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4. BULGULAR ve TARTIŞMA

4.2. Hasat Sonrası Bitki Analizleri

4.3.11. B (ppm)

Fonte: Iriarte, 2010, p.145.

O esquema 4 permite observar as camadas em que se processam a globalização. Verifica-se a mundialização, o processo neoliberal, o globalismo e matriz da globalização.

ESQUEMA 5: As camadas globalizantes e o globalismo

O esquema5, acima, permite observar a triangulação entre os três conceitos – o globalismo, a mundialização e a globalização.

2.1.2. O CONTRAPONTO NEOLIBERAL

Dentro do contexto das principais leituras teóricas esboçadas, estão em oposição históricos do chamado “modelo neoliberal”, os quais apregoam as ideias do livre comércio, aparecendo o cenário das privatizações em linha com o estado mínimo, o surgimento da flexibilização da mão-de-obra e, por conseguinte, a concentração de riqueza nas mãos de poucos.

Para Gerard Duménil e Dominique Lévy (2014) o neoliberalismo é um fenômeno multifacetado, resultado de um conjunto de determinantes históricos que convergiram. Dentre esses fatores, estariam os eventos da crise do dólar de 1970, as flutuações das taxas de câmbio, o aumento das taxas de juros, ocorrida nos Estados Unidos, instituída pelo Federal Reserve Bank em 1979 para conter a inflação que se estabelecia naquele país. Para os autores, o neoliberalismo foi uma dinâmica propulsora do capitalismo tanto nacional como internacional, cujos objetivos visavam a atender a classe mais alta de renda, sendo assim uma realização crucial da nova ordem social. Ainda segundo os autores:

Sob esse aspecto, uma ordem social é também uma configuração de poder, e implícita nesta última noção está o poder de ‘classe’. A essa observação, as estruturas de contabilidade nacional acrescentam que uma fração grande e crescente da renda do capital norte- americano vem de fora dos Estados Unidos. Isso evolve não apenas relações de classe, mas também hierarquias imperiais, uma característica permanente do capitalismo (p. 17-8).

Gerard Duménil e Dominique Lévy (2014) afirmam que houve uma nova configuração de distribuição renda, resultado de várias tendências convergentes, com o intuito de interromper a tendência de quedas dos lucros das empresas e dos investidores,em baixos níveis nos 70. Essa nova ordem procurou, com a abertura das fronteiras, melhores taxas de retornos em novos investimentos, principalmente em países onde o custo da mão obra era mais baixo, aumentando a pressão sobre os trabalhadores (p.18).

Similarmente ao bem estar sob placas tectônicas, crises endógenas estabeleceram-se no curso histórico da dinâmica geral do capitalismo, marcadas por progressão de tendências ocultas, estabelecida dentro dessa dinâmica. Para Gerard Duménil e Dominique Lévy (2014), ambições e contradições da estratégia neoliberal interna e externa dos Estados Unidos foram solapadas de forma periódica. Os autores apresentam como principais componentes dessas contradições os seguintes aspectos: a perversa dinâmica da busca por altos rendimentos, a capacidade reduzida de governar a macroeconomia e o avanço às custas de uma trajetória de acumulação decrescente e com perigosos desequilíbrios acumulativos(p. 30-3).

Nesse contexto, formou-se um background teórico de estudos sociológicos e sóciopsicológicos de sistemas de valores, cujo enfoque era cabível para explicar as crises e os sistemas de valores oriundos desse cenário.

Dentre esses autores está Samuel Phillip Huntington, em sua obra “O Choque das Civilizações” (2009), cujo argumento central é de que os conflitos mundiais não ocorrerão em uma luta de classes ou entre grupos economicamente definidos, mas entre povos pertencentes a entidade culturais diferentes. Para ele, o eixo central da política mundial pós-guerra fria ocorrerá no embate entre o poder e a cultura ocidental e poder da cultura de civilizações não ocidentais, como a chinesa e a islâmica, sendo essas últimas as que estariam em franca expansão (p. 29-30).

Na linha culturalista, Inglehartapud Outhwaite(1996), através de estudos empíricos, desenvolveu a tese em que a estrutura social e a cultura política guardam entre si uma estreita relação de ligação.

