõe uma expansão dessa compreensão para um espaço de debate de

normas antecedentes e renormatizações, idealizando a Ergologia49, cujos

princípios são expostos a seguir.

“modelagem operante do trabalho através da integração da observação do comportamento e o entendimento das condutas das pessoas em situação real de trabalho”.

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A abordagem do trabalho como atividade humana desenvolvida pelo Departamento de Ergologia da Universidade de Provence na França é uma maneira epistemologicamente

84 Segundo Schwartz (1997), a Ergologia não deve ser considerada uma nova disciplina científica, mas uma disciplina do pensar, pois é um conjunto de normas de produção de saberes a respeito da atividade humana que, no caso específico desta tese, contribui para pensar o trabalho do PFP-E/LE a partir de suas falas, levando-se em conta a experiência de trabalho dos próprios trabalhadores: “a Ergologia conforma o projeto de melhor conhecer e, sobretudo, de melhor intervir sobre as situações de trabalho, para transformá- las” (SCHWARTZ, 2007a, p. 27). Não se restringe, portanto, ao domínio privado de nenhuma disciplina, o que lhe permite dialogar com distintas ciências que estudam a atividade humana.

Partindo dos conceitos teóricos da Ergonomia Situada50, Schwartz (1997) propõe uma abordagem ergológica que nasce do esforço por produzir conhecimento sobre o trabalho, estabelecendo um diálogo entre as disciplinas científicas e as atividades industriosas. De acordo com o filósofo, uma das bases desse olhar ergológico

é a constatação de que somos sempre apanhados pela

retaguarda, no que tange à atividade humana. Ela está sempre,

em um dado meio, em negociação de normas. Trata-se de normas anteriores à própria atividade: a atividade negocia essas normas em função daquilo que são as suas próprias. Qualquer que seja a situação, há sempre uma negociação que se instaura. E cada ser humano – e principalmente cada ser humano no trabalho – tenta mais ou menos (e sua tentativa nem sempre é bem sucedida) recompor, em parte, o meio do trabalho em função do que ele é, do que ele desejaria que fosse o universo que o circunda. (...) é um tipo de re-criação permanente. (SCHWARTZ, 2007a, p. 31, grifo do autor)

renovada de produzir conhecimentos sobre o trabalho, levando-se em conta a experiência de trabalho dos trabalhadores. Essa maneira de abordar a realidade humana, principalmente aquela que tem relação com o trabalho, tem por vocação interpelar as “comunidades

científicas” em seus conceitos e análises, a propósito do trabalho, mas também as

85 Nessa abordagem, a ideia de trabalho prescrito e real é ampliada para os conceitos de normas antecedentes e renormalizações. Essas normas abarcam os conhecimentos científicos e técnicos que se constituem em procedimentos, regras de uso e também codificações organizacionais ligadas às redes de poder e autoridade.

Assim sendo, a proposta é de uma nova abordagem do objeto trabalho. De acordo com Schwartz, deve-se pensá-lo como um objeto denso e não como se fosse algo óbvio ou transparente, sobre o qual não há necessidade de uma abordagem em profundidade. O autor afirma que o trabalho deve ser encarado como algo novo, que exige aprendizagem e reflexão. Ao atentar para a atividade de trabalho, observa-se o modo como o indivíduo realiza seu trabalho, levando em consideração seus valores, sua posição social. Schwartz afirma que

toda atividade humana é sempre, e em todos os graus imagináveis entre o explícito e o não-formulado, entre o verbo e o corpo, entre a história coletiva e o itinerário singular, o lugar de um debate incessantemente reinstaurado entre normas

antecedentes a serem definidas a cada vez em função das

circunstâncias e processos parciais de renormalizações, centrados na entidade atuante. (SCHWARTZ, 2002a, p.135, grifos do autor)

A ergologia é considerada uma “disciplina de pensamento” que, embora tenha como finalidade a construção de “conceitos rigorosos, deve indicar nestes conceitos como e onde se situa o espaço das (re)singularizações parciais, inerentes às atividades de trabalho” (SCHWARTZ, 2000, p.45). A atividade está intimamente relacionada ao indivíduo que a realiza sendo, portanto, inevitável que ocorram tais (re)singularizações por parte de cada trabalhador. Realiza-se o esperado, mas de forma particular ao momento vivenciado pelo trabalhador.

86 De maneira geral, não se toma conhecimento do que um trabalhador faz ou deve fazer ao deparar-se com o inesperado, pois as normas antecedentes ou registro 1 (R1) não determinam o que fazer em tais situações. Amigues (2004a), que desenvolve em grupo questões relativas à formação de professores, afirma que, nessas emergências que surgem no cotidiano laboral, o profissional tem a oportunidade de experimentar novos modos de fazer, realizando além do que estava previsto porque, às vezes, ele precisa ir contra as regras, ou seja, contra o esperado, para que possa encontrar a solução do problema que enfrenta naquele momento. Para a Ergologia, o registro 1 são construções históricas, expressão de uma experiência acumulada que pode ser “reputada patrimônio da humanidade em sua totalidade. A esse caráter histórico correspondem também as estratégias, as escolhas de cada situação analisada em determinado momento” (TELLES; ALVAREZ, 2001, p. 73).

As normas antecedentes são renormalizadas constantemente na atividade de trabalho. A renormatização ou registro 2 (R2) acontece, portanto, quando o trabalhador realiza individualmente sua atividade, fazendo

uso de si ao utilizar sua própria experiência. Ao propor o conceito de uso de si, Schwartz (2007d) defende que o trabalho é lugar de uma tensão

problemática, um espaço de possibilidades negociáveis. Assim sendo, não ocorre uma execução, mas sim um uso de si. Embora não seja perceptível em alguns momentos, é o indivíduo em seu ser que é convocado a agir, pois a tarefa sempre exige soluções e capacidades imensamente mais amplas do que aquelas que são explicitadas.

O saber que cada indivíduo possui sobre o fazer de sua atividade permite que ele faça esse uso de si, de forma a singularizar a atividade,

87 realizando as adaptações necessárias para sua concretização na atividade de trabalho.

Todas essas escolhas que serão feitas no micro do trabalho são uma maneira de gerir – e então de ponderar – o resultado dessas transformações ou a sequência da história dessas transformações – que ninguém pode prever precisamente porque não se sabe como vão se operar as escolhas e as decisões nesse tipo de situação. (SCHWARTZ, 2007a, P. 33)

Segundo o autor, na atividade não se pode ser totalmente determinado pelas normas. Ao contrário, há uma tentativa constante de “criar-se parcialmente, talvez com dificuldade, mas ainda assim, como centro em um meio e não como algo produzido por um meio.” (SCHWARTZ, 2007d, p. 192, grifo do autor). Segundo o autor, o meio, independente de qual seja, não tem como predeterminar completamente a atividade viva. Defende-se, portanto, que, no trabalho, o sujeito põe à prova seus próprios limites, correndo um risco porque o trabalho nunca é feito de antemão, uma vez que o indivíduo se encontra constantemente em uma situação de prova de existência.

O enfoque ergológico pressupõe mudança na maneira de olhar o trabalho como objeto de investigação, considerando-o não somente

enquanto atividade, mas como atividade pertencente à história, o que pressupõe a aceitação de que toda mudança para ser eficaz implica uma reinvenção local a partir de um patrimônio antecedente (SOUZA-E-SILVA, 2002, p.64).

Dando continuidade às suas reflexões sobre atividade como debate de normas, Schwartz (1998) apresenta seis elementos como constitutivos da competência industriosa. Chama-os de “ingredientes da competência”, os quais permitem que haja a concretização da atividade. A seguir, apresentamos de

88 forma sucinta algumas considerações sobre esses ingredientes51, relevantes para a compreensão do trabalho docente do modo como será apresentado na próxima seção.

O primeiro deles está relacionado às normas antecedentes, e

significa exatamente a capacidade humana de criar conceitos, de conceber formas de intervenção diferenciadas, de aprender como, em diversas situações, repetir determinadas operações e modelos visando ao controle da variabilidade do meio. (SCHWARTZ apud MUNIZ; VIDAL; VIEIRA, 2004, p. 323)

Segundo a descrição dos diferentes elementos que estão em jogo na formação da competência para o exercício de um ofício, proposta por Schwartz (1998), esse saber que precede ao ato de ensinar corresponde ao primeiro dos ingredientes, fazendo parte do conjunto de normas antecedentes. A capacidade de ensinar provém, em parte, dos saberes antecedentes adquiridos durante o processo de formação.

O segundo ingrediente relaciona-se ao que se denomina

renormatizações, significando que, para ser competente nesse item, o sujeito

deve ser capaz de enfrentar os imprevistos concernentes a cada situação de trabalho por meio de saberes que se construíram ao longo de sua experiência.

Toda atividade de trabalho, por um lado analisável como um seguimento de um protocolo de experimentação, era sempre também, em parte, experiência ou encontro. O que também chamamos de Registro 2 ou dimensão "experimental" nos parece ser uma característica universal de todo processo ergológico: não existe situação de atividade que não seja afetada pela infiltração do histórico no protocolo. Isso requer, portanto, uma forma de competência ajustada ao tratamento dessa infiltração, tratamento por definição jamais padronizado e que, por isso mesmo, reforça a contingência da situação. (SCHWARTZ, 1998, p. 8)

51Uma leitura sobre o tema pode ser realizada no artigo “Os ingredientes da competência: Um

89 Segundo Schwartz, a avaliação desse ingrediente implica também a globalidade do indivíduo, o corpo-si, que se constrói à proporção que fabrica seu meio de trabalho de uma forma própria. Esse corpo-si se revela na incapacidade humana de fazer de maneira idêntica os mesmos procedimentos, “como se a vida de cada um procurasse a cada momento multiplicar-se em direções diferentes, num processo de geração de sentidos diversos para sua experiência.” (MUNIZ ET AL., 2004, p.332).

Essa ressingularização em relação às normas antecedentes marca de modo permanente todos os elementos da atividade. E ser competente, num sentido muito diferente do primeiro ingrediente, equivale a ter-se "imbuído", num grau mais ou menos forte, dessa historicidade que a dimensão conceitual, pelo menos num primeiro tempo, ignora. "Saber", "saber-fazer", "conhecimento"? Essas distinções não nos parecem, aqui, muito relevantes. Mais pertinente nos parece ser a capacidade para tomar decisões, para arbitrar, levando essas "conjunturas" em conta. (SCHWARTZ, 1998, p. 8)

Para o autor, ignorar esse debate de valores é não compreender o trabalho. O terceiro ingrediente, portanto, se refere ao encontro desses dois primeiros à medida que o encontro das normas antecedentes e das

renormalizações é justamente o que possibilita a atividade propriamente dita:

articulam-se os conceitos e técnicas aprendidos com as situações ímpares que exigem adaptações e transformações.

A relação entre a “qualidade das dramáticas do uso de si, a qualidade desse estabelecimento da dialética entre os dois primeiros pólos, e os valores a partir dos quais se constrói o que vale para cada um como meio” (MUNIZ ET