As modernas sociedades avançadas, em especial entre os jovens membros dessas sociedades, estão ficando mais atraídas para os valores pós-materialistas, como a livre expressão e a qualidade de vida à custa de questões mais tradicionais e prosaicas como crescimento econômico, pleno emprego e progresso material (p. 792).

Em outro de seus estudos, Inglehart e Wezel (2004) procuram explicar que essa relação afeta os indivíduos em seus valores e estes, por seu turno, geram consequências sobre os processos democráticos e de forma circular. Podemos ver tal afirmação em:

Em sociedades que foram tabuladas por um alto nível de critérios de segurança no estado de bem-estar social (existentialsecurity) por um longo período de tempo, seria esperado encontrarmos diferenças

substanciais entre os valores das mais velhas e das mais novas gerações. Nestas sociedades, os mais jovens tendem a ser atraídos por valores individualistas, enquanto os mais velhos continuam atraídos por valores de sobrevivência (p. 2388).

O gráfico a seguir demonstra-nos parte das suposições teóricas dos autores citados:

GRÁFICO 1: Inglehart e Wezel tabularam níveis de valores de aspiração de liberdade e democracia.

Fonte: Inglehart e Wezel, 2004.

Sintetizando esse argumento, Inglehart e Wezel (2005) escrevem que

[...] pela redução da incerteza econômica, da mobilização cognitiva e pela diversificação dos intercâmbios humanos, o desenvolvimento socioeconômico diminui as restrições objetivas das escolhas humanas. As pessoas se tornam materialmente mais seguras, intelectualmente mais autônomas e socialmente mais independentes. Assim, experimenta-se uma maior autonomia da experiência humana11 (p. 2388. Tradução nossa).

11

“[…] by reducing economic insecurity, by cognitive mobilization, and by diversifying human exchanges, socioeconomic development diminishes objective constraints on human choice. People become materially more secure, intellectually more autonomous and socially more independent. Thus, people experience a greater experience of human autonomy.”

Aos olhos de seus críticos, entre eles D. Davis e C. Davenport (1999, p. 650), a correlação existente no uso da estatística não poderia ser tratada através de análise fatorial que trata os elementos da série de forma igualitária.

De outra forma, Elias (1994, p. 64-65) critica a corrente de pensamento do ser biológico supra individual, estabelecido com modelos científicos que tendem a assumir a evolução da sociedade como um ser orgânico, com estágios de evolução automatizados, como as teorias extraídas da biologia e aplicadas às diversas sociedades. Nessa linha, o ser individual tem pouca ou quase nenhuma importância para o desenvolvimento do seu entorno societário. Critica também a corrente que retira da metafísica a ideia do processo social em que o ser se move inexoravelmente em determinada direção (determinista).

Outro autor, de uma linha neoliberal, é Jeffrey Sachs (2005) que explica o desenvolvimento de alguns países em detrimento de outros, através de uma confluência de condições favoráveis, que privilegiou basicamente a Inglaterra, e que na feliz combinação de desenvolvimento tecnológico com a organização social permitiu a migração desse progresso para outros países. Para ele:

O aspecto mais importante é que o crescimento econômico moderno não foi somente uma questão de “mais” (produção por pessoa), mas também de “mudança”. A transição para esse crescimento envolveu urbanização, mudança de papéis dos gêneros, aumento da mobilidade social, mudança da estrutura familiar e crescente especialização. Foram transições difíceis, que implicavam múltiplas convulsões na organização social e nas crenças culturais”. (p. 926).

O autor afirma ainda que o processo de disseminação desse crescimento foi marcado por conflitos sistêmicos entre povos de países ricos e de países pobres, uma vez que determinados países cresceram em ritmos diferentes de outros, com diferentes graus de riqueza e poder global, ocasionando conflitos de ordem econômica (Ibidem, p. 926).

2.2. A DINÂMICA DA MATRIZ DE GLOBALIZAÇÃO

Sob sua égide, ocorre a chamada matriz da globalização, em que predomina o imenso poder do capital transnacional, que por sua natureza tem o viés de gerar lucro pelo lucro, não criando emprego, mas investindo em tecnologia e processos de robotização. Os lucros auferidos pelo estratagema implementado deslocou o capital para que se refugiassem em locais em que a tributação fosse eivada de privilégios, os chamados “paraísos fiscais-financeiros”, o que Iriarte (2010, p.115) denominou

“La corrupción financeira”12, levando essencialmente a perda de soberania dos

países e, por conseguinte, tornando-se uma das matrizes do domínio do mercado econômico-financeiro internacional.

Na esteira, Castell (2008) aduz que as novas tecnologias da informação desempenharam papel decisivo ao facilitarem o surgimento desse novo capitalismo, agora rejuvenescido e mais predatório, proporcionando no campo da informática mecanismos que evoluem exponencialmente em termos de progresso tecnológico. (p. 118 e 120).

Por esses mecanismos, terceirizam mão-de-obra, inclusive administrativa dos escritórios das sedes, pois seus custos tornaram bastante favoráveis para as empresas deslocarem setores para outros países ao redor do chamado “mundo globalizante”. Surgem, com isso, as estratégias de mercados e as oportunidades ofertadas que atravessaram fronteiras, abastecendo não só o consumo como também as rendas de outras nações.

O que assistimos foram novas redes de conexões de mão-de-obra e desconexões de outras movidas pelo interesse ou desinteresse que determinadas economias manifestaram. Em seu texto, Castells (1999) aprofunda a sua análise no dinamismo social gerado e afirma:

Por essa razão, faz-se necessário, na avaliação da dinâmica social do informacionalismo, estabelecer uma distinção entre vários processos de diferenciação social: de um lado, os termos

12 Termo cunhado por Iriarte (2010) para designar que uma gama de investimento e de serviços

financeiros é realizada por organizações que cometem delitos em empresas legais mediante um processo de lavagem de dinheiro sujo e que hoje se vê facilitado pelas tecnologias e operações bancárias eletrônicas. Entre esses países, segundo Iriarte, nas Ilhas Cayman operam cerca de 34.400 bancos. Nesses locais (denominados “offshore”) o dinheiro pode movimentar-se até 70 vezes ao dia.

desigualdade, polarização, pobreza e miséria se enquadram no domínio das relações de distribuição/consumo ou apropriação diferencial da riqueza gerada pelo esforço denominado de “O Quarto Mundo”. De outro lado, individualização do trabalho, super exploração dos trabalhadores, exclusão social e integração perversa são características de quatro processos específicos vis-à-vis as relações de produção. (p. 96).

Castells (1999) traz alguns dados alarmantes e transformadores nas vidas dos indivíduos.

A diferença de renda per capita no país mais rico versus o mais pobre, entre 1870 e 1989, multiplicou-se pelo fator 6; e o desvio- padrão do PIB per capita cresceu entre 60% e 100%. [...] Nos últimos 30 anos, US$ 5 trilhões dos US$ 23 trilhões do PIB Global originaram-se dos países em desenvolvimentos. [...] Os bens dos 358 maiores bilionários do mundo (em US$) superaram a soma das rendas de países com 45% da população mundial (p. 100).

Em relação ao empobrecimento, define: “Em 1990, considerando a linha de pobreza extrema o nível de consumo equivalente a um dólar por dia, 1,3 bilhões de pessoas, ou seja, 33% da população do planeta”. (Ibidem, p.106).

No ápice da euforia da globalização, os fluxos de capital para os países em desenvolvimento aumentaram seis vezes em seis anos – período de 1990 a 1996 – e a propaganda neoliberal indicava que o processo traria aos países ganhos estrondosos, tanto aos desenvolvidos como aos em desenvolvimento.

Surgiu assim, em paralelo à revolução da informação espalhada pelo planeta, novas oportunidades e ofertas de um processo de globalização dos mercados de bens e serviços, e o aparecimento no cenário de novos atores no mercado representados por grupos empresariais transnacionais, operando muitas vezes através de mega-redes internacionais. É o novo ideário das fronteiras livres, afirma Castells (1999), que promoveria o estado de bem estar social de poucos.

De acordo com Joseph Stiglitz (2007), o ideário neoliberal reavivado no Consenso de Washington, em 1988, limita a atacar o estado de bem-estar de muitos, aceitando a premissa de que a desigualdade existente é menos importante que o processo de liberalização do comércio e de liberalização de capitais, o que, por sua vez, era fundamento dessa política econômica forjada, difundida e regulada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Tesouro americano (p. 79). O autor chama atenção ao fato de que, já a princípios do século XXI, o Consenso de Washington estava desgastado e surge então um pós-Consenso de

Washington, fundamentado quase exclusivamente no aumento do PIB de cada país, sem nenhuma atenção à sustentabilidade econômica, social, política ou ambiental do modelo de crescimento adotado. É sob esse paradigma que hoje os principais dirigentes das políticas econômicas conduzem seus planos macro e microeconômicos (Ibidem). Os defensores deste ideário, afirma, acreditam que a abertura do comércio e liberalização deste trará uma prosperidade sem precedentes. Eles pleiteiam que os países desenvolvidos abram-se para as exportações dos países em desenvolvimento, retirando as barreiras instituídas e permitindo o livre trânsito dos fluxos de bens e serviços. Entretanto, tal liberalização do comércio representa um dos aspectos controvertidos com reflexos sociais, perda de soberania, entre outros pressupostos.

A competitividade e a produtividade são as capas ideológicas de discursos de ordem, que tomaram corpo no conhecimento tecnológico e no avanço do processamento de dados (informática), levando a uma busca transformadora de conhecimento e capacitação tecnológica dos detentores de capital aos demais

players carentes e atrasados nesse plano. Tal conhecimento e capacidade fez com

que os fluxos produtivos tornassem-se mais competitivos, acentuando-se de forma voraz o clássico conflito entre capital e trabalho, movido pela busca predatória do lucro que acabava por estimular a exploração da mais valia dos trabalhadores.

Notamos, pesquisando em Marx, a clara divisão entre capital e trabalho, que nesse momento fica bem latente. Tal divisão não possui contornos de fronteiras de um conceito ao outro, ela não é muito bem recortada e os elementos de fronteira mostram-se difusos mediante o esfacelamento da classe burguesa, restando claramente duas categorias: as dos grandes capitalistas e as dos trabalhadores, massacrados pela ameaça de seus empregos, constituindo-se em uma massa incoerente, espalhada pelo país todo e fracionada por essa concorrência.

Ainda, no âmbito de Marx, a competição estimulada e crescente entre os membros da burguesia e a crise comercial resultante fez com que os salários dos trabalhadores flutuassem cada vez mais baixo, levando a colisões entre esses trabalhadores e os indivíduos burgueses. Assim, colisões previstas por Marx parecem surgir de forma tão intensa que aparentemente forma-se um novo ente comum, o mercado concorrencial, na lacuna criada entre capital e trabalho, criando- se, ao que parece, agora, um trinômio: capital, trabalho e mercado concorrencial.

Como informa Stiglitz (2007), essas colisões estão visualizadas nos relatórios da Comissão Mundial sobre as Dimensões Sociais da Globalização, órgão criado em 2001 pela Organização Mundial do Trabalho. Stiglitz nos traz tal texto:

O atual processo de globalização está gerando resultados desequilibrados, tanto entre países como dentre deles. Criam-se riquezas, mas um número muito grande de países e de pessoas não está se beneficiando dela. Eles têm pouca ou nenhuma voz na moldagem do processo. Vista através dos olhos da vasta maioria das mulheres e dos homens, a globalização não atendeu a suas aspirações simples e legítimas de seus empregos decentes e um futuro melhor para os seus filhos. Muito deles vivem no limbo da economia informal, sem direitos formais e numa faixa de países pobres que subsistem precariamente às margens da economia global. Até mesmo nos países economicamente bem-sucedidos, alguns trabalhadores e algumas comunidades foram afetados de forma negativa pela globalização. Enquanto a revolução nas

comunicações globais aumenta a consciência dessas

disparidades[...] esses desequilíbrios globais são moralmente inaceitáveis e politicamente insustentáveis (p. 67-8. Grifo nosso).

Segundo o levantamento dessa Comissão, entre 1990 e 2002, cerca de 185,9 milhões de pessoas tornaram-se desempregadas e 59% da população mundial vivia em países com desigualdade crescente, com apenas 5% em países com desigualdade em declínio. (Ibidem, p. 67). De forma constante e não uniforme ocorreu uma forte concentração de mercados, quer seja pelos anteriores existentes, quer seja pelos novos emergentes, os quais reestruturaram as sociedades locais. Criaram-se assim condições para que rendas per capita de determinadas regiões fossem incrementadas em detrimento de outras, gerando-se uma gleba de novas necessidades localizadas, até então não existentes, promovendo-se novos ciclos econômicos regionalizados impulsionados pelo surgimento dos novos consumidores daquela região.

Entrementes, a desindustrialização, efeito causado justamente quando a concorrência destes novos mercados, decorrente do deslocamento geográfico da produção, levou a mão-de-obra regional para outras regiões do planeta, eliminando empregos locais e promovendo situações de misérias. Em consequência, criou-se na região originária do processo produtivo uma estagnação de renda e consumo, ocasionando um acréscimo de desigualdade social. “Para aqueles que têm emprego, grande parte dessa insegurança advém do risco de ser despedido ou de queda abrupta dos salários” (STIGLITZ, 2007, p.72). Uma das conclusões do relatório encomendado por Stiglitiz quando estava a frente do banco Mundial.

Uma vez que a economia atual processa-se em rede, de acordo com Castells (1999), tal efeito provocou uma espécie de avalanches, ocasionando uma redução da qualidade de mão-de-obra, conhecimento, educação das pessoas que ali habitam, tornando-se precária a relações de trabalho de modo geral. Castells (1999) definiu esse processo como o surgimento de um “buraco negro”, em alusão ao conceito da Física que explica o desaparecimento da luz no espaço, quando esta ingressa em determinada região. Nessa alusão, prediz que os buracos negros são campos gravitacionais no espaço pelo qual matérias e energias são tragadas quando ingressam nesses campos. Em paralelo, capitais em investimentos vão desaparecer quando adentrarem nessa região, afirma, criando aversão Capitalista à região, pois os donos do capital tendem a rejeitar riscos altos, o que torna seletivo o mecanismo de empregabilidade do investimento e, deste modo, desencadeia o analfabetismo funcional a milhões de trabalhadores, trazendo energia destrutiva da pobreza e levando famílias e jovens, outros elementos da sociedade, a um ciclo vicioso. Surgem assim bolsões de exclusões sociais que convivem lado a lado, tanto na América, na Ásia e na África, com enorme concentração de renda e riqueza.

Do lado oposto, a concentração de riqueza proveniente dos mercados emergentes espalhou-se por outros pontos dos continentes, surgindo novos “players” no jogo, os novos ricos, que também passaram a se concentrar em grandes bolsões de recursos financeiros. Estes, por sua vez, cada vez menos deixaram de ser absorvidos no processo produtivo, com os lucros das indústrias começando a declinar a partir de 1980. Ao procurar se recolocar em atividades mais lucrativas, o capital buscou o mundo financeiro, e este excedente, na busca incessante de retornos financeiros, migrou em parte para outros mercados mundiais. Conforme David Harvey (2011), na década de 80, houve um deslocamento do capital excedente na produção, particularmente na China. Isto aconteceu em razão de os produtores pressionarem por preços menores, exigindo uma maior produtividade com investimentos em máquinas e equipamentos mais eficientes. “Os lucros começaram a cair depois de mais ou menos 1990, apesar da abundância de trabalhadores com baixos salários. Salários e lucros baixos são uma combinação peculiar” (p. 32).

Resultou disso a migração maior de dinheiro em especulação de ativos, em que os lucros poderiam ser realizados mais rapidamente.

Porque investir em produção de baixo lucro, quando você pode tomar emprestado no Japão sem taxa de juros e investir em Londres a 7% com cobertura para seus investimentos em caso de uma possível e deletéria mudança na taxa de cambio iene-libra?(Ibidem).

Foi nesse período que surgiu com mais intensidade o sinistro mercado de derivativos, com as explosões de dívidas das empresas e dos países: “Quem precisava se preocupar com o investimento na produção quanto tudo isso estava acontecendo? Esse foi o momento em que a financeirização da tendência da crise do capitalismo começou de fato” (Ibidem).

Tal capital formado, deslocando-se de um lado para outro no planeta em especulações financeiras, transita pelas bolsas de valores dos diversos continentes, gerando também um capital portador de juros (parasitário) que especula capital produtivo, e o processo ocorre de modo circular.

Surgem então países que proporcionarão guarida e segurança a essa nova economia de capital parasitário, quer seja flexibilizando os procedimentos regulatórios através de seus respectivos Banco Centrais, não importando mais a verdadeira origem e os fins a que se destinam esses capitais que ingressam